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Full text of "Curso de historia da litteratura portugueza, adaptado ás aulas de instrucção secundaria por Theophilo Braga"

-,3 



CURSO 

DE 

HISTORIA DA LITTERATURA 

PORTUGUEZA 



Porto: 1885 — Typ. de A. J. da Silva Teixcir; 

'I\j:.í if: Cancella Velha, 70 



CURSO 



STOi OA LITTEIIIITIJÍIII 



PORTUGUEZA 



Adaptado ás aulas de instrucção secundaria 



THEOPHILO BRAGA 

Professor de Litteraturas modernas, especialmente de Litteratura portiigueza 

no Cm"so Superior de Lettras 

e na interinidade de Litteratura grega e latina 



LISBOA 

Nova Livraria Lvternacional — I^ditora 
96, Rua do Arsenal, 96 

1885 



^ UlBRARy^ 



" f:,TQ2S1967 i 
C^'?í/rY CF ■íO^i'' 



tCv 



Quando em 1875 publicámos a tentativa de um Ma- 
nual da Historia da Litteratura i^rtugueza, obedecemos 
ao seguinte ponto de vista : «, A reforma do ensino da 
litteratura deve partir da conclusão a que chegou a 
sciencia moderna — que o estudo das creações intelle- 
ctuaes não se pôde fazer em abstracto. É necessário 
nunca abandonar a communicação directa com os mo- 
Jiumentos, explicando-os e apreciando-os pelas suas re- 
lações históricas com o meio e circumstancias em que fo- 
ram produzidos. O estudo da litteratura feito nas vagas 
generalidades, conduz a essas receitas de tropos, que ti- 
ram a seriedade ás mais altas concepções do espirito 
humano. Na instrucção de um paiz deve entrar com to- 
da a sua importância um elemento nacional; no ensino 
fundado nas ocas abstracções nunca esse sentimento se 
desperta. Pelo desenvolvimento histórico, mostrando 
*"omo se chegou á unidade systematica de qualquer 
sciencia, é que se pode impriniir uma direcção justa e 
um vivo interesse nos espíritos que desabrocham. )) 

A nossa tentativa falhou. Apesar de vir recommenda- 
do pela approvação da Junta consultiva de Instrucção 
jiublica o Manual da Historia da Litteratura portugueza, 
a maioria dos professores recusou-se a acceital-o para 
texto das suas lições ; porque, como nos escreveu o edi- 
tor : « acharam-o sempre grande, e que por este motivo dei- 
xavam de o adoptar. » 



o NOÇÃO DIDÁCTICA 

Isto explica-se ; a instriicção publica em Portugal faz- 
. se á custa do emprego exclusivo da memoria segundo a 
« tradição pedagógica dos jesuítas, e por isso o professor 
quer um texto dogmático, paragraphado, em forma de 
deíiuições e de enumerações cathegoricas, de modo que 
em interrogações peremptórias avalie do estudo do alu- 
mno. Combatendo este vicio, elaborámos um texto para 
o professor em primeiro logar, e depois para ser lido e 
extrahir-se d'elle a doutrina, segundo o critério de quem 
ensina, acostumando aquelle que aprende a applicar o 
processo analylico. Diz admiravelmente Augusto Comte: 
«Os tratados didácticos devem unicamente dirigir-se 
aos mestres, através dos quaes «deve sempre passar a 
instrucção destinada aos discípulos. Até então, as leitu- 
ras theoricas não convêm senão áquelles cuja educação 
está terminada, resultando o desenvolvimento scientifi- 
co de uma elaboração pessoal subordinada espontanea- 
mente ás lições oraes... y> {Synthèse subjective, p. viii.) 

O automatismo da memoria prevaleceu, e sobre o 
nosso Manual formaram-se alguns apanhados ; ser-nos- 
hia fácil explorar esta errada tendência compondo una re- 
sumo para se decorar, mas a nossa disciplina de espirito 
está em nós de accordo com o senso moral. O que não 
fizeram os professores praticámol-o nós, estudando o 
nosso livro emquanto aos seus defeitos de methodo e 
deficiências de investigação. Podemos repetir as bellas 
palavras de Montaigne : « Je rCay pas plus faict mon livre, 
que mon livre m'a faict. » (Essais, ii, 18.)^ 

Gompensa-nos o prazer de havermos progredido, e 
comnosco este novo livro em que reincidimos no mes- 
mo intuito pedagógico. 

T. B. 



CURSO 

DE 

HISTORIA DA LITTERATURA 

PORTUGUEZA 



PROLEGOMENOS 
Bases da critica litteraria 



I — Elementos staticos cia Litteratura : 

1." A Raça. 
2." A Tradição, 
o." A Lingua: 

a) Lei de formarão das linguas românicas. 

b) Filiação e Épocas históricas da lingua portagueza : 

a) 'Formas gallezianas no portuRuez. 
h) ModiOcaçoes por via do francez. 

c) O portuguez começa a ser escripto. — A divergência diale- 
ctal. 
4." A Nacionalidade. 

I I — O elemento clynamico na Litteratura : 

1.° iVs grandes individualidades. 

2." Do regimen da Edade media dimana o espirito das Litteraturas româ- 
nicas. 

3." Successão das Litteraturas românicas e filiação da Litteratura portu- 
gueza : 

«) A Franca. 

b) A Itália*. 

c) A Hespanha e Portugal. 

d) A Inglaterra e Allemanha. 

'i." Épocas históricas da Litteialura portugueza. 



Muitos povos que se elevaram a avançadas formas sociaes e 
crearam poderosas condições de existência politica, não chegaram 
a possuir uma Litteratura, Este phenomeno, resultante do accor- 
do mutuo dos progressos da sociedade com os do individuo, a que 
se chama civilisaçao, 'é extremamente complexo, pois que para 
que uma Litteratura se forme, é preciso que uma ra<^a consiga 
uma prolongada estabilidade, a aggregaçao moral de nacionalida- 
de, o estimulo de resistência da sua tradição, o desenvolvimento 



8 FACTORES SOCIAES NAS LITTERATURAS (Proleg. 

c Hxaçuo de uma língua escrijjfn, o por ultimo uma relação psy- 
chologica entre as emoções populares e as expressões concebidas 
pelos génios artísticos. Comprehendido assim este importante phe- 
nomeno, a Litteratura é rigorosamente uma synthese, o quadro do 
estado moral de uma nacionalidade, a expressão consciente da sua 
evolução secular e histórica. Uma tal consideração nos revela que 
o valor de qualquer Litteratura só poderá ser comprehendido por 
o exame das condições do seu desenvolvimento, ou das relações 
com os factores sociaes que a motivaram e de que ella é a expres- 
são. Eis o processo e destino scientifico da Historia da Littera- 
tura. 

Na marcha histórica de qualquer povo, existe um trabalho 
constante de syjithese, ou coordenação mais ou menos consciente 
de todas as suas energias, para conformar os actos com os senti- 
mentos e idéas dominantes. No estado presente da civilisação, a 
Politica tende a exercer-se como uma synthese activa; a Philoso- 
phia, ratificando as concepções subjectivas com os dados experi- 
mentaes ou objectivos da sciencia, representa a nova syntliese es- 
jpeculativa ; as Litteraturas e a ^rte em geral, tornam-se em ele- 
mentos da grande synthese affectiva, em que a vida emocional e a 
tradição, servindo de manifestação da autonomia nacional, rece- 
bem o relevo ideal da solidariedade humana. É d'e8te destino que 
resulta a dependência da Litteratura e da Arte da Moral. 

Subordinada ao meio social pela sua origem e destino, a Lit- 
teratura reflecte todas as modificações successivas d'esse meio, 
achando-se como todos os outros phenoraenos sociológicos sujeita 
a leis naturaes de ordem statica, ou de conservação, e de pro- 
gresso ou de acção dynamica. Sem o conhecimento dos elementos 
staticos das Litteraturas é impossivel comprehender a sua origem 
e modo de formação; sem a apreciação das condições dynamicas 
mal se avaliará o que pertence á influencia individual dos escri- 
ptores de génio. Pela mutua dependência entre os phenomenos 
staticos e dynamicos é que se podem caracterisar as épocas litte- 
rarias de esplendor ou de decadência, de invenção ou de imita- 
ção. Como órgãos subtrahidos á acção individual, mas pelos quaes 
se exercem as funcções da concepção artística, constituem o ele- 
mento statico das Litteraturas : 



Proleg.) LITTERATURAS MEDIEVAES 1) 

A Raça; a Tradição; a Língua e a Nacionalidade. 

Quando uma sociedade não conseguiu dar a estes elementos 
staticos uma feição individual, a Litteratura resume-se em um do- 
cumento ethnologico, que em certa forma suppre a ausência de 
monumentos históricos; taes são as Litteraturas orientaes, impor- 
tantissimas como documentos psychologicos, hierologicos, moraes, 
mas nunca a expressão consciente de uma emoção transmittida 
voluntariamente. A Litteratura grega, na evolução do seu lí/ris- 
mo, da sua epopêa e do seu theatro, forma-se pela relação harmó- 
nica d'estes elementos com a elaboração individual ; é por isso es- 
ta o typo mais perfeito de todas as litteraturas, e o completo mo- 
delo de imitação, pelo relevo ideal que as tradições nacionaes 
acharam na expressão descoberta pelas altas individualidades. 
Pelo contrario, a Litteratura latina, abandonando os seus elemen- 
tos staticos, cáe n'essa imitação artificial e no mechanismo rheto- 
rico, que a tornam inferior ao caracter e funcção histórica da na- 
cionalidade que a produziu. 

Sob este critério apreciaremos o grupo das Litteraturas novo- 
latinas, ou da Edade media, de que a Litteratura portiigueza é a 
ultima representante ; por elle explicaremos o gráo de originali- 
dade de cada uma, e a razão dos accidentes que as diíFerencia- 
ram nas suas diversas épocas, e da fecundidade correlativa do seu 
vigor nacional. A Edade media distingue-se pela constituição de 
novas nacionalidades formadas depois da ruina da unidade impe- 
rial romana ; essas Nacionalidades crearam Línguas, que deram 
expressão ás suas Tradições, e formaram Litteraturas, que co- 
operaram 1ti'esta transição aífectiva do conflicto das raças, conhe- 
cidas pela linguagem à.'Oc, à'Oil, do Si e do Ya, antes da des- 
coberta da solidariedade da Civilisação Occidental, de que eram 
continuadoras. Conforme os escriptores se aproximaram da cultu- 
ra greco-romana, ou se inspiraram das tradições espontâneas do 
meio social e medieval, assim as Litteraturas novo-latinas tiveram 
um desenvolvimento artificial ou orgânico, e d'aqui as diíFerenças 
dos seus caracteres, embora pertencessem todas á mesma corren- 
te da civilisação. D'essa8 Litteraturas, umas tiveram uma activa 
elaboração orgânica dos seus elementos próprios, antes do conhe- 
cimento e imitação dos typos greco-romanos ou clássicos, como a 



11) ACÇÃO DAS RAÇAS (PfOleg. 

2>iun:iiLui, (|in- .>u rxuiii^in; [)yn laiUi clo estiiuulo (Ití uma naciona- 
lidade, sendo substituida por essa causa jjcla franceza ; outras fo- 
ram interrompidas pelo perstigio dos modelos clássicos, como a 
italiana, que se fortifica pela aspiração á unidade nacional, e a 
hesjjanhola, em que o elemento popular ou tradicional supplanta 
por vezes o pedantismo erudito. Outras litteraturas peninsulares, 
como a catalã e a gallega extinguiram-se, porque se acharam 
sem o apoio de uma nacionalidade, ao passo que a Litteratura 
portugueza desenvolveu-se segundo as phases da vida histórica 
d'esta nação, não obstante ter oscillado sempre entre os seus ele- 
mentos orgânicos ou populares, e a influencia erudita dominante, 
segundo a lei geral d'esse dualismo previsto por Schlegel. 



§1 , 

Elementos staticos da Litteratura portugueza 

1.° A raça. — O estudo dos caracteres de uma raça através 
das manifestações das formas de uma Litteratura, e explicando o 
porquê dessas formas, não é um abuso do critério das sciencias 
biológicas applicado a um phenomeno psychologico e social. Em 
uma mesma nacionalidade, que unificou politicamente diversos 
elementos ethnicos, transparecem na sua Litteratura as caracterís- 
ticas especiaes d'e33e3 elementos; na Grécia, sob a unidade athe- 
niense, distingue-se o génio dos Dorios e dos Jonios em arte, em 
politica e em poesia. ^ Sob a unidade romana, as tradições dos 
lucerenses e ticienses confundem-se com a historia, e penetran- 
do de um modo incompleto na litteratura imitadora da cultura 
hellenica, tomam o seu maior dcsenvolvimepto nas formas sacra- 
mentaes e symbolicas da Jurisprudência, essa severa poesia, co- 
mo lhe chamava Viço. Na unidade nacional da França, as for- 
mas épicas das Gestas, correspondem ao norte occupado pela ra- 
ça franka, e em que preponderava a forma monarchica e feudal; 
as novellas da Tavola Redonda desenvolvem -se ao centro, onde a 

1 Ottfried Muller, Hisl. de la Liftérature grecque, c i, p. 20. 



§. I.) ELEMENTO HISPÂNICO 11 

raça bretã conservava aindii os ve tigios my thicos do seu druidis- 
mo; ao sul, o elemento gaulez, com instituições municipaes, cria 
essa expansão do lyrismo que irradia da Provença por todo o 
Occi dente europeu, pela contiguidade das populações aquitanicas 

•com as duas peninsulas da Itália è da Hespanha, 

Este mesmo critério foi applicado á Litteratura ingleza, em 
que o elemento saxonio conserva o génio e as tradições germâni- 
cas, ao passo que o normando obedece ao instincto da imitação, 
diíierenciando-se por esta dupla influencia um Shakespeare de um 
Pope. 

A designação de raça, segundo -Prichard, comprehende «to- 
das as collecções de individues que apresentam mais ou menos ca- 
racteres communs, transmittidos pela hereditariedade, pondo de 
parte e de reserva a origem d'esses caracteres. » As litteraturaà 

' distinguem-se entre si pelas tradições elaboradas na forma escri- 
pta de uma língua, e como modo de j^ntir de uma nacionalida- 
de ; consequência d'estes factores mqi*aes, nem por isso estão in- 
dependentes do determinismo biológico, que em anthropologia se 
chama a hereditariedade de caracteres. Os velhos monumentos lit- 
terarios e artísticos têm servido ^e dados ethnicos para se discri- 
minarem raças que não era possível distinguir physiologicamente. 
Um outro phenomeno importante : o encontro e fusão de duas ra- 
ças dá uma revivescência de tradições ou de desenvolvimento de 
tradições poéticas, como se vê na Grécia com o elemento semita 
nas epopêas e mythos orgiasticos, e na Europa da Edade media 
com as invasões germânicas que determinam u creação das Ges- 
tas ao norte, ou as invasões árabes, que provocam o lyrismo tro- 
vadoresco meridional. O estudo da raça, na historia de qualquer 
Litteratura, tem a importância immensa de nos pôr em relevo a 
base tradicional sobre que se desenvolveu, dando-nos assim o 
único critério para julgarmos da sua originalidade e feição na- 
cional. 

Assentando estes princípios, não pretendemos inventar uma 
raça portugueza; assim como esta nacionalidade se constituiu pela 
tendência separatista dos antigos estados peninsulares, também a 
raça é a integração de todos os elementos ante-historicos e históri- 
cos que se foram fusionando n'e3te solo, e que pela sua persisten- 



l-l rM.Ali! ws LITTERATURAS MERIDIONAES (PrOleg. 

cia se podem distinguir em três phases sociaes, os hispano-romn- 
nos, os hisjpano-goãos e os hispano-arabes. Nem a influencia do 
dominio romano destruiu as antigas populações ibéricas, nem a 
conquista visigótica ou árabe puderam eliminar da sua constitui- 
ção social este fundo popular q[ue nos apparece, ethnicamcnte no 
Mosarabe, politicamente nos Foraes e Concelhos, litterariamente 
nas tradições poéticas dos Romanceiros e Costumes symbolicos. 

A parte o exame de uma população ante-historica, a peninsula 
foi occupada por duas migrações asiáticas, a dos Iberos e a dos 
Celtas. Os primeiros pertencem a essa raça da alta Ásia, que se- 
gundo Bergmann, fazem a transição entre a raça amarella e a 
aríaca; occuparam também a Itália, a França e a Inglaterra, 
constituindo um fundo ethnico comraum, que se revela em monu- 
mentos, superstições, vestigios de mythos religiosos e recorrências 
de costumes. Nas Litteraturas occidentaes existe uma certa simi- 
laridade de formas lyricas, que irradiaram da Aquitania, onde 
este elemento ibérico persistiu reagindo contra a segunda invasão 
asiática, ou a entrada dos Celtas na Europa. Estes fixaram-se so- 
bre as mesmas regiões, e pelo cruzamento vieram a estabelecer a 
unidade de caracteres ethnicos. Vindo da Ásia na corrente das mi- 
grações indo-europêas, o Celta trazia comsigo esse naturalismo vé- 
dico e ao mesmo tempo essa metaphysica religiosa da theocracia 
brahmanica, que reproduziu no druidismo. Organisação contempla- 
tiva e artística, o celta accommodou-se facilmente ás condições do 
meio, acceitando mais tarde a fusão com outros ramos áricos na 
Itália, em França e na Hespanha, onde não conseguira attingir 
uma unificação nacional. A fácil propagação e dominio da lingua 
latina no occidente da Em*opa, não se deve attribuir á acção da 
conquista militar e incorporação politica dos Romanos, mas sim a 
este dialecto indistincto de que o latim se destacou, pela vida na- 
cional e litteraria, e sobre o qual veiu a influir pela sua discipli- 
na grammatical, Charriòre e Gubernatis alludem a esta lingua 
commum, que existiu onde se fixou o elemento céltico. ' As coló- 
nias mercantis dos Jonios no sul da França e na Hespanha, pre- 

* A celto-mania e a lingua romance de Raynouard são este problema 
desvairado por falta de critério ethnologico. 



i. UNIFICAÇÃO ROMANA 43 

pararam a propagação dialectal que sob o domínio romano se 
desenvolve e assimila ao latim. Os Jonios tinham seguido a explo- 
ração do Mediterrâneo para oeste, vindo encontrar-se na penínsu- 
la hispânica com os seus iniciadores, os Phenicios ; apesar da su- 
perioridade d'este ramo semita, que trazia comsigo dois podero- 
sos elementos de civilisação, o alphabeto e o commercio pacifico, 
a população conservou o seu caracter árico, ainda mesmo depois 
das colónias Ijbio-phenicias, do domínio carthaginez, e das povoa- 
ções judaicas. Ficaram dos Phenicios designações tópicas e vestí- 
gios de cultura, mas considera-se que a língua púnica não exer- 
ceu influencia sobre os dialectos célticos da Península. O conflicto 
entre as navegações e empórios dos Jonios e dos Phenicios fez com 
que aquelles chamassem os Romanos para os substituírem na lu- 
cta, que deu em resultado a ruína da raça semítica no occidente 
até ao apparecímento dos Árabes. Na sua lucta contra os Roma- 
nos, os Carthaginezes (colónia phenicia do norte da Africa) ex- 
ploraram as populações celtíbericas no seu espirito de autonomia 
pai-a resistirem contra as legiões romanas. Roma ia fixando o seu 
domínio pela concessão de garantias politicas e estendendo o di- 
reito itálico ás novas províncias, vindo sob o Império a realísar 
a primeira unificação da Hespanha. A acção dos Romanos é pro- 
fundíssima em toda a historia dos povos peninsulares, e nulla com 
relação ao facto anthropologico da raça. Os soldados da occu- 
pação eram de ordinário mercenários germânicos; diz Ampe- 
re :« O uso imprudente de recrutar os exércitos romanos entre os 
bárbaros, fez progressos bastante rápidos. Probo deu o exemplo 
de uma reserva, cuja prudência deixou mais tarde de ser imita- 
da ; elle determina o numero de bárbaros que podiam ser admit- 
tidos n'uma Legião ; apesar d'ísso houve legiões inteiras compos- 
tas de bárbaros, » ^ 

D'e3te erro politico derivam duas consequências : a facilidade 
da queda do Império, no século V diante das invasões germâni- 
cas, e.a fácil assimilação da cultura latina pelos visigodos, não só 
emquanto á instituição politica imperial, como á formação dos dia- 
lectos românicos, A Egreja adoptando para a sua liturgia a lín- 

i Eht. liUéraire de la France avant Charlemagne , ik 97. 



i 'i os MOSARABES (Proleg. 

gua latina, os reis germânicos restaurando a tradição imperial, e 
os povos conquistados conservando a lei e o processo romano nas 
suas relações e tribunaes, fazem com que durante a Edade media 
se sinta a influencia de Roma em todo o occidente da Europa co- 
mo a expressão de unidade da civilisaçSo moderna. 

O elemento germânico apparece egualmente na Itália, com a 
invasão dos Ostrogodos e Lombardos, em França com os Frankos 
e Bourguinhões, na Inglaterra com o Saxào, e na Hespanha com 
o Visigodo. Não ó sem importância esta similaridade para o cara- 
cter commum das instituições modernas. Tudo quanto na socie- 
dade germânica representava superioridade e poder, seguia a 
organisação politica de Roma ; o que pertencia ao colonato, aos 
lites, aos homens-livres decahidos da sua garantia jurídica pelo des- 
envolvimento da banda guerreira, conservavam as tradições ger- 
mânicas e produziram esse cruzamento de ciasses que na peninsu- 
la forma o elemento hispano-godo, que abandonou a sua aristocra- 
cia .i primeira invasão dos Árabes, e a que estes deram o nome 
de Mosarabes, o genuino typo nacional peninsular. 

A occupaçao dos Árabes fez-se principalmente por meio de 
tribus de Berberes e ^louros ; este facto revela-nos como se ope- 
rou um cruzamento crescen-te com os hispano-godos, e como não 
só se estabeleceu uma certa recorrência dos antigos caracteres 
ethnicos do Ibero, como as próprias colónias berberes e maures- 
cas preferiram ficar no território hispânico quando a reconquista 
neo-gothica repelliu o dominio dos Árabes. Se se pôde assignar ao 
Mosarabe um qualquer caracter de raça, é este o facto anthropolo-* 
gico em toda a sua evidencia. Todas as luctas dos emirados ára- 
bes, e todas as dissidências que embaraçaram a consolidação da 
unidade do. império árabe, foram devidas ás luctas permanentes 
d'e6se elemento berber e mauresco, cujo typo ainda transparece 
no povo de hoje, e na feição moral de um sombrio fatalismo. A 
cultura árabe, apeSar da preponderância moral do catholicismo, 
influiu Ha Itália e na França meridional, de modo que a unidade 
da Civilisação occidental, tão evidente na synthese affectiva das 
Litteraturas medievaes, persistiu' nos seus caracteres mais impor- 
tantes. 



§. I.) TRADIÇÕES PENINSULARES 15 

2.° A Tradição. — Eraquanto as nacionalidades peninsulares 
se destacara era organismos independentes, pela acção mesologi- 
ca, a lingua corresponde a essa diíFerenciação local na forma de 
dialectos, mas a Tradição é idêntica, commum, e por assim dizer, 
o vestigio da primitiva unidade ethnica. Este phenomeno adquire 
uma importância extraordinária, observando as analogias de cos- 
tumes, crenças, superstições, tradições poéticas que existem entre 
os povos que formaram a grande civilisaçao occidental, os gregos, 
romanos, italianos, hispanos e francezes. Esta commum tradição, 
base das Litteraturas novo-latinas desenvolvidas por impulsos in- 
dividuaes, fez que ellas mutuamente se influíssem, realisando um 
profundo accordo sentimental. As fjrmas lyricas da Provença, aa 
formas épicas das Gestas frankas, as formas novellescas da Bre- 
tanha, os typos populares do theatro medieval, derivam de bases 
tradiciònaes existentes nos povos que acceitaram essas manifesta- 
ções htterarias. 

A tradição popular não é, propriamente, Litteratura ; mas a 
concepção individual que se não inspira d'e3te sentimento collecti- 
vo fica uma aberração mental, incommunicavel, sem sentido, e de 
mei'a curiosidade. A mutua relação entre a tradição nacional e a 
interpretação artística é ao que, sem phantasmagorias se chama 
— Bello. Corao poderemos conhecer as tradições peninsulares ? 
Pelos testemunhos e vestígios da historia clássica ; pelas persistên- 
cias populares ; pelas referencias dos escriptores que se inspira- 
ram d'elias. Assim veremos, como em uma litteratura escripta 
n'um dialecto românico, e imitando pelo perstigio da auctoridade 
03 modelos greco-romanos, existem elementos orgânicos ou priva- 
tivos do nosso sêr nacional. 

Quanto mais primitivos são os povos, tanto mais profundas 
são as suas impressões, tomadas como realidades ; as concepções 
poéticas dos mythos, os cantares, as dansas são elementos activos 
da sua existência social. Não conhecem ainda a faculdade de jul- 
gar e reproduzir as sensações, pela qual se fundou a Arte. A im- 
pressão artística confunde-se com a contemplação religiosa, com a 
sfincção jurídica, corn a auctoridade moral. Strabão, citando o 
testemunho de Asclepias de Mirleo, que viveu na Andaluzia, en- 
tre os Turdetanos, diz que estes povos possuíam poemas e leis ry- 



l(i LYRISMO TRADICIONAL (PlOlCg. 

t/iniicfií j comprehende-se este facto aproximando-o do caracter 
métrico dus leis célticas do Moelmud observado por Summer Mai- 
ne. Na Irlanda o vate (Jilès) era também juiz. As formas dos 
anexins populares, e as aliterações e tautologias das praxes jurídi- 
cas consuetudinárias são o vestígio d'este elemento tradicional. 

As formas geraes da arte, que na poesia são o Lyrismo, a 
Epopêa e o Drama, acham-se confundidas com os actos quotidia- 
nos ; são como que uma maneira da sua expressão, uma relação 
natural da vida domestica para a vida publica. O casamento, 
acompanhado de ceremonias essencialmente dramáticas, restos de 
usos de outros estados sociaes, era o thema de certos cantos lyri- 
cos, que ainda na época visigothica subsistiam entre o povo da 
península, e contra os quaes reagiu a Egreja condemnando-os 
como pagãos no concilio ilerdense do século vi. Santo Isidoro de 
Sevilha, no livro das Etymologias cita os cantos epithalamicos, 
cantados pelos escholares em louvor dos noivos, que apparecem 
regularisados pela legislação civil neo-gotica. Viterbo cita uma 
disposição do Tombo do Aro de Lamego, de 1346, em que na fes- 
ta nupcial ou o Tamo, se não podia tanger adufe, no mez de fe- 
vereiro, e em que a melhor fogaça seria para o Mordomo. ^ As 
ceremonias funeraes eram acompanhadas de cantos ou endechas 
dos mortos, que os romanos que se referem á península chamaram 
nenias e equipararam ás suas laudes j eram esses cantos acompa- 
nhados de dansas lúgubres, com um caracter local, chamando- 
Ihes Tito Livio tripudiis liispanorum. (Liv. xxv, 17.) Silio Itáli- 
co reconhece este caracter primitivo da endecha nacional chaman- 
do-lhe barbara carmina^ e no funeral dos Scipiòes em Carthage- 
na a ceremonia constava também de fúnebres ludi. Estes cantos 
fúnebres pertencem a todo o occidente europeu, e conhecem-se 
com o nome de Lamenti e Triboli em Nápoles, de Attididos na 
Sardenha, de Voceri na Córsega, de Aurust no Béárn, de Arirra- 
jo nas Vascongadas, e de Areytos entre os tupis da America. A 
sua persistência na península ó attribuida á revivescência da épo- 
ca visigótica. ^ Em Portugal estes cantos fúnebres foram conhe- 

^ Viterbo, Elucidário, vb.» Tamo. — - D. Joaquin Costa, Poesia iwpu- 
lar espahola, p. 28Ó. 



I.) FORMAS COMMUNS ROMÂNICAS 17 

OS pelo nome de Clamores, e um alvará de D. João i prohi- 
bradar sobre finados. A litteratura portugueza possue pre- 
sos documentos d'este género poético na sua phase -tradicional, 
10 as seguidilhag cantadas sobre a sepultura do Condestavel D. 
no Alvares Pereira, e o romance á morte do principe D. Af- 
so, ^ e com forma litteraria individual, no Cancioneiro de Re- 
de formando o género das Lamentações, commum á Itália e 
spanhaj»^ Estes cantos fúnebres tomaram também um caracter 
piciatorio do feticliismo animista, a que correspondem ainda bo- 
is Oi-ações e Ensalmos, que o concilio terceiro de Toledo pro- 
ira sob o nome de Fúnebre Cármen. 

As crenças religiosas e suas formas cultuaes eram thema es- 
cial de manifestações poéticas, que ainda hoje sobrevivem. Stra- 
' cita as danças acompanhadas de cantares dos Celtiberos no 
lilunio. (lib. III, 4, §. 16.) Este costume passou para as vigi- 
dos Santos, prohibidas pelo concilio de Toledo, (xvi, can. 
íf^cantos de ledino, ou das romarias, como se observa ainda 
Portugal e Bretanha. Diodoro Siculo compara-as ao poema 
go, convertendo -se por effeito da dansa em hymno de guerra, 
[arcial nos seus Epigrammas allude a estes cantos coraes. 
IV, 55.) Esta fórraa persistiu durante toda a Edade media 
Bailatas italianas, nos Ballets francezes, nas Bailias ou bai- 
vilão dos nossos Cancioneiros provençalescos, derivando -se ef- 
ivamente « de um typo tradicional commum ás diversas po- 
ições românicas » como entende Paul Meyer. ^ Muitas neumas 
)oesia popular ainda sobrevivem, como o Alalãla gallego ci- 
por Silio Itálico, o betico leloa, no helo helo e nas leilas, e 
Cantares guayados, do Guay ou Ai com que o povo começa as 
cantigas. O apupo, dos cantos do Minho, egual ao renchili- 
lO Alto Aragão, repetia-se no fim das Gestas heróicas, como 
escobre pela Chanson de Roland. As Orações e Fórmulas nu- 
cas, como as que conserva Marcello burdigalense, ainda hoje 
ipetem como a do Custodio e a do Trangolomango, algumas 
,hidas já nas parlendas infantis. As Salvas, as Chacotas e as 



■ Antologia portugueza, n.»» 74, 73, 76, 68. — 2 Vid. Questões de LU- 
uva e Arte portugueza, p. 67. 



iS TRADIÇÔKS KPICAS (PrOlCg. 

Serranilkas, conservadas por Gil Vicente,fa8 Alvoradas, as Sere- 
nadas, as Desgarradas, sSo vestígios d'esta importante herança 
de tradições, que explicando-nos o processo da elaboração das lit- 
teraturas, nos restabelece pelos dados comparativos este fundo 
commum da Civilisaçao occidental. 

Da vida social dos Celtiberos se deduzem também as formas 
das suas tradiç5es épicas ; Diodoro Siculo (v, 34) allude aos hy- 
mnos guerreiros dos Lusitanos antes de entrarem em batalha, 
análogos ao harritum dos germanos; depois da batalha no funeral 
dos gu*erreiros cantavam-se as narrativas dos seus feitos, como 
conta Appiano do funeral de Viriato. Strabao refere que os Can- 
tabros repetiam os seus hymnos de guerra quando estavam pre- 
gados em cruzes pelos seus vencedores, onde morriam vociferan- 
do insultos. Os cantos épicos eram acompanhados de dansas ago- 
nisticas, de que são ainda representantes no Aragão as dances, 
na Galliza a Muimra, e nas Astúrias a Danza-prima. ^ Quem 
observar os assumptos dos Romances peninsulares, que coiMgpon- 
dem ao mais remoto passado social, quem aproximar os seus vas- 
tíssimos paradigmas em todos os povos meridionaes, concluirá pe- 
la these de Nigra, sustentada por Wolf e Kohler, de que esta 
forma tradicional da epopêa tem um fundo commum idêntico ao 
das formas lyricas. ^ Alguns romances populares, como o da Don- 
zella que foi á gu^erra, estudado por Liebretch, formam um ver- 
dadeiro cyclo épico com enormes ramificações ; ^ emfim, nas si- 
tuações d'esses Romances velhos figuram symbolos jurídicos simi- 
Ihantes aos que apparecem nas leis consuetudinárias dos Mosara- 
bes, que constituem a classe popular nunca extincta pelos succes- 
sivos dominadores da Hespanha. Os mythos religiosos dos Celti- 
beros produziram na sua decadência elementos épicos muito im- 
portantes, que foram mais tarde aproveitados como historia, da 
mesma forma que procedeu Aífonso o Sábio com os Romanos vul- 
gares intercalados como narrativas na sua Crónica general. Tro- 

1 D. Joaquin Costa, Poesia popular espanola, p. 401. — ^ Cliarrière, 
na sua Politique de VHistoire, t. i, p. 81, diz : « Primitivamente a ra(^a hes- 
panhola e a raça italiana eram idênticas e unificavam-se pelo laço da Aqui- 
tania e pelo meio-dia da Gallia, como o indicam todas as relações actuae?. » 
— 3 .No Heidel Jahrbuch, de 1877. 



§. I.) RUDIMENTOS DRAMÁTICOS 19 

go Pompeo conservou um fragmento de uma epopêa turdetana, 
que hoje se acha transformado em um canto popular ; é a aven- 
tura de Abidis, neto do rei Gargoris, nascido de uma fragilidade 
da infanta ; o avô expõe-no a todos os riscos, elle sobrevive sem- 
pre, até que Gargoris o reconhece e lhe dá o throno. D. Joaquin 
Costa reduziu esta fabula aos seus elementos mythicos. As gran- 
des composições reclamam narradores de profissão, como os jo- 
graes da Edade media; os euskarianos ainda tem os seus cobla- 
ri. Os Bardos é que cantavam os hairtni; esta designação con- 
servada pelo Arcipreste de Hita como instrumento musical, appa- 
rece-nos ainda citada pelo rei Dora Duarte como significando o 
narrador de contos : « em tal maneira que não pareça que os al- 
bardaões tem mais sabedoria que nós, porque elles nom se traba- 
Ihom d'arremedar as estarias melhores, mas que lhe som mais 
convenientes. » ^ Gil Vicente, creador da farça portugueza, diz-se 
filho de um albardeiro, neto de ura tamborileiro. Na Irlanda, o 
cantor ou vate tinha o nome de Faith, e no tempo de Francis- 
co i, Fatiste era o compositor «de jeux et novalistés » ^ em que 
se vê a transição para a forma dramática, e a importância que 
merece entre nós o nome de Fadista dado ao cantor popular. 

As dansas mimicas e falladas, que acompanhavam os cantos 
lyricos e épicos, formaram o primeiro gérmen das formas drama- 

' ticas, de que os Jogos, as Vigílias dos Santos, as Visitações das 
lapinhas, os CoUoquios de namorados são ainda hoje o vestígio 
persistente. Entre o povo os Romances heróicos transformam-se 
espontaneamente em dramas, como as Mouriscadas nos Açores. 
Isidoro de Sevilha allude ao Canticum dramatis ; e esta palavra 
Cântico, que significou a forma scenica, ainda apparece com es- 
se sentido em Azurara quando cita as Canticas de Dante. De to- 
dos estes elementos tradicionaes celtibericos se pode formar idéa 
bastante da vida sentimental d'essa raça successivamente inva- 

. dida por outros povos. Resta -nos observar a influencia d'essas in- 
vasões sobre a obliteração ou revivescência d'este vigoroso ele- 
mento tradicional. As nacionalidades semitas, phenicias e cartha- 

1 Leal Conselheiro, p. 321. — 2 Henri Martin, Hist. de France, t. vm, 
p. 22. 



20 TRADIÇÕES JÓNICAS (Proleg. 

ginezas, cominunicaram-nos cultos orgiasticos de que subsisteni 
restos importantes nas superstições e praticas cultuaes das Deu- 
sas-niães. Com estas se confundem mais ou menos, segundo Cur- 
tius, as explorações e estabelecimentos dos Jonios na península, 
taes como os phocenses, provenientes da Ásia Menor. Existia, na 
realidade, uma civilisaçao hellenica, que se propagava para o ex- 
tremo occidente pela acção da confederação mediterrânea cujo 
centro era Marselha. N'esta época estavam em elaboração as Rha- 
psodias que vieram a constituir os poemas homéricos, taes como 
a Achilleida, a Pequena Ilíada, a Destruição de Tí'oya, a Dolo- 
nia, as Peregrinações de TJlysses, a Telemachia, o Regresso de 
Vlysses, e os aedos gregos os levaram por todo o dominio dos Jo- 
nios. É por isso que Strabão referindo-se á vulgarisação das tra- 
dições ti*oyanas, e peregrinações de Ulysses, diz : « Não só na Itá- 
lia se conservam passagens d'es3as historias, senão também na 
Ibéria existem mil vestigios de taes expedições, assim como da guer- 
ra de Troya. » (liv. iii, c. II, §. 13.) Este facto tão positivo nos 
explica a razão do desenvolvimento do Cgclo troyano da, Edade 
média, representado pelo poema de Benoit de Saint More, como 
08 historiadores introduziram o elemento troyano nas suas origens 
nacionaes, e como em Portugal o mytho toponymico de Lisboa 
(a Ulyssêa) e o typo aventureiro de Ulysses se tornaram popula- 
res. Segundo Ampere, o romance da Bella Infanta ou a volta do 
Cruzado tem esta origem. É frequente nos geographos antigos 
compararem os costumes peninsulares e os seus cantos aos dos gre- 
gos. As luctas dos Romanos contra os Carthaginezes no solo his- 
pânico e a longa resistência das tribus celtibericas contra a incor- 
poração romana, influiram na persistência dos cantos heróicos, 
muito mais abundantes aqui do que na Itália. A vida histórica da 
peninsula começa com o dominio romano; mas se pela sua civili- 
ção influirá n'este3 povos, implantando os Municipios, abrindo 
vias militares, generalisando uma linguagem que se tornou nacio- 
nal, nem por isso influiu nas tradições, não as fecundou como o.s 
visigodos, nem as obliterou como o catholicismo. Roma tinlia qua- 
8Í apagadas as suas tradições, o que se comprova pela sua litte- 
ratura imitada servilmente da Grécia. Essa esterilidade, ainda i 
hoje se sente na Itália, como diz Cantu : « Os cantos sono pochis- 



[.) CARACTER DOS VISIGODOS 21 

iime romanzesche, ancor meno histórico » e como observa Grego- 
ovius, não existem nas innuraeras ruínas dos burgos italianos 
endas como na Allemanha e na Inglaterra. Conhecendo-se a sta- 
tistica do povo romano, tão bem reconstruída por Dureau de La 
Malle, vê-se que elle não podia colonísar pelo seu diminuto nume- 
ro ; tinha o systema do colonato, a que se lhe offerecíam as tribus 
germânicas, antes da invasão. 

Depois da invasão, eram os Visigodos romanísados os pre- 
tendidos continuadores do Império; assim a esse elemento colo- 
nial anterior, ligam-se os homens-Uvres decahidos das suas garan- 
tias pelo desenvolvimento da classe ou banda guerreira, a qual con- 
stituindo uma aristocracia imitou os nomes, os códigos e os costu- 
mes romanos. Esta sociedade aristocrática, convertida ao catholi- 
cismo romano, sob Kekáredo, soffreu uma profunda desnaturação 
pela decadência da lingua gothica e das suas tradições nacionaes ; 
ã classe popular, vivendo no seu arianismo, conservou as tradi- 
ções germânicas que pela sua similaridade se fundiram com as 
tradições celtibericas. É preciso distinguir esta dupla influencia, 
uma popular, e outra aristocratico-ecclesiastica ou erudita. Do fa- 
cto da resistência do elemento catholico dos Frankos contra o 
christianismo ariano dos Visigodos, tira Buckle assombrosas con- 
sequências históricas ; taes são, a dissolução da sociedade politica, 
subserviência ao clero que dominava nas cortes, obscurantismo 
systematico do povo, intolerância religiosa alimentando os sangui- 
nários conflictos dynasticos, depois a devastação da reconquista 
contra os Árabes, e por fim os Autos de Fé, da Inquisição, com 
o respeito de todas as manifestações da auctoridade e a negação 
do espirito scientifico. O grande facto da abjuração de Rekáredo 
(586-589) não extinguiu o arianismo popular de um christianismo 
tradicional, que sob o dominio árabe resurge no culto mosarabe 
e como egreja nacional. 

Profundamente poético, o visigodo pela queda dos seus my- 
thos religiosos, fecundou o grande campo tradicional dos hispa- 
no-romanos, isto é, das antigas raças fusionadas com o elemento 
abundante do colonato ; symbolos jurídicos, cantos heróicos, su- 
perstições, que apparentemente nós vemos como germânicas, são- 
no apenas como revivescências provocadas por mutuas analogias 



22 ELEMENTO ÁRABE (PFOleg. 

na sociedade liispano-goda. O pensamento de Gregorovius, que o 
canto popular e a lingua encerram aquillo a que os latinos cha- 
mavam Índoles, faz-nos comprehender como estes elementos tra- 
dicionaes representam uma verdadeira Índole germânica, ao pas- 
so que as formas eruditas da cultura ecclesia3tica conservam a Ín- 
dole romana. A aristocracia visigothica desde a invasão árabe fi- 
cou sendo dirigida pelo clero catholico ; o elemento popular ficou 
em contacto com os Árabes, que lhe respeitaram as suas crenças, 
costumes e instituições. Este facto influiu na expansão dos cara- 
cteres individuaes do povo hispânico, que desde essa época se co- 
nheceu pelo nome de Mosarabe. Os Árabes não influíram nas tra- 
dições poéticas, mas fecundaram-nas pelas suas melodias, como as 
leilas prohibidas ainda no tempo de Philippe ii, como os lingui- 
lingui, ainda hoje populares, como os Huda, as Serranilhas e ou- 
tras formas persistentes memoradas no século xv pelo Arcipreste 
de Hita e por Gil Vicente. As narrativas da Novellistica popular 
geueralisaram-se por via dos ravi árabes, e o antigo canto herói- 
co recebeu porventura pela sua forma cantada o nome de Ara- 
via. Attribue-se ao Árabe a propagação do metro popular octo- 
sylfabo, mas esta creação é commum a todos os povos românicos. 
As colónias frankas, estabelecidas no momento em que se con- 
stituía a nacionalidade portugueza, flamengos que aqui estaciona- 
ram na passagem para as Cruzadas, e incursões de piratas scan- 
dinavos nas costas do norte de Portugal fixando-se em pequenas 
povoações, todos estes elementos cooperaram para a revivescência 
das tradições poéticas, que a França uníversalisava na forma das 
Gestas, e que em Portugal e Hespanha estacionaram na forma de 
Romanceiro. Uma vez creada a lingua, como o mais poderoso in- 
strumento de unificação nacional, e conseguida a estabilidade em 
que a ordem se torna voluntária, o apparecimento da Litteratura 
é a consequência ímmediata da vida d'este organismo em exercí- 
cio. 

3." A Língua. — Embora muitas vezes o facto da linguagem 
esteja em contradícção com os caracteres anthropologicos, ou o ty- 
po physíco, ainda assim é um órgão de desenvolvimento social, 
tornando-se uma barreira moral, um estíinulo de independência 



§. 1.; RELAÇÃO DA LÍNGUA COM A LITTEIIATURA 23 

nacional. Se um povo persiste na immobilidade, a sua lingua re- 
seute-se d'es3e estacionamento, sem uma justa harmonia entre as 
formas archaicas, que produzem os dialectos populares, e a ado- 
pção dos neologismos provocada a cada instante por novas neces- 
sidades. Se a lingua não recebe a fixação da escripta, complicara- 
se a incerteza dos sons e das formas das palavras, nunca se esta- 
belece em bases de analogia a disciplina grammatical, a synony- 
mia torna-se uma excrescência embaraçosa, confundem-se em um 
rude polysynthetismo até que é substituída por um idioma mais 
communicativo e ao corrente com a civilisação. Este facto foi no- 
tado pelo anthropologista Paul Broca, explicando como a lingua 
dos Celtas^ se substituiu á dos Iberos, embora estes, pela prepon- 
derância do seu numero, conservassem o typo pbysico. ^ Esta ap- 
rente contradicção entre o phenomeno linguistico e o anthropologi- 
co, comprehende-se pela independência que existe entre o vocabu- 
lário, ou a somma de palavras em circulação e a syntaxe, ou a 
lei racional do seu emprego. É o que se observa na influencia do 
latim entre todos os povos occidentaes onde se formaram os dia- 
lectos românicos com um léxico abundante de diversíssimas pro- 
veniências históricas. Bastava ser o latim uma lingua escrijita, 
para dominar todos os dialectos célticos da Itália, das Gallias e 
da Hespanha, não fallando já da elevada civilisação dos Roma- 
nos, de que essa lingua era um órgão activo. As manifestações 
mais completas da linguagem na sua forma escripta constituem a 
Litteratura ; comprehende-se portanto o valor do critério phiiolo- 
gico : « A Litteratura, como diz Egger, não se deve separar da 
Philologia e da Historia, ou melhor, a historia das línguas, das 
instituições e dos costumes forma a verdadeira base sobre que as- 
senta o juízo acerca das obras do espirito. » ^ A lingua portugue- 
za pertence ao grupo das novo-latinas, e estudando-a nas suas re- 
lações com esta grande creação das civílisações meridionaes, com- 
prehenderemos o espirito da Litteratura no conflicto permanente 
entre a auctoridade do latim clássico, e o génio popular que repre- 
senta de um modo espontâneo a feição nacional. Conforme essa 

1 Mem. d^Anthropologie, t. i, p. 276. — 2 Memoires de Litterature an- 

cienm, p. xi. 



24 METIIODO COMPAUATIVO NAS LÍNGUAS (Proleg. 

corrente tradicional prevaleceu, assim as Línguas românicas se fo- 
ram desenvolvendo pela decomposição analytica, e dando ao sen- 
timento nacional a originalidade da expressão. No exame da lín- 
gua começa propriamente a comprchensão das transformações lit- 
terarias, como por meio d'estas se discriminam as phases do pro- 
gresso ou decadência da linguagem. 



A) Ijei de Tormação das Lingnas românicas 

Depois que em 1808 Frederico Schlegel lançou á actividade 
scientifica doeste século a idéa da connexao entre o sanskrito e 
algumas linguas da Europa, estava achado o novo critério para 
comprehender o facto da linguagem pelo processo comparativo. 
As hypotheses mais ou menos aventurosas de Maflfei, Ciampi, Al- 
drete, Larramendi, Court de Gebelin, La Tour d'Auvergne, 
Raynouard e Ribeiro dos Santos sobre cada uma das linguas no- 
vo-lc-tinas estudadas isoladamente, cahiram pela simples applica- 
ção do methodo comparativo encetado por Frederico Diez, em 
1827, no seu livro Da Poesia dos Trovadores. A clareza com 
que explicou a formação d'esse grupo de linguas, estudando con- 
junctamente o estado dos seus sons e particularidades prosodicas, 
as suas analogias morphologicas, a similaridade syntaxica, toman- 
do como typo commum d'onde divergiram, o Latim, tornaram-no 
o fundador da philologia românica, systematisada na Grammati- 
ca das Linguas românicas publicada de 1836 a 1844. A varie- 
dade de phenomenos linguisticos em todo o grupo românico apre- 
sentou-se com uma certa regularidade, e d'aqui a necessidade de 
estabelecer uma ou mais leis naturaes d'esse assombroso processo 
de decomposição analytica, que caracterisa as línguas modernas. 

Na formação das linguas românicas uma lei geral domina o 
processo da derivação latina ; é a persistência do accento latino. 
O accento conservando-se através de todos os accidentes de oblite- 
ração por que passou a palavra, é como o ponto de apoio da expres- 
são, é o centro de orientação das modificações consonantaes ; cita- 
remos um exemplo d'este processo orgânico: quadragésima, que 
no portuguez se abrevia em quaresma, e no francez careme; mi- 



§. l) DIVERGÊNCIA DIALECTAL 25 

nisterium em vietier ; rotundus em rond. A parte mais importan- 
te do vocabulário românico restitue-se á sua proveniência latina. 

Outra lei egualmente natural e fecunda é a da — suppressão 
da vogal breve / por ella se explica o modo como desapparecem 
muitas flexões nominaes e verbaes, isto é, como se obliteram os 
casos suppridos pelo uso excessivo de preposições ; como se perde 
a acção prosodica da quantidade influindo na metrificação poética 
o syllabismo ou a accentuaqão; como os verbos perdem as suas 
variadas desinências, simplificando-se pelos auxiliares de que ti- 
raram para os seus tempos formas paraphrasisticas ; como estes 
incompletos meios de expressão, para se tornarem comprehensi- 
veis, têm de reagir pelo esforço analytico empregando constante- 
mente os pronomes, alguns dos quaes pelo seu uso exclusivo se 
tornaram artigos; por outro lado, recorre-se aos circumloquios, 
sempre explicativos e assim o adverbio recebe um suffixo caracte- 
rístico, desdobrando-se os comparativos e superlativos em phrases 
compostas, e os participios tornando-se adjectivos. Esta simples 
modificação phonetica da suppressão da vogal breve, destruindo as 
flexões latinas, produz a revolução immensa em que se manifes- 
tam outra morphologia linguistica e outras construcções syntaxi- 
cas. 

Uma terceira lei, egualmente natural e importantíssima é a 
da — queda da consoante medial ; este phenomeno veiu tornar 
contrahidas as linguas novo-latinas, como se observa no francez, 
que se fixou muito cedo na forma escripta. Exemplifiquemos : o 
adverbio Metipsissimus, no italiano apparece em medesimo, no 
portuguez em medes, meesmo (antigo) e mesmo, e no francez em 
même. O portuguez apresenta fórmàs muito próximas do latim, 
mas isto deve attribuir-se ao trabalho erudito dos escriptores que 
recorreram sempre ao vocabulário latino, facto que teve uma gran- 
de influencia na forma e caracter da litteratura. 

Depois do conhecimento das leis fundamentaes do phenomeno 
linguistico, importa vêr as modificações mesologicas e históricas 
que cooperaram na sua manifestação. Com a lingua latina dá-se 
o que ainda actualmente se observa nas linguas extensamente fal- 
laàas e que se empregam em um grande dominio geographico. Ao 
passo que o latim recebia a forma culta e disciplinada pelos es- 



áO o COLONATO KOMANO (Pioleg. 

criptores e rhetoricos, as camadas populares que apenas a usa- 
vam oralmente deviam, por uma consequência natural, seguir a 
corrente divergente dos dialectos, já pela persistência do archaia- 
mo nos confins provinciaes, já pelas obliterações da glottica do vul- 
go, a que chamamos rusticidade, cm contraposição com a urba- 
nidade. O vocabulário apresenta formas duplas, uma pertencen- 
do ao povo, outra empregada pelo erudito ; as linguas novo-lati- 
nas ainda seguem este processo fecundo de derivação, ao qual se 
liga o phenomeno semeiologico da diversidade de sentidos que ex- 
primem. O facto dos duplos não quer dizer que uma mesma na- 
ção tenha duas linguas, uma pedestre ou vulgar, e outra erudita 
ou dos cultos. No latim, circumstancias históricas provocaram este 
phenomeno singular, em que a linguagem rústica veiu a prevale- 
cer sobre a linguagem escripta, até que por seu turno, ao vir a 
ser escripta, foi buscar ao typo clássico as normas essenciaes ou 
syntacticas. As expedições e guarnições militares romanas afasta- 
das da metrópole e em contacto com povos bárbaros tendiam por 
um esquecimento natural e pela necessidade de usar uma giria 
com os estrangeiros a adoptarem formas simples ou analyticas. A 
politica romana acceitava para o serviço das armas mercenários 
recrutados em todas as províncias do Império, especialmente tri- 
bus germânicas. Os escriptores dramáticos, como Terêncio, repro- 
duziam nos seus diálogos scenicos algumas d'essas formas rústi- 
cas, como o abuso de preposições e vozes verbaes auxiliadas. 
Quando a politica romana conheceu o seu erro, vendo que a for- 
ça publica estava confiada aos mercenários sabidos d'entre os bár- 
baros que Roma combatia, recorreu ao novo expediente do colo- 
nato, concedendo a essas tribus terras, dando-lhes instituições mu- 
nicipaes e regularisando a sua dependência administrativa para 
cora ella pela forma de direito. Por íim estendeu a todos esses 
territórios o direito de cidade. 

Durante estes três últimos esforços da politica romana é que 
o latim, como lingua que exprimia as relações jurídicas, foi ado- 
ptado pelos povos conquistados. As populações dos pagi, na Itá- 
lia, nas Gallias e na Hespanha, pela grande similaridade entre os 
seus dialectos pelasgicos e o latim, facilmente o accei taram. Isto 
comprova-se pelo que se deu entre outros povos pertencentes 



§. I.) LATIMSMO NA PENÍNSULA HISPÂNICA 27 

egualmente á unificação romana ; o domínio romano foi maÍ3 pro- 
longado na Grécia do que na Hespanha e comtudo nào puderam 
lá impor a sua lingua, como aqui ; também as numerosas coló- 
nias militares da llliria nào coraraunicam aos slavos o latim, e no 
entretanto poucos séculos de dominação em Engadina estabeleceu 
o dialecto românico dos Alpes suissos ; da mesma forma a Breta- 
nha, conquistada pelos romanos conserva a sua lingua céltica, ao 
passo que esta se substituo pelo latim na Itália superior, na Fran- 
ça e na Hespanha. ^ Esta facilidade autheutica-nos a existência 
de um fundo ethnico commum, que se revelará mais tarde pela 
Civilisação Occidental, de que o latim foi o meio de unificação, na 
Edade media. As classes elevadas, que reconheciam a superiori- 
dade da cultura romana e admiravam o seu perstigio, abandona- 
ram as linguas e mesmo os cost.umes das raças a que pertenciam, 
para escreverem como os poetas e prosadores e fallarem como os 
rhetoricos de Roma. Assim pôde o latim unificar pela legislação 
os povos hispânicos. Sertório fundou um centro de estudos clássi- 
cos em Osca, e Roma teve como continuadores da sua litteratura 
os corãovezes Sextilio Henna, Lucano, Porcio Latro, os dois So- 
necas, Anneo Mela, os gaditanos Cornelio Balbo e Columella, 
Marcial, natural de Calatayud, e o rhetorico Quintiliano de Ca- 
lahorra ; Cláudio Apolinário, Félix, Marco Licínio, Pomponio 
Mella, Lúcio de Tuy, Allio Januário, Cordio Sinforo, Silio Itáli- 
co, os imperadores Trajano e Adriano, Floro e Júlio Higinio. A 
propagação do catholicisuio no segundo século, pelo facto do em- 
prego do latim na liturgia, fez com que se generalisasse a imita- 
ção das formas urbanas; e ainda no ultimo século do Império es- 
creviam, n'essa forma peculiar da litteratura ecclesiastica, os bis- 
pos Osio, de Córdova, Paciano e Olympio, de Barcelona, Gregó- 
rio Betico, de Granada, Potamio, de Lisboa, o papa Sam Dâma- 
so, Dextro, Juvenco, Idacio, Paulo Orosio, Prudencio, Elpidio e 
tantos outros. Egual phenomeno se deu com o grego, que se trans- 
formava no dialecto commum, ao passo que os Chrysostomos e 
03 Basilios tentavam" na sua apologética restaurar o puro atticis- 
mo. A Egreja reagia contra a civilisação greco-romana, e no 

^ Gabematis, Piccola Enciclopédia indiana, p. 108. 



28 noMANisAÇÃo DOS VISIGODOS (Pfoleg. 

quarto século, pelo quarto concilio de Carthago prohibia a leitu- 
ra dos livros profanos; o papa Gregório Magno, segundo o seu 
biographo Jofío Diácono, desprezava intencionalmente o uso dos 
casos, para não submetter as palavras divinas ás regras de Dona- 
to. Isto prova-nos que a Egreja tinha de transigir com a grande 
vitalidade dos dialectos vulgares, como vemos pelas palavras ci- 
tadas por Quintiliano, por Marcial, e pela lei de Alexandre Seve- 
ro de 230, que permitte fazer fideicommissos em linguas vulga- 
res. Como explicar esta vitalidade dos dialectos, coexistindo com 
a generalisação do latim pela dupla influencia administrativa e 
ecclesiastica, senão por esse fundo commum dos dialectos pelasgi- 
cos, que se subordinaram .ás normas syntaxicas do latim ? Depois 
da queda do Império a tradição latina fica representada pela Egre- 
ja, que á maneira que imp3e o seu dominio se separa do povo, 
fechando-se era uma hierarchia aristocrática, e n'uma isolada eru- 
dição claustral . 

A invasão germânica na peninsula, fez-se pelos povos que mais 
se tinham apropriado da cultura romana, os Visigodos. Ao ten- 
tarem substituir a unidade imperial, acceitaram os nomes, as leis 
e os costumes romanos. Com relação ao latim, que os Visigodos 
adoptaram, por causa da sua conversão ao catholicismo, abando- 
nando o arianismo, diz-nos Frederico Diez ; « Apropriando- se dos 
elementos germânicos não soffreu nenhuma perturbação essencial 
no seu organismo; o grupo românico escapou quasi completamen- 
te á influencia da grammatica allemã. Não se pode negar, que 
haja na formação das suas palavras algumas derivações e compo- 
sições germânicas, acham-se também na syntaxe vestigios do al- 
lemão ; porém estas particularidades perdem-se na totalidade da 
língua. » ^ O facto da conversão ao catholicismo sob Rekáredo, 
em 587, uniformisando os direitos entre os hispano-romanos e os 
visigodos, determinou a decadência da língua gótica, que exce- 
dera em desenvolvimento o franciko e o lombardo, em quanto os 
visigodos possuiara o christianismo ariano. Diez, notando este 
phenomeno, explica por elle a ruina do gótico mais rapidamente 



Grammatica, trad. Brachet et Paris, i, 65. 



§. i.) o domínio dos árabes 29 

na Hespanha do que em nenhuma outra parte. ^ E aqui que co- 
meça a separação entre o povo, que elabora as suag tradições, e 
as classes aristocráticas, que se roraanisam e se submettem á 
erudição ecclesiastica. Essa separação, que vse observa na littera- 
tura, em Santo Isidoro, em Paulo Orosio, Idacio, Viciara, Santo 
Ildefonso, Isidoro de Beja, Máximo, nos poetas Draconcio, Oren- 
cio, Florentino, Eugénio, Commancio e Valério, e em outros apo- 
logetas, torna-se mais evidente na conderanação dos concílios de 
Toledo contra as tradições populares, que sob o dominio árabe 
tiveram essa expansão de espontaneidade que forma os Roman- 
ceiros e os Poemas do Cíd e Fernão Gonçalves . 

dominio dos Árabes descripto com tintas pejorativas de ca- 
tastrophe pelos latinistas ecclesiasticos, como Isidoro de Beja, Se- 
bastião de Salamanca, Sampiro, o Silense, Lucas de Tuy e Álva- 
ro de Córdova, está hoje provado como uma grande verdade his- 
tórica, que foi todo de tolerância e de liberdade. Mediante uma 
capitação, o djizyeh, o hispano-godo tinha garantida a sua pro- 
priedade, a sua familia, a sua crença e a sua industria. Fácil foi 
a harmonia moral entre a população e o invasor que trazia a su- 
perioridade da civilisação hellenica, de Damasco e Bagdad, onde 
pela Syria e pela Pérsia, renascera outra vez no mundo o génio 
grego. Os hispano-godos imitaram os árabes ; taes são os Mosa- 
rabes, esse elemento ainda indistincto, que veiu a chamar-se povo, 
base orgânica das nacionalidades. A comraunicação com os Ára- 
bes, bem como os cruzamentos de raça fizeram-se por esses dois 
ramos ethnicos dos berberes e mouriscos ; as letras árabes foram 
adoptadas nos escriptos aljamiados, em que as palavras eram ro- 
mânicas. A extensão do dominio da lingua árabe no Occidente 
foi investigada por Narducci na Itália, por Mareei Devic na Fran- 
ça e por Frei João de Sousa, Engclmann e Dozy com relação a 
Portugal ; esse dominio não foi syntaxico. Apenas o vocabulário 
se enriqueceu com os nomes technicos de instrumentos e conquis- 
tas de uma civilisação superior 5 ás vezes o termo latino coexiste 
com o árabe, como sastre e alfaiate; na crença, o nome de Allah 
ainda se invoca nos templos christãos, como em Oxalá do árabe 

1 Ibidem, p. 38. 



'M UNinCAÇAO DO OCCIDENTE (Prolcu. 

InshaUah. A animadversíto catholica revela-se em muitas pala- 
vras árabes, que ainda hoje subsistem mas exclusivamente com 
sentido pejorativo ; taea como Caschich, o sacerdote christâo, que 
é uma interjeição popular do nosso: Cachicka! Azambrado, Ma- 
draço, Leria, que estão no mesmo caso. Na longa lucta de recon- 
quista, as povoações sedentárias ficaram indifFerentes á sorte das 
batalhas ; formou-se uma linguagem vulgar conhecida pelo nome 
de Aravia, própria d'es3a população mosarabe, a par da ladinha 
christenga. O nome de Aravia dado aos romances populares re- 
vela-nos que na formação das nacionalidades peninsulares, já exis- 
tiam 08 cantos na lingua em que vieram a ser incorporados na 
Chronica general. O triumpho da reconquista christã, pretendeu 
restaurar em tudo as atrazadas instituições visigóticas; deram-se 
as revoltas coramunaes, e revoltas dos barões. Appareceu então 
a causa popular dos Concelhos, os Foros foram redigidos em vul- 
gar, e o Fórum Judicum traduzido. No emtanto a unidade impe- 
rial romana já não podia ser restaurada por esse ramo germâni- 
co dos neo-gothicos. Carlos Magno entre os Frankos é que reali- 
sou o pensamento da unidade romana, estabelecendo uma época 
de estabilidade para a Europa, e o inicio da civilisação moderna. 
Collocado no centro do Occidente, na Gallia, elle susteve as inva- 
sões das tribus barbaras do norte, romanisando a Allemanha, e 
pondo um dique á invasão dos Árabes no sul. ^ A Allemanha en- 
trou como cooperadora da Civilisação occidental, e a lucta contra 
a expansão da raça semita continuou-se nas Cruzadas, phenomeno 
que motivou o apparecimento da burguezia, pela lucta entre o 
poder real e o poder feudal. Na creação das novas formas sociaes, 
organisaram-se nacionalidades, e o Occidente teve uma crença 
commum, uma mesma arte, uma idêntica poesia e as mesmas agi- 
tações para fundar a liberdade civil ; todos estes factos tornaram 
escriptas as linguas românicas empregadas em comraunicar esta 
grande synthese aflFectiva. 



Littré, Application de la Philosophie positive, p. 116. 



§. t). dialectos peninsulares 34 



B) Filiação e épocas históricas da Lingna portugueza 

A formação das Línguas românicas, com elementos latinos, 
germânicos, gregos e árabes, deve considerar-se como o pheno- 
meno social que maia determinou o reapparecimento da Civilisa- 
ção Occidental, de qué a Provença foi o principal centro, e de 
que a França exerce ainda hoje a hegemonia. As Linguas româ- 
nicas tornaram communs os interesses, os sentimentos e as idéas, e 
ellas convertidas em órgãos das Nacionalidades modernas, desen- 
volveram-se em Litteraturas, em consequência da escripta. Os do- 
minios francez, italiano e hespanhol, pelos accidentes históricos e 
por causas mesologicas que conjunctamente actuavam sobre o sepa- 
ratismo politico, dividiram-se em muitíssimos dialectos locaes, uns 
que estacionaram no provincianismo, outros que se converteram 
em lingua nacional. Este duplo phenomeno se verifica pelo galle- 
ziano e jportuguez. Não enumeraremos a grande série de dialectos 
italianos que vieram a ser subordinados pela acção de convergên- 
cia nacional ao dialecto toscano, nem em França com o dialecto 
da ilha de Paris ; interessa-nos directamente a situação dos diale- 
ctos românicos na Hespanha. Aqui a divisão dialectal correspon- 
de perfeitamente á evolução social e histórica, que, simultanea- 
mente com a conquista neo-gothica ia desmembrando o território 
e povoações tomadas aos árabes em pequenas nacionalidades inde- 
pendentes : o Portuguez, o Catalão e o Castelhano, converterara- 
se em linguas nacionaes, ao passo que o gallego com relação ao 
primeiro, o valenciano e malhor quino, com relação ao segundo, e 
o andaluz estacionaram conservando apenas divergências locaes. 
São também três nacionalidades as que mais profundamente se 
constituíram, achando-se ainda no século xvil em lucta contra a 
unificação politica castelhana Portugal e a Catalunha. Frederico. 
Diez considera o Portuguez çom caracteres originaes propriosj no 
Poema de Alexandre e no Poema do Cid apparecem os typos que 
fixaram o castelhano] nos versos de Berceo, era que se conhece a 
influencia dos trovadores, destaca-se já a feição que distingue o 
catalão. Como a historia social influiu profundamente na especifi- 
cação d'este8 typos linguisticos, a evolução da civilisação peninsu- 



32 A GALLIZA ABRANGENDO PORTUGAL (Proleg. 

lar actuou de ura modo poderoso no desdobramento do novos dia- 
lectos. A filiaçíío da lingua portugueza no grupo românico penin- 
sular, provém da unidade da cultura latina na peninsula, mas o 
seu individualismo resultou do facto da creação da nacionalidade 
no século xii. A^ingua i)ortugueza ó idêntica á galleziana ; per- 
dendo a Galliza as condições de independência e de vida nacional, 
ficou um dialecto archaico, de que ainda se observam nos escri- 
ptores antigos os evidentes vestigios. 

a) Formas gallezianas no jportuguez. — Antes da indepen- 
dência politica tentada pelo Conde D. Henrique, Portugal fazia 
parte da Galliza, a qual desde Fernando Magno se estendia até 
ao Mondego. Pertenciam ainda em 1065 á Galliza as conquistas 
ao norte do Mondego e do Alva ; em 1093 as suas fronteiras es- 
tenderam-se até á foz do Tejo, depois da tomada de Santarém, 
Lisboa e Cintra. AfFonso vi de Leão, querendo fortalecer a admi- 
nistração d'este vasto dominio da Galliza, encarregando seu go- 
verno a Raymundo, que viera com os guerreiros frankos que aju- 
daram o monarcha leonez em 1086 na batalha de Zalaka, entre- 
gou-lhe toda a administração, casando-o com sua filha Urraca. O 
enunciado d'estes simples factos históricos, mostra-nos como se ge- 
neralisou a lingua gallega em todo este território, onde pela esta- 
bilidade no meio das algaradas contra os árabes, a lingua pôde 
ser escripta e a Galliza tornar -se ura centro de cultura. A ethno- 
logia coadjuva a explicação d'este phenomeno social, que tanto in- 
fluiu na prioridade do lyrismo provençal ao norte e oeste da pe- 
ninsula. Nas invasões germânicas do século V, a Galliza ficara em 
partilha aos Suevos, Alanos e Silingos incorporados aos primei- 
ros, quando Walia os forçou a abandonarem a Betica e a Lusitâ- 
nia ; mais tarde os Suevos estenderam sobre a Betica e a Lusitâ- 
nia o seu dominio, até serem submettidos por Leovigildo á uni- 
dade visigótica. Território o raça, tudo influía para a unidade da 
lingua gallega. A Galliza luctou como todos os outros pequenos 
estados peninsulares pelo estabelecimento da sua autonomia nacio- 
nal ; mas a formação da nacionalidade portugueza reduziu-a á 
condição de província, e o galleziano, em que se elaborava uma 
nova litteratura decahiu em um simples dialecto fallado, ao passo 
que o portuguez progrediu como lingua escripta. A vida histórica 



§. I.) DECADÊNCIA DA GALLIZA 33 

9 

da Galliza dispendeu-se nas agitações das varias dynastias de 
Leão, Castella ou Aragão, e já no fim do século xiv a tentativa 
de renascimento da poesia gallega por Villasandin© e Padron fi- 
cou sem resultado. Para que o território das margens do Minho 
até ao Tejo se desmembrasse do condado da Galliza, e se eman- 
cipasse da unificação politica asturo-leoneza, não bastavam as 
ambições do Conde D. Henrique, de D. Thereza ou de D. Aíion- 
so Henriques ; os Concelhos, ou cidades no seu perfeito desenvol- 
vimento jurídico precisavam fortalecer-se como nação, (behetrias) 
e a própria situação geographica provocava a autonomia que se fez 
sem ruido, como notou Schseífer. A proximidade do mar não era 
uma barreira defensiva, mas um estimulo de actividade económi- 
ca ; pelo mar vinham as armadas que coadjuvavam a reconquis- 
ta, pelo mar se fizeram as incursões na costa do Algarve, e se 
entrou depois da integração do território no periodo dos descobri- 
mentos geographicos. Assim o portuguez tornou-se uma lingua na- 
cional. ' Nunes de Leão, Aldrete, e Sarmienío, muito antes de 
Frederico Diez reconheceram a identidade entre o portuguez e o 
gallego, mas explicavam a decadência d'este em dialecto particu- 
lar por causas pliantasticas provenientes da falta de methodo 
scientifico em philologia. O gallego conservou-se muito tempo co- 
mo lingua litteraria empregada artificialmente na poesia, como 
vemos nas Cantigas d«i Affonso Sábio ; e Sarmiento determina 
chronologicamente o seu emprego : « Hasta los tiempos dei rey 
D. Henrique tercero, todolas coplas que se hacian commumente 
por la mayor parte eran en aquella lengua. » ^ Este facto confir- 
ma-se com as composições lyricas do grande Cancioneiro portu- 
guez (da Vaticana, de Colocci e da Ajuda) em que não só as for- 
mas linguisticas como o género litterario das serranilhas conti- 
nuam a tradição galleziana. A lingua portugueza seguia a sua 
differcnciação ; mas todas as vezes que os escriptores do século XV 

^ Nunes de Leão,, na Origem da Lingua portugueza. \^. 92, ed. de 
• 1605, fallando da similaridade entre o gallego e o portuguez^ explica o fa- 
cto irracionalmente: ■^'O que se causou por em Portugal haver rei e corte, 
que é a oílicina onde os vocábulos se forjam e pulem, e d'onde manam para 
os outros homens, o que nunca houve na Galliza. » — 2 Memorias para la 
Historia de la Poesia y Poetas espaíwles, p. 198, b.° 456. 

3 



34 A CORRENTE FRANCEZA (Prolc^. 

e XVI se aproximavam da dicçSo popular, reproduziam esponta- 
neamente esses galleguismos, de que se conservam particularida- 
des phoneticas no Minho e na Beira. A cultura erudita a que o 
portuguez foi muito cedo subníettido, aproximou-o extraordinaria- 
mente do latim clássico, não deixando também de influenciar na 
sua pronuncia as numerosas colónias francezas que se estabelece- 
ram simultaneamente com a nacionalidade. 

b) Modificações por via do francez. — Como vimos, o Con- 
de D. Henrique toma posse em 1096 do território que veiu a ser 
Portugal, casando com D. Therez.a ; o cavalleiro borgonhez trou- 
xera corasigo homens de armas, deu franquias ás colónias que 
chamou do seu paiz, e vieram juntamente com bispos para as dio- 
ceses, amanuenses para copiarem os Evangelhos em letra france- 
za como ordenava o Concilio de Leão, de 1090. Muitos bispos e 
arcebispos eram francezes, como S. Geraldo, D. Maurício, D. 
Hugo, D. Bernardo ; ia-se estudar a França, como D. João Pe- . 
culiar e Frei Gil Rodrigues. D. AfFonso Henriques concedeu a Gi- 
Iherme des Cornes as terras de Athouguia, para serem colonisa- 
das por francezes e gallegos. Assim se espalharam entre nós as 
lendas carlingianas, e se cantaram aa Gestas francezas, a que ha 
allusões nos Nobiliários. A corrente franceza continuou na época 
das luctas dos fidalgos contra D. Sancho li, refugiando-se os emi- 
grados na corte de S. Luiz, d'onde acompanharam a Portugal D. 
AfFonso III, que depoz o irmão. Aldrete, na Origen y principio 
de la lengua Castellana, reconhece no portuguez esta influencia 
franceza, a que alguns attribuem os nossos sons nasaes e também 
as formas contrahidas de um grande numero de palavras. O pró- 
prio D. Diniz foi educado pelo francez Emeric d'Ebrard, de Ca- 
hors, e na própria poesia dos trovadores portuguezes penetraram | 
versos francezes, d'onde se infere que estavam aqui generalisados. 
Havia uma causa poderosissima para que o francez influísse na 
lingua portugueza ; o francez era, desde o século xii, o propaga- 
dor de todas as tradições da Edade media ; na Inglaterra, no sé- 
culo xiii, as proclamações dos reis, o ensino nas escholas e as 
bailadas do povo eram em francez ; na Itália, avalia-se o seu in- 
fluxo, pelas palavras de Brunetto Latini : « la parleure française 
est la plus gracieuse st delictable de tous les outres languages... » 



. I.) PRIMEIROS DOCUMENTOS ESCRIPTOS 36 

Dante reconhece no De Vulgari eloquia esta superioridade. Nos 
velhos romances allemães acham-se versos inteiros em francez, co- 
mo no Tristam de Scottfrid. A Civilisação occidental tinha acha- 
do o seu novo centro hegemónico. As primeiras composições litte- 
rarias portuguezas seguiram essa impressão universal dos modelos 
francezes, até certo ponto contrabalançando-se com a latinisação 
forçada dos eruditos ecclesiasticos. A Gesta de mal dizer, de D. 
Affonso Lopes Baião, imita em endechas a linguagem popular do 
século XIII, reproduzindo as formas da Cantilena franceza. 

c) O portuguez começa a ser escrijpto. — Debaixo da in- 
flexão alatinada d'essa lingua convencional e barbara dos do- 
cumentos jurídicos, taes como o Livro dos Testamentos de Lor- 
vão ou o Livro Preto da Só de Coimbra, existem as palavras 
vulgares que mais tarde apparecem com forma própria nos 
textos litterarios, assim como do onomástico se remonta á elabo- 
ração do portuguez em uma época muito anterior ao facto do 
apparecimento da nacionalidade. Lnporta distinguir entre docu- 
mentos históricos e litterarios ; ^ os primeiros mostram-nos o des- 
envolvimento da sociedade civil, os segundos são já uma revela- 
ção da consciência, a expressão de um sentimento de pátria. Em 
Portugal repete-se o phenomeno commum das litteraturas come- 
çarem pelas formas poéticas até chegarem á fundação da prosa. 
Com a vinda de Dom Affonso iii de França principia a activida- 
de poética da aristocracia portugueza, que em Dom Di-niz se for- 
talece com a tradição lyrica popular. 

Os latinistas ecclesiasticos exerceram muito cedo a lingua por- 
tugueza na traducção dos livros dos Padres da Egreja e dos Evan- 
gelhos. A grande Livraria de Alcobaça compoe-se de traducções 
latinas do século xiv como as já publicadas por Frei Fortunato 



1 João Pedro Ribeiro, nas Dissertações chronologicas e criticas, 1. 1, doe. 
60, 61, 62-68, e 184, transcreve documentos em portuguez redigidos no rei- 
nado de Dom Sancho i, em 1192, e deduz que no reinado de Dom AÍTouso 
III, a começar de 1293 é que apparecem os documentos em portuguez cora 
mais frequência, tornando-se geral o seu uso de 1334 em diante. Estes factos 
í^ão importantes para conhecermos o desenvolvimento da vida civil, mas 
não provém como quer J. P, Ribeiro da ignorância progressiva do latim. 

* 



30 DIALHCTOS POHTUGUEZES (Prolcg. 

dc S. Boaventura, e Uvtos ascéticos traduzidos ou compilados 
para uso dos clérigos que ignoravam o latim. A erudição claus- 
tral, absorvendo para si a instrucç3o e banindo os cantos vulga- 
res da liturgia, tornou o latim a giria das escholas e a poesia dos 
Goliardos. A renascença do Direito romano fez também com que 
da parte da realeza se irapuzesse o latim como linguagem dos tribu- 
nues e das allegaç5es jurídicas. Assim se enriquecia o vocabulário 
pelo neologismo e se perderam as formas populares no meio de to- 
da esta exuberância de elementos eruditos. Raros foram os escri- 
ptores que se puderam libertar do perstigio da imitação latina, e 
esta influencia favorecida pela disciplina catholica destruiu na lit- 
teratura portugueza uma importantíssima parte dos seus caracte- 
res e condiçSes de originalidade. 

Fora da litteratura, a lingua portugueza teve também um lar- 
go desdobramento de dialectos, devido ao forte individualismo do 
povo e em consequência da expansão histórica da nacionalidade 
em ura vastíssimo domínio colonial. Assim, depois do dialecto gal- 
lego, temos o creoulo nas possessões da Africa e Cabo Verde, o 
matuto no Brazil', o reinai, ou indo-portuguez em Columbo capi- 
tal de Ceylão, em Malaca, e pelo eíFeito do isolamento provincial, 
o mirandez em Traz-os-3Iontes. No século xvi escrevia João de J 
Barros : « As armas e padrões portuguezes postos em Africa e em 
Ásia, e em tantas mil Ilhas fora da repartiçam das três partes da 
terra, matérias são e pode-as o tempo gastar ; pêro, não gastará 
doutrina, costumes, linguagem, que os portuguezes nestas terras 
deixaram. » ^ A verdade d'esta grande aífirmação consciente do 
nosso vigor nacional torna-se evidente ainda ao fim de três sécu- 
los de decadência ; escreve Radau, referindo-se a Malaca : « O 
idioma que aí se falia hoje ao lado do inglez é uma espécie de 
phenomeno philologíco : ó o portuguez despojado das suas termi- 
nações, e por assim dizer reduzido a raizes. Os verbos não têm 
tempos nem modos, nem números nem pessoas ; os adjectivos per- 
deram o feminino e o plural. Eu vai, significa eu vou, eu tenho 
ido, eu irei, segundo as circumstancias. Algumas palavras do ma- 
laio completam esta lingua, que apresenta um curioso exemplo dc 

1 Dial., p. 229. 



§. I.) ÉPOCAS DA língua pop.tugueza 37 

retrocesso ao estado primitivo. » ^ Filinto Elysio também allude á 
« língua franduna — a que trouxeram os soldados portuguezes 
das guerras dos Paizes-Baixos, » ^ de que nos resta ainda a desi- 
gnação vaga àe franduna gem, para significar uma cousa sem va- 
lor. As épocas históricas da lingua portugueza coincidem com as 
phases mais características da litteratura : 

1.* — Desde a elaboração que se revela sob a inflexão alatina- 
da dos documentos jurídicos até que se destaca do gallego, nos 
Cancioneiros, terminando no século xiv. 

2.* — ]Modificações produzidas pela acção da cultura latina, se- 
paração entre os escriptores e o povo, traducçòes latino-ecclesias- 
ticas até á reforma dos Foraes realisada por D. Manoel, termi- 
nando no começo do século xvi. 

3.* — Estabelecimento de disciplina grammatical, por Fernão 
de Oliveira e João de Barros, até preponderar a auctoridade da 
grammatica latina pelo ensino dos Jesuítas, no século xvi e xvii. 

4.* — Exame histórico e critico, era Duarte Nunes de Leão até 
ao estabelecimento de um Vocabulário, por Bluteau, vindo a pre- 
valecer a doutrina dos archaismos na Arcádia no século xviii. 

5.* — Harmonia entre a linguagem escripta e a fallada, e fim 
do pedantismo grammatical pelo novo critério comparativo ; coin- 
cide com o restabelecimento das bases tradícionaes na litteratura, 
ou Romantismo. 

4.° A Nacionalidade. — A creação de uma nacionalidade é 
um phenomeno de ordem statica, independente da vontade do in- 

1 Un Naturaliste dans VArchipel Malais (na Rev. des Deux ]\Ionde8, 
1869; t. Lxxxni, p. 679.)— Vide sobre dialectologia portugueza, Bertrand 
Boeandéj De la Langue créole de la Guinée portugaise (Buli. de la Sociélé 
de Geographie, de Paris, 3.=^ serie, t. xu, p. 73-77.) — Hugo Shuehartt, Kre- 
olische Studien: Ueher das Indoportuguises ische von Cochin. Wien, 1883. — 
Ueber das Indoportugiesísche von Diu, Wien 1883. — Leite de Vasconeellos, 
Dialecto brazileiro, Porto, 1:883 (separata da Revista de Estudos Livres.) Do 
mesmo, O Dialecto mirandez, Porto 1882; Dialectos beirões : i Linguagem po- 
pular de Monte Novo; ii Linguagem popular de Castello Rodrigo. Porto, 
1884. Dialectos extremenlios, pelo mesmo. — Gonsalves Vianna, Essai de 
Phonétique et de Phonologie de la Langue portugaise d'aprcs le Dialécte actuei 
de Lisbonne. Paris, 1883. — 2 Ob., t. i, p. 64. 



')í> NOVAS NACIONALIDADES (Proleg. 

dividuo ; é pela synthcse dos interesses ou o direito, pela synthe- 
se dos sentimentos ou a raoral e a arte, qne esse órgão collectivo 
se eleva até á consciência, que se revela para cada individuo no 
ideal da Pátria. Tal é a intima relação da nacionalidade com a 
litteratura. As diversas instituições sociaes, como a crença, o di- 
reito, a industria, a politica são fortemente dominadas pela pai- 
xão egoísta, no conflicto dos interesses, e por isso não represen- 
tara completamente o génio nacional; as creaçSes sentimentaes to- 
mando por base as tradições da collectividade e recebendo o sen- 
tido novo a que se elevaram as capacidades superiores, estão sem- 
pre em uma intima relação entre a sua fecundidade e o vigor da 
nacionalidade. É pela litteratura que se consegue de um modo se- 
guro a revivescência de uma nação, como se comprova com a Itá- 
lia e com a Allemanha. 

Quando no século xii se constituiu a nacionalidade portugue- 
za, já o periodo da elaboração activa da Edade media estava en- 
cerrado : as diíFerentes linguas românicas tinham-se fixado na 
fórraa escripta ; estavam transformados os velhos mythos arruina- 
dos pelo christianisrao no cyclo das tradições épicas das Crestas 
francezas ; já se tinha affirmado o espirito secular que luctara 
pela independência da esphera civil ; já estavam reconhecidos os 
códigos locaes ; circulavam todas as lendas piedosas, e florescia a 
nova architectura ogival. D'entre as novas nacionalidades era 
Portugal a ultima que entrava no concurso da civilisação do Oc- 
cidente ; imperiosas e fataes circumstancias provocavam este ap- 
parecimento tardio, e para alguns historiadores maravilhoso. Con- 
finado entre o continente e o mar, desmembrou-se da Hespanha 
como a Hollanda se destacou da Allemanha ; provocou este facto 
decisivo a corrente separatista que na época da reconquista que- 
brara as três tentativas de unificação neo-gothica. Portugal ficou 
o typo do pequeno estado livre peninsular ; a Galliza perdeu esta 
qualidade e chegou a esquecer a sua extraordinária cultura. Na 
pressão mutua de dois povos, o mais fraco pelo seu numero é es- 
timulado pela necessidade da defeza ; Portugal chegou ainda mais 
cedo do que Castella a i'ealisar a sua unidade politica, e a con- 
trabalançar a exiguidade do seu território pela occupação no nor- 
te da Africa, pela descoberta dos Archipelagos e pelas feitorias 



§. I.) NACIONALIDADE PORTUGUEZA 39 

da índia. No resto da Hespanha, pelo seu poderoso elemento se- 
mita, e ainda pelo caracter dos germanos, o Estado constituia-se 
na transição da tribu para nação ; em Portugal, onde abundavam 
colónias gregas e uma forte disciplina romana, o Estado fundava- 
se pela união das cidades ou Concelhos, e d'aqui as fortes manifes- 
tações da classe popular, nas cortes, na poesia dos cancioneiros 
aristocráticos e no sentimento de pátria revelado no seu esplen- 
dor heróico em Aljubarrota e na santificação de um Cid nacional 
o Condestavel D. Nuno Alvares Pereira. Diz com um tino notável 
Frederico Schlegel : « Feitos memoráveis, grandes successos e lar- 
gos destinos não bastam para captivar-nos a attenção e determinar 
o juizo da posteridade. Para que um povo tenha este privilegio, é 
preciso que elle possa dar conta das suas acções e dos seus desti- 
nos. » Portugal iniciando as navegações modernas e a éra pacifica 
da actividade industrial, creou também historiadores como Fernão 
Lopes, Ruy de Pina, João de Barros, Damião de Góes e Diogo 
de Couto ; os soldados das suas armadas e guarnições eram os 
seus poetas como Camões, e Castanheda ou Diogo de Couto escre- 
viam a historia depois de largarem o arcabuz, segundo aquelle 
verso eterno dos Lusíadas : « N'uma mão sempre a espada e n'ou- 
tra a penna. » O sentimento d'essa actividade e destino nacional 
foi traduzido na pedra, como nos mosteiros da Batalha e dos Je- 
■ronymos, no ouro das páreas do Oriente, como a Custodia de Gil 
Vicente, na palavra eloquente dos Lusiadas^^^Qa. ^uropa upi- 
versalisou como a epopêa do mundo moderno. A sua vida históri- 
ca é que a tornou uma nação fecunda ainda depois de terminada 
u elaboração da Edade media. Esta pequena nacionalidade ataca- 
da pela intolerância, imbecilisada pela Inquisição, extinguiu-se 
quando trinta annos de educação jesuítica (1550-1580) oblitera- 
ram na mocidade portugueza o sentimento de pátria e a consciên- 
cia da nacionalidade. Restaurou-se a nacionalidade portugueza, 
quando a França pôde afastar da Hespanha a Casa de Áustria ; 
mas a connivencia da nova dynastia com os Jesuítas fez com que 
vegetássemos sem plano, esquecidos até do nosso passado históri- 
co. O grande facto de 1640 não deixou ecco na litteratura portu- 
gueza do século XYii; mas os emigrados de 1818, que conspira- 
vam contra a occupação ingleza de Beresford e se refugiaram em 



40 FACTOUKS DYNAMICOS (Proleg. 

França, e em 1823 os que fugiam ás masmorras do absolutisiuo 
restaurado, eram os sábios, poetas, músicos, pintores e artistas, 
Manoel Pedro de Mello, José Dyonisio Mascarenhas Netto, Mor- 
gado de Matheus, Domingos António Sequeira, Bomtempo, Al- 
meida Grarrett. O movimento nacional que destruiu o absolutismo 
de 1834 produziu simultaneamente essa renovação da litteratura 
portugueza, em que se fundou uma nova poesia lyrica, um novo 
theatro, o romance histórico, a historia critica e a eloquência da 
tribuna. Todas as vezes que nos retemperarmos nas tradições da 
nacionalidade, ella manifestar-se-ha mais vigorosa, e a sua littera- 
tura mais ori opinai. 



II 



O elemento dynamico na LiUeralura 

1.° As grandes individualidades. — Antes da concepção me- 
chanica dos phenomenos do universo, teve Blainville a luminosa 
ideia de applicar aos phenomenos biológicos a distincçao em sta- 
ticos e dynamicos como a expressão mais completa das condições 
de existência ; o órgão apto para exercer-se é o elemento statico, 
assim como a funcção é o estado dynamico dependente do ante- 
rior. Augusto Comte applicando esta mesma distincção aos pheno- 
menos sociaes, considerou a ordem como a base statica da existên- 
cia social, assim como o progresso nas suas transformações simul- 
tâneas o efteito dynamico do seu aperfeiçoamento. Como um pro- 
ducto social, & Litteratura participa d'esta dupla condição de 
existência ; ella tem uma parte statica, permanente e alheia á in- 
tervenção individual : taes são a raça, a língua, a tradição e a 
nacionalidade ; são por assim dizer o organismo em que se elabo- 
ram as funcçoes ou creaçòes litterarias. O elemento dynamico 
é a vontade individual, é o espirito ou personalidade do artista, 
que sabe achar a justa relação entre as emoções geraes contidas 
n'esses factores, e a expressão característica e propriamente sua. 
Todas as vezes que se não sentir este cunho individual não exis- 



§. II.) TRADIÇÃO NA LITTER ATURA 41 

te obra de Htteratura. A phrase formulada por Fred. Schlegel, 
da relação indispensável entre o escriptor e o povo, ^ a dependên- 
cia necessária da actividade intellectual do meio social para que 
ella se não torne uma aberração pathologica, como o presentira 
Mackintosh, exprimem esta solidariedade das condições de exis- 
tência revelada nos termos de statico e dynamico. O génio da ra- 
ça, o fio da tradição, as formas da linguagem, a aggregação nacio- 
nal estão fora do alcance das mais poderosas individualidades ; são 
porém o thema da emoção commum a que o escriptor ou o artista 
dão a expressão que só elles acharam no seu modo de sentir indi- 
vidual. Os maiores génios são aquelles que mais profundamente 
representam uma civilisação, porque condensaram na sua obra to- 
dos esses elementos staticos ; estudada nos seus processos, a obra 
prima é a que mais assenta sobre bases ethnicas e tradicionaes. 
Na Htteratura portugueza, e em todas as suas épocas existem es- 
criptores que tiveram a intuição d'estes principies que constituem 
a critica moderna. Na época trobadoresca o rei Dom Diniz nos 
seus Cantares de amigo fecundou o lyrisnio provençal, que come- 
çara por imitar eruditamente, aproximando-o das fontes tradicio- 
•naes conservadas nas serranilhas gallezianas ; nunca mais se per- 
deu este caracter nacional, que reapparece no Cancioneiro de Re- 
zende, em Francisco de Sousa, no século xvi em Gil Vicente, 
Christovam Falcão e Camões, no século xvii em Rodrigues Lobo 
e Dom Francisco Manoel de Mello, produzindo mesmo sob a in- 
fluencia do pseudo-clacissismo da Arcádia as Lyras de Gonzaga. 
No theatro a tradição medieval e os costumes populares portu- 
guezes recebem forma litteraria nos Autos de Gil Vicente, que 
correspondendo ao desenvolvimento de uma classe media, resistem 
ás imitações clássicas da comedia latina de Sá de Miranda e de 
Ferreira, ás tragicomedias dos Jesuítas, e ainda ás primeiras ten- 
tativas da opera. O génio de Camões, sob o influxo da Renascen- 
ça, soube alliar o enthusiasmo pelas obras primas da civilisação 
greco-romana com o sentimento nacional, formando a sua epopêa 

^ " A separação absoluta dos sábios, do vulgo e do povo, é o maior 
obstáculo aos progressos intellectuaes de uraa nação. » Hist. de la Litt. anc. 
et moderne, l. i^ p. 2. 



'íd o SENTIMENTO DE PÁTRIA (Proleg. 

com todos OS elementos traclicionaes e lendários da historia portu- 
gueza, exactamente como Virgílio na Eneida fazia reviver as tra- 
dições do Latium por meio das formas da poesia hellenica. Os es- 
criptores conheceram esse sentimento tão característico do portu- 
guez, a saudade, que, da analyse psychologica que d'elle fez o 
rei Dom Duarte até á invocação de Garrett na emigração de 
1824, inspira todas as nossas obras de arte, desde o amor da 
emoção pessoal até á emoção da Pátria, que suscitou os feitos dos 
nossos heroes. O pensamento de uma epopêa nacional, na época da 
descoberta do Oriente foi proclamado por muitos escriptores, co- 
mo Castanheda e João de Barros, António Ferreira, Caminha, 
Jorge de Monte-Mor e Pedro da Costa Perestrello ; só Camões, 
livre da auctoridade da erudição humanista, e tendo, como elle 
diz, repartido a sua vida em pedaços pelo mundo, percorrendo 
todo o dominio portuguez na Africa, na índia, nas costas da 
Arábia e em Macáo, expondo a vida nos combates e naufrágios, 
ó que achou a realidade e a expressão ideal d'ella, para erguer 
a o j)regcio do ninho seu i^aterno » e para concentrar a sublime 
emoção que ainda hoje acorda a vida nacional, tão bem sentida 
no verso — « Esta é a ditosa pátria minha amada. » A Historia 
de uma litteratura resume-se completamente em individualidades 
d'esta ordem, e sob este aspecto Camões, segundo Fred. Schlegel, 
é uma litteratura inteira. Ainda no século xviii Bocage, talento 
enorme atrophiado pelo mais degradante despotismo implantado 
em uma sociedade morta, dizia que o seu valor lyrico derivava 
do estudo de um soneto de Camões. Perante a Europa, Camões é 
a expressão mais pura e elevada da nacionalidade portugueza. O 
que se observa na forma individual da expressão do génio da ra- 
ça e sentimento da tradição, repete-se também com a linguagem. 
A escripta fixa-a, dálhe norma de analogia nas suas derivações, 
e modificando-a artisticamente pelo estylo litterario, torna-a pelas 
concepções dos seus escriptores um órgão de cohesão da própria 
nacionalidade. Quando no século xvi os enlaces dynasticos envol- 
veram Portugal em aventuras de unificação, que se desvendaram 
no desastre nacional de 1580, os Quinhentistas pugnavam pelo 
emprego exclusivo da linguagem portugueza. São profundamente 
sentidas as palavras do Dr. António Ferreira : 



§. II.) PENSAMENTO DOS QUINHENTISTAS 43 

Floreça, fale, cante, ouça- se e viva 
A Portuffueza lingua, e já onde fôr. 
Senhora vá de si, soberba e altiva. 

Se té qui esteve baixa e sem louvor 
Culpa é dos que a mal exercitaram. 
Esquecimento nosso e desamor. 



E os que depois de nós vierem, vejam 
Quanto se trabalhou por seu proveito, 
Ponjue elles para os outros assi sejam. ^ 

O que se passava em Portugal, e que era o pensamento dos 
Quinhentistas, não era ignorado pelos escriptores estrangeiros, que 
nos apontavam como exemplo. Na Carta de Don Diego de Men- 
doza, censurando o uso dos termos antiquados da traducção do 
Orlando, de Urrea, allude a este facto : « Mas vos lo débeis hacer 
por iraitacion à los Portuguezes que han hecho ley, en que de- 
fiènden, que ninguno hable vocablo castellano ui estranjero, si no 
solamente el portuguez puro y neto. » ^ Em um dos seus versos, 
dizia com emoção o auctor da Castro : « Ah Ferreira, dirão, da 
lingua amigo.» Durante os quarenta annos da incorporação caste- 
lhana, a lingua portugueza desprezada pela aristocracia, era usa- 
da pelo povo, como o ultimo vestígio da sua nacionalidade e foi ella 
também o estimulo da sua revivescência. As grandes individua- 
lidades litterarias iniciam as transformações do gosto, e pela sua 
universalidade i'elacionam o seu tempo com a marcha da huma- 
nidade. Como órgão da grande Civilisação occidental, Portugal 
consei'vou sempre uma intima solidariedade com as litteraturas 
românicas da Edade media da Europa ; é por essas relações, que 
não significam uma imitação banal mas uma cooperação, que se 
demarcam as épocas principaes do seu desenvolvimento litterario, 
e se pôde comprehender o seu espirito. 

2.° Do regímen da Edade media dimana o espirito das Lit- 
teraturas românicas, — A transição da antiguidade para o mun- 

^ Carta in, dos Poemas Lusitanos. — 2 Apud Mussafia, Ueber eine spa- 
lusche Handschrift der Wiener hofbibliothek, p. 120. Wien, 1867. 



44 REGIMEN DA EDADE MEDIA (Proleg. 

do moderno eífectaou-se em um período de dez séculos, a que se 
dá o nome de Edade media. N'este período crearam-se novas clas- 
ses sociaes, como o proletariado, novas formas de industria, como 
o trabalho livre, outras concepções religiosas, como o christíanis- 
mo, o direito territorial das coramunas, a Arte gothica, a poesia 
lyrica trobadoresca, as epopêas das Gestas, o grupo das línguas 
novo-latínas tornando-se escriptas, e a Europa reconstituiu-se, ter- 
minadas as invasões germânicas e árabes, em numerosas e activas 
Nacionalidades. Quebrou«se por um longo intervallo a continuida- 
de da Civílisação occidental pelo esquecimento da cultura greco- 
roniana ; porém cada nacionalidade moderna á medida que se con- 
stituía ia restabelecendo essa continuidade, até ao momento em 
que todas ellas sahindo do seu isolamento sentiram a similaridade 
dos elementos communs, e cooperaram directamente para estabe- 
lecerem uma solidariedade internacional iniciada pelos primeiros 
princípios do Direito das Gentes. A Edade media, nos seus com- 
plicados aspectos, apresenta uma phase de dissidência, ou do con- 
flicto das dífferentes raças ; uma phase de concorrência, em que 
os vários estados políticos procuram continuar a supremacia impe- 
períal ; e por ultimo uma phase de convergência, na qual as na- 
ções enropêas obedeceram a uma noção da sua occídentalidade re- 
velada pela primeira vez na lucta das Cruzadas, por uma acção 
dirigida pela mesma crença ; na época das grandes navegações e 
da Renascença, e por ultimo na crise da Revolução franceza pela 
reorganisação politica das bases sociaes. A Edade media foi con- 
siderada pelos historiadores vulgares como ura período de trevas e 
de anarchia, por isso que não viram senão esse limitado período 
de dissidência ; os historiadores catholícos, descobrindo que a Eu- 
ropa obedecera n'egse poriodo anarchico á disciplina moral da 
Egreja, que implantara de um modo absoluto o seu poder espiri- 
tual pela organisação do Papado, exaltaram o período da concor- 
rência, para assim reclamarem para a Egreja o prolongamento da 
sua intervenção temporal ; somente alguns philosophos, que soube- 
ram determinar pelo período de convergência a continuidade da 
Civílisação occidental, de que as nações da Europa são órgãos so- 
lidários, ó que puderam assignar á Edade media o seu caracter 
histórico, explícando-a, como uma transição affectiva. 



§. II.) DUALIDADE MEDIEVAL 45 

Sem esta coraprehensão fundamental da Edade media, como 
relacionar factos tào desconnexos como o antagonismo entre o po- 
der espiritual da Egreja e o poder temporal das Monarchias ; en- 
tre a sociedade feudal ou guerreira, que se impõe pelo seu isola- 
mento de classe, e o proletariado que se fortifica pela industria 
constituindo a burguezia ; pela lucta do direito territorial dos Mu- 
nicipios contra o privilegio pessoal das dynastias ; pela decompo- 
sição da língua latina, que se impõe pela auctoridade dos erudi- 
tos ecclesiasticos e juristas, reagindo contra a vitalidade dos dia- 
lectos vulgares, que se tornam linguas nacionaes ? Os historiado- 
res que não penetraram o espirito d'esta grande época da huma- 
nidade, desorientaram-se n'essa chamada noite da Edade media, 
e perderam o fio conductor para estabelecerem a lógica dos suc- 
cessos da historia moderna e contemporânea. 

Na historia litteraria é imprescindível essa luz philosophica, 
não só para determinar épocas de desenvolvimento mental, como 
para a critica da actividade individual ; sem essa luz, tudo quan- 
to produziu a Edade media é bárbaro, e somente as imitações dos 
modelos clássicos ou greco-romanos merecem admiração ; e indi- 
vidualidades como Gil Vicente, Rabelais, Montaigne, Shakespea- 
re, são aleijões litterarios comparados com qualquer correcta vul- 
garidade académica. A Litteratura, como producto social, só pô- 
de ser conhecida através das modificações históricas d'esse meio ; e 
a sua existência determina-se pelo desenvolvimento de uma liugua, 
órgão essencial de uma nacionalidade. Por esses dois axiomas 
bem simples, se conclue que para comprehender a evolução histó- 
rica de qualquer das Litteraturas modernas, é preciso ter uma 
clara idéa geral da Edade media, como o meio em que essas lin- 
guas e nacionalidades modernas se organisaram. D'esta idéa ge- 
ral resulta a perfeita demarcação do grupo das Litteraturas româ- 
nicas ou occidentaes, e consequentemente a filiação e apreciação 
comparativa de cada uma de per si. 

Uma phrase luminosa de Augusto Comte condensa nos seus 
elementos principaes todas as forças activas da grande elaboração 
social, religiosa, artística e económica da Edade media : « Sob 
qualquer aspecto que se examine o regimen próprio da Edade 
media, vê-se sempre emanar ou da separação dos dois poderes, ou 



iti o PODEK ESPIRITUAL (Prolcg. 

da transformação da actividade militar. » * Desdobremos esta fór- 
mula memoranda. A separação dos dois poderes, é essa longa lu- 
cta entre o dominio espiritual da Egreja que procura conservar o 
poder temporal que se destaca e exerce por via das Monarchias. 
Emquanto a Egreja confundiu em si os dois poderes, a Europa 
medieval esteve em certa forma sob um regimen theocratico, cujo 
espirito dominou na politica dos estados até á paz de Westphalia. 
A Egreja fundou uma disciplina moral, e um systema de educa- 
ção popular nas Scholce das suas Collegiadas ; na sua hierarchia 
apropriou-se da organisação administrativa romana conservando a 
autonomia local nas Lendas e santificações ; serviu-se dos coutos 
do povo para os Exemplos da sua predica, que teve de acceitar a 
linguagem rústica ou vulgar para a propaganda doutrinaria, e 
as Salas e cantos do povo para a sua liturgia. Porém, a confu- 
são com o poder temporal, levou a Egreja a tornar-se centralista, 
annullando diante do bispo de Roma as egrejas nacionaes ; oppon- 
do ao direito civil o Direito canónico^ submettendo a soberania 
politica á sagração do direito divino, e condemnando como here- 
sia toda a liberdade do pensamento. No periodo mais unanime da 
sua acção a Egreja condemna a leitura das obras dos escriptores 
da antiguidade como j)^'ofanos, e as especulações dos philosophos 
gregos e romanos são substituídas pela theologia; o concilio de 
Roma (1131) prohibiu aos monges o estudo do direito romano e 
da medicina, e o papa Honório, em 1220, estendeu a prohibição 
a todo o clero. ^ 

A realeza, na sua forma imperial e dynastica, é que lucta du- 
rante a Edade media para concentrar em si o poder temporal ; 
começa pela tentativa de restabelecimento da tradição unitária do 
Império romano, pondo em vigor o Digesto, onde estava definida 
a esphei'a dos direitos reaes ; cria um ensino secular ou leigo nas 
Universidades, para o estudo geral do direito, da medicina e da 
mathematica. Na sua organisação unitária, ou propriamente Mo- 
narchia, a realeza avoca a si o privilegio de conferir nobreza, ata- 
cando o desenvolvimento da classe feudal pelo cadastro dos No- 

1 Système de Politique positive, t. iii, p. 439. — * Cantu^ fíist. univ.. 
Época XI, cap. 25. 



§. Il) o PODER TEMPORAL 47 

hiliarios, e favorece as revoluções populares contra a prepotên- 
cia dos Barões, vindo assim a converter os guardas de corpo em 
exércitos permanentes, por meio dos quaes proclamou o seu poder 
absoluto. As condições que determinaram o predominio do poder 
temporal favoreceram a livre communicação com os monumentos 
da antiguidade greco-romana, n'essa3 Kenascenças [luinanistas, 
dos jurisconsultos no século xili, e dos philologos no século- xv. 
Os reis tornaram-se os protectores das Universidades, oppuzeram 
á nobreza das armas a nobreza da toga, e póde-se demarcar com 
clareza o século xv e xvi, como a época em que sob o predomi- 
nio da Renascença greco-romana, ficou desprezada a tradição da 
Edade media e renegada a sua continuidade histórica. A Edade 
media era explicada pelos eruditos da Renascença como uma de- 
turpação da cultura greco-romana; assim para os jurisconsultos 
do século XV os Feudos eram uma forma barbarisada da Emphy- 
teuse e do Usofructo romanos ; para os historiadores, os Estados 
modernos eram fundados pelos heroes foragidos da ruina de Troya ; 
para os artistas as ordens gregas existiam confusamente implici- 
tas na architectura gothica, como vemos em César Cicerano ex- 
plicando a cathedral de Milão pelas regras de Vitruvio ; para os 
theologos as doutrinas evangélicas eram sustentadas pela dialécti- 
ca de Aristóteles ; e o próprio Machiavelli, no Discurso sobre Ti- 
to LiviOf explica as luctas politicas que se passaram entre as ci- 
dades itálicas, pelo que observava na época da Republica de Ro- 
ma, Emfim, de par cora a grande poesia épica da Edade media, 
03 versejadores desenvolveram o cyclo troyano, e a classe dos Go- 
liardos vulgarisou entre o povo e cora o gosto popular as canções 
bacchicas era latim, como Gautier Mapes. 

As consequências d'este ponto de vista, que preponderou na 
Renascença, foram a separação constante entre os escriptores e o 
povo, e as litteraturas cahirem successivamente no culteranismo 
académico até afimdarem-se na frivolidade. ^ O erudito Luiz Vives 

1 Um ms. do século xiv, Isopet, demarca nitidamente o espirito culto 
ou latinista, e o tradicional conservado entre o vulgo, ou romance : 

Un clerc de grant science 
et de grant sapience, 



Í8 A ACTIVIDADE MILITAR E INDUSTRIAL (ProlCg. 

no livro De institutione foemince christiance, condemna todos os 
poemas da Hespanha, França e Flandres, todas as novellas d'el- 
Ics derivadas, e todas as obras da época da Renascença, como a 
Celestina e as Facécias de Poggio, que continuavam a tradição 
medieval. 

É nas litteraturas românicas que se torna evidente este impor- 
tante phenomeno, que as afasta do seu espirito nacional. 

A marcha social da Europa foi bastante complexa ; observe- 
mol-a emquanto á transformação da actividade militar. A pró- 
pria classe feudal, que conservava os hábitos guerreiros das ban- 
das germânicas, entrava em um periodo de guerra defensiva, co- 
mo se vê pela organisaçíio da Cavalleria para protecção do fraco 
contra o foiie (redresser les torts) ; a grande lucta das Cruzadas 
foi um esforço do monotheismo do occidente tornado defensivo, 
contra o monotheismo oriental que invadia a Europa; as luctas 
dos grandes vassallos converteram-se em guerras privadas, desta- 
cando-se na tradição os typos nacionaes, como o Cid, Arthur, 
Guilherme Tell, por servirem interesses da coUectividade. N'este 
sentido a idealisação mais completa é o typo de Carlos Magno, o 
heroe de quasi todas as Gestas medievaes, admirável pela sua 
acção uniticadora do Occidente, defendendo-o das invasões do nor- 
te e do sul pela sua superior capacidade militar e politica. Cria- 
se a justiça do rei ou o Ministério publico contra o arbítrio feu- 
dal, e o próprio poder real modifica-se em uma constante abdica- 
ção no generalato, e nos ministros, e por fim nos parlamentos. 

A actividade industrial, coadjuvada pelas descobertas maríti- 
mas e pelas especulações scientificas, começa nos burgos ou cida- 
des livres e desenvolve-se pelas federações ou ligas, como a das 
cidades hanseaticas. A idealisação dos typos guerreiros, represen- 
tantes de uma vida publica ou nacional, contrapoe-se uma nova 
idealisação da vida domestica, e das emoções pessoaes; a estabili- 
dade da paz inspira sentimentos benignos de amor, como o do Ly- 



le fist premierement ; 
et je Tmis en romans 
por eiUendre uns enfans 
et à la laye gent, 

(Ap. Du Meril, Ilist. ilc la Fable, p. 175.) 



§. II.) NEGAÇÃO DA EDADE MEDIA 49 

rismo provençal e petrarchista ; a satisfação do bem-estar expres- 
sa pela graça dos Contos e Fabliaux, e o estabelecimento de 
uma força moral, a opinião publica, resolvendo todas as coUisões 
de deveres e interesses synthetisados nas creações do Theatro 
moderno. 

Se a transição da Edade media consistiu no conflicto d'estes 
elementos, separação dos Poderes e a transformação da activi- 
dade militar, toda a transição importa um ponto de partida e um 
destino a que tende ; o ponto de partida foi o reatar a continui- 
dade histórica, restabelecendo a cultura greco-romana na Renas- 
cença, porém o destino final é que não foi comprehendido. A Egre- 
ja tentou pela organisação da Companhia de Jesus restaurar a sua 
theocracia; a Realeza, ligando-se com a Aristocracia, procurou 
sustentar o seu absolutismo, engrandecendo por via de casamentos 
certas casas reinantes, como a Casa de Áustria ou a dos Bour- 
bons, que avassallavam a Europa. Perdera-se a noção da occiden- 
talidade, achando-se envolvidas em guerras dynasticas as novas 
nacionalidades ; a França e a Hespanha invadiam a Itália, já es- 
cravisada pela Allemanha ; a Hespanha invadia a Inglaterra, e a 
Inglaterra occupava uma parte do território da França. Todos os 
monarchas obedeciam á utopia da fundação de uma Monarchia 
universal formada pela incorporação de todos os estados, utopia 
prosegiiida por Carlos v, Francisco i, Henrique viu, Luiz xiv, e 
ainda por Napoleão no seu desvairamento militar. Em consequên- 
cia d'esses elementos medievaes, a separação dos Poderes, pelas 
heresias coadjuvou o desenvolvimento do espirito scientifico, e pe- 
las revoluções vindicou os direitos individuaes ; e pelo engran- 
decimento do proletariado, d'onde sahiram os principaes pensado- 
res modernos, é que nasceu esse espirito critico do século xviii, a 
que se dá o nome de Encyclopedisrao, sendo os homens de let- 
tras os que universalisaram as doutrinas com que se reorgani- 
sou a sociedade europêa depois da Revolução franceza. Esse espi- 
rito critico, como negativista, era essencialmente destructivo ; pro- 
curando bases naturaes para o direito, para a moral, para a poli- 
tica e para a arte, renegou a Antiguidade clássica e a Edade me- 
dia, desconhecendo a sua intima solidariedade com a civilisação 
moderna ; as phrases de Helvetius e Raynal sobre a Edade me- 



50 OCCIDENTALIDADE (Proleg. 

dia, denominada trevas sem nome e estéril barbárie, tomaram cur- 
so unanime. O movimento litterario do começo d'e9te século, a 
que se deu o nome de Romantismo, proveiu de uma rehabilitação 
sentimental da Edade media ; os estudos philologico-comparativos, 
abrindo novos subsidies para a Historia da grande raça árica, de- 
terminaram a rehabilitação da Antiguidade greco-romana. Com 
estes elementos, coadjuvados pela corístituição das sciencias bioló- 
gicas, se chegou á synthese philosophica baseada sobre os antece- 
dentes sociaes, a qual indicou á politica europêa, desvirtuada pe- 
las intrigas diplomáticas dos vários estados, a sua solidariedade 
Occidental. 

3." Successão das Litteraturas românicas e filiação da Lit- 
teratura portugueza. — O dominio romano incorporou na sua uni- 
dade politica o occidente da Europa, a Itália, a Hespanha, as 
Gallias e a Bretanha ; depois da queda do Império, embora as ra- 
ças occidentaes se invadissem mutuamente, e constituissem um 
grande numero de estados, apesar de todas as differenças e anta- 
gonismos, um consenso tácito unificava-as moralmente entre si 
diante da tradição do Império e do Direito, da universalidade da 
língua latina ; o christianismo, copiando na sua hierarchia as for- 
mas municipaes, aproveitou-se d'e3tas condições para fundar na 
unidade do sentimento de uma mesma crença a sua catholicidade. 
As ordens da Cavalleria religiosa e as Universidades agrupavam 
as naqôes como categorias dos seus associados. Com o desenvol- 
vimento da civilisação foram-se accentuando as similaridades eth- 
nicas dos ramos da grande raça árica na Europa, e as próprias 
instituições politicas, hellenicas, romanas e germânicas, foram uni- 
ficadas em typos communs derivados da primitiva constituição 
árica, como o provou scientificamente o publicista Freeman. 

Assim se elevou a civilisação da Europa á affirmação conscien- 
te da sua occidentalidade. 

Entre os povos do Occidente, como a Itália, a França meri- 
dional, a Hespanha, essa unidade etbnica fez-se sentir muito ce- 
do, pela tradição de ura mesmo lyrismo, que irradiou da Proven- 
ça, de eguaes rudimentos épicos, como os Romanceiros, e de cos- 
tumes domésticos e sociaes que se transformaram nas mesmas 



§. II.) HEGEMONIA DA FRANÇA 51 

creaçôes dramáticas e novellescas. Sobre este fundo commum é 
que se operou a unificação romana. As raças germânicas deveram 
a sua incorporação na civilisação occidental á acção da propagan- 
da catholica. Os seus mythos polytheistas perderam o sentido re- 
ligioso, e persistiram como elementos poéticos, elaborando-se em 
Cantilenas que vieram a formar o cyclo germânico dos Niebelun- 
gens, e o cyclo franko das Gestas carlingianas. O elemento saxo- 
nio, luctando para submetter a decahida raça bretã, provoca a 
revivescência das tradições bretãs do cyclo da Tavola Redonda. 
As litteraturas modernas creando-se sobre esta variedade de ele- 
mentos tradicionaes, revelam nas suas origens e progressos, a 
successão das nacionalidades que se foram constituindo e tornando 
as suas linguas escriptas. O grupo do Meio-dia da Europa foi o 
primeiro a continuar a Civilisação occidental, interrompida pela 
queda de Roma ; o grupo do Norte só entrou na civilisação moder- 
na depois do século xvi, porém entre todos os novos estados foi a 
França o centro hegemónico, que imprimiu direcção e impulso a 
esta corrente que se chama a Civilisação da Europa. 

a) A França. — A cultura grega, que chegou a ter um cen- 
tro em Marselha, e a cultura romana, em Tolosa e em quasi to- 
da a Gallia meridional, além de outras condições mesologicas, fa- 
voreciam a França para exercer uma acção civilisadora sobre to- 
dos 08 povos da Edade media. Pela região da Aquitania, propa- 
gava-se á Itália e á Hespanha a poesia trobadoresca da Proven- 
ça, que encontrava as mesmas tradições célticas, e os mesmos es- 
timules de contacto com os Árabes. Pela fusão com o elemento 
franko, tinha a França as condições para influir directamente so- 
bre as raças germânicas, da Inglaterra pelos Normandos, e da Al- 
lemanha pela propagação dos seus cantos lyricos, das suas Uni- 
versidades, dos seus dogmas religiosos e ainda das suas doutrinas 
politicas. Desde a Edade media até ao nosso século a supremacia 
hegemónica da França foi reconhecida pelos mais elevados espiri- 
tes, como Dante e Brunetto Latini, Martin de Carrale ^ e Al(:^ 

^ Dizia Martin de Carrale, em 1275, justificando-se de escrever a His- 
' ria de Veneza em francez: « Parce que la langue françoise cort parmi le 
.'mde, et est la plus delitable à lire et à oir que nulle autre. » 



íiá CARACTEllES DA LITTERATURA FRANCEZA (Proleg. 

dobrandino de Sena, até aquelle presidente dos Estados-Unidos 
da America, que dizia: «Cada individuo tem duas pátrias, aquel- 
la em que níisceu e a França. » Como a nacionalidade franceza 
foi a primeira que se constituiu, assim mais cedo se creou a sua 
Litteratura, vindo a ser imitada por todos os outros povos da Eu- 
ropa. Diz Charrière : « Formada dos restos das nacionalidades 
feudaes, chegou a esta homogeneidade perfeita que faz viver um 
povo como um só homem. — Foi a ella que a França deveu esta 
sociabilidade tão fácil, que faz d'ella em todos os tempos a nação 
civilisada por excellencia, e que lhe revela por toda a parte, mes- 
mo para as organisações mais rebeldes e antipathicas, um lado 
intelligivel e apreciável; o que reproduziu na sua litteratura as 
feições especiaes de cada província sob uma physionomia geral; 
etc. » ^ Essa fusão de raças reproduz os seus caracteres nas crea- 
çòes do espirito: o elemento gallo-romano, do sul da França, de- 
pois da primeira cruzada desenvolve os germens tradicionaes do 
seu lyrisrao, das alvoradas, das serenadas e dos puy ou ajunta- 
mentos poéticos, nas canções escriptas dos Trovadores da Proven- 
ça, que se propagam e são imitadas na Hespanha e Portugal, na 
Itália, na França do norte, na Inglaterra e na Allemanha onde 
apparecem os Menesingers reproduzindo-lhe todos os seus artifícios 
da Gaia sciencia. O elemento gallo- bretão propaga as novellas da 
Tavola Redonda, sympathicas a todos os povos de origem céltica 
pelo thema exclusivo do amor e da aventura, confundiu do-se 
com o espirito messiânico na cavalleria celeste dos poemas do 
Santo Greal', nenhum paiz da Europa deixou de obedecer ao in- 
fluxo d'esta corrente, que sustentou ainda na época da Renascen- 
ça o gosto pelas Novellas de cavalleria escriptas na prosa das 
Chronicas nacionaes. O elemento gallo-franko, que apoiou a uni- 
ficação nacional da França, desde Carlos Magno até Joanna 
d'Arc, idealisou o grande typo imperial nas epopêas ou Gestas ca- 
rolinas, e na lucta dos grandes vassallos feudaes contra a unifi- 
cação monarchica. A dupla influencia latina e românica, que ap- 
parece na litteratura franceza, é exercida diversamente por esta 
nação; os seus trovadores, jograes, menestréis e troveiros, propa- 

^ Politique de VHisloire, t. ii, p. 408. 



§. II.) LITTERATURA ITALIANA 53 

gam pelas suas excursões as formas e themas das cançues, das 
sirventes, das gestas, dos fahliaux, das novellas e das soties entre 
todos 03 povos que os escutam ; a cultura clássica é recebida em 
Tolosa e em Paris, para onde convergem os principaes espirites, 
como Dante, Brunetto Latiui, Boccacio, Petrarcha, emfim todos 
os alumnos da Universidade mãe de todas as Universidades da Eu- 
ropa. Sem conhecer e^stes caracteres fundamentaes da Litteratura 
franceza, não poderão ser bem apreciadas as Litteraturas româ- 
nicas emquanto ao desdobramento similhante das suas origens. 
Póde-se dizer, que até ao fim do século xv, a Litteratura france- 
za é completamente orgânica, isto é, formada pela evolução dos 
seus elementos próprios, eraquanto ao lyrismo, á epopêa e ao 
drama. 

6) A Itália. — Por falta de uma nacionalidade, a Itália não 
pôde desenvolver as tradições heróicas, conservadas em Roman- 
ces narrativos como os da Hespanha e da Grécia moderna, em 
formas de epopêa como as Gestas francezas. Por este motivo as 
Gestas carlingianas não lhe foram sympathicas, parodiando-as 
grotescamente em composições litterarias; os cantores de Carlos 
Magno ficaram sendo na tradição do vulgo os ciarlatani. Os the- 
mas novellescos dos fabliaux perderam a forma metrificada, e fo- 
ram redigidos em contos em prosa, como os de Boccacio, de Sac- 
chetti, de Florentino, conduzindo assim para a definição d'e8sa for- 
ma nova das litteraturas modernas ou o Romance burguez. A 
idealisação das lendas catholicas, e o sentimento da falta de uni- 
dade politica nos diversos estados italianos, inspiraram a Dante o 
poema da Divina Comedia, cujo influxo consistiu em fixar d'en- 
tre um grande numero de dialectos o toscano, que realisou na 
litteratura a aspiração expressa por todos os espirites a uma pá- 
tria italiana. A actividade especulativa era o que restava a essas 
altas individualidades nascidas em um paiz sem liberdade. As 
canções imperfeitas dos trovadores, foram levadas á mais sublime 
perfeição por Petrarcha, que deu á expressão amorosa o intuito 
philosophico recebido das escholas neo-platonicas renovadas na 
Itália. Por esta actividade especulativa, a Itália estava destinada, 
além dos seus antecedentes históricos, a ser o centro dos estudos 
humanistas da Renascença, influindo na Hespanha pelos lyricos 



54 UNIFICAÇÃO HISPÂNICA. (Proleg. 

da Eachola de Sevilha, na França sob Carlos VI e Francisco i, 
na Inglaterra em Chaucer ató Shakespeare, e em Portugal desde 
o tempo de Dom João ii. As litteraturas românicas vão no seu 
appareciraento influenciando-se reciprocamente, como consequên- 
cia da sua intima porém mal conhecida solidariedade. Uma forma 
litteraria apresentou na Itália caracteres orgânicos, — o theatro. 
É devido isso á sua vida civil, sustentada pela vigorosa organisa- 
ção municipal, que mantinha a divisão politica da Itália, não po- 
dendo elevar-se a uma forma de aggregação mais ampla, a de na- 
ção. As formas dramáticas dos Disciplinati e a Comedia suste- 
nuta seguiram uma evolução natural até ás bellas comedias de 
Goldoni. 

c) A Hespanha e Portugal. — A unificação nacional da Hes- 
panha, realisada somente no fim do século xv, foi um phenomeno 
laborioso, violento e tardio, operado pelos interesses dynasticos da 
Monarchia, de Fernando e Isabel até Philippe ii, e pelo intole- 
rantismo catholico da época inquisitorial. O facto e a época, ex- 
plicam-nos a difficuldade de fundir em um mesmo todo — um fun- 
do ibérico, persistente na população e verificável nos costumes, 
nas tradições e superstições do vulgo; um fundo semítico, primei- 
ramente phenicio e carthaginez, e depois árabe e mauresco ; e 
simultaneamente elementos áricos representados pelos Celtas, pe- 
los Romanos, pelos Jonios, e pelos Visigodos. Todos estes elemen- 
tos incorporados pela acção dos Romanos, acharam na lingua la- 
tina o núcleo para o desenvolvimento de novos dialectos; pelo 
conflicto histórico os Visigodos procuraram continuar essa unida- 
de não só pela tradição imperial,' como pela crença exclusiva do 
catholicismo. É por isto que se observa na Litteratura hespanhola 
uma intima antinomia : de um lado, um riquissimo fundo tradicio- 
nal, de que se inspiram quasi todos os escriptores, a par de uma 
imitação do classicismo greco-romano fortalecida pela hostilidade 
catholica contra todos os vestigios do paganismo. O seu génio sen- 
sual e irapressionavel levou o hespanhol a imitar as bellezas do 
lyrismo subjectivo de Petrarcha, e á pompa oriental de uma rhe- 
torica, que por via dos Senecas e de Quintiliano introduzira em 
Roma. O espirito separatista, que manteve tantos séculos a auto- 
nomia dos Estados peninsulares, fal-o abandonar os seus rudimen- 



\ §. II.) LITTERATURA PORTUGUEZA EM HESPANHA 55 

to3 épicos dos Romanceiros e acceitar as Gestas francezas da lu- 
cta dos grandes vassallos contra o poder real. A vida guerreira, 
sem destino depois da tomada de Granada, é idealisada nas pro- 
lixas Novellas de cavalleria, e nos dramas de capa e escada, co- 
mo as pompas cultuaes do catholicismo se reproduzem nos Autos 
sacramentales . Ha um certo desequilibrio mental proveniente 
d'estes elementos ethnicos e d'esta unificação violenta ; nos Ro- 
manceiros, é a xácara do cyclo de Guapos y Valentones, e na 
Novella é a forma picara, da Lozana Andalusa, da Justina, do 
Gusman d' Âlfarrache, do Marcos de Ohregon, que tanto influíram 
na França inspirando ao génio gaulez o Gil Blas, e o Bacharel 
de Salamanca. A comedia de capa e espada influiu na actividade 
de Oorneille e de Molière, na época em que por seu turno a Hes- 
panha pelas suas vigorosas tradições era imitada pelas outras lit- 
teraturas românicas. 

Ao passo que outras litteraturas peninsulares, como a galle- 
ziana, a valenciana e a catalan se extinguiam com as suas nacio- 
nalidades, Portugal elevando-se da suzerania de Condado a nação 
fortaleceu-se no seu individualismo pela creação da sua litteratu- 
ra e linguagem, influindo na Litteratura hespanhola na época de 
Aâ'onso o Sábio, e enriquecendo o theatro castelhano em concor- 
rência com Lope de Vega e Calderon ; as novellas de cavalleria re- 
ceberam em Portugal a sua forma em prosa no Amadiz de Gaula 
e no Palmeirim de Inglaterra, de que a litteratura hespanhola se 
apropriou, como da Novella pastoral iniciada na Diana por Jor- 
ge de Monte-Mór. Por esta filiação histórica conhece-se immedia- 
tamente o que a Litteratura portugueza recebeu das outras litte- 
raturas românicas, o que desenvolveu do seu fundo orgânico, e 
por que forma influiu em outras litteraturas embora mais fecun- 
das, e até que ponto se amoldou aos cânones clássicos impostos 
pelos eruditos da Renascença. 

d) Inglaterra e AUemanha. — Resta-nos o grupo das Litte- 
raturas do norte nas suas relações com as meridionaes ou novo- 
latinas ; sem estas relações bem determinadas não se avalia a acção 
reflexa exercida pelo Romantismo. Ainda aqui a França exerce a 
sua acção hegemónica ; assim como os dialectos da França meri- 
dional, do Languedoc, da Provença, do Delphinado, do Lyonez, 



56 A LITTERATURA INGLEZA (Proleg. 

do Auvergne, de Limousin e da Gasconha, se aproximavam do la- 
tim, facilitando a sua communicação com o occidente da Europa, 
assim os dialectos da França septemtrional, como o normando, o 
picardo, o flamengo e o wallon, tornavam a França communica- 
vel a todos os povos que fallassem qualquer dialecto teutonico. A 
primeira influencia da França exerceu-se na civilisação da Ingla- 
terra pela conquista normanda ; ao passo que Guilherme o Bastardo 
promulgava as suas leis em francez, e ordenava que as i'ezas e 
sermões se fizessem ofíi cia! mente n'esta Hngua, em França só no 
tempo de Francisco i é que os actos judiciários deixam de ser es- 
eriptos em latim. A lingua ingleza constituiu-se sobre um fundo 
anglo-saxSo pelo vocabulário franko-normando, que era a lingua- 
gem da corte e do governo, fallada durante três séculos, mesmo 
depois dos reis de Inglaterra terem perdido a Normandia. Os 
alumnos de Oxford, ainda em 1328 eram obrigados a fallar la- 
tim ou o francez. O emprego da lingua ingleza nas escholas 
(1350) e nos actos officiaes (1362) coadjuvou a independência da 
nação ingleza nas suas luctas contra a França. Na litteratura 
preponderam estas duas correntes, a normanda, que representa a 
elemento latino ou clássico, e a anglo-saxa, conservadora das tra- 
dições germânicas e medievaes. Coratudo, os espirites mais eleva- 
dos, como Shakespeare, que recebe toda a sua philosophia do es- 
tudo de Montaigne, nunca deixaram de ser influenciados pela 
França. Na época da Renascença o espirito clássico é communi- 
cado á Inglaterra pela Itália, por Wyat e Surrey; escrevia em 
1592 o critico de Puttenham, referindo-se a estes reformadores: 
«Tendo viajado na Itália, iniciaram-se no metro harmonioso e no 
estylo magestoso da poesia italiana. » O prurido latinista na In- 
glaterra patenteado pela eschola dos Euphuistas, era similhante 
ao da Plêiade franceza. Uma grande parte dos themas das tra- 
gedias de Shakespeare é tirada dos Varões illustres de Plutarcho, 
e dos Novellistas italianos como Boccacio, Geraldo Cynthio, Ban- 
delle, LoUius de Urbino e Belleforest. 

Pelo Catholicismo e pelas Universidades, a Allemanha rece- 
beu a cultura greco-latina, e a influencia franceza prolongou-se 
desde o fim da Guerra dos Trinta annos (1646) até ao sécu- 
lo xviii; por occasião da Guerra dos Sete annos, é que a com- 



§. II.) A ALLEMANHA E O ROMANTISMO 57 

municação com a poesia ingleza antiga lhe revela a existência de 
uma tradição germânica obliterada, e que era o elemento mais 
vigoroso da época medieval. Operon-se uma revivescência erudi- 
ta, estudando os monumentos do f)assado, e a Allemanha em Lea- 
sing, em Schlegel, em Grimm, descobre a sua tradição, a sua lin- 
guagem, e uma livre idealisação artística sobre a vida medieval, 
a que Gcethe e Schiller chamaram o Romantismo. Assim por seu 
turno, a Allemanha, que se esterilisára três séculos com as que- 
rellas religiosas do Protestantismo, avançou pela audácia intelle- 
ctual dos seus pensadores; e pelo espirito revolucionário compre- 
hendido por Kant e Fichte, sacudiu de si a imitação dos mode- 
los da litteratura académica da época de Luiz Xiv. O estado das 
Línguas românicas por Diez, dos Romanceiros hespanhoes por 
Jacob Grimm, das Gestas frankas por Becker, das Novellas ita- 
lianas por Keller, encaminham a critica para o conhecimento 
scientifico d'esta occidentalidade entrevista vagamente pelos poe- 
tas e artistas, que exageravam a idealisação da Edade media no 
Ultra-romantismo. A lucta entre os Clássicos e Românticos, que 
encheu o principio d'este século, sahiu do campo theorico para o 
conflicto politico entre o exclusivismo do partido catholico-feudal 
e o negativismo revolucionário que se debatiam. Em todos os pai- 
zes, como a França, a Itália, a Hespanha e Portugal, o Roman- 
tismo foi simultâneo com a reorganisação das instituições politi- 
cas; foi esta relação que deu ás litteraturas um cunho de verda- 
de e de realidade, ligando-as ao impulso de ura abalo nacional e 
não á auctoridade de uma eschola. 

4." Épocas históricas da Litteratura portugueza. — Da mar- 
cha completa da Edade me lia e das transformações successivas 
da nacionalidade portugueza, tiram-se os tópicos com que se cara- 
cterisam de ura modo nitido as modificações ou épocas d'e8ta lit- 
teratura romana: 

Primeira epoca. .{Século XII a XIV) Predomina o lyrismo 
provençal em toda a Europa, e essa corrente propaga se a Portu- 
gal, primeiramente pela vinda de alguns Trovadores com os Cru- 
zados; depois com as relações da corte com a Saboya, definindo- 
se uma influencia italiana não só nas instituições municipaes, co- 



58 ÉPOCAS LITTERARIAS (Proleg. 

mo na imitação das canções de Sordello e de Bonifazio CalvQ. — 
A emigração de alguns fidalgos portuguezes que acompanharam 
D. Aifonso, conde de Bolonha, durante a sua permanência na corte 
de S. Luiz, foi o meio mais activo da propagação da poesia troba- 
doresca modificada pelo norte da França, e introduzida depois do 
triumpho de D. Affonso iii. Uma phase nova de desenvolvimen- 
to lyrico começa com o rei D. Diniz, que imita directamente a 
poética provençal, e se apropria de elementos tradicionaes galle- 
zianos das serranilhas ou cantares de amigo. Por ultimo, a época 
distingue-se por um estudo critico de compilação no grande Li- 
vro das Cantigas do conde de Barcellos. A poesia provençal per- 
de 03 seus cultores durante o reinado de D. AíFonso IV, refugian- 
do-se alguns trovadores junto de Aflfonao xi de Castella, que ain- 
da mantinha pelas suas composições o estudo da Gaia sciencia. 

N'esta época são frequentes as allusões ás epopêas gallo-fran- 
kas, apparecendo uma parodia em Gesta de Maldizer, por Affon- 
so Lopes Baiam. Existem vestigios de tradições épicas, como o 
romance de Ayres Nunes, análogos áquelles que Affonso o Sábio 
intercalou na sua Chronica. 

A influencia armoricana ou gallo-breta, manifesta-se em Por- 
tugal pela forma lyrica dos lays, pelas tradições novellescas, como 
a do Rei Lear, e pela propagação de poemas de aventuras, como 
o Tristão e Flores e Brancajior, cujos elementos episódicos se 
desenvolvem na novella do Atnadis de Gaula em prosa. 

A cultura latina, que se desenvolve com a independência do 
poder real, apparece nas narrativas do Nobiliário do conde D. 
Pedro, e em tradições do cyclo épico denominado Greco-romano ; 
propaga-se pela fundação da Universidade de Lisboa e Coimbra, 
e por um grande numero de traducções do latim pelos moralistas 
ecclesiasticos. 

Skgunda época. [Século XV) Não se continua o desenvol- 
mento da Poesia provençal, como succede na Itália com Petrar- 
cha, e na Hespanha já secundariamente por Micer Imperial. Quan- 
do sob a regência do infante D. Pedro, se reconciliam as cortes 
de Castella e Portugal, a poesia castelhana da Eschola de Juan 
de Mena exerce uma grande fascinação na poesia palaciana, re- 
presentada no Cancioneiro geral de Garcia de Rezende. É despre- 



§. II.) QUINHENTISTAS 59 

zado o elemento tradicional da poesia. As Novellas da Tavola 
Redonda, como a Demanda dcr-Santo Greal, são imitadas, e mui- 
tos poemas da Edade media acham-se colligidos na magnifica Bi- 
bliotheca do rei D. Duarte. Porém n'esta Bibliotheca apparece 
uma grande predilecção pelas obras clássicas da antiguidade, e a 
litteratura consiste principalmente na traducção e compilação de 
livros latinos. A Historia adquire um grande desenvolvimento a 
par do poder real, nos trabalhos de Fernão Lopes, Gomes Ean- 
nes de Azurara e Ruy de Pina. Introduz se a Imprensa, e a mo- 
cidade portugueza vae á Itália frequentar as escholas dos huma- 
nistas da Renascença. 

Terceira época. (Século XVI} Corresponde ao período de 
maior actividade da nação portugueza ; a litteratura dos Qui- 
nhentistas, é simultânea com as grandes navegações e descobertas 
do caminho da índia e do Brazil. Constitue-se a Grammatica da 
língua portugueza por Fernão de Oliveira e João de Barros ; fun- 
da-se o theatro nacional com formas populares por Gil Vicente ; 
a poesia lyrica apresenta a forma medieval e a da Renascença, 
nos poetas da medida velha e os petrarchistas, da mesma fúrma 
que a poesia épica conserva as formas tradicionaes e rudimenta- 
res do Romance e o typo virgiliano na oitava rima, adoptada por 
Camões. Gil Vicente é o escriptor que representa de um modo 
mais completo as formas da litteratura medieval ; Sá de Miranda 
oppõe ás suas primeiras composições em redondil/ias, os novos me- 
tros endecasyllabos, com que introduziu em Portugal o gosto da 
Renascença italiana; Camões, pela superioridade do seu génio, 
funde estes dois elementos nos seus Lusiadas, da mesma forma 
que Shakespeare em Inglaterra. 

A litteratura portugueza do século xvi deriva d'este8 escri- 
ptores por uma relação muito clara; Gil Vicente é imitado du- 
rante o século XVI e xvii por António Prestes, António Ribeiro 
Chiado, e outros na forma do Auto; Sá de Miranda ó imitado 
por António Ferreira, Pedro de Andrade Caminha, Diogo Ber- 
nardes, Falcão de Rezende, Dom Manoel de Portugal, emquanto 
ás formas italianas; e por Francisco Rodrigues Lobo, D. Fran- 
cisco Manoel de Mello e Tolentino emquanto ás redondilhas; Ca- 



60 ACADEMIAS LITTERARIAS (Prolfg. 

mões é imitado não só por aquelles que plagiaram 08 seus versos, 
como pelos que compuzeram epopêtis históricas. 

A justa relação entre os elementos medievaes e clássicos foi 
quebrada pelo predomínio do ensino jesuítico, que tomou conta da 
Universidade de Coimbra em lõõO, e pela Censura litteraria es- 
tabelecida pelo cardeal D. Henrique. A Historia ainda apresen- 
tou cultores, como João de Barros, Fernão Lopes de Castanheda, 
Damião de Góes e Diogo de Couto, uns perseguidos, outros po- 
bres, e quasi todos sem liberdade para exercerem a critica. Ao 
fim de trinta annos de ensino jesuítico a consciência portugueza 
perdeu o sentimento da nacionalidade, e acceitou com festas a in- 
corporação castelhana realisada por Phílippe ii. O fim do século 
faz-se notar pela publicação de quasi todas as obras dos Quinhen- 
tistas, as quaes estavam inéditas. 

Quarta época. (Século XVII) Portugal não acompanha o 
movimento scientifico do século em que se organisam as Acade- 
mias; estas corporações litterarias são imitadas na forma, para 
tertúlias ou sessões poéticas conforme o chamado gosto gongorico. 
Apresenta ainda poetas eminentes, como D. Francisco Manoel de 
Mello e Francisco Rodrigues Lobo ; mas a maioria dos escripto- 
res obedece aos exageros de uma rhetorica stulta, como os poetas 
da Phenix renascida. A revolução de 1640, com que a naciona- 
lidade portugueza recuperou a sua independência, não se fez sen- 
tir nas creações da Litteratura, á parte as Comedias de Pedro Sal- 
gado e as folhas volantes de Francisco Lopes. 

Quinta época. (Século XVIII) O que fizeram os Juriscon- 
sultos da Edade media para a emancipação da sociedade civil, 
continuaram -no os Litteratos no século xvill procurando pelas 
emoções artísticas vindicar a liberdade politica. Em Portugal os 
escriptores estiveram sempre separados da vida social e não co- 
nheceram as tradições nacionaes; acceitavam o despotismo como 
uma forma de governo paternal, e confinavam-se nas suas Arcá- 
dias imitando Horácio, e promovendo o purismo da cultura lati- 
na contra um pouco de liberdade de phantasia do gosto seiscen- 
tista. Raros são os escriptores que se destacam n'esta época ; Gar- 
ção, Quita, Diniz, Tolentino, Filínto Elysio e Bocage, mantém 
a sua superioridade á custa do estudo da grande época dos Qui- 



§. II.) EMIGRAÇÕES PORTUGUEZAS 61 

nhentistas. Alguns homens de sciencia tentam relacionar Portu- 
gal com o movimento scientifico europeu; tal foi a missão do du- 
que de Lafòes, de Corrêa da Serra, e o motivo da Fundação da 
Academia das Sciencias de Lisboa. 

Sexta época. (Século XIX) O contacto de Portugal com a 
civilisação europêa estabeleceu-se pela emigração de 1817, quan- 
do se refugiaram em França o Morgado de Matheus, Mascare- 
nhas Netto, Félix de Avellar Brotero, Domingos António Sequei- 
ra, e outros que fugiam á accusação de jacobinos, e ao canibalis- 
mo de Beresford, que governava militarmente Portugal. Pela 
reacção do absolutismo contra a Constituição de 1822, seguiu-se 
uma segunda emigração, e em 1828 pela abolição da Carta de 
1826, uma terceira e mais activa emigração ; forçaram o espirito 
portuguez a pôr-se em contacto com os progressos intellectuaes e 
artísticos da Europa. Depois do triumpho da causa liberal, o re- 
gresso dos emigrados fez se sentir na Litteratura, transformada 
segundo as normas do Romantismo ; pela primeira vez a Littera- 
tura, depois da época dos Quinhentistas, se inspirou de themas 
tradicionaes e com relação á vida da nacionalidade, A época sur- 
giu fecunda, porém as ambições politicas excitadas pelo parla- 
mentarismo, absorveram todos os talentos, cahindo a Litteratura 
em uma symptomatica inanidade, contra a qual reagiu indisci- 
plinadamente a chamada Eschola de Coimbra. 



PRIMEIRA EPOGA 



(século XII A XIV) 

TROVADORES GALLECIO-PORTUGUEZES 



§. I — Influencia cio su.1 da França, on gallo-romana s 

1." Origem e diffusão da litteratura provençalesca e sua communicação a 
Portugal : 

a) Communicação pelos Trovadores das Cruzadas. 

b) Cominunicuçáo italo-provençul: Sordello e Bonifácio Calvo. 

c) Communicação pelo norte da França. Jograes de segrel. 
2." O Cyclo dionisio : 

a) A Eschola limosina, e a Poética provençal portugueza. 

b) Elementos tradicionaes gallezianos — Serranilhas e Cantos de Le- 

dino. 

c) O Lii>ro das Cantigas do Conde de Barcellos. Elenco dos Cancio- 

neiros provençaes purtuguezes. 

§. II — Influencia d.o norte cia França, ou gallo-franka s 

a) As Canções de Gesta, e aliusões ao Cyclo cariingiano. 

b) As tradições épicas no Romanceiro peninsular. 

c) O poema da Batalha do Salado. 

%. III — Influencia armoricana, ou gallo-bretã : 

a) O efemento lyrico dos Luys. 

b) O elemento novellesco — Lendas do rei Lear, de Arthur, Merlim, Tristão. 

c) Foi mação do Atnadiz de Gaula. 

%. IV — Influencia latino-ecclesiastica e humanistas 

1." O Cyclo dos poemas greco-romanos. 

2.° As ti'aducçòes latinas — Livraria de Alcobaça : 

a) Visão de T andai. • 

b) Barkiam e Josaphat. 

c) Ch'to de Sposo. 

d) Traducções do Velho Testamento. 
3." O poder i-eal protege o humanismo : 

a) Fundação da Universidade. 

b) Nobiliários. 

c) Organisação das Chronicas em prosa. 

Influencia do sul da França, ou gallo-romana 

Todas as litteraturas românicas e germânicas no seu periodo 
orgânico imitaram as canções de um exagerado subjectivismo e de 
requintado artificio poético escriptas pela primeira vez na lingua 
d'oc, que se fallava na parte meridional da França. Emquanto se 
eetudou esta poesia separada das suas origens populares, a Pro- 
vença appareceu como a iniciadora da renascença social da Eu- 
ropa. O critério positivo da filiação histórica reduz a condições 



64 IRRADIAÇÃO DO LYRISMO PROVENÇAL (EpOCa 1." 

naturaes este phenomeno extraordinário, que da Provença irra- 
diou para o norte da França, para a Itália, Hespanha, Inglater- 
ra e Allemanha. Vejamos as causas etimológicas que determina- 
ram a prioridade do desenvolvimento do lyrismo provençal. 

1.° Origem e diffusão da litteratura provençalesca e sua 
communicação a Portugal. — A zona geographica em que se ope- 
rou este desenvolvimento poético abrange desde o norte do Loire, 
passando pela ponta do lago de Génova, da Sevres niorteza para 
oeste, ducado da Aquitania, Auvergne, Rodez, Tolosa, Provença 
e Vienna. Foi justamente n'esta zona, que a raça gauleza ficou 
submettida á conquista romana ; o romano ao fixar o seu dominio 
não se cruzava com o vencido, como aconteceu com as tribus ger- 
mânicas, mas comtanto que se submettessem ao seu systema de 
administração, deixava o livre exercício das crenças religiosas, 
dos costumes, e no período imperial chegou a fomentar o desenvol- 
vimento das instituições municipaes. O sul da França deveu á li- 
berdade democrática do municipalismo a conservação dos seus 
elementos tradicionaes e o vigor da sua cultura. Os cantos gaule- 
zes não apparecem escriptos, porque era uma prohibição religiosa 
o coliigil-os da transmissão oral, mas é certo que esses cantos sub- 
sistiram ainda depois da conquista romana, pois que vários Con- 
cilies, como o de Auxerre, de 578, prohibiam os cantos das don- 
zellas, os cantos satyricos, e ao mesmo tempo davam nomes infa- 
mantes aos que os cantavam, taes como joculatores, jograes, os 
ministr alies y menestréis, oa scurrce, os mimi, jocistce e histriones. 
Estes cantos vulgares dos costumes gaulezes propagaram-se nas 
camadas populares sempre conderanados pelo catholicismo, até que 
um facto histórico veiu accidentalmente influir na sua generalisa- 
ção, sendo litterariamente imitados successivamente pela aristocra- 
cia e em todas as cortes da Europa. 

A primeira Cruzada, publicada em 1095, fez com que a clas- 
se senhorial se ausentasse dos seus castellos para a conquista do 
santo sepulchro ; a estabilidade civil desenvolveu pacificamente as 
suas garantias, e uma certa expansão na revivescência dos velhos 
costumes. Os menestréis e jograes eram os representantes dos an- 
tigos bardos decahidos das suas funcçoes de poetas -sacerdotes ; 



Século XII a xiv.) tradição gauleza 65 

Bellogaet, fallando dos Bardos da corte, diz « que esta instituição 
atravessou séculos e tornou-se uma feição característica dos costu- 
mes gaulezes e irlandezes da Edade media. » ^ No século x, 
quando Hoel o Bom mandou colligir as leis consuetudinárias cam- 
brianas, estatuiu acerca dos Bardos : « Quando a rainha quizer 
ouvir um canto, o Bardo domestico será obrigado a cantar um á 
sua escolha, mas em voz baixa, ao ouvido, para que a corte não 
seja perturbada. » ^ E este costume que se propaga a todas as 
cortes peninsulares, onde estes cantores eram conhecidos pelo no- 
me de Segreis. Belloguet considera também as Cortes de Amor 
como uma sobrevivência do costume gaulez na intervenção da 
mulher nos negócios públicos : « Crêr-se-ha que a tradição d'estas' 
mulheres juizas e diplomatas, desconhecida no norte da Grallia, 
nunca se extinguiu inteiramente no Meio-dia, onde os seus tribu- 
naes, com uma diíferente competência, ó certo, passaram por te- 
rem reapparecido quinze séculos mais tarde sob o nome poético de 
Cortes de Amor. » ' As assembléas poéticas ou Puy, (os nossos 
Outeiros, do século passado) foram a persistência popular d 'essa 
antiga instituição renovada. A rota, ou o instrumento de corda, 
a que se acompanhava o trovador, é a croud gauleza, que Venân- 
cio Fortunato denominava chrotta britana. Certos cantos conser- 
vavam o seu antigo caracter, como a sirvente, satyra com que os 
bardos gaulezes verberavam as acções indignas. As divagações 
nocturnas, provocadas pelo clima agradável da zona gallo-roma- 
na, motivavam as formas provençaes da Aubade e Serena, as al- 
voradas e serenadas usadas pelo povo. Santo Isidoro de Sevilha 
allude ao canto dos Ballismatia, cuja persistência durante toda a 
Edade media apparece no sul da França, Itália e Portugal com o 
nome de Ballet, Baylata, Baylia, em formas similhantes resultan- 
tes de um fundo ethnico commum. As canções do primeiro trova- 
dor Guilherme ix, conde de Poitiers e Duque de Aquitania, (1087) 
revelam a existência de outras anteriores ao século xi ; Guilherme 
de Berguedan faz uma canção em son veill antic; Pedro de Auver- 



1 Ethnogénie gauLoise, t. iii, p. 33o. — 2 Leges Wallice, ap. Ampere, 
Hist. littéraire de la France, t. i, p. 70. — ^ Ethnogénie gauloise, t. iii, p- 
327. 

5 



66 INFLUENCIA DAS CRUZADAS (EpOCa 1 .•* 

gne protesta que foge de toda a iraitaçSo ; Gui d'UÍ38el reconhe- 
ce que custa a ser original, pois que já está tudo dito em árias 
agradáveis ; Cercamons é considerado pelos outros trovadores 
como auctor de pastorellas no gosto antigo. A persistência da tra- 
dição e sua propagação á Itália e Hespanha, indicam a existência 
de um fundo ethnico commum, que se conservou no solo da Aqui- 
tania, onde resistiu á torrente das invasões áricas. Essa raça foi 
confundida sob o nome de Gaulezes com todas as outras raças su- 
pervenientes ; Strabão conheceu as suas analogias com os Iberos ; 
Fauriel determinou um elemento basco entre o glossário proven- 
çal, e por ultimo os modernos estudos anthropologicos definem 
essa raça como um elemento scythico ou mongolico, como se com- 
provava pelos cantos lyricos comparados com os accadicos, com as 
superstições e com certos costumes sociaes. 

A contra-prova de que a efflorescencia da poesia provençal 
proveiu da liberdade popular e da revivescência dos antigos cos- 
tumes, está em que este esplendor poético só dura no periodo em 
que se succedem as Cruzadas ; da primeira (1095) até á ultima 
Cruzada (1268) é que o lyrismo provençal attinge a sua plena 
forma litteraria. Uma outra causa da vitalidade da tradição po- 
pular e da organisação d'esta nova litteratura, é essa lucta da 
França feudal ou do norte, contra a França meridional goverj^a- 
da por instituições municipaes. O conflicto d'estas duas raças 
gallo-frankos e gallo-romanos, como o observou Lemecke por 
uma forma geral, produz um desenvolvimento de poesia. Porém a 
França do norte venceu, e o triumpho sanguinário da cruzada 
contra os Albigenses, trouxe a ruina da Litteratura provençal, 
mas ao mesmo tempo a sua difFusào e imitação nas diversas cor- 
tes da Europa. 

Os trovadores serviram com os seus cantos a causa da liber- 
dade da França meridional ; a lucta de uma nacionalidade que 
nào chega a affirmar a sua autonomia dá aos elementos lyricos 
tradicionaes o vigor da inspiração dos protestos individuaes. A 
poesia provençal tendo surgido dos costumes populares em 109Õ, 
volta outra vez para o povo em 1290, quando os jograes se espa- 
lhara por toda a Europa. A necessidade de communicar essa poe- 
sia nova estabeleceu a unidade de um dialecto poético entendido 



Século XII a xiv.) marcabrus e gavaudan 67 

tanto na França do norte como na Inglaterra, na Itália como na 
Galliza ; era o dialecto do Poitou. Este mesmo habito litterario 
fez com que na peninsula hispânica o dialecto gallego fosse a lin- 
guagem commum da poesia tanto para Portugal como para Cas- 
tella. 

a) Communicação pelos Trovadores das Cruzadus. — A poe- 
sia do povo não era conhecida pela classe aristocrática ; os lati- 
nistas e eruditos ecclesiasticos desprezavam-na. Por isso a Poesia 
provençalesca não foi logo conhecida pelas suas relações tradicio- 
naes com os cantos populares portuguezes e gallezianos, mas sim 
pela presença directa dos trovadores. Fauriel cita o trovador Mar- 
cabrus, que pertencia ao ramo da Gasconha, escola poética da 
Aquitania, como tendo frequentado as cortes christãs d'áquem 
dos Pjreneos « nomeadamente a de Portugal, e é o único dos tro- 
vadores positivamente conhecido por ter visitado esta ultima. » ^ 
Foi este trovador o que incitou pelos seus cantos e provocou a al- 
liança das pequenas potencias das cortes do Mediterrâneo com Af- 
fonso VII contra os Almohades. Diz Marcabrus : « Que o Conde 
de Barcelona, persista somente na sua resolução com o Rei de 
Portugal e o de Navarra, immediatamente iremos plantar nofsos 
pavilhões junto aos muros da imperial Toledo, e destruir os pa- 
gãos que a guardam. » ^ 

Dom Affonso Henriques tomou parte n'esta pequena cruzada, 
e teve assim occasião de conhecer a organisação das Eepublicas 
italianas, que tanto influenciaram no reconhecimento do espirito 
de independência local confirmado nas cartas de Foral. Um outro 
trovador, Gavaudan, o velho, incitando por meio de uma canção 
os monarchas da Peninsula contra a invasão de Mahomed ai Nas- 
sir, que chegara a Sevilha com cento e sessenta mil homens, allu- 
de a Portugal, exclamando ironicamente: 

Portogales, Gallicx, Castellas, 
Navarrs, Arragones, Ferraz, 
Lura van en barra gequitz 
Qu'els an rahuzatz et unitz. ' 

1 Hist. de la Poésie provençale, t. n, p. 6. — * Raynouard, Choix des 

Poésies de Troubadours, t. v, p. 130-13Í. — 3 Raynouard, Choix, t. iv, p. 

86-87. 

* 



68 CERCAMONS, VALEIRA, SORDELLO (EpOCa 1.* 

Segundo Baret, as canç3es de Cercamons e de Peire Valeira 
também foram conhecidas em Portugal, ^ e de Peire Vidal ha 
egualmente indicios de aqui ter estacionado. O contracto de casa- 
mento do filho de llaymundo d^^ Beranger, um dos grandes pro- 
tectores dos trovadores, com uma filha de Dom Afíbnso Henriques, 
e depois o casamento de Dom Sancho i com Dona Dulce, filha do 
Conde de Provença, sâo factos que nos explicam o motivo por que 
differentes trovadores visitaram Portugal. Os cruzados que apor- 
tavam aqui vinham sempre acompanhados de trovadores, e nos 
nossos nobiliários não só se acha o appellido de Proenqa, como o 
nome de trohador se tornou um titulo especial dos melhores caval- 
leiros. 

conhecimento d'esta nova poesia faz se por um modo indire- 
cto ; começando pelas relações com os trovadores italianos, adqui- 
re a sua maior importância pela imitação através dos usos pala- 
cianos do norte da França, até que por fim se põe em contacto 
com as regras limosinas, sob Dom Diniz. 

b) Communicação italo-provençal. — Dom Affonso Henriques 
casou em 1146 com uma princeza italiana, Mahaut (Dona Mafal- 
da); no Livro velho das Linhagens, apparecem famílias com o 
nome italiano de Potestade, d'e33a dignidade consular que da Itá- 
lia se transplantou também para a Provença. Dante, no Convite, 
queixa-se do abandono do italiano pela lingua provençal, ao 
mesmo tempo lamenta a morte politica da França meridional, e 
divinisa Sordello de Mantua, As nossas relações com a Itália eram 
litterarias, povoando os mancebos portuguezes as Universidades de 
Bolonha e Pádua, e económicas, vindo de Génova os marinheú'08 
para as nossas primeiras armadas. O jogral Picandon cantava as 
canções de Sordello, pelo que o trovador João Soares Coelho o 
apodava : 

Vedes, Picandon, soo maravilhado 
ea d'en Sordel que ouço en tenções, 
rnuytas e boas, ey mui boos soes 
como fui en teu preylo tara errado; 

1 Les Troubadõurs, p. 119. 



Século XII a xiv.) tensões e sirventes 69 

poys non sabedes jograria fazer, 
por que vos fez per corte guarecer 
ou vós ou el dad'ende bom recado. ^ 

A vida aventureira de Sordello nas cortes de Itália e França, 
onde era bastante estimado, é aqui apontada, fazendo o contraste 
d'esses uomini di corte, que se faziam valer pelo3 seus versos, 
com o jogral que repete as composições d'outrem. Sordello era 
considerado como um grande mestre da gaya sciencia, e Aimeric 
de Peguilhan terminava uma canção com este cabo : « Este men- 
sageiro leva o meu fabliau á Marcha, a Dom Sordello, para que 
dê o seu leal juizo, segundo seu costume. » As composições mais 
celebres de Sordello eram tensões e além das canções amorosas, 
sirverUes, que o faziam temido. Em lucta com o trovador Pedro 
Bermont, Sordello replicava-lhe : « É falsamente que elle me cha- 
ma jogral: o jogral é o que vae atraz de outrem; eu levo al- 
guém atraz de mim ; eu nada recebo e dou ; elle, nada dá e rece- 
be ; tudo o que traz em cima de si, recebeu-o da compaixão ; eu 
não acceito cousa que me faça corar ; vivo do que é meu, recu- 
sando tudo o que é salário, e não acceitando senão o que é um 
presente de amisade. » ^ Todos estes factos relativos a Sordello, o 
trovador mantuano, se acham alludidos na resposta de Picandon : 

Johã Soares, logo vos é dado 
e mostrar-vol-o-ey em poucas rasões ; 
gram dereyt' ey de ganhar does 
e de seer en corte tan preçado 
como segrel que diga, mui ben vés 
en canções e cobras e sirventes 
e que seja de falimento guardado. 

Aqui o jogral queria acobertar-se com o nome de segrel, um 
gráo dos trovadores -vagabundos que vinham a cavallo de outras 
terras, e cuja admissão na corte de Dora Affonso iii foi restrin- 



1 Canc. da Vaticana. n.» 1021. — » Ap. Fauriel, Dante et les Origi- 
nes de la Langue et de la Litterature italiennes, t. i, p. 529. 



70 BONIFÁCIO CALVO (Epoca 1.* 

gida por um regulamento. Aqui ae acham também apontados os 
três géneros mais cultivados por Sordello. 

No índice do Cancioneiro de Colocci, achado na Vaticana, sob 
os n."* 449 e 450 citavam-se duas canções, de um outro trovador 
italiano Bonifaz de Jenoa (Bonifácio Calvo) que foram coUigidas 
na collecção portugueza. Depois que este Cancioneiro foi encontra- 
do na livraria do conde Brancuti di Cagli, e publicado como com- 
plemento do Cancioneiro da Vaticana, as duas canções de Bonifá- 
cio de Génova appareceram em portuguez, provavelmente mais 
imitadas que traduzidas : 

Mui grara poder a sobre mi amor 
poys que mi faz amar de coraçon 
a ren do mundo, que me faz mayor 
coyta soffrer; e por tod'esto non 
ouso pensar sol de me queixar en, 
tan grara pavor ey que mui gram ben 
me lh'i fizesse por meu mal querer. 

E nom m'ha prol este pavor aver 
pois cada dia m'ha faz mui melhor 
querer per mal, e pois faz-me prender 
morte en cabo, pois sabor 
a de mha morte rogar-lh'ei que non 
ra'ha tarde muyto que ea gran sazon 
a que a quiz e desejei por en. . . 

Esta canção tem mais duas estrophes ; a outra canção é egual- 
mente prosaica, como vestigio da difficuldade de verter um texto 
extranho. Eis uma leve amostra : 

Ora nem moyro, nem vyvo, nem sey 
como mi vay, nen ren de mi senon 
a tanto que ey no meu coraçon 
coyta d'araor qual vos ora direy 

lan grande, que mi faz perder o sen, 

e mha senhor sol non sab'ende ren. ^ 

Em muitas das canções poi-tuguezas d'esta epoca apparecem 
1 Canc. Colocci-Brancuti, n.«« 341 e 342. 



Século XII a xiv.) canções francezas 71 

certos italianismos, provenientes d'esta corrente trobadoresca, 
taes como afan, aq^uesto, aquisto, aval, besonha, cajon, cambhar, 
^olor, cór, dolçor, guarrá, guirlanda, ledo, leger, mensonha, toste, 
G outros muitos. ^ A corrente italiana accentuou-se mais tarde 
com a imitação da Universidade de Bolonha, e pelos estudos jurí- 
dicos e humanistas, mas foi decahindo á medida que nos aproxi- 
mamos da França. 

c) Communicação pelo norte da França. — A saída do prin- 
cipe D. AíFonso, irmão de D. Sancho ii, em 1229, por occasião 
do casamento de sua irmã D. Leonor com o prinçipe Waldemar 
da Dinamarca, fez com que elle se demorasse percorrendo a Eu- 
"ropa, entrasse em varias batalhas e viesse a demorar-se na corte 
de Sam Luiz, por 1238, onde a rainha D. Branca de Castella o 
casou com sua sobrinha Mathilde, condessa de Boulogne. N'essa 
corte de uma rainha formosa, que governava na menoridade de 
seu filho, desenvolveu-se a galanteria poética entre os seus vários 
pretendentes, como o conde de Champagne. Os descontentes do 
governo de D, Sancho il refugiaram-se junto do prinçipe D. Af- 
fonso, e entre os trovadores que pertencem a essa parcialidade fi- 
guram 03 Nobregas, os Valladares, os Raymondos; depois da Li- 
de do Porto, em que os dois partidos se encontraram em armas 
(1245) é que a conspiração se tornou mais activa, e vindo em 1246 
o prinçipe a Portugal, depoz o irmão e governou com o nome de 
D. Affonso iil. No Cancioneiro da Ajuda apparecem cançSes em 
que se manifesta uma evidente influencia franceza do norte, com 
allusões a costumes feudaes, como n'esta em que o trovador para 
exprimir o sentimento de fidelidade á sua dama se constitue ho- 
me lige d'ella: 

Dizer-vos quero uma ren 
Seííor que sempre bem quige : 
Or sachaz ueroyamen 
que ie soy votre orne lige. * 

Não é isto um facto accidental, explicável por conhecimentos 

1 Cancioneiro da Vaticana, Introd., p. xxxu. — » Trovas e Cantares, 
n,ol40. (Edição tumultuaria do Canc. da Ajuda.) 



72 GESTA DE MALDIZER (EpOCa 1." 

particulares dos costumes francezes em um dado trovador; em 
uma canção de Pedr'Amigo de Sevilha repete-se a allusao ao ho- 
me lige : 

E por aquesto vos venho rogar 
que eu seja voss' orne esta vegada. ^ 

O trovador Dom João d'Aboym, da família dos Nobregas que 
estiveram em França junto do príncipe rebelde, também escreve 
em uma canção: 

Cavalgava n'outro dia 
por um caminho francez. 

Um outro dos trovadores que estiveram em França mostra- 
nos um conhecimento mais directo da poesia da lingua d'oil, ou 
das epopêas frankas ; Dom Affonso Lopes de Baião escreve uma 
Gesta de Maldizer, imitando a forma monorrima e a celebre neu- 
ma Aoi, que termina as estrophes da Chanson de Roland. A 
composição é evidentemente uma sirvente provençal moldada nas 
formas épicas gallo-frankas. 

Depois que um grande numero de Alcaides entregaram os cas- 
tellos a Dom AíFonso, começou o governo de uma parcialidade e 
de privados, fixando-se a corte em Santarém. Os documentos poé- 
ticos d'e3te período foram satyras virulentas, como a « de mal di- 
zer dos que deram os casteUos como nom deviam ai rei Dom Af- 
fonso. » ' Os privados luctavam entre si em tensSes, como esta 
tfeyta em tempo de Dom Affonso a seus privados : » 

Vos que soedes em corte morar 

d'estes privados queria saber 

se lhes ha a privança muyto durar, 

ca os nom vejo dar nem despender; 

ant' os vejo tomar e pedir 

et o que Ihis non quer dar ou servir 

nom pode ren com elrey adubar. ' 



1 Canc. da Vaticana, n.° 689. — » Ibid., n.o 1088. — » Ibid.. n." 
472. 



Século XII a xiv.) jograes de segrel 73 

A corte de D. Aífonso iii foi assaltada por todos os cantores 
vagabundos, quando pelo casamento com uma bastarda de AfFon- 
so o Sábio, se relacionou com a nossa a corte de Castella. Dom 
Aífonso III, no Regimento de sua Casa, de 1245, estabeleceu: 
« El rei aia trez jograres, em sa casa e nom mais, e o jogral que 
veher de cavallo d'outra terra, ou segrel, dê-lhe el-rei ataa cem 
(maravedis?) ao que chus der, e nora mais se lhe dar quizer. » * 
Em uma canção de Giraud de Riquier, do século xii, falla-se 
n'e3ta classB dos cantores de corte: 

E ditz ais trobadors 
Segriers por tetas corts. 

Já vimos como o jogral Picandon se dava como segrel ; Ber- 
nar de Bonaval, que apparece citado no Cancioneiro da Vaticana 
com o titulo de Primeiro Trovador, diz da sua pessoa em uma 
canção a Abril Peres: 

Ca bem sabemos, D. Bernal, qual 
senhor sol sempre a servir segrel. 
(Crinç. 663.) 

E Affonso Eannes de Coton, em uma tensão com Pêro da Pon- 
te, referia-se a esta qualidade do cantor : 

em nossa terra, se deus me perdon 
a todo o escudeyro que pede don 
as mays das gentes lhe ehamam segrel. 
(Canç. 556.) 

O titulo de trovador, que nos apparece no Nobiliário do con- 
de Dom Pedro como uma distincção honorifica, é um indicio de 
que essa qualidade designava os partidários do principe que se 
refugiara era França, e imitavam os costumes francezes. No Livro 
velho das Linhagens cita-se como trovador João Soares de Pai- 



Portugalice Monummta Histórica : Leges, i, 193. 



7i o TITULO DE TROVADOH (EpOCa 1.* 

va; * no Fragmento de Nobiliário do conde Dom Pedro, cita-se 
João Garcia Esgaravunha, (p. 192 e 290) Estevam Annes de Val- 
ladares (p. 199) e João Soares de Panha (p. 208); no Nobiliário 
do Conde Dom Pedro vem com este característico João de Gaia, 
(p. 272) Vasco Fernandes de Praga, (p. 349) João Martins (p. 
302) e João Soares (p. 3Õ2.) Os nomes de muitos trovadores dos 
Cancioneiros da Ajuda e de Roma, apparecem em documentos 
históricos como funccionarios de Dom Affonso iii. Muitas das Can- 
ções da collecção da Ajuda referem-se á permanência da corte em 
Santarém ; na canção 119 (Trav. e Cant.) se lê: 

E nom sey oine tan entendudo, 
que m'oy entenda o porque digo 

Ay Sentirigo ! ay Sentirigo l 

Al e Alfranx, e ai sesserigo. 

Em uma relação da tomada de Santarém em prosa poética la- 
tina, ^ que chegou a ser attribuida a Dom AíFonso Henriques, se 
diz que os que atacaram pelo lado direito 3ubii'am o Alphanj 
Gonsalvo Gonsalves atacou pelo lado esquerdo, por Seterigo ; ses- 
serigo designava o arrabalde ou parte baixa de Santarém, como 
se vê por um documento dos Templários citado por Viterbo. O 
estrebilho da Canção era tirado de um grito de guerra tradicio- 
nal, e alludia aos velhos usos portuguezes que contrastavam com 
as modas francezas trazidas da corte de Sam Luiz e exageradas 
pelos privados. Outros trovadores alludem a Santarém, onde esta- 
vam as suas damas : 

Todo este mal sofTro e soíTri 
des que me vim de Santarém. ^ 

Os poetas que pertencem á eschola poética de Santarém ou 
pre-dionisia, são principalmente Fernão Garcia Esgaravunha, João 
Soares Coelho, João Garcia, Estevam Rajmundo, Dom João de 
Aboym, AíFonso Lopes Baião, Martim Peres de Alvim, Estevam 
Coelho, Estevam Annes de Valhidareg, João Martins, João Soa- 

^ Mon. hisL,i). 166. — * Monarc.luzit., P. ni, Append., Escr. 20. 
— 3 Trovas e Cantares, n." 121. 



Século XII a xiv.) influencia d'affonso o sábio 73 

res de Gaya, Martira Soares, João Vasques, Gonçalo Eanes do 
Vinhal, Dora Pedro Gomes Charrinho, Fernão Rodrigues Redon- 
do, Soeyro Eanes. A lista fica ainda assim incompleta. Muitos 
jograes frequentaram a casa real, como Martim Moxa, Lourenço, 
Diogo Pezelho, Julião, Picandon, Affonso Gomes, pelos quaes o 
elemento popular se ia introduzindo, aproximando evolutivamente 
a imitação provençalesca do lyrismo tradicional portuguez. 

As canções d'este periodo são em geral monótonas, em verso 
de arte maior, e cora rimas quasi invariáveis ; os sentimentos con- 
vencionaes são expressos com phrases batidas, e só quando trans- 
parece a ironia nas sirventes é que ha alguma naturalidade, mas 
impetuosa e brutal. Dom Affonso iii livrou Portugal da suzera- 
nia de Castella, luctando diplomaticamente cora Affonso o Sá- 
bio, que apparece descripto no Cancioneiro da Ajuda como incer- 
to e tempestuoso como o mar. ^ As duas cortes entraram em ri- 
validade poética, e alguns trovadores portuguezes foram protegi- 
dos por Affonso o Sábio, como Pêro Gomes Barroso, e Payo Go- 
mes Charrinho, que foi Almirante de Castella. Esta aproximação 
não podia deixar de influir no desenvolvimento artistico da poesia 
trobadoresca, que chega ao seu mais completo esplendor na cor- 
te do rei- trovador Dom Diniz, neto de Affonso o Sábio, e man- 
dado educar por um mestre provençal. 

2.° O cyclo diouisio. — Justamente no periodo em que a Poe- 
sia provençal decahia, entre 12Õ0 e 1290, é que ella recebeu o 
seu maior desenvolvimento na corte portugueza. Dora Affonso iii, 
para resistir ás exigências dos seus privados, recolheu-se como va- 
letudinário, dizendo os documentos contemporâneos que « avia 
bem catorze (annos) que jazia em huma cama, e que se nom podia 
levantar. » Era uma tal situação a poesia trobadoresca tornou-se 
ura passaterapo domestico, e o rei deu a seu filho um mestre na- 
tural de Cahors, chamado Aimeric d'Ebrard, que porventura lhe 
ensinou era forma as' regras da poética limosina. Quando foi dada 
casa ao príncipe, os fidalgos que entravara no seu serviço eram 
trovadores, como João Velho e Martim Peres, e o celebre trova- 

1 Trotas e Cantares, n.o 286. 



76 DKCADENCIA DA POESIA PROVENÇAL (EpOCa 1.* 

dor Dom JoSo de Alboim assistia com a rainha a uma espécie de 
conselho de regência. Pelo seu casamento, Dom Diniz entrou em 
relações cora o Conde de Provença, tio de sua mulher, e desde 
que começou a reinar em 1279 a sua corte tornou-se um ponto 
de convergência de todos os trovadores de Leão, de Castella e de 
Aragão. E natural que o rei D. Diniz reagisse contra a decadên- 
cia e extincção da poesia provençal, assim como tentou conservar 
a extincta Ordem cavalheiresca dos Templários refundindo-a na 
dos Cavalleiros de Christo. Os principaes documentos poéticos 
d'esta época pertencem ao reinado de D. Diniz, e elle mesmo ó o 
primeiro e o mais talentoso dos trovadores portuguezes represen- 
tados nos nossos Cancioneiros. Nas cento e trinta e oito canções 
d'este monarcha, que existem publicadas, predominam duas fei- 
ções, que accusam duas phases caracteristicas da sua actividade 
poética: na primeira prevalece o verso limosino ou endecasyllabo, 
em que as canções tem por assumpto essa vaga casuistica senti- 
mental da superioridade da creatura amada, da necessidade do 
segredo absoluto, da severidade implacável da sua dama ; na se- 
gunda phase, as canções são em geral bellas e inimitáveis, escri- 
ptas em verso de redondilha, e separadas pelo seu caracter um 
tanto popular em uma classe que se denominava das serranilhas, 
e que o próprio monarcha designa como Cantares de amigo. Im- 
porta descrever estas duas poéticas, em que contrastam o extremo 
artificio com a espontânea ingenuidade. 

a) A Eschola limosina. — A influencia directa do sul da 
França, é determinada pelos trovadores da eschola de Limoges ; o 
marquez de Santillana, na sua Carta ao Condestavel de Portugal, 
falia d'esta influencia dizendo : « Usaron el decir en coplas de 
diez siUabaSj a la manera de los limosis. . . » Por este facto se lhe 
chamava Arte maior, em contraposição ás redondilhas ou Arte 
menor. E em outro logar escreve : « Estenderam-se, creio, d'aquel- 
las terras e comarcas dos Limosinos, estas artes aos Gallaicos... » 
O rei Dom Diniz faz alarde da sua cultura poética, alludindo á 
eschola em que se acha filiado: 



Quefeu en maneyra de Proençal 
fazer agora um cantar d'amor, 



Século XII a xiv.) fuacmiíntos d"uma poética 77 

e querrey muyfi loar mha serlor, 

a quem prez, nem fremusura non fal, ^ 

Em outra canção affirma a superioridade dos trovadores occi- 
tanicos, e insiste na distincçào entre o trovador e o jogral, por- 
ventura pela necessidade de deixar em uma posição subalterna os 
muitos jograes que concorriam de todas as cortes peninsulares á 
corte de Lisboa ; diz o grande monarcha : 

Provençaes soem muy bem de trobar, 
e dizen elles, que é eoh amor; 
raays os qne trobam no tempo da frol, 
e non en outro^ sey eu bem que nom 
am tan grã coyta no seu coraçom, 
qual m'eu por mha seãor vejo levar. ^ 

Os documentos positivos d'esta influencia provençal encontram- 
se nos Fragmentos de uma Poética, achada no principio do Can- 
cioneiro de Colocci, que se guardava na livraria do conde Bran- 
cuti e foi publicado como appendice do Cancioneiro da Vaticana. 
Essa Poética, qiiasi illegivel, e por nós restituída e publicada ^ 
constava de seis capitules, começando o fragmento em uma boa 
parte do terceiro ; n'este se definem os géneros, taes como a Can- 
tiga d' Amor e a Cantiga d' Amigo, Cantiga d'escarneo, de mees- 
tria ou de refren e de joguete certeyro. Depois define o género das 
tenções, feitas por dois trovadores ao mesmo tempo « per maney- 
ras de razon que huu aja contra outro em quaes diga que por 
ben tever na prima cobra, et o outro responda-lhe na outra di- 
zendo o contrario. » Também se indica um género popular, cujo 
titulo o aproximadas Villanellas daGasconha: «Outras cantigas 
fazem os Trobadores a que chamam de Villãos. Estas cantigas se 
podem fazer d'amor ou d'amigo sem mal algum, nem son per ar-J 
rabis, porque as non estimam muito. » Os artificies poéticos são 
complicadíssimos, e de todos se acham exemplos nos nossos Can- 
cioneiros ; citaremos a trova de segrer : « E este segrer é de maior 

1 Canc. da Vatic, n.» 123. — * Ibid., n.o 127. - 3 Era Nova, p. 
415 a 422. Lisboa, 1881. 



78 ENCADENADOS, LEXAPREN E MANSOBUK (EpOCa 1.* 

sabedoria, porque toma cada uma das palavras da cantiga que se- 
gue. » Quando uma strophe se continua no seu sentido grammatical 
na strophe seguinte, chama-se-lhe atehudas ; explica o género do 
dobre, em que a mesma palavra se repete duas vezes na copla, e o 
mór doble, em que as mesmas palavras mudam de tempo. Muitos 
d'estes artifícios, ainda foram conhecidos pelo marquez de Santil- 
lana, taes como os versos encadenados, lexapren, e o mansobre, 
que pelo Cancioneiro de Baena vemos dividido em doble manso- 
bre, e em sencillo ou menor. O exemplo da cançSo encadenada, 
acha-se nos n.°* 223 e 78 das Trovas e Cantares; o exemplo do 
lexapren, ou deixa e pega, acha-se na canção n.° 114; do manso- 
bre doble encontra-se um notável exemplo, na canção do códice 
da Ajuda: 

Vi eu viver coitados, mas nunca tan coitado, 
Viveu com'oj'eu vivo, nem o viu orne nado 
Des quando fui u fui. e a que vol-o recado 

De muy bon grado qnerria a um legar ir 

E nunca m'ende ar viir. ^ 

A distincção das rimas agudas e graves, da poética franceza, 
acha-se também apontada no citado Fragmento: «As cantigas 
com'eu disse fazeren em rimas longas ou breves ou em todas mis- 
turadas. » As rimas em ecco apparecera apontadas, reproduzindo- 
se muitas d'estas formas em Gil Vicente, como representante 
d'e3ta tradição bem definida por Sá de Miranda. As provas da 
corrente franceza acham-se também no conhecimento directo dos 
poemas da Tavola Redonda vulgarisados em grande parte por via 
dos trovadores do sul da França; D. Diniz faz allusoes aos sym- 
bolos da fidelidade idealisados nos poemas de Tristão e Yseult, e 
de Flores e Brancajlor, que também penetram na corrente dos 
romanceiros populares. 

A imitação das Cortes de Amor, que acharemos ainda subsi- > 
stindo na corte de Dom João ii, apparece-nos no seu vigor na cor- , 
te de Dom Diniz, como se infere da seguinte passagem da Can- 
ção 597 da collecção da Vaticana : 

1 Canc. da Ajuda. (Ed. Trovas e Cantares, n.° 4.) 



Século XII a xiv.) cortes d'amor em portugâl 79 

O meu amigo novas sabe já 
cl'aquestas Cortes que s'ora faram, 
ricas e nobres dizem que serani, 
e meu amigo bem sey que fará 
hum cantar en que dirá de mi ben. 
ou fará ou já o feyto tem. 

En aquestas Cortes que faz El rey 
loará-mi e meu parecer, 
e dirá quanto bem poder dizer 
de min, amigas, e fará, bem sey 
hum cantar em que dirá de mi bem, 
ou fará ou já o feyto tem. 

Os sentimentos que inspiram essas cançSes, tanto do monar- 
cha como dos seus fidalgos, é afFectado; nós não tivemos essa pro- 
funda scisão de classes que tornava a paixão amorosa uma audá- 
cia mortal, tendo portanto o trovador ao cantar a sua dama de 
occultar mysteriosamente esse nome, e de tirar do segredo que 
conserva a anciedade dos seus cantos. Pelo contrario, ao passo 
que Dom Diniz celebra com o poético mysterio os seus amores, 
vemos contradizer-se na realidade dos costumes públicos, prote- 
gendo desaífrontadamente os seus bastardos, os condes Dom Pe- 
dro e Dom Aífonso Sanches; e por parte dos outros trovadores, 
03 Nobiliários estão cheios dos raussos ou violaçSes a que anda- 
vam sujeitas as damas, que também uma ou outra vez guanqa- 
vam. Bastava um tal contraste entre os costumes e as emoções ly-\ 
ricas para concluir pelo artificio e imitação inorgânica d'esta poe-y 
sia. O esgotamento d'estes artifícios fez com que viesse a prevale- 
cer no gosto palaciano a desaffectada simplicidade das serrani- 
Ihas e cantares de amigo. Fernando Wolf illudiu-se no juizo da 
nossa poesia provençal accentuando essa imitação, desconhecendo 
porém o seu fundo tradicional pela primeira vez determinado por 
Diez; eis a opinião de Wolf, hoje derrogada pela excessiva abun- 
dância de vestigios tradicionaes dos Cancioneiros da Vaticana e 
Colocci-Brancuti : « A poesia erudita portugueza apresenta-se des- 
de o começo como palaciana, formada por moldes estrangeiros 
(provençaes) e não a precedeu, como á castelhana, uma poesia in- 
dígena, ainda meio popular, meio erudita, nascida de elementos 
populares e em consequência d'isso puramente nacional. » Des- 



80 SHUHAMI.IIAS !•: PAíJTOHKlJ.A.S (EpUCa 1.'' 

cobertas ulteriores vieram pôr em toda a sua evidencia este ele- 
mento popular, que não era muito estimado, como se diz no fra- 
gmento da Poética. 

b) Elementos tradicionaes gallezianos. — A zona onde pri- 
meiro despontou o gosto pelas canções provençaes foi ao norte da 
peninsula, no território que comprehende da Galliza até ao Mon- 
dego. O marquez de Santillana, na Carta ao Condestavel de Pd'- 
tugal, accentua esta prioridade, ainda conhecida na primeira me- 
tade do século XV : « E depois acharam esta Arte, que Maior se 
chama, e Arte Commum, creio, nos reinos de Galliza e Portugal, 
aonde não ha que duvidar que o exercício d'cstas sciencias mais 
do que em nenhumas outras regiões e províncias de Hespanha se 
acostumou ; em tanto gráo, que não ha muito tempo quaesquer 
dizidores ou trovadores d'estas partes, ou fossem castelhanos, an- 
daluzes ou da Extremadura, todas as suas obras compunham em 
lingua gallega ou portugueza. E ainda é certo que recebemos os 
nomes d'arte, como maestria maior e menor, encadenados, lexa- 
jjrem e mansohre. » De facto vimos estes nomes technicos no fra- 
gmento da Poética supracitada. Este período, que Santillana fun- 
damenta citando um grande Cancioneiro que vira em casa de sua 
avó D. Mecia de Cisneros, é fecundíssimo em revelações. Em pri- 
meiro logar apparece-nos a Galliza, que então comprehendia oj 
condado de Portugal, como o ponto onde primeiro se manifestou] 
esse lyrismo. N'e3ta prioridade, distingue as duas correntes, a de 
Arte maior, ou aquella em que se usam os endecasyllabos limosi- 
nos, e a Arte commum ou dos versos usados pelos dizidores popu- 
lares. Em terceiro logar, mostra que a lingua gallega era um dia- 
lecto commum a Portugal, e peculiar da poesia na Castella, Ex- 
tremadura e Andalusia. No |. xv da referida Carta indica as for- 
mas da Arte vulgar, « cantigas serranas e dizeres portuguezes e 
gallegos. » A persistência d'esta8 formas lyricas, que apparecem 
com vigor nas obras litterarias de Gil Vicente, Christovam Fal- 
cão, Sá de Miranda e outros, resulta de causas ethnicas, as quaes 
explicam essa similaridade que as serranilhas portuguezas têm 
com as bailadas provençaes e com as pastorellas italianas, notada 
por Meyer. Observando que « são muito análogas na essência co- 
mo na forma ás nossas antigas Ballettes ou as bailadas proven- 



Século XII a xiv.) unidade do lyrismo occidental 81 

çaes » termina : « Não concluo por isto, que a3 poesias portugue- 
zas que têm esta forma sejam imitadas do francez ou do proven- 
çal, mas que são concebidas conforme um typo tradicional^ que 
deve ter sido commum a diversas populações românicas, sem que 
se possa determinar em qual d'ellas foi creado. » A persistência 
de uma raça não árica na Aquitania, ainda representada pelo 
basco e por algumas populações da Itália, faz com que se apro- 
xime o typo d'e3tas canções das formas do lyrismo accádico, nos 
monumentos achados modernamente por Smith e traduzidos por 
Oppert. Assim como no Occidente sobreviveram muitas superstições 
chaldaicas, avivadas pelos romanos e árabes, também o lyrismo 
d' essa raça mongolóide foi avivado em uma certa revivescência 
pela acção dos árabes no meio da Europa. A designação d'este 
género serranilha, deriva-se do árabe sehra. Esta unidade lyrica 
occidental comprova-se ethnicamente por uma egual similaridade 
emquanto aos cautos heróicos, como observaram Nigra, Fernando 
Wolf e Koehler em relação aos romances tradicionaes ou Aravias. ^ 
No meio das insípidas allegorias e subtilezas sentimentaes dos 
trovadores portuguezes, todas aquellas composições moldadas pelo 
gosto das serranilhas resaltam por uma graça que as melhores 
composições modernas ou parnasianas não attingem. No Cancio- 
neiro da Vaticana acham-se documentos positivos da intervenção 
da lyrica popular ; sob o n." 1043 se lê a rubrica : « Diz upia can- 
tiga de vilaão: 

O' pee d' uma torre 
bayla, corp'e giolo, 

vedel-o cos, ay cavaleyro. » 

Sobre este molde compoz Joham de Gaya uma canção « por 
aquella de cima, de vilaãos, que diz a refrem — vedel-o cos, ay 
cavaleyro ; — e feze-a a huu vilaão que fxiy alfayate do bispo 
don Domingos Jardo... » A canção 1062, do Cancioneiro da Va- 
ticana, termina com a- seguinte nota: a Esta cantiga fuy seguida 
•por uma haylada, que diz: 

1 Esta these aeha-se largamente estudada nas Questões de Utleratura 
e Arte portugueza, p. 18 a 80. 

6 



82 ELEMENTO POPULAR NOS CANCIONEIROS (EpOCa 1 .* 

Vos avedel-os olhos verdes, 
uiatar-nredes com eles... » 

Nas redondilhas de Camões ainda se encontra uma reminis- 
cência d'este mote velho : « Senão que tendes os olhos verdes. » 
Uma bailada de Ayi'es Nunes acha-se moldada na mesma forma 
strophica e com versos inteiros de João Zorro, sem comtudo se 
poder concluir qual foi o plagiário ; e acreditamos de preferencia 
que ambos se serviram de uma letra ou tono conhecido, usado 
para fazerem um son ou cantar. Este facto explica como a serra- 
nilha popular entrava nos cancioneiros palacianos ; a aristocracia 
cultivava a musica e ensoava, servindo-se da velha letra das to- 
nadilhas vulgares para fixar a sua composição melódica. O gosto 
musical das povoações do Minho era tão persistente, que ainda no 
principio do século xvii o marquez de Montebello escrevia : 
« Com grande destreza se exercita a musica, que é tão natural 
em seus moradores esta arte, que succede muitas vezes aos foras- 
teiros que passam pelas ruas, especialmente nas tardes de verão, 
parar e suspenderem-se ouvindo as trovas que cantam em coros, 
com fugas e repetições as raparigas. . . » Frederico Diez ^ aproxi- 
mou alguns fragmentos de canções de Gil Vicente, intercaladas 
nos seus Autos, dos cantos de forma popular dos Cancioneiros pa- 
lacianos, e concluiu pela sua similaridade; Gil Vicente falia em 
Cantares guayados, ou « arremedando os da serra » e Christovam 
Falcão faz referencia aos Cantos de ledino. Da forma do Dizer, 
ainda no século xvr se dava o nome de Dizidor ao poeta popular. 
Não é somente em Portugal que achamos a persistência da Serra- 
nilha ; o Arcipreste de Hita imita admiravelmente esta forma 
tradicional, que é também conservada por Castillejos, o poeta que 
mais reagiu contra o gosto italiano. * Bernardes, nos Últimos 

1 Veher die erste portugiesisclie Kimst und Hofpoesie, p. 100. — ^ Eis 
uma amostra (Ribadaneyra, Poetas lyricos, t. i, p. 114) : 

Madre, iin caballero Madre, un escudero 

Que estaba en este corro, Que estaba en esta baila, 

A cada vuelta A cada vuelta 

Hacia-me dei ojo ; Asia-me de la manga ; 
Yo como era bonica Yo como era bonica 

Teniaselo un poço. Teniaselo en nada. 



Século XII a xiv.) continuidade da tradição lyrica 83 

fins do homem, traz vários niotetes espirituaes em castelhano, no 
verdadeiro typo popular da serranilha : 

Si hermosura y belleza eausan amores. 
Como no se enamoran de Dios los hombres? 

Si hermosura e belleza de amor son causa. 
Como no se enamofran de Dios las almas? ^ 

Nos cantos populares das Alvoradas de Pombal, conserva-se 
a fórraa tradicional em que Berceo no século xiii escreveu a se- 
renada no Duelo de la Virgen, e que aqui comparamos : 

Vindas são as alvoras, Vclat, aliama de los Judios, 

Eh, levad' á alva! eya, velar I 

Que são da Virgem sagrada ; Que furtan el Fijo de Dios ! 

Eh, levad' á alva ! eya, velar ! 

marquez de Pidal colligiu da tradição moderna da Galliza 
uma cantiga serrana, em tudo similhante ás da época jogralesca. 
Milá y Fontanals, no Romancerillo catalan, colligiu cançonetas 
na forma da serranilha, bem dignas de serem conhecidas : 

— Marieta, lleva't, lleva't de mati. 
Que Faygua es clara, el sol vol surti. 

« Com m'en llevaré, si gipó no tinch? 

— Marieta, lleva't, de mati lleva't. 

Que el sol vol surti, que Taygua es clara, 
« Como m'en llevaré, s'il gipo m'en falta ? ^ 

Nos cantos Ijricos de Rebordainhos, concelho de Moncorvo, 
também persiste esta forma da serranilha, tal como a conhecia 
Berceo com o nome de controhadura ^ ; porém, tanto Pidal, como 

1 Op. cit., p. 413. (1627.) — « Romancerillo catalan, n.» 568, var. B. 
— ' Foram publicadas quatro canções pelo snr. Leite de Vasconcellos, 
no Annuario das tradições portuguezas. onde diz : « Estes quatro monumen- 
tos são importantíssimos porque estabelecem uma continuidade de tradição 
desde o século xiii até ao xix, e nos mostra claramente as relações entre os 
escriptores eruditos do Cancioneiro da Vaticana e o povo. » 



84 A CLASSE DOS JOGRAES (EpOCa 1.* 

Milá y Fontanals e Leite de Vasconcellos desconheceram a estru- 
ctura poética d'esta forma nos documentos que colligiram. A lit- 
teratura provençalesca portugueza, considerada como a mais ser- 
vilmente imitadora, é hoje aquella que se acha mais rica de ele- 
mentos tradicionaes, que não deixaram de fructificar nas bellas 
concepções lyricas de Gil Vicente, de Camões, de Francisco Ro- 
drigues Lobo 6 de Thomaz António Gonzaga. 

O rei D. Diniz dignou-se imitar estas formas populares, colli- 
gindo-as sob o titulo de Cantares de amigo, os mais bellos da nos- 
sa poesia. 

Uma planh do jogral leonez Joham, celebra a -morte do mo- 
narcha, referindo-se á sua protectora influencia : 



Os namorados que trobam d'ainor, 
todos deviam gram doo fazer, 
et nom tomar em si nenhum prazer, 
porque perderem tam boo senhor, 
eom'é ei-rey Dom Denis de Portugal, 
de que nom pode dizer nenhum mal 
homem, pêro seja profaçador. 

Os trovadores que poys fiearom 
en o seu regno et no de Leon, 
no de Castella, no de Aragon, 
nunca poys de sa morte trobarora ; 
et dos jograres vos quero dizer 
nunca cobraram panos, nem aver 
et o seu bem muyto desejarom. 
(Canç. n.o 708.) 

Uma sirvente de Martim Soares contra « hum cavaleyro que 
cuydava que trobava viuy bem » allude aos cantos do povo : 

Os aldeyãos e os concelhos 
todolos avedes per pagados 



por estes cantares que fazedes d'amor 
em que Ibis acham as filhas sabor, 
e os mancebos que teem soldados. 



Século XII a xiv.) ' organisação de um grande cancioneiro 85 

Bemq nisto sodes dos alfayates. 
dos peliteyros e dos moedores, 
d'a vosso bando son os tropeyros, 
e os jograes dos atanibores, 
por que Ihis cabe nas trombas vosso som, 
para atambores ar dizem que nom 
acham no mund'outros soes melhores. 
(Canç. n.o 96o.) 

Aqui temos a prova evidente da existência de uma poesia ly- 
rica popular, e das classes em que ella se cultivou, na qual até ho- 
je tem persistido esse typo tradicional da serranilha. Somente a 
sua grande belleza espontânea é que podia vencer o artificio pro- 
vençalesco, a casuistica dos palacianos do século xv, e o subjecti- 
vismo dos imitadores da eschola italiana petrarchesca, do século 
XVI por diante. A influencia de D. Diniz determinou também a 
compilação de todas as obras poéticas dos fidalgos da sua corte 
em um vasto Cancioneiro, por accidente fragmentado e perdido, 
mas hoje quasi integralmente publicado. 

c) O Conde de Barcellos, e o seu Livro das Cantigas. — Fi- 
lho dos amores do rei D. Diniz com D. Gracia, senhora da Ri- 
beira de Santarém, e nomeado Gonde de Barcellos em 1 de mar- 
ço de 1304, Dom Pedro soube vencer o ódio que a fidalguia ti- 
nha contra os bastardos do rei, organisando o cadastro das suas 
linhagens, e colligindo os cadernos daa suas cançSes. Depois da 
morte de Dom Diniz, o Conde D. Pedro foi perseguido e des- 
herdado por Dom AíFonso iv, mas foi encontrar protecção em Af- 
fonso XI de Castella, casado com D. Maria, filha d'este seu ir- 
mão. O jogral Joham, diz na canção 707 : « E ai do Conde falle- 
mos — que ó irmão tio d'el-rei. » Foi por um sentimento de grati- 
dão, que o Conde de Barcellos deixou em testamento, feito a 30 de 
Março de 1350, o seu Livro das Cantigas a Affonso xi. Por esta 
circumstancia saiu de Portugal este singular monumento, do qual 
nos dá noticia o Marquez de Santillana no meado do século XV. 
Da sua actividade poética conhecem-se apenas dez cançSes amoro- 
sas e especialmente satyricas ou de mal dizer ; são mediocres. 

Esse outro bastardo de Dom Diniz, Dom AíFonso Sanches, 



86 DOCUMENTOS POÉTICOS (Epoca 1.* 

Conde de Albuquerque, nascido em 1286, não é menos notável do 
que seu irmão; o rei amava-o loucamente, e por causa d'elle fo- 
ram as luctas de Dom Affonso, o principe herdeiro, contra seu 
pae. No Nobiliário lê-se: «por que se dizia que el-rei Dom Di- 
niz queria fazer rei D. AfFonso Sanches, seu filho de ganhadia, 
que trazia comsigo e que elle muito amava, u ^ As quinze compo- 
sições de D. Affonso Sanches são as mais deturpadas do Cancio- 
neiro da Vaticana ; comtudo conhece-se que tinha um elevado sen- 
timento poético, e que comprehendia a belleza das formas popula- 
res. É notável este fragmento : 

Quando, amiga, meu amigo veher 
emquanto lh'eu preguntar hu tardou, 
falade vós nas donçelas entom; 
e no sembrant', amigo^ que fazer, 
veeremos bem se tem no coraçoa 
a donzella por quem sempre trobou. 

(Canç. n.o 367.) 

Embora na corte de Dom Affonso iv caísse um tanto em des- 
uso a poesia trobadoresca, elle não deixou de influir quando in- 
fante na transformação dos lays bretães em forma narrativa, como 
se vê pela sigla do Amadis de Gaula. modificado por Vasco de 
Lobeira a seu pedido. O Livro das Cantigas do Conde de Barcel- 
los foi para Castella, e na Livraria de el-rei Dom Duarte conser- 
vou-se o Cancioneiro de Dom Diniz. A poesia provençal soffreu 
uma transformação, recebendo do génio italiano uma elaboração 
subjectiva que a tornou em Petrarcha a expressão do sentimento 
moderno. Não conhecemos esta corrente senão muito tarde, e 
d'aqui resultou o esquecer-se a eschola trobadoresca preferindo a 
imitação castelhana. Os documentos poéticos d'esta epoca são : 

O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos; tendo em vista 
o seu génio compilador e as memorias coUigidas das diversas famí- 
lias aristocráticas, cremos que sobre este título se comprehendem 
todos os seguintes fragmentos conhecidos ; 

Cancioneiro portuguez da Casa de Dona Mecia de Cisneros, 

1 Mon. hist., Scriptores, p. 238. 



Século XII a xiv.) trovadores do códice da ajuda 87 

que o Marquez de Santillana descreveu na sua Carta ao Condesta- 
vel de Portugal em 1449 : a um grande volume de cantigas serra- 
nas e dizeres portuguezes e gallegos. » 

O Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz: era talvez uma 
copia de 'luxo em separado, que pelo Catalogo dos Livros de uso 
de El-rei Dom Duarte se guardava na sua livraria, (n." 37), 

O Cancioneiro da Ajuda, (do Collegio dos Nobres, ou de lord 
Stuart) achado no espolio dos jesuitas; está fragmentado e co- 
meça a folhas 41 até folhas 95, ajuntando-se-lhe depois mais 24 
folhas achadas na Bibliotheca de Évora. É em pergaminho in-fo- 
lio ; o copista deixou as canções por terminar emquanto ás lettras 
capitães, musica e assignatura dos trovadores. Diez e João Pedro 
Ribeiro consideravam-no de um único auctor ; Bellermann julga- 
va ser este Códice o Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. 
Porém pelo exame e publicação do Cancioneiro portuguez da Bi- 
bliotheca do Vaticano, n.° 4803, e pelo apographo de Colocci, 
achado em casa do Conde Brancuti, sabe-se que essas canções 
anonymas pertencem a Vasco Praga de Sandim, João Soares Fo- 
messo, João Soares de Taveyros, Martins Soares, Nuno Fernandes 
Torneol, Pêro Garcia Burgalez, D. Fernão Garcia Esgaravunha, 
Ruy Queimado, Vasco Gil, Dom João de Aboim, João Coelho, 
Ruy Paes de Ribela, João Lopes de Ulhoa, Aires Nunes, Pêro 
Barroso, Fernão Gonsalves de Sousa, AíFonso Lopes Baiam, Mera 
Rodrigues Tenoyro, João de Guilhade, Stevam Froyam, Payo 
Gomes Charrinho, Fernão Velho, Pêro Solaz, Fernam Padrom, 
Pêro da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, e Roy Fernandes. As 
canções d'este3 trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda, e 
ao da Vaticana e Colocci-Brancuti, tem profundas variantes, que 
são problemas importantes para a historia critica do texto. 

O Cancioneiro Colocci-Brancuti • o Índice d'e3te monumento 
appareceu em um códice, n.° 3217 da Bibliotheca do Vaticano, e 
foi depois achado na Livraria do conde Brancuti di Cagli. Per- 
tenceu ao celebre erudito italiano da Renascença, que o confron- 
tou com um texto principal. Deve, em rigor, considerar-se como 
formando o primeiro grande fragmento do Cancioneiro provençal 
portuguez. Foi publicado em 1880, como complemento do 

Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano; este códice era co- 



88 o FEUDALISMO E AS GESTAS HERÓICAS (EpOCa 1." 

nhecido desde o século xvi, e d'elle se extrahiu a p.arte perten- 
cente ao rei Dom Diniz, na edição do Cancioneiro de Dom Diniz 
pelo Dr. Caetano Lopes de Moura. Varnhagem também d'elle ex- 
traiu umas cincoenta Canções com o titulo de Cancioneirinho de 
T)'ovas antigas, publicado em Vienna em 1870. Por ultiiilo publi- 
cou-o integralmente Monaci em uma edição paleographica em 
Halle, era 1875, á qual se succedeu a edição critica de Lisboa em 
1878. 

Cancioneiro jportuguez, de um grande de Hespanha ; apparece 
citado por Varnhagem, como conservado em segredo, c cm tudo 
análogo ao códice vaticano n.° 4803, porventura o texto princi- 
pal de que Angelo Colocci extrahiu o seu apographo. 

Com a publicação d'estes vários Cancioneiros são hoje conhe- 
cidas perto de duas mil canções, escriptas segundo a opinião de 
Wolf entre 1245 e 1357. É uma riqueza incalculável como docu- 
mento histórico, social e litterario. 



§. 11 

Influencia do norte da França, ou gallo-franka 

Se 08 cantos lyricos dos trovadores occitanicos influenciaram 
no desenvolvimento da poesia e da linguagem litteraria das novas 
nacionalidades, os cantos épicos do norte da França penetraram 
mais profundamente, porque lisongeavam o sentimento da honra e 
do valor, que tornando-se virtudes individuaes, acabavam como o 
movei da instituição da cavalleria. Nas Leis de Partidas manda- 
86 que os cavalleiros não ouçam senão cantos de armas, e os canto- 
res das Gestas heróicas chamavara-se em Itália os ciarlatani, por- 
que celebravam como o typo de todas as bravuras Carlos Magno. 
Nos paizes onde o feudalismo não chegou a esboçar-se, as Gestas 
francezas, que em geral versavam sobre a lucta dos grandes vas- 
sallos contra o poder real, não acharam sympathia. Em Portugal 
não existe uma única Gesta do norte da França, postoque algu- 
mas foram conhecidas na época da redacção do Nobiliário do 
Conde Dom Pedro. 



Século XII a xiv.) cantilenas rudimentares 89 

a) Gestas francezas em Portugal. — Já ficou notado o intuito 
d'aquella sirvente de Mal dizer, que D. Affonso Lopes Baiam de- 
nominou — Gesta, escrevendo-a em forma de parodia, em versos 
monorriraos e com a neuma caracteristica da Chanson de Roland. 
Também no Livro das Linhagens se lê : « muitos rricos homeens 
que iam para lhes accorrerem disseram "fTel-rey Dom Fernando 
que nunca viram cavalleiros nem ouviram fallar que tam soífredo- 
res fossem, e fizeram-nos em par dos doze -pares. » ^ A lenda dos 
Doze Pares apparece na Chanson de Roland, Viagem a Jerusa- 
lém, e Reynaud de Montauhan, as mais antigas gestas francezas- 

No epitaphio de Rodrigo Sanches, morto na Lide do Porto, 
em 1245, na revolta a favor do príncipe Dom Affonso irmão de 
Dom Sancho ii, vem o seguinte verso : 

Laudibus ex dignis, alter fuit hic Rotulandus. 

Na canção 1066 do Cancioneiro da Vaticana, João Baveca 
traz este mesmo nome conforme a corrente popular : 



e ora per Ronçasvales passou 
e tornou-s6 do Poio de Roldan. 



A primeira forma era litteraria, usada por Eghinard, Hruod- 
Hand, e Radulphus Tortarius, Rutlandus, ou como se vê na can- 
ção de Guerau de Cabrera, Rotlon. Prevaleceu a corrente popu- 
lar, que se acha abundantemente representada nos nossos Roman- 
ceiros, no Reginaldo, Roldão, Dom Garfeiros, Dom Garfos, Dona 
Alda, que são verdadeiras Cantilenas rudimentares que não che- 
garam a desenvolver-se em Gestas heróicas. Na descripção da Ba- 
talha do Salado, st. 1739, também se allude a personagens d'este 
cyclo franko: 

Nin fue major cavallero 
El arco bispo Don Turpin, 
Ni el cortês Olivero, 
Ni el Roldan paladin. 

1 Man. hist., Scriptores, p. 283. 



90 CANTAR DE ANTIGUO HIMAR (EpOCa 1.* 

Já no século xv, quando predominava a corrente da erudiçSo 
humanista, ainda o chroniata Azurara mostrava conhecimento da 
gesta carlingiana do Duque Jean de Lanson. Na corte de Dom 
Diniz as gestas amorosas do cyclo da Tavola Redonda tiveram a 
preferencia do gosto, e essas é que foram lidas, como se vê pelos 
nomes dos fidalgos tomados de taes poemas ; os cantos heróicos 
confundiram-se com a tradição geral e já no século xiii forma- 
vam o corpo do Romanceiro peninsular, de que se aproveitou Af- 
fonso o Sábio como elementos históricos. 

b) As tradições épicas do Romanceiro peninsular. — Na His- 
toria geral de Hespanha, Aífonso Sábio intercalou varias narrati- 
vas épicas populares dissolvendo-as em prosa; porém todos os ro- 
mances conhecidos pelas collecções existentes não são anteriores ao 
século XV. Qual seria pois a forma do romance primitivo, ou pelo 
menos como elle se repetia entre o povo no século xiíi ? No poe- 
ma da Batalha do Salado, se lê : 

E bien asy los reys godos 
Vuestros antecessores 



Deixaron por su testigo 
Rromances muy ben escriptos. 
(St. 147. 



E allude também á classe popular e á linguagem dos seus 
cantos : 

Giellas e Moçarabes (st. 953) 
Dixierou los escuderos 
Sabedes bien la araviaf 
Sodes bien verdaderos 
De torual-a en aljamia ? (st. 1293) 



O chanceller Pedro Lopes de Ayala allude a estes cantos he-l 
roicos a que chamava Cantar de antiguo rimar. Esse cantar era 
em verso de cinco syllabas ou de arte menor ; a Litteratura por- 
tugueza apresenta um typo único d'este género extincto, composto / 
ou ensoado por Ayras Nunes : 



Século XII a xiv.) as tradições épicas occidentaes 91 

DesQar eaviarom 
ora de Tudela 
filhos de Dom Fernando 
d'el-rey de Castella ; 
e disse el rey logo : 
« Hide alá Dom Vela. 

« Desflade e mostrade 
« por mi esta razon, 
si quizerem per talho 

do reino de Leon, " ^ 

fllhem poren Navarra 
eu o reino de Leon. . . ^ 



A este género pertence esse outro canto heróico do Figueiral, 
colligido no século xv no Cancioneiro do Conde de Marialva, ain- 
da era forma gallega ; 



No figueiral figueiredo, 
A no figueiral entrei, 
Seis nenhas encontrara. 
Seis nenhas encontrei. . > 



A lenda de Santa Irene, que ainda apparece na ti'adição gal- 
lega, pertence a este fundo épico, e conserva o typo da redondilha 
menor, usado antes do século xv. É certo, porém, que muitos ro- 
mances ou aravias, colligidos mais tarde, desde o século xvi a 
XIX, se encontram similhantes na tradição andalusa e asturiana ou 
castelhana, na Itália, França e Grécia moderna ; evidentemente 
existe um fundo commum ao Occidente emquanto ás tradições 
épicas como emquanto ás tradições lyricas, facto já notado por 
Liebrecht e Wolf. 

Desde que existem cantos heróicos communs á Provença, a Por- 
tugal, Hespanha, Itália e Grécia moderna, é porque pertencem a 
esse fundo commum da tradição Occidental, sobre o qual Homero, 
ou a imaginação primitiva da Grécia, elaborou os seus poemas. 
De facto nos poemas de Homero, como o provou Lang, existem 

1 Canc. da Vat., n." 466. 



92 THE»L\S TRADICIONAES HOMÉRICOS (EpOCa 1." 

cantos populares, alguns dos quaes se encontram ainda entre os 
Chinezes e os Oguzes, tribu turco-tartara, e entre os índios doze 
séculos antes da nossa éra. ^ O Regresso de Ulisses, ainda subsis- 
te na tradição occidental no romance da Bella Infanta. O En- 
contro de Ulysses cora os Cyclopes, transformação dos Compa- 
nheiros de Ulysses em porcos, encontro de Ulysses com os Phea- 
ceos, e Eolo sSo themas aproveitados na elaboração homérica. As 
relações entre o romance da Donzella que vae á guerra e a tradi- 
ção chineza dos Avadanas ^, também nos vem revelar que a primi- 
tiva população occidental, dos Lydios e dos Iberos, era eífectivat 
mente mongolóide. E este o primeiro fundo tradicional era que se 
devem investigar as origens do Romanceiro heróico, cujas situa- 
ções, como a Sylvaninha, o Rico Franco, o Dom Pedro não con- 
dizem já cora o estado moral e sentimental da civilisação greco- 
romana. 

c) Influencia da batalha do Salada. (1340) — O encontro 
dos cavalleiros portuguezes com os poetas castelhanos e leonezes 
na batalba do Salado, teve uma acção caracteristica na nossa poe- 
sia palaciana. Dom AfFonso iv também era poeta, e embora se 
não acceite a tradição das suas poesias colligidas por Frei Ber- 
nardo de Brito, nem os dois Sonetos a Lobeira, compostos pelo 
clássico Ferreira, comtudo pelo Catalogo di Autori de Colocci, se 
sabe que ahi existiam quatro Canções d'este monarcha sob os nú- 
meros 1323, 1324, 1325 e 1326. Este facto exphca a vinda de 
um grande numero de jograes castelhanos e leonezes para a sua 
corte, e os louvores que lhe endereçavam : 

A sa vida seja muyta 
d'este rey de Portugal 
que cada ano m'ha por fruyta 
pêro que eu canto mal. . . 

Os rex mouros,, christãos, 
mentre viver lh'ajam medo 
que el ha muy bem as inaõos, 

* No Sattirday Revieic,e traduzido na Melusine, col. 489; Sabatini, La 
Poesia popolare in Greda, p. 5. — 2 Qp^ qh^ t. u^ p, £61. 



Século XII a xiv.) elaboração da historia 93 

8t o Infante dom Pedro 
seu filho, que s'aventura 
a hu grand' usso matar 
et desi et sempre cura 
d'el íey seu padre guardar. 

Assim cantava Joham Jograr, morador em Leom, que não se 
esquece de citar a liberalidade do Conde Dom Pedro : 

E ãl do Conde faiemos 
que he irmão tio d'el rey.. • ^ 

Uma canção de Joham Jograr, a AíFonso xi de Castella, re- 
mata : 

Se mi justiça nom vai ^ 

ante rey justiceiro 
ir-m'ey ao de Portugal. 2 

Por aqui se vê como a corte de Aífonso iv ainda sustentou a 
moda trazida de França por seu avô, e desenvolvida por el-rei 
Dom Diniz. Foi um tal interesse que. determinou a colleccionaçao 
dos diversos Cancioneiros que vieram a formar o Cancioneiro de 
Colocci e o apographo da Vaticana. 

Sobretudo, a principal consequência d'este encontro dos trova- 
dores de ambos os paizes foi o conhecimento dos Lais bretães e das 
novellas da Tavola redonda. 

A decadência da poesia lyrica trobadoresca no reinado de Af- 
fonso IV, acha-se compensada pela redacção das primeiras paginas 
históricas relatando o successo da batalha do Salado ; essas pagi- 
nas conservaram-se accidentalmente entre as listas genealógicas do 
fragmento do Nobiliário que se encontrou junto ao Cancioiíeiro 
da Ajuda. ' Predominava o espirito critico de uma edade de pro- 
sa, e as próprias Gestas francezas dissolviam-se em Novellas. A 
batalha do Salado, vencida^á custa de uma liga passageira de es- 
tados christãos dissidentes, inspirou ainda alguns poetas, mas a 

1 Canc. da Vaticana, n.» 707, — * Ibid., n.o 553.-3 Portugalice 
Man. hist., Scriptores, p. 190. 



94 POEMA DA RATALIIA DO SALADO (EpOCa i." 

forma narrativa subordinou-os a uma exposição dos factos, de mo- 
do que os seus poemas não passaram de Chronicas rimadas ou me- 
trificadas. Na Bibliotheca do Escurial conserva-se manuscripta 
uma Crónica rimada, Crónica en coplas relondillas de Alfonso 
Onceno, que Diego Hurtado de Mendoza achara em Granada em 
1573, escripta por um contemporâneo da Batalha do Salado, Ro- 
drigo Yanes ; ^ em Portugal, já no século xvii Faria e Sousa, no 
seu Epitome e na Ásia portugueza, citava também um poema que 
celebrava a Batalha do Salado escripto por um contemporâneo do 
successo Affonso Giraldes. Tendo Dom Affonso iv ido em auxilio 
de seu genro Affonso xi, e tendo revelado depois da batalha o 
mais extremado desinteresse cavalheiresco, é natural que os seus 
poetas palacianos assim como cantavam em bellas serranilhas a 
expedição marítima ao Salado, também, como fizera Yanes, pro- 
curassem cantar em uma Chronica rimada aquella empreza. O 
poema de Affonso Giraldes tem a sua rasão de ser; os nossos 
chronistas, que lograram vêl-o, citarara-no com auctoridade histó- 
rica, como fizeram Faria e Sousa, os dois Brandões, e ainda Blu- 
teau. E por essas vagas referencias que podemos hoje caracterisar 
a sua forma poética, e até certo ponto as relações litterarias que 
evidentemente existem entre os dois poemas, o de Rodrigo Yanes 
e o de Affonso Giraldes-. Em 1871 indicámos estas relações, ^ e 
em 1875 publicamos alguns paradigmas que fazem suppôr que 
um poema é traducção do outro. ' Depois d'este primeiro estudo, o 
problema adquiriu uma nova importância, quando a philologia 
pôde descobrir no texto castelhano os vestígios de um original 
portuguez. * Não temos o conhecimento sufíiciente dos processos 
phoneticos para fazer um exame comparativo sobre o texto de Ya- 



* Publicada em Madrid em 1863 por Janer. e reproduzida na Goli. Hi- 
badaneyra. — ^ Trovadores galecio-portngtiezes, p. 267. — ' Manual da 
Historia da ÍJtteratxira portvgueza, p. 60. — * Consignámos este fado nas 
Questões de Litteratura e Arte Portugueza, p. 143: «O eminente philolo- 
go Dr. Jules Cornu, no exame linguistico do Poema de Alfonso Onceno, 
chegou também á conchisão de que esse celebre Poema conservava os vestí- 
gios de um original portuguez, que julgamos ser o Poema de AlTonso Giral- 
des sobre a Batalha do Salado, hoje perdido. » 



Século XII a xiv.) affonso giraldes 95 

nes e as formas do portuguez antigo, mas retomamos o problema 
para o resolvermos eraquanto aos dados da critica litteraria. 

Em primeiro logar, ambos os poemas são em redondilhas octo- 
syllabicas, rimando o primeiro verso com o terceiro e o segundo 
com o quarto ; em segundo logar, existem versos communs aos 
dois poemas, facto tanto mais importante quanto do poema de Af- 
fonso Giraldes apenas se conhecem hoje dez quadras ; por ultimo, 
versos errados na metrificação e na rima, no poema de Yanes, fi- 
cam certos traduzindo-os ou restituindo-os á forma portugueza. 

A primeira referencia ao poema de Affonso Giraldes, acha-se 
na Monarchia lusitana, de Frei António Brandão, que diz : « Um 
romance tenho, que trata da batalha do Salado, composto por Af- 
fonso Giraldes, d'aquelle tempo, em o principio do qual, entre ou- 
tras guerras antigas que se apontam, se faz menção d'esta que o 
Abbade João teve com os mouros e seu capitão Almanzor. » ^ A 
passagem alludida por Brandão, apparece-nos exposta por Ama- 
dor de los Rios, sem nos dizer d'onde a houve : « Guarda a histo- 
ria porventura alguma parte, ainda que não da extensão que de- 
sejáramos, das rimas de Affonso Giraldes, fidalgo portuguez, que 
se achou na memorável batalha do Salado. » ^ Teria Amador de 
los Rios algum fragmento manuscripto ? Eis a estrophe do começo 
do poema, como se infere do que diz Brandão : 



Outros faliam de gram razão * 

De Bisturis grarn sabeflor, 
E do Abbade Dom João 
Que venceu rei Almanzor. 

A allusão a Bisturis explica-se como uma reminiscência bí- 
blica dos feitos heróicos de Eleazar nos desfiladeiros de Betzacha- 
rah; a lenda do Abbade João de Monte-mór, ^ em^ue os guerrei- 
ros antes de se lançarem aos mouros degolaram as mulheres e as 

1 Part. ni, liv. x, cap. 45. — ^ }Ust. de la Litteratura espaiiola, t. 
IV, p. 415. — 3 Vimos uma Historia do Abbade João, em quarto pequeno 
gothico, impressa por Francisco Fernandes em Córdova, em 1562; é em 
prosa antiga castelhana, facilmente transformarei em verso de redondilha. 



96 FRAGMENTOS DO POEMA DO SALADO (EpOCa 1/ 

filhas, é uma tradição gauleza, como se vê em Belloguet, que re- 
vivesceu nas luctas da reconquista christã, que nEo foram tão de- 
sesperadas, como nol-as pintam os narradores catholicos. No poe- 
ma castelhano de Yanes faltam também as primeiras strophes. 

Frei António Brandão, que possuía o poema portuguez, tran* 
screve uma passagem allusiva ao casamento de Dom AfFonso iv: 
«AíFonso Giraldes, que escreveu em rimas portuguezas a batalha 
do Salado, no próprio anno em que succedeu, relatando as acções 
d'este infante, que era então já rei, e se achou na batalha sobre- 
dita com el-rei de Castella Aífonso xi, seu genro e sobrinho, diz 
assim : 

Pois que este Rey nasceu 
A grana viço foy criado ; 
E deshi como creeeo 
Sempre foi bem ensiaado. 

Seu padre o criou, 
E des que foy de entendimenlo ^ 
De vinte annos lhe justou 
Um muy rico casamento. 

Seu padre rey Dom Diniz, 
Foi justiçoso e muy santo, 
El o casou com D. Brites (Britiz) 
Filha do nobre rey Dom Sancho. 

E despois que foy casado 
Com aquella nobre Infante, 
Seu padre lhe deu estado 
Como ouvireis adiante. 

Deu-lhe terras a mandar, 
De mui nobres cavalleiros ; 
E muitos portos de mar, 
Rendas de muitos dinheiros. 

Quinze annos cumpridos viveu 
O padre des que o casou ; 
Deshi quando el morreu 
Muito d'algo lhe deixou, etc. i 

Ve se pela data da publicação da Monarchia lusitana, que o 
1 Monarchia lusitana, t. vi, p. 106. 



Século XII a xiv.) relação com a crónica em redondillas 97 

poema ainda existia em 1751. Transcreveremos o resto das es- 
trophes conhecidas ; Bluteau, no Vocabulário da Língua portugue- 
za, (1712) exemplifica a palavra Almexia: «Como acção pró- 
pria d'este reyno, cantou Affonso Giraldes esta distincção nas ri- 
mas que fez da Batalha do Salado, com os versos que se se- 
guem : 

E fez bem aos criados seus 
E grão honra aos privados ; 
E fez a todos os judeus, 
Trazer signaes divisados ; 

E os Mouros almexias, 
Que os pudessem conhecer; 
Todas estas cortezias 
Este Rey mandou fazer. » 

E aqui que nos apparecem as relações do poema portuguez 
com a Crónica en redondillas de Rodrigo Yanes. Na strophe 335, 
diz o poeta castelhano : 

E dióles grandes franquias. 
Por Castilla mas valer ; 
Todas estas cortezias 
El buen rey hizo fazer. 

Ainda assim poderia parecer que esta similhança de versos 
fosse um effeito de casualidade; mas na continuação da Monar- 
chia lusitana por Frei Francisco Brandão, vem transcripta mais 
uma quadra, que diz : 

Gonçalo Gomes de Azevedo 
Alferes dei Rey de Portugal, 
Entrava aos mouros sem medo^ 
Gomo fidalgo leal. ^ 

Na strophe 1326, do poema de Yanes, lê-se esta mesma qua- 
dra: 

Todos yvan muy sin medo, 
Para couplir su perdon, 

1 Ibid., Parte v, liv. xvi, cap. 13. 



m 



RIMAS PORTUGUEZAS EM YANES 



ÍEpnra i.' 



E Gonçalo Gomes de Azevedo 
Levava el su pendon. 

Depois J'este3 dados que apresentamos, em que se vê a simi- 
laridade de estylo, de forma métrica, de versos e até de strophes, 
suscita-se o seguinte problema : Será o poema de Rodrigo Yanes 
uma traducç3o do poema da Batalha do Salado, de Aífonso Gi- 
raldes ? 

A parte as comprovações linguisticas, segundo a affirmação do 
professor Jules Cornu, que acha vestigios de um original portu- 
guez sob as formas d'esse antigo castelhano, vamos evidenciar a 
existência do nosso original nas rimas da Crónica en redondillas. 



Estancias castelhanas : 

Non ayades que temer 
Estes moros que son pocoSj 
Con vusco cuido vencer 
Este dragou de Marruecos. 

La reyna vuestra fija 
Vos demanda que le dedes 
La vuestra muy real frota 
Vos gela embiedes. 

(est. 1020.) 

Bos, buen rey, non lo buscastes 
E por bos cobrará corona, 
E pois me bien comensastes 
La sima sea muy buena agora, 
(est. 1825). 

Si entramos en tomeo 
Plasc-me, ca es derecho, 
Pongo Dios en el comedio 
Que sea juez dei fecho. 

(est. 1408.) 

Dixo : sennor, si bos pias 
En la buestra tienda folgade, 
Dormido e avede pas, 
IS'on vos temades de nady. 

(est. 1491.) 



Versão portugueza : 

Não ajades que temer 
Estes mouros que son poucoSy 
Comvosco cuido vencer 
Este dragão de Marrocos. 

A rainha vossa filha 

Vos demanda que lhe dedes 

A vossa real flotilha 

E que vós lhe a enviedes. 



Vós bom rey nom o buscastes 
E por vós cobrarei coroa, 
E pois mui bem começastes 
A cima seja mui boa. 



Se entramos em tomeo 
Praz-me, cá é direito. 
Ponho a Deus em o meo 
Que seja juiz do feito. 



Dixe : senhor, se vos praz 
Em vossa tenda folgada 
Dorraide e avede paz, 
Nom vos temades de nada. 



SeCuIo XII A XIV.) TRADIÇÕES BRETÃS EM PORTUGAL 99 

E el Saturno complió E o Saturno cumpriu 

Su curso e amanesció, Seu curso e amanheceu, 

El alva luego salió, A alva logo saiu, 

E la lus esclareeió. E a luz esclareceu. 

(est. loOO.) 

Fallóla sobre a Algesira Achou-o em Algesira 

Con su hueste e su pendon, Com sua hoste e pendom, 

El buen rey quando lo biera O bom rei quando o vira 

Alegro el coraçon. Alegrou-se o coraçom. 
(est. 2231.) 

Evidentemente as rimas castelhanas são imperfeitas, revelan- 
do um original que o metrificador não pôde traduzir cabalmente. 
O poema de Rodrigo Yanes, alludindo ao Leão dormente, que de- 
clara ser Dom AíFonso iv, moroso em acudir a seu genro, e o 
Porco selvagem, symbolisando o poder dos Mouros vencidos no 
Salado, mostra-nos que esta tradição, derivada das prophecias de 
Merlim, existia em Portugal, apparecendo no século xvi nas re- 
dondilhas propheticas de Bandarra. O poema narrativo foi escri- 
pto sob o influxo das tradições bretãs em Portugal, que se mani- 
festaram no lyrismo, nos contos e nas novellas. 



§. m 

Influencia armoricana, ou gallo-bretã 

As ficções bretãs entraram em Portugal n'esse periodo de syn- 
cretismo em que as Gestas se convertiam em Chronicas históri- 
cas ; é por isso que no Nobiliário do conde Dom Pedro vem a 
genealogia do rei Arthur segundo os poemas da Tavola Redonda, 
e se falia em Lanzarote do Lago, em Galvan (Gauvain) na Isla- 
valon (Ilha de Avalon) ; seguindo o Roman de Brut descreve as 
aventuras trágicas do Rei Leyr (Lear) e de Merlim. O lyrismo 
provençal devia ser odioso a Dom Afi^onso iv, não só pela sua 
enérgica virilidade, como por a ser a poesia o instrumento com 
que os bastardos seus irmãos captavam as graças de el-rei Dom 



100 LA.YS E VISELAYS (EpOCa 1.* 

Diniz. A anecdota da emenda mandada fazer no episodio dos 
amores de Briolanja, na novella do Amadis, mostra-nos que a lit- 
teratura não tenderia sob a sua influencia para as allegoiúas sen- 
timentaes. Por outro lado as questões continuas com seu filho Dom 
Pedro I, por causa dos amores com D. Ignez de Castro, também 
favoreceram o desuso do lyrismo na vida palaciana. 

a) Os Lays bretãos. — A influencia rápida do lyrismo bretSo 
exerceu-se diversamente em Portugal e Castella ; entre nós pre- 
valeceu a forma narrativa dos poemas de aventuras, que facil- 
mente degenerou na ampliação das novellas em prosa e no syn- 
cretismo histórico. Em Hespanha o gosto bretão era essencialmen- 
te musical, como se vê pela canção de Guerau de Cabrera: 

Non sabes finir 

ai mien albir, 

á temperadura de Breton. ^ 

Em Hespanha foram imitados os lays, e ficaram na poética 
do século XVI os Virelays. O lyrismo bretão tinha o mesmo cara- 
cter tradicional que apontámos na determinação das origens po- 
pulares dos cantos provençaes ; é por isso que, apesar de uma ex- 
pedição tão rápida como a de Bertrand du Guesclin á península, 
08 lays bretãos facilmente se propagaram e até certo ponto pode 
attribuir-se á sua acção o novo esplendor da poesia castelhana e 
a renascença do lyrismo na Galliza, 

Uma canção de Fernão Rodrigues Redondo allude ao gosto 
da nova forma poética : 

Muy ledo seend'u cantara seus lays, 
a sa lidice pouco Ihi durou... ^ 

Pêro da Ponte, chasqueando de Sueyro Eanes, faz sentir co- 
mo elle era imperfeito em o novo género: 

des qu'el despagado vai 
em que Ihi troba tan mal e tan lay 
porque o outro sempre Ihi quer mal. » 

1 Pelay Briz, Libre de los Poetas, p. 23. — ^ Canc. da Vat., n.° 1147. 
— 3 Ibid., n.o 170. 



Século XII a xiv.) novellas bretãs 101 

No Cancioneiro Colocci-Brancuti as primeiras composições 
são cinco lays sobre lendas bretãs, cujas rubricas indicam os the- 
mas mais conhecidos na forma de Novellas ; esses lays são o de 
Elis o haqo, o das Quatro donzellas, os de Tristan o namorado^ 
e de Ti'istan jpor Genebra. ^ No Cancioneiro da Ajuda vem este 
fragmento de canção : 

E vos filha de Dom Pay 
Moniz, e bem vos semelha 
d'aver eu por vós guarvaya. ^ 

Esta palavra é explicável pelo costume bretão, em que as don- 
zellas recem-casadas pagavam ao primeiro trovador da corte o 
Tcyvarus, ou « munera nupticarum. » ^ O trovador queixando-se 
de não ser attendido da dama, espera comtudo receber d'ella 
guarvaya, por causa do seu casamento com outro. 

Ainda em uma canção de Gonçalo Eanes do Vinhal ha uma 
referencia positiva aos cantares bretães: 

Maestre, todos os vossos cantares, 
já que filham sempre d'hun a razon, 
e outrosi ar filhara a mi son, 
e non seguides outros milhares ; 
senon aquestes de Cornoalha, 
mays esto seguides bem sem falha, 
e non vi trobador per tantos logares. 
I (Canç. n.o 1007.) 

b) Os Contos e Novellas bretãs. — Na corte de Dom Diniz 
eram já bastante lidos os poemas de aventuras amorosas do cy- 
clo da Tavola Redonda. O próprio monarcha tomava como typos 
esses amantes fieis: 

Qual mayor poss' e mays encoberto 
que eu poss' e sey de Branchafrol, 

1 Tanto estes lays como a sua critica ficam tratados nas Questões de 
Litteratura e Arte portiigueza, p. 85 a 97. — ^ Trovas e Cantares, nP 305. 
— 3 Leges Wallice, p. 779 e 861. 



102 CYCLO DA TAVOLA REDONDA (EpOC. 1." 

que Ihi non ouve Flores tal amor, 
qual vos eu ey ; e pêro são certo. 

(Canç. n.o lio.) 

Qual mayor poss' e o muy namorado 
Trístã, sey bem, que non amou Iseu... 

Joiíam de Guylhade também emprega as mesmas allusões: 

Os grandes vossos amores, 
que mi e vós sempre ouvémos, 
nunca Ihi cima fezemos 
cora' a Branchafrol e Flores. 

(Canç. n.o 358.) 

E Estevam da Guarda, grande privado de Dom AíFonso iii, 
também se refere á lenda dos amores e morte de Merlim : 

a tal morte de qual morreu Marlim, 
hu dará vozes fazendo sa fim... 

(Canç. 930.) 

Na Canção de Guerau de Cabrera, referindo-se á tempradura 
de bretão, cita-se entre outras novellas a de Loer; também o con- 
de Dom Pedro ao preceder o seu Nobiliário com um breve resu- 
mo de historia universal, traz reduzida a prosa a lenda do Rei 
Lear ; ^ apesar de encontrarmos na tradição popular está lenda, 
temos para nós que o linhagista a recebeu por communicação lit- 
teraria, da Chronica bretã de GeoíFroy de Montmouth, resumin- 
do-a nos seus traços capitães. No Nobiliário encontra-se essa ou- 
tra lenda da Dama pé de cabra ^ com que se fundamenta a ori- 
gem maravilhosa da Casa de Haro; lendas d'e3ta mesma natu- 
reza servem de fundamento heráldico ás Casas de Lusignan, de 
Croy, de Salin, Bassompierre, e Argenger. Submettida a nobreza 
á lei real, pela inscripção em um cadastro genealógico, estas lendas 
vulgarisam-se como o ultimo lampejo da vida soberana dos gran- 

1 PorU Mon. hist., Scriptores, p. 238. — " Ibidem, p. 258. 



Século xu a xiv.) o thema do amadiz de gaula 103 

des vassallos. A Dama jpé de cabra, é um ser magico das tra- 
dições bretãs : « e dizem hoje em dia... que este é o coouro de 
Biscaia. » Quer dizer, é como os Courils ou Gories, que ainda 
hoje nas crenças da Finisterra dansam ao luar. 

Juntos das lendas bretãs, já se syncretisam os conhecimentos 
da erudição humanista; n'este mesmo conto da Dama pê de ca- 
bra figura o cavallo magico Pardallo. Na Historia Natural de 
Aristóteles (liv. vi, cap. vi) dá-se o nome de Pardalis, em grego, 
á panthera. Foram os Árabes que revelaram á Europa as obras 
de Aristóteles, e pela corrente árabe vieram também algumas 
lendas para o Nobiliário, como a de Gaya, ^ as Haposias, dos 
Contos do Kalila e Dimna, e vários exemplos que não sahiram 
da transmissão oral. Todos estes factos dispersos, por onde se re- 
tonstitue o estado das ficções portuguezas no século xiv, são in- 
dispensáveis para se reduzir a uma consequência natural esse ex- 
traordinário producto da corte de Dom Diniz, a novella do Amxi. 
diz de Gaula. 

c) For^nação do Amadiz de Gaula. — De todas as Gestas 
francezas, vulgarisadas pelas litteraturas novo-latinas, nenhuma 
attingiu a universalidade do Amadiz de Gaula; pertence a novel- 
la ao cyclo de aventuras, independente de todo o intuito nacio- 
nal. Ignorou-se por muitos annos a existência do poema francez 
anterior á redacção portugueza ; e as palavras de Herberay des 
Essarts, traductor da novella para francez, dizendo que existia 
um poema em lingua picarda, pareceram por muito tempo gratui- 
tas e sem fundamento. No secula passado o conde de Tressan es- 
crevia, na sua abreviação do Amadiz : « Estou intimamente con- 
vencido de ter visto estes manuscriptos (que se julgam ser picar- 
dos) escriptos em antigo romance na Bibliotheca do Vaticano, is- 
to é, na parte d'esta Bibliotheca formada com a que a celebre 
rainha Christina tinha ajuntado, e na qual estão comprehendidos 
03 nossos mais celebres e antigos poemas. » * Outros poemas me- 
dievaes foram achados sobre o thema do Amadiz, e numerosas re- 
ferencias a este heroe da fidelidade, em muitos poemas da Edade 
media. Em 1810 publicou-se uma versão poética ingleza, intitu- 

1 Ibid., p. 180. — 2 Traduction libre à:Amadis, 1. 1, p. xxu. 



104 VULGARISAÇÃO DA NOVELLA (EpOCa 1.* 

lada Sir Amadace, ainda com o laconismo da cantilena. Desco- 
briu-se depois o poema de Amadas et Ydoine. Depois d'e8tes ele- 
mentos para a critica, "Victor Leclerc avançou : « quando se com- 
parar o poema francez com o inglez, em que Amadas ou Amada- 
ce são ambos modelos de fidelidade e de bravura, então se verifi- 
cará o fundamento da existência de uma versão manuscripta em 
lingua picarda. » No poema francez do Amadas, allude-se á im- 
mensa vulgarisação que as suas aventuras tinham na Europa. ^ 
As referencias nos outros poemas medievaes são importantes ; 
Maerlant, reformador da poesia neerlandeza, e morto em 1291, ci- 
ta já o Amadis ^; Gower, na Confeasio amantis, cita o Ydoyne 
et Amadas ^ ; no romance inglez de Emare, ha outra referen- 
cia * ; e no poema francez Donat des Aviants, o Amadiz é citado 
como o prototypo da fidelidade ^ ; no fabliau de Gautier d'Aupais 
apparece ainda uma referencia. ^ Por todos estes factos se de- 
monstra á evidencia que o thema da Novella não é portuguez. 

Compete-nos portanto justificar a prioridade da redacção por- 
tugueza ; o nome de Ydoine, apparece -nos na sua forma mais pu- 
ra em D. Idana de Castro ' e no Nobiliário já na forma de Ou- 
roana. No Cancioneiro Colocci Brancuti, sob os n.*'* 230 e 232, 



Tout droitement par Alemaigne, 
Puis fait son tour parmi Bretaigne, 



Espandue est já par Bourgoigne, 
De lui la haut renommée, 

Qu'il n'a jusqu'as pors á^Espagne, 
Dont si grans est la renommée 
De lui par tout le mont alée, 
Que á'Angleterre jusqu'à Rume, etc. 



2 Jonckbloet, Hist. da TJtteratura neerlandeza, t. i, 161. — ^ jVo li- 
vro VI : 

Is fed with redynge of romance 
Of Idoyne and Amadas. 

* In that on korner mad was 
Idoyne and Amadas. 

• Que fist Didum par Eneas, 
E Ydoine par Amadas. 

« Ed. Legrand, de 1779, vol. ui, p. 27. — ' J. Soares da Silva, Mem. 
de D. João I, t. VI, p. 8. 



Século XII a xiv). joão lobeira 105 

apparece-nos uma canção assignada por João Lobeira, com o se- 
guinte tomei : 



Leonoreta sin roseta 
bella sobre toda flôr^ 
sin roseta nom me meta 
en tal culta vosso amor. 



Na redacção hespanhola de Amadiz, a única que existe, ficou 
esta mesma canção no livro ii, cap. 11 ; d'onde se conclue que a 
versão de Garci Ordoftes de Montalbo, de 1492, proveiu de um 
texto, em que tinha collaborado o trovador João Lobeira, da cor- 
te de Dom Diniz, ^ e que o próprio Montalbo muitas vezes não 
comprehendeu. Este texto acha-se definido por Miguel Leite Fer- 
reira, o qual fallando de uns sonetos em linguagem antiga escri- 
ptos por seu pae o Dr. António Ferreira, diz « na linguagem que 
se costumava n'este reino em tempo d'el-E,ey Dom Diniz, que he a 
mesma em que foi composta a historia de Amadiz de Gaula por 
Vasco de Lobeira, natural da cidade do Porto, cujo original anda 
na Casa de Aveiro. » ^ Em Hespanha a vulgarisação do Amadis 
só começa do fim do século xiv para o século XV, e citam-no os 
trovadores Fray Miguel, Pêro Ferrus, Micer Imperial, chanceller 
Ayala, Ferrant Manoel e Villasandino. No século xiv a Hespa- 
nha estava occupada na elaboração do seu vasto Romanceiro, e 
toda a actividade poética era dispendida em dar forma ás tradi- 
ções nacionaes do Cid, dos Sete Infantes de Lara, de Bernardo 
dei Carpio ; as Gestas francezas pouco penetraram em Hespanha, 
que idealisava então os seus heroes nacionaes. As condições do es- 
pirito nacional portuguez eram outras ; ainda sem tradições históri- 
cas, estávamos n'esse estado de syncretismo em que tudo se assi- 
mila e confunde. Depois d'esses dois factos cathegoricos, o tornei 
de João Lobeira, conservado inconscientemente por Montalbo na 
traducção castelhana, e o manuscripto em linguagem do tempo de 



1 Este problema acha-se minuciosamente discutido nas Questões de Lit- 
teratura e Arte poríugueza, p. 98 a 127. — » Ed. dos Poemas lusitanos, de 
1598. 



lOG PROVAS A FAYOH DO TEXTO PORTUGUEZ (EpOCa 1.* 

Dom Diniz, que se guardava na Casa do Duque de Aveiro, abun- 
dam os argumentos para provar a prioridade da redacção portu- 
gueza do Amadiz de Gaula, e todos anteriores á data da versão 
castelhana de 1492 : 

1.'^ Que essa redacção portugueza foi escripta entre 1297 e 
1325, infere-se da allusão ao Infante Dom Affonso de Portugal, 
que começou a reinar n'esta ultima data com o nome de Dom Af- 
fonso IV. Ordoôez conservou inconscientemente esta preciosa si- 
gla marginal do manuscripto. No Amadis também não se empre- 
gam armas de fogo, ainda nas mais arriscadas aventuras, usadas 
na península pela primeira vez na batalha de Aljubarrota em 
1385. 

2.° Até 1406 só eram conhecidos os três livros de Amadiz, 
que ainda estava em continuação, como se infere das referencias 
dos trovadores castelhanos acima citados. O nome de João Lobei- 
ra é o signatário d'e3tes três livros, por isso que o chronista Azu- 
rara colloca Vasco de Lobeira no tempo de Dom Fernando. 

3.° A primeira vez que se encontra o nome de Vasco de Lo- 
beira citado como auctor do Amadiz de Gaula, é na Chronica do 
Conde Dom Pedro de Menezes, escripta por Azurara em 1454, e 
conservada inédita até 1792: «o Livro d'' Amadiz, como quer que 
soomente fosse feito a prazer de hum homem que se chamou Vas- 
co de Lobeira, em tempo d'el-rei Dom Fernando, sendo todalas 
cousas do dito Livro fingidas do auctor. . .» (cap. 60.) Vê-se por 
este facto, que Vasco de Lobeira, que figura na lista dos armados 
cavalleiros depois da batalha de Aljubarrota em 1385, retocou a 
Novella, introduzindo o quarto livro. Ora, reprovando Montalbo 
o episodio dos amores de Briolanja, como é que o iria desenvolver 
em um quarto livro, promettido logo no principio da novella? 

4.*' Uma tradição, conservada por Jorge Cardoso, diz que 
um tal Pedro Lobeira retocara a pedido do Infante Dom Pedro 
o Amadiz de Gaula. É esta reminiscência o que prova a in- 
tervenção de dois escriptores, João Lobeira e Vasco de Lo- 
beira. 

5.** Antes do conhecimento do texto castelhano de 1492, o 
Amadiz apparece-nos muito conhecido, no Tirant il Blanch, de 
1460, onde figura a fada Urganda la desconocida; nos versos 



Século XII a xiv.) começo do hujianismo 107 

de Dom Alonso de Cartagena ; nos versos de Cuidar e Suspirar, 
da corte de Dom João ii, de 1483 ; etc. 

6.° Era 1549, o Dr, João de Barros, Escrivão da Camará de 
Dom João III, no Ms. das Antiguidades de Entre Douro e Mi- 
nho, fl. 32, dizia do Ainadiz : « obra mui subtil e graciosa e apro" 
vada de todos os galantes, mas como estas cousas se seccam em 
nossas mãos, os Castelhanos lhe mudaram a linguagem e attribui- 
ram a obra a si. » Este manuscripto pode vêr-se na Bibliotheca 
nacional de Lisboa. 

7.'' Em 1557 colligiu o Dr. António Ferreira os seus Poe- 
mas Luzitanos, onde incluiu os dois Sonetos em linguagem antiga 
celebrando os amores de Briolanja ; e em 1598 seu filho affirmava 
que o Manuscrito da Novella, cuja linguagem seu pae imitara, se 
guardava como preciosidade na Casa de Aveiro. 

8." No Catalogo da livraria do conde de Vimieiro, de 18 de 
março de 1686, vinha apontado o Amadiz de Gaula em -portu- 
guez. Na Relação d'esta Livraria dada pelo conde da Ericeira em 
1726, á Academia de Historia, diz que a novella já alli se não 
achava. Temos ainda esperança de se encontrar o original pri- 
mitivo, apesar do incêndio de muitas livrarias por occasião do 
terramoto de 1755. 

A influencia do Amadiz foi immensa na Europa, e raros são 
os moralistas que não clamaram contra a sua leitura ; a corrente 
do século XV especialmente erudita, e a renascença greco-romana 
desprezavam a Edade media. Esta corrente humanista começa em 
Portugal no século xiv, vindo a tornar-se exclueiva no século dos 
quinhentistas. 



§. IV 

A cultura latino-ecciesiaslica e humanista 

O conflicto dos dous Poderes, que preponderou em toda a 
Edade media, manifesta-se na constituição das nacionalidades 
modernas no pensamento da unidade romana do Occidente pela 
acção dos Papas (minor Deo, major homiiie) ou pela auctoridado 



108 SIGNIFICAÇÃO DE LATINO E ROMANO (EpOCa 1.* 

dos Imperadores. Cada um d'estes poderes, procurando restabele- 
cer a tradição de Roma, apoiava-se no perstigio do passado; as- 
sim as lettras latinas eram estudadas nos claustros, e os poetas 
christãos imitavam os poemas didácticos da decadência ou com- 
punham sobre os mysterios da egreja centdes virgilianos. Pelo seu 
lado a auctoridade real mantinha todas as fórmulas do direito ro- 
mano, e fundamentava o exclusivo poder monarchico com a letra 
dos Codiííos imperiaes, A tradição greco-romana tendia a renovar- 
se, desde que a classe clerical queria estabelecer a sua preponde- 
rância pelo saber, adquirido nas escholas ecclesiasticas ; e desde 
que a auctoridade civil se impunha á theocracia e ao feudalismo, 
pela letra ou lei escripta dos jurisconsultos de Roma, estudada 
nas Universidades. O antagonismo entre estas duas classes era in- 
conciliável, como se vê pela inscripção da egreja de Sam Marti- 
nho de Worms, dizendo que é mais fácil seccar-se o mar ou ir o 
diabo para o céo, de que entenderem-se como amigos. ^ A pala- 
vra latino tornou-se synonymo de instruído, intelligente, d'onde 
ainda a nossa expressão vulgar ladino; e o nome de romano veiu 
politicamente contrapôr-se ao de bárbaro, no momento em que to- 
dos os elementos que Roma submettera se acharam possuindo 
uma mesma unidade de cultura. É por isso que o romance signi- 
ficava a lingua e os cantos vulgares. Não admira pois que no pe- 
ríodo eiq que as novas nacionalidades occidentaes se constituíram, 
a cultura latina se impuzesse já pelos eruditos ecclesiasticos, já 
pelos humanistas. 

que merece «uma attenção especial é a mistura das tradi- 
ções clássicas ou greco-romanas com as tradições heróicas das ra- 
ças da Europa constituídas em nações. Ha poemas essencialmen- 
te germânicos com formas latinas, como o Waltharius; dava-se 
com o latim o mesmo que com os escriptos aljamiados, em que a 
letra era árabe e a palavra latina. Havia uma classe de escripto- 
res ou poetas intermediários ao povo e aos eruditos ; os Goliar- 
dos punham em verso latino os cantos populares ou os sentimen- 

1 Vem em Comparetti, Virgílio nel MecUo Evo, t. i, p. 243 : 

Cum maré sicatur, et daemon ad astra levatur, 
Tunc primo laicua flt clero fldus amico. 



Século XII a xiv.) o cyclo greco-romano 109 

tos do proletariado, reduziam a métrica latina á accentuação e 
rima do vulgo, e faziam cantos farsis, em que os versos latinos 
se alternavam com os novos dialectos românicos. Era natural es- 
te phenomeno apparentemente extraordinário ; diversas raças, co- 
mo Ligurios, Iberos, Celtas, Illyrios, abraçaram a lingua e cultu- 
ra romana, sob o domínio de Roma, e quando desenvolvendo-se 
em o"ganismos nacionaes independentes tinham todas as condi- 
ções para darem relevo á sua feição ethnica, acharam-se instin- 
ctivamente solidarias com a cultura greco-romana e continuado- 
ras d'ella. Enumerando as tradições poéticas dominantes da Eda- 
de média, Jean Bodel, na Chanson des Soissons, inclue o elemen- 
to romano : 

Ne sont que trois matères à nul homme entendant, 
De France, de Bretagne et de Rome la grand. 

Todos estes três cyclos poéticos foram conhecidos em Portu- 
gal, o carUngiano, ou franko, o arthuriano, ou bretão, e o greco- 
romano que chegou a syncretisar-se com as nossas origens histó- 
ricas. 

1.° O cyclo dos poemas greco-romanos. — No Eoman de 
Flamenca vem uma lista das Gestas eruditas que constituiam es- 
te cyclo, que os jograes cantavam, cujos assumptos correspondem 
ainda a muitos manuscriptos existentes: «Um canta de Priamo, 
outro de Piramo; outro da bella Hellena, como Paris foi á sua 
procura e depois a trouxe ; outro canta de Ulysses, outro de Hei- 
tor e de Achilles. Outro cantava de Eneas e de Dido, como ella 
ficou por elle triste e desolada ; outro cantava de Lavinia... de 
ApoHonice, de Tideu, de Etidiocles... Um canta do rei Alexan- 
dre, outro de Ero e de Leandro. Um diz de Cadmo e sua fuga, e 
de Thehas como se edificou. Outro cantava de Jason e do Dra- 
gão, que não conhecia somno ; outro canta de Hercules e de sua 
força; outro como Philis attenta contra si por amor de Demo- 
phonte. Um diz como o bello Narciso se afogou na fonte onde 
elle se mirava. Um diz de Plutão, como roubou a Orpheo a sua 
bella esposa... Um canta de Júlio César, como passou sósinho o 



no A LENDA TROYANA EM PORTUGAL (EpOCa 1.* 

mar, sem implorar nosso Senhor, porque não conhecia o me- 
do... » ^ As tradições troyanas eram conhecidas no século iii por 
JEliano, por Macelas no século ix, por Constantino Prophyroge- 
neta, no século x, por Suidas no século xi, Isac Prophyrogeneta, 
Constantino Manasses, João e Isac Tzetzes, no século xiii; é por- 
tanto explicável como pela tradição escholar veiu esta corrente a 
encontrar-se com a popular occidental. O pedantismo escholar fez 
com que as relações poéticas da ruina de Troya se tornassem factos 
históricos. Tal é o caracter com que apparecem no Nobiliário do 
conde Dom Pedro : « O primeyro rrey que pobrou a Troya ouue 
nome Dardanus, e per esto as gentes da terra forom chamados 
dardanides. Esto foy no tempo d'Abraham, quando sayo das ci- 
dades dos caldeus. Depois de Dardanus ouue hi outro rrey que 
ouve nome Ylyus: aquelie fez o castello de Troya. E per este 
rrey Ilius ouue o castello nome Ylom. E depois do rrey Ilius, 
rreynou Leomedon. Este Leomedon, per a maa colhença que fez 
a Jasom neto de Peltus, quando vençeo Tarsom, do ouro que era, 
na Ilha de Calcus. E por esta rrazom quando se tornou Jasom, 
rrogou seus amigos e parentes. E veerom com grande oste sobre 
a Troya, e cercoua e tomoua, e matou rrey Leomedon, e tomou 
huma sa filha que avia nome Esiona, levoua cativa e foy a cida- 
de destroyda. Este rrey Leomedom avia huum filho que avia no- 
me Priamo, e era ido com grande hoste sobre seus emiigos, e non 
foy no destroimento da cidade. E quando tornou achou seu padre 
morto e a cidade destroida, e pobroua outra vez. E çercoua ou- 
tra vez darredor de boom muro e fezea á mais forte que pode pê- 
ra se defi'emder de seus emiigos. — Este rrey Priamo ouue cin- 
quo filhos de ssa mulher, que forom muy boons cavalleiros, hum 
ouve nome Eytor, e outro Paris, e o Terceiro Troillos, e o quar- 
to Deifebus, e o quinto Elenus. E consselhousse rrey Priamo com 
seus filhos e seus amigos, e enviou Paris seu filho á Greçia por 
clamar o torto que lhe aviam feito os rreys, de Leomedom e de 
seu padre que lhe matarom e de saa irmãa Esiona, que tinham 
cativa. E Paris foy á Greçia, e levou xii naaos e duzentos caval- 
leiros e grandes gentes de pee e asy veo a Greçia. E emtom avia 

^ Ap. Joly, Benoit de Sainte More, U i, p. 6. 



Século XII a xiv.) a antiguidade assimilhada ao feudalismo IH 

peruemtuira que era hi ajuntada toda a gente da terra a huuma 
festa que hi faziam. E era hi Elena a molher de rrej Menelaos 
irmãa de Gamenon, que era a mais fremosa dona de toda a ter- 
ra. Paris quebramtou todo o templo e destroyu toda a gente que 
hi era e cativou os que quiserem. E filhou a rainha Elena e le- 
voua aa Troya para ssa molher. E per esta rrazom moueromsse 
todas as gentes das terras, e veerom sobre Troya e teveroma 
cercada dez annos. E ouve hi grandes fazendas e mortas gran- 
des cavallarias assy como falia na ssa estoria. E a cabo de 
dez annos foy presa a cidade per gram arte, e per gramde e en- 
gano, de treiçom que hi ouve feita. E todos os que ouve na cida- 
de forom mortos, e a cidade foy destroyda, e queimada. — Avia 
hi huum ricomem em a cidade que avia nome Eneas e avia per 
molher a filha dei rrey Priamo, que avia nome Aquilea. E pren- 
deu esta molher em a prisom da cidade. Este Eneas escapou do 
destroimento da cidade de Troya. E ouue trezentos cavalleiros e 
noue naaos e meteosse no mar e trabalhou hi muito tanto que 
chegou a Cartago. E avia hi huuma rainha que avia nome Dido. 
E rreçebeo muy bem e amouo muito e deulhe seu corpo era po- 
der e foy senhor de ssa terra. E a cabo de tempo partiosse Eneas 
delia a furto, assy que ella nom o soube e leixoua. E depois que 
ella o soube de pesar que ouve matousse com huuma espada que 
Eneas lhe avia dado. — Eneas aportou em Itália, honde ora he 
Roma... » ^ Por estes trechos do Nobiliário vê-se que tínhamos já 
no século XIV conhecimento da Eneida de Virgilio; as lendas da 
origem de Troya e dos seus desastres são tomadas do Roman de 
Troye de Benoit de Sainte More. Na Bibliotheca do rei D. Duar- 
te guardava-se este poema com o titulo Historia de Troya por 
aragoez; é crivei que fosse a traducção catalan de Jachme Core- 
sa feita em 1367, e mesmo porque Dom Duarte era casado com 
uma princeza de Aragão. 

Os eruditos do século xiv explicavam a antiguidade clássi- 
ca identificando-a -com a sociedade feudal : Troya era um castel- 
lo; 03 filhos do Priamo foram hoons cavalleiros, Helena era uma 
fremosa dona, Eneas era um ricomem. Ao elaborarem os docu- 

1 Mon. hist., Scriptores, fase. ii, p. 236. 



112 o SYNCRETISMO HISTÓRICO (EpOCa 1.* 

mentos históricos das novas nacionalidades, buscavam em Troya 
as suas origens; para a França, os chronistas Fredegario, Rori- 
con, Paul Warnefried consideravam os Frankos de origem troya- 
na, e em um documento de Dagoberto se diz : « Ex nohilissimo 
et antiquo Trojanorum riliquiarum sanguine nati. » ^ Em uma 
Carta de Eduardo iii ao papa, mostrando a superioridade da In- 
glaterra sobre a Escossia, allega as suas origens troyanas. ^ Um 
bairro de Veneza dava-se como povoado pelos foragidos de Troya ; 
e até no Edda de Snorre, confundem-se as origens scandinavas 
com as lendas troyanas. Segundo Marianna, na Historia de Hes- 
panha, Ulysses veiu á peninsula ; ^ e Frei Bernardo de Brito 
adopta as ficções do dominicano Anio de Viterbo, que considera- 
va como de origem troyana todas as nacionalidades, tradição eru- 
dita que inspirou os nossos poetas quinhentistas, especialmente 
Camões : 

Ulysses é o que fez a santa casa 
Á deusa que lhe dá língua facunda, 
Qne se là na Ásia Troya insigne abrasa, 
Cá na Europa Lisboa ingente funda, * 

Os estudos humanistas da Renascença determinando a nega- 
ção da Edade media e das tradições nacionaes, conduziram a es- 
sa outra ficção politica da Monarchia universal, e da futura gran- 
deza que Roma edificara sobre a lenda troyana (Eneida, iii, 97) 
e que os outros estados da Europa moderna acceitaram impres- 
sionados pelos mesmos elementos poéticos. 

2. As traducções latinas : Livraria d' Alcobaça. — Junto das 
Collegiadas existiram Escholas destinadas ao ensino ecclesiastico ; 
eram regidas pelo Cabiscol (caput scholse) e frequentavam-na os 
Mouzinhos ou Mozinhos, (os Mocinhos) para os quaes o bispo D. 
Paterno fundou em 1086 em Coimbra, junto á sé ura Collegio. 
O Abbade de Alcobaça fundara em 1269 no mosteiro de Santa 

^ Ap. Du Méril, Poésies popiilaires latines, p. 36. — ^ Joly, Benoit de 
Sainte More, t, i, p. o40. — 3 Op. cit., liv. i, cap. 12. — * Lusíadas, 
canto VIII, est. S. 



Século XII a xiv.) traducgôes em portuguez 413 

Maria os estudos da Grammatica, Lógica, Theologia, não S(5 pa- 
ra os monges como para todos os que quizessem frequentai -os. No 
hospital de Sam Paulo, por 1266, o bispo D. Domingos Jardo 
admitte ao estudo seis escholares de latim, grego, theologia e câ- 
nones. Porém a corrente dominante attrahia os espíritos para as 
Escholas geraes ou leigas, e os estudos em vez de um fim eccle- 
siastico faziam-se com um fim humanista. O clérigo deixou de ser 
o único homem instruído, e os próprios bispos chegaram a ser 
por vezes analphabetos : « O bispo do Porto, Dom Pedro Affonso 
affirma do seu predecessor Dom João Gomes, do reinado de Dom 
Diniz o seguinte: erat bónus homo, et sine aliqua malicia, sed ju- 
ra aliqua non audiverat, immo nec et gramaticalis, quod est 
plus. » ^ A fundação e desenvolvimento da Universidade de Lis- 
boa, obedecia a esta transformação da sociedade europêa em que 
o poder civil tornava subalterno o ecclesiastico. O desconheci- 
mento da lingua latina crescia com os progressos da língua vul- 
gar, e era preciso fazer traducções para a língua portugueza pa- 
ra os clérigos minguados de sciencia. A Bíbliotheca de Alcobaça, 
<la qual uma grande parte se guarda no Archivo nacional e Bí- 
bliotheca publica de Lisboa, é riquíssima de traducções na lin- 
gua portugueza do século xiv. Frei Fortunato de Sam Boaven- 
tura publicou apenas a traducção dos Autos dos Apóstolos, os 
Dez mandamentos, Fragmentos da Regra de Sam Bento e as His- 
torias d'abreviado Testamento Velho, segundo o meestre das histo- 
rias scolasticas e segundo outros que as abreviarom, e com deze- 
res d'alguns doctores e sabedores. ^ Segundo o Catalogo da Bíblio- 
theca de Alcobaça, alli se guardava sob n.** 37 a traducção dos 
Diálogos de Sam Gregório. Sob o n." 244 existe o códice com o 
Virgeu de Consolação, o Tractado das Meditações e pensamentos 
de Sam Bernardo, e de folhas 90 a 104 a celebre lenda da Vi- 
são de Tundal. O códice n.^ 266 traz a Vida do Ijfante Josa- 
phat. Vida de JEufrosina, Vida de Santa Maria egipcia. Vi- 
da de Tarsis, Vida ds Santo Alexo Confessor, Vida de hua muy 
santa Moja, os Dez mandamentos da ley de Moysés despostos 

1 J. P. Ribeiro, Reflex. hist., t. i. p. 45. — ^ Colherão de Inéditos 
portuguezps do século XIV. Coimbra, 1829. 3.o vol. 



114 VISÃO DE TUNDAL (EpOCal.^ 

per os doctores da Santa Egreja, Morte do bem aventurado Savi 
Jeronymo, Hua devota conteniplação de Sanct Bernardo, e a uue 
fez Bernardo segundo as seis oras canónicas do dia; o Conto 
de Amaro, Tungulo, Da hora da morte, Da luxuria, Da cas- 
tidade, Do Dia de juízo. Do inferno, O Quicumqiie vult per 
linguagem. O códice 273 contém o livro mystico intitulado Orto 
do S^/oso, que também figura na Livraria do rei Dom Duarte; o 
códice 27í3 contém o Livro ascético intitulado Castello' perigoso ; 
o n.° 291 contém a Vida de S. Bernardo, triíduzida por Frei 
i rancisco de Melgaço, e o Espelho de Monges composto pelo mes- 
mo. Estas e muitas outras traducçoes são preciosiasimos documen- 
tos para a historia da lingua portugueza ; por ellas se conhece co- 
mo o trabalho das traducções do latim actuou sobre o vocabulá- 
rio e a syntaxe poi"tugueza, á custa dos elementos populares que 
ficaram obliterados. O prurido das traducções continuou-se no sé- 
culo XV. Entre estas lendas mysticas e agiologicas algumas fo- 
ram populares na Edade media, e influíram nas grandes creações 
da litteratura moderna. 

a) A visão de Tundal. — Em dois manuscriptos da '"Biblio- 
.theca de Alcobaça se acha a versâío portugueza d'esta lenda me- 
dieval da descida aos infernos, a qual não deixou de influir na 
concepção de Dante, No códice n.° 244, hoje na Bibliotheca pu- 
blica de Lisboa, de folhas 90 a 104 verso, vem a Estaria d'hum 
cavaleyro a que chamava Tungulu, ao qual for om mostradas visi- 
bilmente e no per outra revelado todas as penas do inferno e do 
purgatório. E outrosi todos os bees e glorias que ha no santo pa' 
rayso, andante sempre hu angeo cd el. Esto lhe foy demostrado 
por tal que se ouvesse de correger e emendar dos seus peccados e 
de suas maldades. No ms. n.° 266 de Alcobaça, hoje no Archivo 
nacional, vem a fl. 124 a 137 uma outra traducçao sob o titulo 
de Timgullo. Em outros mosteiros da península era frequente en- 
contrar-se a versão d'esta lenda, que se transformou em um fe- 
cundo thema litterario, ^ amplamente estudado por Mussafia. * 

1 Befarrul encontrou em uma Miscelianea ascética de Sam Cucufate 
dei Valle?, a Vida dei caballero Tutglate, de la província llamada Irhenia; 
letra do século xiv. — * Sulla visione di Tundalo, de pag. do7 a 206 do 
Sitzungshericht der kais. Akad. der Wissench. Wienn, 1871. 



SeciilQ XII a XIV.) barlaam e josaphat I lo 

Attribue-se a primeira versão portugueza a Frei Hilark» da Lou- 
rinhã, e a segunda a Frei Hermenegildo de Payopelle, 

b) Barlaam e Josaphat. — Acha-se no códice 266, hoje de- 
positado no Archivo nacional ; tem quarenta e três folhas de tex- 
to, com o tilulo Vida angélica do infante Josajjhat, filho de Ave- 
nir, rei indiano, tendo o nome do traductor Frei Hylario da Lou- 
rinhã escripto no século passado. É a celebre lenda budhica ex- 
trahida do Latita Vistara, como o prova Max-Muller, ^ e que se 
attribuiu a S. João Damasceno; pertence ao monge João de Da- 
masco, anterior a Mahomet, a sua vulgarisação em grego, e a 
Surio em latim. Os Bollandistas acceitaram esta vida tradicional 
de Budha nas Acta Sanctorum a 27 de novembro. O traductor 
portuguez termina com a seguinte declaração : « Ora diz Johã de 
maçeno, que esta estorya screpveo em linguagem grego: Eu es- 
crepvi este sermõ ssegundo meu poder, assy como apprendy de 
mui honrrados e verdadeyros barooees que m'o assy cõtarõ. E des 
que vyra que este recontamento sserya a proveyto das almas de 
nos houtros que o leemos e ouvimos ê tal guisa que merecemos 
seer cotados e a parte dos santos Barlaão e Josaphat bem aven- 
turados amigos de nosso senhor. No qual he gloria e honrra e pê- 
ra todo o sempre.» Nas guardas d'e3te manuscripto lê-se a se- 
guinte quadra : 

Alembra-te homem que es cinza^ 
e nã andarás en vaydade, 
por que a isto veeste ca 
e nora a passar tempo em balde. 

c) Orto do Sposo. — O mérito d'este livro mystico, além da 
sua redacção em velho portuguez, consiste em um grande nume- 
ro de Exemplos ou pequenos contos intercalados no meio das re- 
flexões e divagações moraes. ^ 

d) Traducções do Velho Testamento. — Frei Fortunato de 



1 Essais de Mythologie compnrée, p. 45i a 467. — ^ Acham-se em 
grande parte publicados no vol. ii dos Contos Irudicionaes do povo por- 
tuguez, p. 38 a 60. 



116 VKRSÕKS DA MIHF^IA (EpOCa 1 .* 

Sara Boafentura dá conta d'este texto da Historia do antigo Tes- 
tamento « que pelo menos em o século xiv foi trasladado do la- 
tim de Pedro Comestor (o Pietro Mangiadore, de que falia Dan- 
te) e que sendo tecida pela maior parte das palavras formaes do 
texto sagrado e na parte da historia que falta n'este, seguindo 
litteralmente a Flávio Josepho, deverá ser tida em tanto maior 
preço, quanto é certo que o traductor portuguez cortou absoluta- 
mente o que na obra de Pedro Comestor ou cheira demasiadamen- 
te a escholasticismo, ou foi bebido em fontes menos puras e fabu- 
losas. » Na Bibliotheca dos Bispos de Lamego existia uma outra 
copia d'esta antiquíssima traducção do Velho Testamento, a qual 
« pertencera a Francisco de Sá de Miranda, » * que provavelmen- 
te a entregou quando por occasiSo da Reforma foi prohibido ler a 
Biblia em lingua vulgar. O valor litterario d'e3ta traducção é 
enorme para o estudo comparativo das transformações da lingua 
portugueza, com outras do século xv como os Actos dos Apósto- 
los, do século XVII pelo Padre João Ferreira d'Almeida, e do sé- 
culo XVIII pelo Padre António Pereira de Figueiredo. 

3.° O poder real protege o humanismo. — A sociedade civil 
no século xiv, estabelecia pela acção dos jurisconsultos e do pro- 
letariado, apoiados no poder temporal da realeza, as condições 
da sua secularisaçao e independência. Tal é o sentido da divisa : 
As Universidades servem para ensinar, em contraposição ao ensi- 
no clerical das Collegiadas : as Jurandas servem para edificar, 
em que a classe obreira se fortificava com o espirito e a discipli- 
na da associação ; e na ordem politica, os Estados servem para 
governar, por onde a vontade popular se contrabalançava com a 
prepotência senhorial em um accordo d'onde resultou o principio 
supremo da soberania nacional formulado pelos jurisconsultos. Foi 
á sombra d 'esta corrente de reorganisação que o poder real pro- 
curou estabelecer-se como independente, subraettendo á lei escri- 
pta, e á unidade de um código, estabelecimento ou ordenação a 
arbitrariedade dos barões. Para isto tratou de dar existência poli- 



1 Inéditos de Alcobaça, t. ii, p. vni. 



Século XII a xiv.) universidade e estudo geral 117 

tica ao servo, concedendo-lhe cartas commuDaes, piteblas ou foraes 
em que fixava o seu costume ou direito consuetudinário, contri- 
buindo assim para a elevação de um terceiro estado que oppôz ao 
clerical e aristocrático. Pela protecção aos estudos humanistas, 
atacou o poder espiritual da Egreja que se impunha pelo ensino 
das Collegiadas, o único que existia então na Europa; e fazendo 
renascer o ensino e uso do direito romano, em que estava bem 
definida a esphera dos direitos reaes, atacou a classe senhorial, 
avocando a si o direito de levantar hoste, de bater moeda, de ter 
justiças próprias, e o privilegio de conferir nobreza. A fundação 
de uma Universidade e a formação dos Nobiliários ou Livros de 
Linhagens são dois factos capitães, que nos relacionam com a 
marcha da civilisação europêa n'esta phase da renascença. 

a) Fundação da Universidade. — A cultura greco-romana, 
que a Egreja renegara, appareceu no Occidente nas escholas ára- 
bes ; em 529, Justiniano mandara fechar as escholas philosophi- 
cas, e Damascio, Siraplicio, Eulamios, Prisciano, Isidoro de Gaza, 
Hermias e Diógenes de Phenicia, refugiaram-se na corte dos Sas- 
sanides. Tal foi o ponto de partida da communicação das scien- 
cias da Grécia aos Árabes, por via dos quaes foram conhecidas 
as obras mathematicas de Euclides, o Almagesto de Ptolomeu, as 
obras medicas de Hippocrates, o Organum de Aristóteles, o Plie- 
don, o Cratylo e as Leis de Platão. Ampere considera esta in- 
fluencia das escholas árabes como a primeira Renascença. Os que 
frequentavam as escholas árabes eram procurados individualmen- 
te, e em volta da sua cathedra em um logar isolado grupavam 
os espirites sequiosos de saber. A organisação das Universidades 
foi o reconhecimento d'este novo objecto de ensino, de que tanto a 
Egreja como a Realeza trataram de se apoderar; e a influencia e 
conflicto do poder papal e real, transparece nos dois titules de 
Universidade e Estudo geral, na intervenção dos bispos nos gráos 
doutoraes ou na mudança das aulas para onde residia a corte. 
Ampere chamou a este per iodo da creação das Universidades na 
século xiii a segunda Renascença. Os reis creavam Universida- 
des para central isarem o ensino, evitando assim que os estudiosos 
fossem frequentar as universidades estrangeiras, de Bolonha ou 
Paris. Quando o rei Dom Diniz fundou em 1291 a Universidade- 



118 A l MVEHSIDADE PORTUGUEZA (EpOCa l." 

de Lisboa, já muitos portuguezes se haviam distinguido nas uni- 
versidades italianas, A Universidade de Lisboa foi dotada pelos 
Abbades de Alcobaça, de Sam Bento, e do Mosteiro de Santa 
Cruz de Coimbra. Lê-se na bulia do Papa Nicolau iv : « Com 
efFeito chegaram a nossos ouvidos que por esforços do nosso ca- 
ríssimo filho em Christo, Diniz, illustre rei de Portugal, se im- 
plantaram de novo, não sem muita e louvável previsão na cidade 
de Lisboa estudos de certa faculdade permittida, a cujos mestres, 
a fim de que pudessem dedicar-se exclusivamente aos estudos e 
sciencias, se diz ter sido promettido e estipendiado certo salário 
por alguns Prelados, Abbades da Ordem de Cister e Priores das 
Ordens de Santo Agostinho e de Sam Bento, e Reitores de certas 
egrejas seculares dos reinos de Portugal e Algarves, » A protec- 
ção de Nicoláo iv limitava-se a conceder aos lentes e escholares 
o privilegio do foro ecclesiastico ; os gráos ficavam sujeitos á con- 
firmação do Bispo de Lisboa : « que os Escholares nas Artes, e 
nos Direitos canónico e civil e na Medicina, os quaes seus mestres 
julgarem idóneos, possam ser licenciados na sobredita sciencia 
pelo Bispo de Lisboa que n'esse tempo o for, e quando estiver 
sede vacante por meio do vigário capitular. » As diíFerenças de 
foro e os privilégios escholares produziram dissençòes com os mo- 
radores de Lisboa, tendo o rei Dom Diniz de transferir a Uni- 
versidade para Coimbra em 1307. ^ Os primeiros estatutos foram 
dados por D. Diniz em 1309, tendo de serem refundidos em 
1347. As duas ordens rivaes Dominicanos e Franciscanos ficaram 
com o encargo do ensino das Decretaes, Leis, Medicina, Dialéc- 
tica, Grammatica e Theologia. ^ Por carta de 16 de agosto de 
1338 foi outra vez trasladada a Universidade de Coimbra para 
Lisboa, pelo fundamento da « assistência que n'esta cidade fazia 
Elrei a maior parte do anno. » ^ Por 1367 a Universidade appa- 
rece outra vez collocada em Coimbra, sendo mudada em 1373 
para Lisboa « por causa dos Lentes estrangeiros quererem residir 



1 Já era 1343 (anno de 1307) se achava a Universidade transferida pa- 
ra Coimbra. (J. P. Ribeiro, Diss. Chr., t. n, p. 234.) — ^ Mon. Lusit., P. 
v, liv. 16, cap. 57, 72 e 73; P. vi, liv. 18, cap. 28.-3 Na Historia da 
Pedagogia em Portugal. (Rev. do Estudos livres, t. n, p. 160.) 



Século XII a xiv.) influencia aristotélico- averroista 119 

«m Lisboa. » Só no reinado de Doiu Joào i, quando a corte teve 
fixidez, é que em 1384 quiz este monarcha fosse para sempre col- 
locada em Lisboa, sendo estabelecida « á porta de Santo André 
— da parte de fora contra o arravakle dos mouros. » 

A organisação do ensino era baseada n'essa tradição escholar 
de Trivium e Qaadrivium. O estudo do direito fazia-se nas duas 
escholas antagonistas dos decretalistas-, que batalhavam pelo direi- 
to theocratico, e os civilistas ou bartholistas, que impunham o 
poder collectivo da sociedade; a esta eschola pertenceu João das 
Regras, e os chamados mais tarde reinicolas. A tradição árabe 
também imprimiu a sua feição no ensino, e Aristóteles foi tomado 
como a maior auctoridade philosophica. Logo no principio do No- 
biliário do Conde D. Pedro se lê : « Esto diz Aristotilles, que sse 
os homeens ouvessem antre si amisade verdadeira nom averiam 
mester rreys nem justiças, cá amisade os faria viver seguramen- 
te en o serviço de Deus. » ^ Reinava então a eschola averroista 
€m Portugal, e em Lisboa estava preso um Frei Thomaz Scot, 
pela heresia attribuida a Averroes, de terem havido no mundo três 
Impostores, sobre que se imaginou um livro. 

Dante, no Paraíso cita um philosopho portuguez, celebre em 
toda a Europa : « Pietro Hispano, Lo qual giíi luce in dodici li- 
belli. » É o author das Summulas logicales, que se converteram 
no resumo da lógica aristotélica abraçada por todas as escholas 
da Edade media : « é a elle que pertence sem duvida o engenho- 
so quadro das diversas espécies de argumentos, reproduzido fre- 
quentemente d'ali em diante. » ^ Antes de ser pontiíice sob o no- 
me de João XXI, Pedro Hispano (Julião) ensinou em varias uni- 
versidades de Itália, e distinguiu-se por um outro livro não me- 
nos afamado, o Thesaurus pauperum, em que continua as doutri- 
nas da Eschola de Salerno ; pelo caracter da época se define a in- 
fluencia do seu aristotelismo na medicina : « Póde-se acreditar, que 
no século xiii o ensino medico se torna menos individual, experi- 
mentando algumas, mudanças na sua forma pela influencia da phi- 
losophia scholastica ou aristotélica ; mas por pouco que se seja 

1 Mon, hist., Scriptores, i, p. 230. — ^ Kaebler, ap. Tennemann^ 
Hist. da Philosophia. 



120 os LIVROS DE LINHAGENS (EpOCa 4." 

versado nas obras medicas mais antigas do que a Scholastica, 
nota-se ali um methodo dialéctico e uma linguagem que excede 
ou vae alem dos philosophos ; o tom deriva-se mui directamente 
de Galeno, tào aristotélico nas suas formas. » ^ Quando os Jesuí- 
tas impuzeram o ensino aristotelico-alexandrista, foi condemnado 
tudo quanto derivava dos Árabes, e o Tliesaurus pauperum ficou 
incluído no Index expurgatorio de 1624. O ensino das línguas 
orientaes, o hebreu e o árabe apparece também na Universidade, 
e não deixou de influir já nas traducções da Biblia, já na vulga- 
risação dos contos das collecçoes árabes. 

b) Nobiliários. — A actividade litteraria manifesta-se no sé- 
culo XIV na forma de Livres de Linhagens, correspondendo a 
uma necessidade social. Os monumentos conhecidos são : o Li- 
vro Velho, publicado pela primeira vez por D. António Caetano 
de Sousa ^; um Fragmento do Nobiliário, que andava junto ao 
Cancioneiro da Ajuda, e finalmente o chamado Nobiliário do 
Conde Dom Pedro, que se guarda na Torre do Tombo. O bastar- 
do de Dom Diniz justifica o seu trabalho com rasoes especiosas : 
« Por saberem os homens fidalgos de qual linhagem vem, e de 
quaes coutos, honras, mosteiros e egrejas som naturaes, e por sa- 
berem como som parentes, fazemos escrever este livro verdadei- 
ramente dos linhagens d'aquelles que som naturaes e moradores 
no reino de Portugal extremamente. » « Porém eu, Dom Pedro, 
filho do muy nobre rey Dom Deniz, ouve catar por gram traba- 
lho por muitas terras escripturas que fallavam dos linhagens. E 
veendo as escripturas com grande estudo e em como fallavam 
d'outros grandes feitos compuje este liuro por gaanhar o seu amor 
e por meter amor e amisade antre os nobres fidalgos de Hespa- 
nha. . . » O compilador continua a allegar rasões, mas é certo que 
o ^Nobiliário foi organisado para servir o poder real. O facto in- 
timo e vital do século xiv, que promovia estes cadastros da no- 
breza, o mesmo século não o podia conhecer ; repetiu-se nos di- 
versos estados da Europa. A começar do cadastro heráldico, sá 
poderia existir nobreza jpor foro de elrei. Nas Leis de Partidas, 

* Ch. Daremberg, Hist. des Sciences médicales, t. i, p. 282. — • ^ Pra- 
tas, da Hist. geneal., t. i, p. 145. 



Século XII a xiv.) lendas her.\ldicas 121 

que foram traduzidas em portuguez, se impõe aos fidalgos : « que 
escrivian seus nomes, e el linage onde venian e los logares onde 
eran naturales en el Libro que estavan escriptos todos los nomes 
de los otros cavalleros. » ^ Em uma lei portugueza, encorporada 
na Ordenação affonsina vem: «nenhum homem dos concilies de 
mha terra nom podem ser cavalleiros se não per mim, ou per 
meu mandado. » ^ Comprehendido o valor do documento histó- 
rico, vejamos o seu caracter litterario. 

Por entre as listas fatigantes de nomes dos Nobiliários, appa- 
recem de longe em longe as tradições maravilhosas da origem dos 
solares, como da casa de Haro, ou dos Marinhos ; as grandes pre- 
potências da arbitrariedade feudal, como os incêndios dos castel- 
los, o rapto e violência das mulheres, a cegueira infligida por 
vindicta pessoal, e a herança do crime ou a guerra privada entre 
as famílias. Ali apparecem os velhos symbolos germânicos imita- 
dos pela sociedade neo-gothica, como o fazer hurrella, e o montar 
n'um burro com a cara para traz, ou coser dentro de uma pelle 
de urso. Avultam os factos históricos, como as referencias á Lide 
do Poi-to, em que os partidários do príncipe Dom Affonso e os de 
Dom Sancho ii foram ás armas, e o rapto da mulher do nionar- 
cha de sua própria cama. Os vários appellidos das famílias accu- 
sam feitos grotescos, e ha epithetos de trohador, o que foy troba- 
dor e muy saboroso, ou que trobou bem, dados a fidalgos, reveian- 
do-nos assim que o próprio livro pertence já a uma época littera- 
ria de que elle é um monumento. 

c) Organisação das Chronicas em prosa. — Escreve Sar- 
miento nas Memorias para la Historia de la Poesia espaiiola : 
« Este siglo decimo quarto, que con razon se poderá llamar el si- 
glo de las Crónicas verdaderas, se poderá llamar tambien de las 
Crónicas fingidas. » ^ Das Chronicas phantasiosas, pertence-nos o 
typo capital, que seria tanto mais bello se elle se conservasse na 
sua forma primitiva, isto é, a redacção portugueza de Amadiz de 
GauJa. Das Chronicas históricas são muitos os documentos que 



1 Partida n, tit. 21, liv. 22.-2 ord. alT., liv. \, tit. 63. — ^ Op. 
cit., p. 330. 



122 CHRONiCAs iiisTomcAS (Época 1.* 

restam, não fíiUando dos registos latinos era forma de Dietarios e 
Obituários, que se usavam nos claustros. 

a) Chronica breve do Archivo nacional. — Escripta cm lín- 
gua vulgar, e por auctor anonyrao, esta chronica appareceu in- 
tercalada nas Inquirições de Dom Aífonso iii. (Liv. iv, fl. 6 ^.) 
Começa desde a fundação da monarchia até ao reinado de Dom 
Diniz, O intuito com que foi escripta é o mesmo dos Nobiliários : 
« A qual rrenembrança serue a proll porque rauytas vezes mos- 
tram perante el rey nosso senhor e perante os seus juizes algumas 
doações dos direitos e cousas da coroa dos Regnos, fazendo taaes 
cartas de doações e escripturas mençon que forom outorgadas per 
huu Rey o quall segundo a dada d'essa escriptura já era finado : 
E para tirar estas duvidas aproveitam muyto estas eras. » A chro- 
nica é secca e descarnada, e só « faz mençom quando cada huum 
Rey começou de regnar, e quando se finou e onde jaz sepultado. » 
Segundo Herculano ó a Chronica em lingua vulgar mais antiga 
que temos. -^ 

b) Chronica geral de Espanha, ou Estorea geral. — Esta 
obra escripta e mandada organisar por AfFonso o Sábio, e conhe- 
cida segundo Mondéjar nos manuscriptos pelo titulo de Estoria 
geral, foi mandada traduzir para a lingua portugueza por seu ne- 
to o rei Dom Diniz. Com certeza influiu no desenvolvimento da 
forma histórica em Portugal. Na Bibliotheca do rei Dom Duarte 
encontrava- se a Chronica geral, e a Estorea geral. Fernão d'01i- 
veira falia d'este monumento : « As dicções velhas são as que fo- 
ram usadas, mas agora são esquecidas, como. . . ruão, que diz ci- 
dadão, segundo eu julguei em um livro antigo, o qual foi trasla- 
dado em tempo do mui esforçado rei Dom João de boa memorea, 
o primeiro d'este nome em Portugal : por seu mandado foi o li- 
vro que digo escripto, e está no moesteiro de Peralonga e cbama- 
se Estorea geral, no qual achei estas com outras antiguidades de 
fallar. . . » * Na Bibliotheca nacional de Paris conserva-se um ma- 
nuscripto portuguez com o titulo « Historia geral de Hesjjanha, 
composta em castelhano por elrei de Leão e Castella, Dom Affon- 



1 Mon. hist., Scriptores, p. 22. — « Grammatica, p. 80. 



Século XII a xiv.) vida da rainha santa 123 

so o Sábio, trasladada em portiiguez por o rei Dom Diniz ou por 
seu mandado. » Existe uma copia na Academia das Sciencias, e foi 
começada a imprimir em Coimbra. ^ Nas Chronicas breves e Me- 
morias avulsas de Santa Cruz de Coimbra cita-se a Chronica de 
spanha. ^ Na livraria do Marquez de Castello Melhor, existia es- 
te códice com o titulo « Crónica d^espanha que el rey D. Aífonso 
compoz dello o tempo de Noe ataa o tempo deste rey Dom Affon- 
so. » A arte da illuminura embellezou extraordinariamente estas 
copias. Litterariamente exerceram uma influencia salutar sobre o 
génio histórico portuguez, porque veiu mais tarde revelar a Fer- 
não Lopes como a vida moral da historia está implícita nas tra- 
dições. 

c) As Lendas religiosas — Vida da rainha Santa Isabel. — 
As narrações tradicionaes da Edade media, que recebiam a for- 
ma escripta para serem lidas, foram chamadas Lendas, designa- 
ção que o povo transformou em Loenda. Este género era o pon- 
to em que o povo collaborava com o clericus na forma histórica, 
como com o troveiro na forma épica. O Amadiz de Gaula, antes 
de ser o cavalleiro typo da fidelidade foi o santo da legenda lati- 
na ; muitas canções de gesta tiveram esta mesma origem tradicio- 
nal : a Gesta de Aiol derivou-se da lenda de Santo Agiulpho ; * 
o santo abbade de Lerins, do século xii, torna-se na gesta ura 
strenuo cavalleiro que defende o imperador Luiz, filho de Carlos 
Magno da revolta dos seus Barões, e se retira para o claustro on- 
de expira em santidade ; Guillaume au Court nez^ cujas façanhas 
são celebradas em dezoito Gestas, deriva o typo de Saint Guil- 
laume de Gellone, da lenda do século ix, colligida pelos Bol- 
landistas; * a Gesta de Miles et Amiles, tem por base uma lenda 
agiographica. ^ Na Novella do Amadiz se explica a sua relação 
com a lenda religiosa : « Este es Amadis . . • y este nombre era 
ali muy preciado, porque assi se llamaha un Santo à quien la 



^ Era editor o Dr. Nunes de Carvalho : chegou a p. 192. — * Mon. 
hist., Scriplores, p. 25, col. 1. — ' Acta Sanctorum, t. i. p. 728, 763. 
•* Ibid., t. VI, p. 809. — * Léon Gautier, Les Epopées françaises, t. i, 
p. 89. 



124 HATALIIA DO SALADO K CONQUISTA DO ALGARVK (EpOCa 1.* 

doncella Io encomraendó. » Na Historia Litteraria de França, le- 
se : « Outras vidas de Santos em verso provençal, parecem re- 
montar ao século xi, como a de Santo Amândio, bispo de Ro- 
dez. . . » ^ Em um catalogo de uma Livraria do século xiii, vem : 
« Milo unus, cum aS*^" Amandi vita rnetrice compósita. » * Na col- 
lecção dos Bollandistas, vem a acta de Sanctus Amandius Galle- 
sinus. ' 

Nas lendas de Santa Isabel syncretisaram-se elementos conhe- 
cidos nas tradições medievaes, como o pagem que escapa á vin- 
gança do rei. Nas versões oraes só existe um romance sobre San- 
ta Isabel, colhido em Extremoz. A Vida de Santa Isabel, appa- 
rece pela primeira vez apontada, no testamento do Infante Dom 
Fernando feito antes da partida para Tanger : « Iten, o Livro 
da Rainha Dona Ilizabeth. » * Este livro veiu parar ao convento 
de âanta Clara, de Coimbra, d'onde o copiou Frei Francisco 
Brandão, incluindo-o na Parte iv da Monarchia lusitana. Crê que 
foi escripto depois de 1374. 

d) Relação da batalha do Salado. — No Fragmento de No* 
biliario que anda junto ao Cancioneiro da Ajuda encontra-se uma 
extensa relação d'esta batalha, que assegurou a estabilidade das 
monarchias christãs da Hespanha. E a pagina mais perfeita a 
que chegou a litteratura portugueza do século xiv. O linhagista 
bem conhece que ás series genealógicas não pertence essa divaga- 
ção histórica, mas a impressão da realidade obriga-o a uma nar- 
rativa dramática. Vê-se que o facto não podia escapar á idealisa- 
ção poética, como vimos pelos fragmentos do Poema de Aífonso 
Giraldes. 

e) Chronica da Conquista do Algarve. — Escreve Frei Joa- 
quim de Santo Agostinho: «Em Agosto do anno de 1788, des- 
cobri na Camará da cidade de Tavira, no reino do Algarve, uma 
pequena Chronica da conquista do mesmo reino, que julguei de 
algum interesse. Nos tomos velhos da mesma Camará vem lança- 
das no I, que por sua muita antigui dade não tem principio nem 

1 Op. cit., t. XXII, p. 240. — 2 Buli. de TAcademie de Bruxelles, 
(1813) t. II, p. 591. — 3 Em Fevereiro, p. 816. — * Ap. Soares da Sil- 
va, i1/em. de D. João I. t. iv, p. lõO. 



Século XH a \iv.) a erudição histoiuca i25 

fim, desde pag. 207 até 213, por trez laudas completas de folio 
grande. » ^ Aquelle que escreveu essa Chronica não estava tão 
remoto do successo, que ainda no seu tempo se não vissem as os- 
sadas no sitio das Antas : « e quando chegou ás antas e vio os ca- 
valleiros mortos começou com os moros muy dura peleya, e mor- 
reu tanta gente d'elle3 que ainda hoje em dia jaz alli a ossada 
d'eUes. . . » - E pela erudição histórica que termina esta primeira 
época da litteratura portugueza, em que tomámos dignamente 
parte na Renascença do século xiii da Europa, antes de actuar- 
mos directamente na marcha da humanidade pelas descobertas 
marítimas. 



1 Mem. de Litt. da Academia, t. i. — ^ Mon. hist., Scriptores, f». 

418. 



SEGUNDA ÉPOCA 



(século XV) 

os POETAS PALACIANOS 



§. I — Elaboração «lo Lyrismo provençal pelo génio italiano t 

1." Tentativa de uma renascença da Poesia gallega. 

2." Influencia aragoneza — O Condestavel de Portugal. — Costumes palacia- 
nos, e ultimes vestígios da tradipão provençal. 

3." Imitação directa da Poesia castelhana : O Infante Dom Pedro em rela- 
ção com João de Mena. 

a) As obras do Arcipreste de Hita — Traducções de Hernam Peres de 

Gusman — O Maiquez de Santillana — Poetas portuguezes em Cas- 
tella. 

b) Formação do Cancioneiro geral, de Garcia de Resende. 

c) Descripçào dos Cancioneiros portuguezes do século xv. 

§. II — A.S Novellas da Tavola Redonda em Fortugal t 

a) Referencias nos costumes aristocráticos. 

b) Demanda de Santo Grcal — Tristão — Galaaz Baladro de Merlim 

— Josep ab Arimathia — Historia de Vespasiano. 
c) Tradição das Ilhas encantadas : Viagem de Rozmital. 

§. III — A. erudição latinista s 

i." Estado da língua portugueza : Formas populares e eruditas. — Traduc- 
ções do latim. 

2." As Bibliothecas do rei Dom Duarte, do Infante Santo e do Condestavel 
de Portugal. Duplo elemento latinista e medieval. 

3." Desenvolvimento da forma histórica. 

a) O Aichivo nacional, e a Conversão das Estorias em Caronicas. 

b) Os grandes Chronistas do século xv. — Ideia de traduzir em latim 

as Chrunicas. 

c) Os Humanistas : Philosophos e Moralistas — A Universidade de Lis- 

boa — Jurisprudência — Estudantes poitiiguezes na Itália — A Im- 
prensa portugueza e os seus monumentos. 

§. IV — XZxistencia de nm elemento popular s 

a) Cantigas ao Condestavel Nunalvres e a Aljubarrota. 

b) Referencias a lomances tradicionaes — Formação dos Romanceiros. 

c) Autos, Momos e Entremezes. 

§• I 

Elaboração do lyrismo provençal pelo génio italiano 

Nentuma creação litteraria pude ser compreliendida por si, se 
a destacarmos do meio em que foi produzida, O meio de todas as 
concepções estheticas é sempre a sociedade, cujas aspirações e 
consensus a litteratura exprime. Assim, a Poesia provençal não 
se comprehende separada das suas origens populares, das rela- 
ç3es com as Cruzadas e do apparecimento do terceiro estado. O 
desenvolvimento da Poesia palaciana seria inexplicável, se a fun- 



Século XV.) INDEPENDÊNCIA DO PODER REAL 127 

dação definitiva do poder monarchico, destruindo o regimen feu- 
dal, não reduzisse a aristocracia a uma posição subalterna e in- 
activa. Depois de atacada a nobreza iia independência do seu 
foro, primeiro pela organisação dos Livros de Linhagens, e em 
seguida pela imposição de ura Código geral, ou Ordenação do 
reino; ferida na sua condição vital, a accumulação da proprieda- 
de territorial, pela Revogabilidade das Doações regias, pela de- 
pendência das Confirmações geraes, ou ainda por essa outra ficção 
adoptada pelos romanistas, a Emphyteose, nem mesmo lhe res- 
tava a acção cavalheiresca para sustentar o seu perstigio de 
classe. Estava acabada a reconquista sobre a occupação maures- 
ca; a descoberta da pólvora egualara o peão com o mantenedor 
adestrado na arma branca, e o arbitrio impetuoso do que fazia 
justiça por suas mãos ficou subordinado a esse outro poder novo 
e abstracto do Ministeino publico. N'esta situação em que se oc- 
cuparia a Nobreza? Acercou-se do rei, inventou torneios, divisas, 
l)razões, e para encher o tédio palaciano continuou a fazer ver- 
sos nos serões da corte. O Coudel-Mór, dando instrucções a seu 
sobrinho para tratar o paço, recommenda-lhe que é bom saber 
apupar e ser rifador. 

O mesmo phenomeno se repetia em Hespanha, porque ahi se 
estava passando uma semelhante transformação social ; em volta de 
Dom João II, de Castella, agrupavam-se o Marquez de Villena, 
o Marquez de Santillana, Juan de Mena, Stufiiga, da mesma for- 
ma que em volta de Dom Affonso V, se acercavam o Coudel-Mór, 
Fernão da Silveira, Álvaro de Brito e Dom João de Menezes. 
Separados do povo politica e moralmente, aonde iriam estes fidal- 
gos procurar as suas aspirações? O predomínio da erudição gre- 
co-romana afastava-os das tradições medievaes, conservadas in- 
conscientemente entre o povo, que n'esta concorrência social co- 
meçou a elaborar os seus Romanceiros. Os fidalgos castelhanos 
interromperam a imitação da poesia provençal, e adoptaram as 
novas formas do lyrismo italiano, cuja superioridade o levou a 
influenciar em todas as litteraturas da Europa. A poesia italia- 
na, em Dante e nos Fieis de Amor, em Petrarcha sobretudo des- 
tacou-se dos modelos provençaes pelo idealismo recebido com a 
introducção das doutrinas platónicas, que se desenvolveram mais 



lt^8 SUBJECTIVISMO PLATÓNICO (EpOCa 2.* 

tarde na Academia florentina dos Medicis. Dante conheceu essas 
doutrinas era Cicero, Boecio, Ricardo de Sam Victor, Sara Boa- 
ventura e Sam Thomaz ; e Petrarcha reagiu conscientemente con- 
tra o aristotelismo, pelo estudo de Platão, de Santo Agostinho, 
de Sam Bernardo e pela imitação de Boecio. Esta nova poesia, 
de um vago subjectivismo, pelas suas origens eruditas, era sym- 
pathica aos espiritos superiores que seguiam a corrente humanis- 
ta do século XV. A Ilespanha abraçou o lyrismo italiano, com 
que se renovou; e o Marquez de Santillana querendo dar um ti- 
tulo condigno ao talento de Micer Imperial, que iniciara a imita- 
ção italiana em Hespanha, procura uma designação erudita, que 
bem caracterisa o século : « ai qual yo no llamaria decidor ó tro- 
vador, mas j^oeta.v A corrente italiana fez com que a Poesia cas- 
telhana prevalecesse sobre as outras litteraturas peninsulares, 
como a gallega, a aragoneza e a portugueza. 

1.** Tentativa de um renascimento da Poesia gallega. — Nas 
luctas entre Pedro Cruel, e seu irmão bastardo Henrique de 
Trastamara, a Galliza seguiu a justa causa do monarcha venci- 
do ; emquanto, porém, duraram estas luctas relaxou-se o poder 
centrai, e na Galliza desabrochou um novo esplendor poético: 
Villasandino, Macias el Enamorado, Jerena e mais tarde Juan 
Rodrigues dei Padron, tentara reagir contra a poesia de Castel- 
la. Quasi todos os documentos d'e3ta crise litteraria se acham no 
Cancioneiro de Baena. Macias, pelo perstigio da sua lenda amo- 
rosa, egual ás mais bellas tradições da vida dos trovadores pro- 
vençaes, chega a impressionar os vários poetas palacianos ; mas a 
Galliza tinha perdido para sempre a autonomia politica, e desap- 
pareciam-lhe as condições vitaes para crear uma litteratura. Es- 
ses poucos génios lyricos da Galliza, levados pelo vigor da nova 
poesia subjectiva, acabaram por escrever na lingua castelhana. 

No reinado de Dom Fernando é que a causa politica da Gal- 
liza se perdeu ; este monarcha portuguez acobertou as suas pre- 
tenções ao throno de Castella com o pretexto de vingar a morte 
de Pedro Cruel. Muitas cidades da Galliza se declararam pelas 
pretenções de Dom Fernando, taes como Ciudad Rodrigo, Le- 
desma, Alcântara, Valência d'Alcantara, Zamora, Tuy, Corufia, 



Século XV.) LYRICOS GALLEGOS 129 

San Thiago, Lugo, Orense, Padron e Salvaterra. N'e3ta lucta de 
ambições, Dom Fernando mostrou menos habilidade do que Hen- 
rique de Trastamara, que chegou a invadir Portugal. Incapaz de 
sustentar-se na lucta, o monarcha portuguez ofFereceu asylo no 
seu reino aos fidalgos gallegos que se comprometterara pela sua 
causa. D'esta emigração resultou a vinda de Vasco Pires de Ca- 
mões para Portugal, terceiro avó do grande épico portuguez ; vie- 
ram entre outras familias, as de que descendem Francisco de Sá 
de Miranda, e Pedro de Andrade Caminha. Tendo o Ijrismo 
provençal começado pela corrente galleziana, foi ainda d'es8e 
mesmo impulso inicial, que no século xvi surgiram os génios que 
accentuaram a brilhante época dos Quinhentistas. 

O Marquez de Santillana, na sua Carta ao Condestavel de 
Portugal, depois de indicar os poetas portuguezes do periodo pro- 
vençal, enumera aquelles que pertencem a esta phase ephemera 
de renascimento da poesia gallega : « Despues destos venieroa 
Basco Peres de Camões e Ferrant Casquacio, é aquel gran ena- 
morado Macias ...» O nome de Macias tornou-se proverbial en- 
tre os poetas palacianos do século xv, como se vê nas coplas do 
Cancioneiro de Resende e ainda em Gil Vicente. Vasco Pires de 
Camões tendo-se declarado em 1384 pelo partido do rei Dom 
Fernando, refugiou-se era Portugal, e aqui soíFreu novos revezes 
levantando-se com a Alcaidaria de Alemquer contra o Mestre 
de Aviz. Pelas innumeras doações que Dom Fernando lhe fizera, 
se ' infere que fora o seu poeta favorito, como Juan de Mena o 
fora egualmente de Henrique de Castella. Ainda no começo do 
século XVI, Manoel Machado de Azevedo se referia a este favo- 
ritismo, dizendo como se pode « ser mais medrado — Que Ca- 
mões ou Juan de Mena. » 

Na Collecção de Baena acham-se varias poesias dirigidas a 
Vasco Pires de Camões, consultando-o como sábio; as suas com- 
posições nào apparecem colligidas, e os dois sonetos em lingua 
gallega que andam nas Ly ricas de Luiz de Camões, não podem* 
attribuir-se lhe, porque só no século xvi é que se conheceu em 
Portugal essa forma italiana. 

2.° Influencia aragoneza e o Condestavel de Portugal. — 



i30 INFLUENCIA AHAGONEZA (E[)OCa 2." 

Quando a poesia provençal decahia em França, em Tolosa pro- 
curava-se sustentar o seu perstigio pela organisação em 1323 da 
Sohregaya companhia deis sept Trovadores de Tulosa; pelas suas 
relações com Barcelona, onde era a corte habitual dos reis de 
Aragão, passaram para ali estas instituições trobadorescas, que 
os reis protegiam, como um meio de resistir contra a preponde- 
rância da poesia castelhana que insensivelmente preparava os es- 
píritos para a unificação politica. Em 1388, o rei de Aragão 
Dom João I pediu a Carlos vi de França, para que os trovado- 
res toiosanos viessem a Barcelona fundar um consistório poético, 
eíFecti vãmente creado em 1390. Sob Fernando o Justo, a eschola 
trobadoresca teve um novo impulso ; o Marquez de Villena che- 
gou a ser director do Consistório, e todas as composições em dia- 
lecto catalão ou valenciano eram estimadas e applaudidas. Pelo 
mesmo receio da absorpção castelhana, que levava os poetas ara- 
gonezes a sustentarem em composições litterarias o individualismo 
da sua disputada nacionalidade, também Portugal depois da ba- 
talha de Aljubarrota (1385) se afastava politica e litterariamente 
de Castella. O rei Dom Duarte casou com D. Leonor filha de 
Dom Fernando de Antequera, rei de Aragão ; para sua mulher 
escreveu o livro do Leal Conselheiro, e na sua livraria existiam 
um exemplar de Valério Máximo em aragoez, e uma Historia de 
Troya jjor aragoez; foi também a seu filho o infante Dom Fer- 
nando, que Martorell dedicou a novella de cavalleria Tirant il 
Blanch, em 1460. O infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, 
casou com D. Isabel, primogénita do ultimo Conde de Urgel, 
Dom Jayme o desditoso, o qual segundo Balaguer também culti- 
vou a gaya sciencia. Foi como principal herdeiro do Conde de 
Urgel, que Dom Pedro, Condestavel de Portugal, filho do Duque 
de Coimbra, acceitou a coroa de Aragão, offerecida por uma de- 
putação catalan, em 1464. É este o rei Dom Pedro, cujas coplas 
colligidas no Cancioneiro de Resende foram erradamente attribui- 
das ao amante de Ignez de Castro. Na litteratura aragoneza exis- 
tia uma traducção da Divina Comedia de Dante por Andres Fe- 
brer, de 1428 ; na livraria do Condestavel de Portugal, n.** 24, 
guardava-se o volume das poesias de Francisco Petrarcha « scrit 
en vulgar toscha. » E na Carta do Marquez de Santillana ao jo- 



Século XV.) o CONDESTÂVEL DE PORTUGAL 131 

ven Condestavel, citavam-se com louvor os poetas aragonezes, 
como u grandes officiaes d'esta arte, como Jorde de Sant Jordi, e 
Ânsias March grande trovador e homem de assas elevado espiri- 
to. » O Condestavel conheceu esta poesia aragoneza, que procura- 
va alentar-se entre a revivescência da tradição provençal e o 
subjectivismo italiano, e d'ella recebeu o sentimento pessoal ex- 
presso pela fórraa de allegorias. Os poetas aragonezes não deixa- 
ram de cultivar o seu dialecto, mas a poesia castelhana apoderá- 
ra-se do seu espirito, até que veiu a prevalecer em toda a penín- 
sula. No Cancioneiro geral de Garcia de Resende, abundam as 
poesias em castelhano, havendo ao mesmo tempo allegorias amo- 
rosas de gosto aragonez. 

Dom Pedro de Portugal nasceu era 1429, e foi nomeado Con- 
destavel em 1443 ; aos quinze annos foi commandar uma expedi- 
ção de dois mil infantes e seiscentos cavallos a Castella, em auxi- 
lio de Álvaro de Luna, contra os Infantes de Aragão, em 144Õ. 
Foi por esta occasião que o Condestavel de Portugal teve rela- 
ções litterarias com o Marquez de Santillana, a quem pediu as 
suas obras poéticas ; o Marquez enviou-lh'as para Portugal, com 
uma Carta em que esboça a traços largos a historia da antiga 
poesia dos estados peninsulares. O Condestavel começou a escre- 
ver em castelhano ; mas os seus ócios nos castellos de Elvas e 
Marvão, no mestrado de Aviz, não duraram, porque pelo infame 
assassinato de seu pae em Alfarrobeira em 1449, teve de emigrar 
de Portugal, diante das perseguições promovidas pelo conde de 
Barcellos. Durante os seus nove annos de desterro, o Condestavel 
procurou consolação das desgraças da sua familia escrevendo va- 
rias composições poéticas, como a Satyra de felice e infelice vi- 
da, dirigida a sua irmã a rainha Dona Isabel, mulher de Dom Af- 
fonso V. Chama a esta composição na carta que serve de dedica- 
tória « el primero fructo de mis estúdios. » Fora primeiramente 
escripta em portuguez, mas durante o desterro traduziu-a para 
castelhano « mas costrefiido de la necessidad que de la voluntad. » 
Por 1457 ou 1458 pôde o Condestavel regressar a Portugal por 
permissão de Dom Aífonso v ; foi ainda de Castella que lhe dedi- 
cou as Outavas castelhanas Del menosprecio ê contemplo de las 
cosas formosas dei mundo, as quaes Garcia de Resende ao incluir 



432 AS OUTAVAS DO DESPREZO DO MUNDO (EpOCa 2.* 

no seu Cancioneiro, attribuiu infundadamente ao infante Dom Pe- 
dro Duque de Coimbra. Na dedicatória diz ao monarcha : « que 
con graciosos e amigables oios tu leas los mil versos mios acom- 
panados de algunas glosas : los quales yo caminando por deportar 
é passar tiempo a la feria passada de Medina, em mi viaje hove 
la introduçion e la invencion dellos feriado ...» Evidentemente 
como o provou Octávio de Toledo, o poema pertence ao Con des- 
lavei de Portugal e não a seu pae, que era já morto havia qua- 
tro annos, quando foi executado Álvaro de Luna em 1453, a 
quem alludem as outavas : 

Mirad ai Maestre si vivió penando 
Mirad luego juneto su acabamiento. 

(Est. 12). 

No Catalogo da Bibliotheca do Condestavel, publicado por 
Andrés Balaguer y Merino, vem sob o n.'' 82, um livro « in- 
titulat en la cuberta ab letres dor. Sátira de contento dei mundo; 
reservat en un stoig de cuyro negre forrat de drap negra. » * Es- 
tas 125 outavas foram impressas duas vezes no século xv, seis an- 
nos depois que foi achada em Basilea a Arte da impressão, e no- 
ve annos depois de inventada a formosa Arte, como dizem as ru- 
bricas manuscriptas apontadas por Soares da Silva e Hain. O 
Condestavel acceitando o throno de Aragão, foi guerreado por 
Fernando, e vencido em Prados dei Rey, fallecendo pouco depois 
em 1469 em Qranollers, com trinta e sete annos de Edade. O 
Catalogo da sua Bibliotheca contém 96 números, de volumes de 
obras clássicas, de poemas italianos, francezes, e de moralistas ec- 
clesiasticos. Era indiscutivelmente um dos mais illustres espíritos 
do século XV. ^ 

3." Influencia directa da Poesia castelhana. — Sob a regên- 
cia do Infante Dom Pedro (1438 a 1448) reataram-se as relaçSes 



1 Dom Pedro El Condestable de Portugal, p. 32. Gerona 1881. (Ainda 
attribue o poema ao Infante Dom Pedro). — * Appareceu ultimamente em 
Portugal um outro livro inédito do Condestavel de Portugal, dedicado a seu 
irmão D. Jaime, que foi Cardeal de Santo Eustachio, e Arcebispo de Lisboa. 



Século XV.) INFLUEXCIA DE JOÃO DE MEXA 133 

politicas de Portugal com Castella ; eile mesmo cultivava a ami- 
sade do poeta mais afamado d'essa corte, João de Mena, a quem 
enviava os seus versos. João de Mena alludia ás suas longas via- 
gens (1444 a 1448) que na tradição popular são conhecidas pelo 
titulo das Sete partidas do mundo : 

Nunca fué despues ni ante 
quyeii vyesse los atavios 
e secretos de Levante, 
sus montes, insoas e ryos, 
sus calores y sus frios 
como vós, senhor Ifante. * 

De 1429 a 1445 foi João de Mena o Chronista real de Dom 
Juan II, de Castella, e a esta posição allude o Infante Dom Pe- 
dro, chamando-lhe « coronysta abastante, » ^ e João de Mena tam- 
bém falia na magistratura soberana do infante : « por serdes byen 
regido — dios vos fyzo su regente. » O Infante era muito dado ás 
leituras dos moralistas da antiguidade, compilando os sete livros 
de Séneca, na obra intitulada da Virtuosa Bemfeituria. As intri- 
gas do Condes de Barcellos, a quem nomeara Duque de Bragan- 
ça, do Conde de Ourem e do Arcebispo de Lisboa, provocaram 
a catastrophe de Alfarrobeira, onde o Infante foi assassinado em 
1449 ; um poeta do Cancioneiro, Luiz de Azevedo, em uma ele- 
gia que põe na bocca do illustre príncipe, diz : 

Eu andei por muitas partes 
e por muito boas terras, 
muita paz e também guerras 
vi tratar por muitas artes ; 
Mas aqueste dia martes 
foi infeliz pêra mim ; 
o meu sangue me deu fim 
e rompeu meus estandartes. 

A influencia castelhana não se conhece somente no uso da 
1 Canc. geral, t. n, p. 72. (Ed. Stuttgard.) — 2 ibid. p. 70. 



134 TllADUCÇÕES DO CASTELHANO (EpOCa 2.* 

lingua pelos poetas palacianos nem pelas citações frequentes de 
Mena, Stuftiga Padron e Jorge Manrique ; fizerara-se traducçoes 
para a lingua portugueza, das quaes subsistem alguns fragmen- 
tos, como um testemunho directo. 

a) As Obras do A7-cipreste de Hita, de Hernan Perez, do Mar- 
quez de Santillana. — Na Bibliotheca do rei Dom Duarte, guar- 
dava-se um exemplar das obras do Arcipreste de Hita, com a indi- 
cação sumraaria O Arcypreste de Fysa. D'esta obra é a folha 
avulsa de pergaminho in-4.°, da Bibliotheca do Porto, com dezoito 
coplas escriptas a duas columnas ; as quadras alexandrinas caste- 
lhanas são reduzidas a outavas da nossa redondilha octosyllabica. 
O fragmento corresponde ás strophes 90 a 93, 95 a 100 e 113 a 
120 dos Exemplos do Arcipreste. ^ Frei Fortunato de San Boa- 
ventura publicou o Te Deum laudamus, a Paraphrase do Padre- 
Nosso, e da Ave Maria, que attribue ao Dr. Frei João Claro ; ' 
mas achara-se no Cancioneiro de Castilla sob o nome de Hernan 
Perez de Gusman, de quem se conheceram em Portugal outras 
obras como as Sentencias. O Marquez de Santillana, tendo inicia- 
do o Condestavel de Portugal no conhecimento da poesia caste- 
lhana, também enviou a Dom Affonso v umas Coplas, consideran- 
do-o de « perfeita discrecion, e buen sesso é de grant sentido. » 
Nos Inéditos publicados por Caminha vêm em nome de Ayres 
Telles de Menezes fragmentos vertidos de uma Canção do Mar- 
quez de Santillana. ^ Nos Cancioneiros castelhanos inéditos en- 
contram-se composições de numerosos poetas portuguezes, alguns 
desconhecidos em Portugal, como Francisco de Miranda, moço fi- 
dalgo de Dom AíFonso v. Em muitos apodos do Cancioneiro de 
Resende ha continuas referencias ás modas castelhanas, e os poe- 
tas realisaram essa conciliação entre os dois estados, antes das 
duas cortes de Fernando e Isabel e Dom João ii se alliarem en- 
tre si movidas pelos planos de mutua unificação politica. 

b) Formação do Cancioneiro geral, de Garcia de Resende. 
— Quando Resende começou a compilar as poesias da sociedade 

1 Yid. Questões de Litteratura e Arte portugueza, p. 128, onde se des- 
envolve este estudo. — 2 Inéditos de Alcobaça, t. i, p. i71. — ' Questões 
de Litteratura, p. 139. 



Século XV.) CANCIONEIRO DE RESENDE 135 

aristocrática do século xv, dizia como justificação do seu traba- 
lho : « muytas cousas de folguar e gentylezas ssam perdydas ssem 
aver d'elas notycia. — E sse as que ssam perdidas dos nossos 
passados se poderam aver, e dos presentes s'escreveram, creo que 
«sses grandes poetas, que per tantas partes ssam espalhados, nam 
teveram fama como tem. » Como um homem erudito, referia-se á 
poesia castelhana, italiana e franceza, de que se conheciam em 
Portugal muitos livros. Os desastres succedidos na corte de Dom 
Duarte, que viu morrer cativo em Fez seu irmão, o assassinato do 
Infante Dom Pedro em Alfarrobeira, a perseguição e exilio do 
Condestavel de Portugal, e a morte da rainha Dona Isabel sua 
irmã, não deixaram de ser causa d'e3te descuido por essas muy- 
tas cousas de folguar e gentylezas, a cuja perda allude Resende. 
Para esta compilação achava-se em uma posição especial Garcia 
de Resende, que muito criança entrara para moço da camera de 
Dom João II. A importância que via ligarem no paço á poesia, 
que formava a parte principal dos divertimentos dos serdes^ le- 
vou-o a cultivar também a poesia. O seu talento de musico e de- 
senhador deu-lhe a intimidade do monarcha ; Dom João ii con- 
vencia-o de que a poesia era uma singular manha. Na Ckronica 
de Dom João II, conta este quadro intimo: «E estando uma noi- 
te na cama já despejado, me perguntou se sabia as trovas de Jor- 
ge Manrique, que começam : Accuerd el alma dormida, etc. e eu 
lhe disse que sim ; fez-m'as dizer de cór, e depois de ditas me 
disse, que folgava muito de m'as vêr saber, e que tão necessário 
«ra um homem sabei -as, como saber o Pater Noster, e gabou 
muito o trovar de singular manha, e isto porque eu fiz uma trova 
que elle viu e a gabou muito, por me dar vantagem de o appren- 
der e saber fazer. » (Cap. cc.) Com um caracter jovial e fleugma- 
tico, com que respondia aos chistes á sua obesidade, com a inti- 
midade do rei, tudo o coUocava em condição de obter dos fidalgos 
os cadernos das suas coplas. Alguns, como Jorge de Vasconcellos, 
o provedor dos Armazéns, recusavam, mas por fim não podiam re- 
sistir aos apodos que Resende lhes dirigia. A collecção portugueza 
foi formada ao acaso ; o certame poético que se deu na corte em 
1484 entre vários fidalgos, com o titulo de Cuydar e Suspirar, 
provocou o pensamento da Compilação, que encerra composições 



136 ELEMIÍNTOS HISTÓRICOS (EpOCa 2.^ 

de trezentos e cincoenta e ura fidalgos das cortes de Dom Aífon- 
so V, Dom JoSo ii e Dom Manoel, que se podem organisar chro- 
nologicamente, pelas matriculas dos Livros das Moradias. A poe- 
sia palaciana apparece-nos aqui exclusivamente pessoal, anecdoti- 
ca e satyrica, procurando já na mythologia clássica meio de dar 
relevo ao que se apagava na banalidade. O que o faz inferior lit- 
terariamente dá-lhe um grande valor histórico para o conheci- 
mento dos costumes, e pelas referencias históricas d'esta impor- 
tante época de transformação social. 

No Cancioneiro descrevem-se como bons tempos as festas da 
Imperatriz, por occasiao do casamento da infanta Dona Leonor 
com o imperador da AUemanha, em 1451, e os a ricos momos, 
que o Infante Dom Fernando por si fez. » Allude-se á descoberta 
da Mina em 1469, e á batalha de Toro em 1474 ; ás celebres cor- 
tes feitas por Dom João ii em 1477, e á morte de Dora x\ífonsa 
V em 1481. No reinado de Dom Aífonso v, como se conhece pelo 
Cancioneiro, propagaram-se as modas francezas, e o conhecimen- 
to de certas cançonetas, das quaes Gil Vicente ainda cita uma ; ^ 
Dom Pedro de Menezes, no cerco de Tanger, mandava ao rei 
avisos escriptos em francez. ^ 

Na corte de Dom João ii a poesia tomou um caracter antigo, 
pela imitação das Cortes de amor, em que se processavam ques- 
tões subjectivas. Este reinado foi perturbado com grandes desas- 
tres politicos ; comtudo os fidalgos favoritos de Dom João ii não 
deixaram por isso de metrificar, rifar e apodar. Nas trovas do 
Coudel-mór a João Aífonso de Aveiro, allude-se ao caso de 1483, 
á execução do duque de Bragança : « mas isto veo no tempo da 
morte do Duque. » N'este mesmo anno se fez a corte poética de 
Cuydar e Suspirar. Era uns versos de Pêro de Sousa Ribeiro, 
refere-se a grande festa publica de 1490 « quaitdo tl-rey nosso se- 
nhor veo de Santyago, que ftz o singular Momo de Santos... » 



1 No Catalogo dos Livros do Condestavel de Portugal, citam-se : Var- 
bre de butalles scrit en francês, (n.» 9) Alexandre en ffrancea, (n.° 10) fets 
de catalleria en ffrances, (n.» 12) Valerius maximus en vulgar francês, (n.<> 
!7) Epistolas de Seneclia en vulgar francês, (n." 18) Cròniqties deis Retjs de 
França en vulgar francês (n.o 22.) — ' Ruy de Pina, Chr., p. 471. 



Século XV.) A POÉTICA PALACIANA 137 

O torneio e as divisas por occasião do casamento do príncipe Dom 
Aífonso com a filha de Fernando e Isabel em 1491, a sua morte 
desastrosa, e finalmente o enterro e trasladação de João ii, tudo 
ali pulsa a sua nota plangente ou chistosa, fazendo do Cancio- 
neiro geral um verdadeiro monumento da vida da sociedade aris- 
tocrática portugueza no século XV. Já n'este Cancioneiro figura 
Gil Vicente, lavrante da rainha Dona Leonor, que lhe conhece o 
talento poético. E como na historia tudo é evolutivo, os Momos, 
Entremezes e Dansas de retorta, da corte de Dom João ii, in- 
fluíram sobre a manifestação do génio dramático de Gil Vicente, 
assim como as recordações dos serdes de Portugal, contadas por 
Dom João de Menezes, acordaram o génio lyrico de Sá de Mi- 
randa. 

No Cancioneiro as formas narrativas estão representadas pe- 
los versos á morte do príncipe Dom AíFonso e de Dom João ii, 
segundo o género castelhano da Lamentação ; por outros á tomada 
de Azamor, e pelas coplas á morte de Dona Ignez de Castro, em 
que Resende não fica inferior a Camões. O Cancioneiro é essen- 
cialmente lyrico, de ordinário satyrico, por improvisos provoca- 
dos por accidentes dos serões do paço. Empregam-se as Voltas e 
Motes, as Esparsas e A^iodos e Endechas, que ainda resistiram 
contra as formas poéticas italianas na chamada Eschola da me- 
dida velha, e que também foi em geral a primeira maneira dos 
grandes poetas quinhentistas. Entre aquella alluvião de poetas, 
que metrificaram por feição aristocrática, destacam-se alguns que 
bastam para levantarem uma época litteraria ; taes são Francisco 
de Sousa, Álvaro Barreto, Duarte de Brito, Fernão Brandão, e 
o próprio Garcia de Resende. A influencia latinista, ahi está for- 
temente impressa pela traducção de algumas Heroides de Ovidio, 
por João Jodrigues de Sá. 

c) Descripção dos Cancioneiros jportuguezes do século XV. 
— A parte principal da actividade poética do século xv, acha-se 
colligida no Cancioneiro geral de Garcia de Resende ; comtudo 
não foi este o primeiro nem o único Cancioneiro aristocrático 
d'e3se periodo em que o poder real se impoz como independente. 
Restam noticias dafe seguintes collecções : 

A. — Livro das Trovas de El-rei Dom Duarte. — No Ca- 



Í38 LIVRO DE TROVAS DO RKI D. DUARTi: ICpOCa 2.* 

talugo dos seus Livros de uso, (n." 76) achado na Cartucha d'Evora, 
vem citado este Cancioneiro ; el-rei Dom Duarte também sabia 
trovar, como os antigos reis peninsulares, e se as suas composi- 
ções existissem apresentariam sem duvida um caracter didáctico. 
No Leal Conselheiro ainda se conservam uns versos do rei Dom 
Duarte, que sSo a traducçao de um hymno ecclesiastico feita a pe- 
dido de sua mulher ; diz o monarcha : « E porque per vosso re- 
querimento tornei em linguagem simpresmente rimada de seis 
pés de um consoante a Oraçom do Justo Juiz Jesus Christo, 
vol-a fiz aqui screver, a qual pêra fazer consoar nom pude 
compridamente dar sua linguagem, nem a fiz em outra melhor 
forma por concordar com a maneira e tençom que era feita em 
latim. » ^ Transcrevemos as primeiras estrophes para conhecer- 
mos a metrificação do poeta : 



Justo Juiz Jesu Christo, 
Rey dos Rex e boo Senhor, 
Que com Padre regnas sempre 
Hu he danibos hau amor; 
Praza- te de me ouvir. 
Pois me sento peccador. 

Tu que do ceeo descendiste 
Eq no ventre virginal, 
Hu tomando logo came^ 
Livraste o segre de mal 
Por teu sangue precioso 
De perdiçom eternal. , . 2 



1 Leal Conselheiro, p. 477. Diz o editor: « Fizemos grande diligencia 
por descobrir esta oração latina, mas com pezar nosso o não pudemos con- 
seguir ; etc. » Tivemos nós essa ventura; é um hymno latino do século x, 
do Ms. n.o 30 da Academia de Historia de Madrid, e publicado por Helffrieh 
e de Clermont, no Aperçu de VÍIist. des Langues neo-latines en Espagne, 
p. 48. — 2 ]\jq Cancioneiro popular, p. 14, vem transcriplo este hymno ; João 
de Barros {Compilação de Obras varias, p. 55) traduziu em prosa o hymno 
latino: «Justo Juiz Jesus Christo, rey dos reys e Senhor, que com o Padre 
reinas sempre e com o Espirito Santo, tem por bem de receber agora os 
meus rogos piedosamente : Tu dos ceos descendeste era o ventre da virgem. 



Século XV.) CANCIONEIRO DO CONDE DE MARIALVA 139 

É presumível que com o Livro das Trovas de Elrei Dom 
Duarte se perdessem bastantes composições de seu irmão o In- 
fante Dom Pedro, e de sua sobrinha Dona Philippa, que foi freira 
em Odivellas e ^a qual subsistem trez quadras conservadas por 
Jorge Cardoso. ^ 

B. — Cancioneiro do Conde de Marialva. — Só no fim do 
século XVI é que foi accusada pela primeira vez a existência 
d'este Cancioneiro, por Frei Bernardo de Brito, a propósito da 
celebre Canção do Figueiral : « E porque em matérias onde fal- 
tam autbores vale muito a tradição vulgar e as cousas que anti- 
gos traziam entre si como authenticas e verdadeiras e as ensina- 
vam a seus descendentes nos romances e cantares que então se 
costumavam, porei parte d'aquelle cantar velho que vi escripto 
em um Cancioneiro de mão, que foi de Dom Francisco Coutinho, 
Conde de Marialva, o qual veia á mão de quem o estimava em 
bem pouco . . . » ^ Nunca mais este Cancioneiro torna a ser citado 
senão no fim do século xvm pelo Doutor António Ribeiro dos 
Santos, que o diz ter visto nas mãos de um antiquário do Porto, 
o Doutor Gualter Antunes, e do qual copiou a referida Canção 
do Figueiral: «Vimos em tempos passados um Código Ms., que 
parece letra do século xv, em que se tratavam louvores da Lin- 
gua portugueza, em que vinha esta Canção de Hermingues, o 
Fragmento do Poema da Perda de Hespanha, e as duas Cartas 
de Egas Moniz com as Cantigas de Goesto Ansur, e com varian- 
tes em alguns termos que iremos notando em seus logares com- 
petentes : este Código era da escolhida Livraria do Doutor Grual- 



donde tomando verdadeira carne visitaste o mundo, remindo tua feitura por 
teu próprio sangue. . . » Eis a forma latina : 

Juste judex Jesu Christe, regum rex et domine 

Qui cum Patre regnas semper et cum sancto flamine 

Te digneris preces nieas clementer suscipere. 

Qui de coelis descendisti Virginis in uterum, 

Inde summens veram carnem visitasti sa3culum, 

Tuum plasma redimendo sanguinem per proprium. .. 

1 Agiologio lusitano, t. i, p. 411; Cancioneiro popular, p. 40. — ^ Jilo- 
narchia luzit., Q. 296, 



140 RELÍQUIAS DA POESIA PORTUGUEZA (EpOCa 2.* 

ter Antunes, erudito cidadão da cidade do Porto, que nol-o mos- 
trou e d'ellc copiámos as ditas obras. » E accrescenta em segui- 
da : «Por morte do Doutor Gualter Antunes não sabemos onde 
foi parar com os mais Mss., livros e preciosidades do seu precioso 
gabinete. » Já n'este século damos com a pista d'este Cancionei- 
ro ; antes do 1855, escrevia D. Marianno Soriano Fuertes, na 
Historia de la Musica en Espana : « Para dar alguma ideia da 
poesia portugueza no século xii e princípios do século xiii copia- 
remos uma Canção extractada de um Cancioneiro antigo que foi 
de Dom Francisco Coutinho, Conde de Marialva. » Eis o precioso 
excerpto : 

« A Reina groriosa 
tan é de gran santidade 
que con esto nos defende 
do demónio de sa maldade ; 
e tal razom com 'esta 
un miragre contar quero, 
que fez a Santa Maria, 
aposto e grande e fero 
que nom foi feito tan grande 
ben des lo tempo de Xero 
que emperador de Roma 
foi d'aquella gram cidade . . . m 



Depois da Canção da Reyna groriosa, Soriano Fuertes extra- 
ctou também a Canção do Figueiral, com a musica notada como 
se encontra nas Canções de AfFonso o Sábio. Identificado o có- 
dice citado por Brito e Soriano Fuertes com o do Doutor Gual- 
ter Antunes, temos os elementos da critica externa para apreciar 
essas cinco relíquias da Poesia portugueza, sobre que tanto se 
tem desacertado : 

A Canção do Figueiral, ou de Goesto Ansur. — É genuinamen- 
te popular esta poesia, elaborada simultaneamente com a tradição 
do Tributo das Donzellas, que em Hespanha existe em Simancas 
e na Veiga de Carrião ; na lenda heráldica dos Queiroz, e em 
Betanços ou Peito-Burdello, na Galliza. Em Portugal existiu a 
tradição em Figueiredo das Donas, em Vizeu, em Alfandega da 



Século XV.) o GENKRO DE LAMENTAÇÃO 141 

Fé, Castro Vicente, Chacim e Balsemão. A tradiçcão deriva do 
mytho dos Dragões que exigem Donzellas em tributo, e são res- 
gatadas por um heroe, que é uma personificação solar ; na lenda 
popular o Dragão é substituido por um inimigo da pátria, e o 
heroe por um santo, como na relação de San Thiago com os Mou- 
ros. Se emquanto ao seu fundo a Canção do Figueiral não é 
uma invenção gratuita, a forma métrica é similhante á do ro- 
mance de Ayras Nunes, do século xiv, o que mais confirma a 
sua authenticidade. Frei Bernardo de Brito, diz depois de a ter 
lido no Cancioneiro do Conde de Marialva : « e depois ouvi can- 
tar lia Beira a lavradores antigos, com alguma corrupção ...» 
E Miguel Leitão de Andrada, também escreve no fim do século 
XVI : «A qual me lembra a mim ouvil-a cantar muito sentida, a 
uma velha de muita edade natural do Algarve, sendo eu muito 
menino. » ^ A confusão das circumstancias da lenda com o monu- 
mento poético fez com que João Pedro Ribeiro duvidasse da sua 
authenticidade, sem notar que as creações populares não se simu- 
lam, porque se ultrapassa sempre a sua ingenuidade. 

Fragmento do Poema da Perda de Hespanha. — São quatro ou- 
tavas em verso de arte maior, e com uma linguagem archaica, 
por onde se infere o seu justo valor litterario, sem se admittir 
que fosse trecho de um poema coevo da invasão árabe, nem que 
mereça rejeitar-se como inútil. Da forma estrophica, infere-se : 
que a outava em que rimam o primeiro, quarto, quinto e outavo 
verso, emparelhando o segundo e terceiro, sexto e septimo, só 
apparece pela primeira vez usado em Hespanha por Affbnso o 
Sábio, e em Portugal no século xv. O emprego de palavras ar- 
chaicas revela-nos uma intenção artificial, como já vimos com a 
Gesta de Mal dizer de Afí'onso Lopes Baião. O facto de andar 
no Cancioneiro do Conde de Marialva um Elogio da Lingua por- 
tugueza, bem revela um intuito philologico da parte de quem si- 
mulou estas outavas. Também se dá a estes Fragmentos o titulo 
de Lamentação da perda de Hespanha ; effectivamente o género 
litterario que no século xv se usava em Castella com o titulo de 



Miscellanea, p. 27. 



142 o GÉNERO DA CHACONE (EpOCa 2." 

lamentação, e do qual fíilla o Marquez de Santillana, caracte- 
risa cabalmente a época e o valor do monumento, 

Âs duas Canções de Egas Moniz. — Foram pela primeira vez 
publicadas por Miguel Leitão de Andrada, e gratuitamente attri- 
buidas a um cavalleiro da corte de Dom AíFonso Henriques. 
Aqui também a lenda prejudica o monumento. Em primeiro lo- 
gar, a forma estrophica só apparece empregada pelo Arcediago de 
Toro, no fim do século xiv ; e nos Cancioneiros provençaes por- 
tuguezes não se encontra nem esta forma métrica nem a lingua- 
gem, nem nos Nobiliários apparece o nome de Egas Moniz com o 
titulo de trobador. Porém, no fim do século Xiv apparece um fi- 
dalgo com o nome de Egas Moniz, que atraiçoa Dom João i, 
passando-se para Castella, ^ como se diz na Canção : « Cambastes 
a Portigal — por Castilla. . . » Este Egas Moniz, filho de Pêro 
Coelho, regressara a Portugal no tempo de Dom Fernando, 
achando-se na batalha de Trancoso ; era casado com uma filha de 
Gonçalo Vaz Coutinho, d'onde procedem os Condes de Marial- 
va. ^ Explica-se pois como as Duas Canções apparecem no Can- 
cioneiro do Conde de Marialva, sendo indubitavelmente do meado 
do século XV. 

A Canção de Hermingues ou de Traga Mouros. — Appareceu 
pela primeira vez na Chronica de Cister ^ de Frei Bernardo de 
Brito, que a revestiu de circumstancias lendárias, que fizeram 
com que se lhe attribuisse a própria composição métrica. EUa 
achava-se no Cancioneiro do Doutor Gualter Antunes (ou de Ma- 
rialva) e na lição de Brito ha erros e transposições de versos, que 
um falsario não se lembrava de engendrar. Na Canção cita- se a 
Chacone, que era um género poético, commum á Itália e Hespa- 
nha no século xvi, e que em Portugal apparece no povo de Friel- 
las designando a Chacoina uma dansa mourisca, e no Alemtejo 
uma canção lyrica. O nome de Ouroaim, que também se cita 
n'e3te monumento, só se usa na aristocracia portugueza do século 
xiv, por efFeito da vulgarisação dos amores de Oriana por Ama- 
diz. Estes amores davam logar aos poetas palacianos do século 



^ Soares da Silva, Mem. de Dom João I. — " Pelatura luzitana, t. 
m, fl. 7. Ms. da Bibl. do Porto. — » Op. cit., p. 713. 



Século XV.) CANCIONEIROS INÉDITOS 143 

XV, a muitas composições e cançonetas, a cujo grupo pertence a 
Chacona de Oriana. ^ 

Cancioneiro do Abbade Dom Martinho. — Quando Gar- 
cia de Resende colligia os materiaes do seu Cancioneiro geral, 
soube d'esta compilação e desejou compulsal-a. Diz Resende em 
uma « Trova sua a Diogo de Mello, que partia de Alcobaça e ha- 
via-lhe de trazer de lá um Cancioneiro d'um Abbade que chamam 
Frey Martinho : 

Decoray pelo caminho 
té chegardes ó mosteiro, 
qu'hacle vir o Cancioneiro 
do abbade frey Martinho. » 2 

Cancioneiro portuguez, da Bibliotheca de Madrid. — 
Dom José Thomas, em 1790, descreveu este códice, como conten- 
do : « obras burlescas na lingua portugueza, recopilado segundo 
parece no século decimo quinto. Comprehende 96 folhas, de folio, 
e é ainda maior o numero dos auctores de poesias n'elle conten- 
das, as quaes são coplas reaes, compostas de duas redondilhas de 
cinco versos cada uma, outras de quatro ; algumas mixtas ; pou- 
cos vilhancicos e redondilhas de quatro versos, com alguns terce- 



1 Os continuadores da Bibliotheca de Gallardo, t. n, p. 233, trazem 
esta eslrophe de Dom Alonso de Cartagena, que ajuda a comprehender o 
fervor das Canções a Oriana, no século xv : 

Q'es tan cruel sin medida 
La belleza de Oriana, 
Que si dos mil presos gana 
No torna ninguno á vida. 
E se yo he quedado vivo 
Siendo su viejo cativo, 
Da-me la vida de suerte 
Que Uamo siempre la muerte 
Por dolor menos esquivo. 

No Catalogo da Bibl. de Musica de Dom João iv, cita-se: Triumpho de 
Oriana, a 5 e 6 vozes, de Michel Est e outros. Vemos aqui a persistência da 
forma da Chacona. — * Canc. ger., t. iii, p. 634. 



144 coHTK DE D. JOÃO I (Epoca 2.* 

/ ".-. A maior parte dos versos são dos que chamamos de redondi- 
Iha maior — ou de oito syllabas, poucos de redondilha menor ou 
de seis syllabas, e se encontra frequentemente o verso quebra- 
do. » Segundo a opinião do académico hespanbol parece ter sido 
a coUecçao que mais contribuiu para a formação do Cancioneiro 
de Resende. É crivei que seja este o Cancioneiro do Abbade de 
Alcobaça, ou esse que com o titulo de Cancioneiro portuguez 
cita Gil Vicente, com trovas de AíFonso Lopes, e do Conde de 
Vimioso. Uma grande parte dos livros portuguezes do século xv 
foram parar a Hespanha. 



§. II 



As Novellas da Tavola Redonda em Portugal 

a) Referencias nos costumes aristocráticos. — O advento do 
Mestre de Aviz ao throno de Portugal, se representa o momento 
histórico em que a nacionalidade teve consciência da sua autono- 
mia, assignala também a elevação de um obscuro bastardo á so- 
berania, que para a conservar não se peja de sacrificar um povo 
livi*e á dependência de um alliado protector. Dom João i, mudan- 
do a politica seguida por Dom Affonso iv e Dom Fernando para 
com a Inglaterra, pela Convenção de Londres de 9 de Maio de 
1386, obrigou Portugal a servir a Inglaterra com armas e galés 
á sua custa, para assim garantir o seu throno. Os chronistas 
d'e3se reinado calaram a convenção, hoje conhecida pelas Fcedora 
de Rymer, pela qual se explica o pensamento politico proseguido 
por outros bastardos. Não só pela sua vaidade de rei, como pelo 
casamento com a filha do Duque de Lencastre, Dom João i deu 
relevo á sua corte por exageração de formulas cavalheirescas. No 
Regimento de Guerra compilado nas Ordenações aíFonsinas, essas 
ceremonias reproduzem o ritual da epoca das cruzadas. Os poe- 
mas da Tavola Redonda, communicados pelo séquito de Dona Phi- 
lippa de Lencastre, eram lidos com fervor pelos cavalleiros dedi- 



Século XV.) DE.MANDA 1)U SAMO GHAAl. 14;i 

cados á nova dynastia, e o próprio Dom João i chamava aos seus 
cavalleiros, no cerco de Coria, pelo nome dos companheiros do 
Rei Arthur, que se sentavam com elle á Mesa Redonda. O prurido 
cavalheiresco era extemporâneo, e o Condestavel Nuno Alvares 
imitava a virgindade heróica de Galaaz, que era o typo que pro- 
curava como modelo das suas acções. É notável como estes sen- 
timentos ficticios penetraram nos costumes da sociedade portugue- 
za, apparecendo empregados na aristocracia como nomes civis os 
nomes dos principaes heroes dos poemas arthurianos. Correndo os 
documentos do século xv achamos Dona Yseu Perestrello, Dona 
heu Pacheco de Lima ; são vulgares os nomes de Genebra, Oria- 
na, Viviana; temos Tristão Teixeira, Tristão Fogaça, Tristão da 
Silva, Lançarote Teixeira, Lançarote de Mello, Lançarote de Sei- 
xas, Lançarote Fuás, Lisuarte de Andrade, Lisuarte de Liz, Per- 
cival Machado, Arthur de Brito e Arthur da Cunha. Os votos 
denodados, e as aventuras galantes da Ala dos Namorados, dos 
Cavalleiros da Madre Silva, dos Doze de Inglaterra, resultam de 
uma moda, que as relações com a corte ingleza tornaram mais in- 
tensa. Nas Bibliothecas portuguezas do século xv, como a de 
Dom Duarte, Infante Dom Fernando e Condestavel de Portugal, 
abundam os poemas da Tavola Redonda, em lucta com o persti- 
gio do elemento erudito. Estas obras hallucinaram a imaginação 
dos nossos fidalgos, e foram ainda um thema sobre que se desen- 
volveu a nossa lingua e litteratura. 

b) Demanda do Santo Graal, e outras ficções novellescas. — 
Um dos principaes documentos d'esta litteratura novellesca intitu- 
la-se a Demanda do Santo Graal, e d'elle deu noticia Varnha- 
gera, quando o encontrou na Bibliotheca da corte de Vienna, on- 
de tem o n." 2594 : « Da parte d'este, que respeita a Lançarote, 
existe uma versão livre contemporânea de Dom João i, na Bi- 
bliotheca d'esta corte, escripta em pergaminho e com o maior es- 
mero possível. Não contém, é verdade, o principio, mas nas 199 
folhas existentes se encerra a parte mais importante da Novella, 
com a circumstancia de que não se encontra no texto francez, ape- 
sar de citado pelo escriptor. » O manuscripto é escripto por difFe- 
rentes mãos, do século xiv e xv. Continua Varnhagem : « O Ms. 
da Tavola Redonda existente em Vienna consiste (sem principio) 

10 



14(> JOSEP AB ARIMATHIA (EpOCa á." 

em parte do Conto ou Roman^o de Lanzarote, tirado da copia 
franceza de Elie de Boron, segundo consta do mesmo texto. — 
Parece que o códice, que é um volume grosso, fazia parte de uma 
colieeção maior, comprehendendo o Brado de Merlim, e a Esto- 
ria de Tristam. — Ahi ainda se vê mui usado o ren e o en, no 
mesmo sentido que os trovadores os usavam. » ^ Na Bibliotheca 
de El-rei Dom Duarte guardavam-se porventura estas partes, co- 
mo se vê pelos titules dos livi'os de uso, Merlim e o Livro de 
Tristão. 

Livro de Josep ah Ârimathia, — D'este Manuscripto do cyclo 
das novellas portuguezas da Tavola Redonda, dá noticia Varnha- 
gem, como tendo-o visto em 1846 em Lisboa : « Acerca do San- 
to Greal tivemos occasião de ver, ha uns 24 annos, em Lisboa 
outro manuscripto intitulado : Livro de Josep ah aramatia Intitu- 
lado a primeira parte da Demãda do Sãto Grial ata a presete 
idade nunca vista treladado do próprio original por ho Doutor 
Manuel Avez corregedor da Ilha de Sã Miguel Deregido ao muy 
alto e poderoso princepe el Rei Dom João 5." doeste nome El rei 
nosso Senor. » Na Dedicatória ao monarcha, escreve o Doutor 
Manoel Alvares : « Com esta ousadia comecei a tresladaçSo do 
presente livro, que a V. A. hofereço. O qual eu achei em Riba 
Dancora em poder de hua velha de muy antiga idade no tempo que 
meu pay C."'" de Vossa Corte servia V. A. de C.°'" Dantre Douro 
e Minho. O qual livro, segundo elle parece he spto era pergami- 
nho e iluminado. E a caise de dozentos annos que fo spto trata 
muitas antiguidades e matérias boas e sabrosas como V. A. por 
elle verá. » D'este Manuscripto se extractou a declaração : a Este 
livro mandou fazer João Sanches mestre escolla de Astorga no 
quinto anno que o estudo de Coimbra foy feito e no tempo do 
papa Clemente que destroio a ordem dei Templo e fez o Concilio 
geral em Viana e poz ho entredicto de Caslella, e n'este ano se fi- 
nou a rainha Dona Constança em Sào fagundo e casou o Infante 
Dom Felipe com a filha do Dom A.° ano de 13 bij ano. » ^ No 
Cancioneiro geral, em uma poesia de Álvaro Barreto á morte do 

1 Cancioneirinho de Trovas antigas, p. 165 e 168. — ^ ^p. Cancio- 
neirinho, notas, p. 165 a 167. 



Século XV.) HISTORIA DE VESPASIANO 147 

Infante Dom Pedro allude-se a esta novella do mestre escolla de 
Astorga : 

Do comprido mestre escolla 
ou Josep Baramafya. ^ 

Estoria do muy nobre Imperador Vespasiano. — É esta a úni- 
ca novella do século XV que chegou a ser impressa ; pertence ao 
cyclo erudito greco-romano, e foi talvez por a tomarem como li- 
vro cora Valor histórico que alcançou a publicidade. Vespasiano 
foi o heroe de muitas gestas da Edade media ; Francisque Michel 
cita um largo poema provençal em uma bibliotheca de Inglaterra, 
e Herculano um poema também em provençal da Bibliotheca de 
Paris. ^ Podemos porém affirmar que a Novella portugueza foi 
traduzida do hespanhol porque existe impressa, in-4.° sem data, 
uma Historia dê Vespasiano emperador, de que resta noticia pelo 
Catalogo da Livraria de Fernando Colombo, filho do almirante 
das índias, e que elle comprara em Sevilha por outo marave- 
dis. ^ No Ms. de Josep ab Arimathia trata-se por vezes de Ves- 
pasiano : « Como o Emperador perguntou se J. C. creia nos ído- 
los, (cap. 4.) — Como o Emperador enviou buscar as reliquias de 
J. C. pelo seu mestre sala. (cap. 5.) — Como Vespasiano... foi 
gafo. (cap. 21.) — Como a Verónica veio a Roma, e como Ves- 
pasiano foi sào... (cap. 23.) — Vespasiano havendo prometido 
não queimar nem enforcar'" a Caifás, o manda meter em uma 
barca á ventura, (cap. 25.) — Baptisa-se Vespasiano. (cap. 
27.)» * 

c) Tradição das Ilhas encantadas — Viagens de Bozmital. 
— O chronista Azurara cita com valor histórico as viagens mara- 
vilhosas de San Brendan, e isto nos indica como a crença nas 
ilhas encantadas veiu agitar a imaginação dos navegadores portu- 
guezes no século xv, levando-os á exploração do oceano Atlânti- 
co, o Mar tenebroso dos - antigos. Esta crença tornou-se popular ; 



1 Ed. Stuttgard, t. i, p. 278. — 2 Panorama, t. iv, p. 8. — 3 Bi- 
blioteca de Gallardo. t. n, p. 530. — ^ Cancioaeiíinho, notas, p. itio a 
167. 



148 iMiAs r.N(:\M \i>As (Epoca 2.* 

as ilhas empoadas, de que falia Dora Francisco Manoel de Mello, 
ainda se avistam dos Açores e Canárias, segundo os crédulos. 
Nas celebres viagens de Lecão de Rozmital, de 1465 a 1467, vem 
descripta a sua digressSo em Portugal, e aí se aponta a narrativa 
de uma ilha encantada a que aportaram os navegadores portugue- 
zes ; transcrevemos as primeiras linhas d'esta lenda geographica, 
que se avivou no espirito portuguez com as tradiçSes célticas : 
«que um dos reis de Portugal mandara construir navios e os en- 
chera de todas as cousas necessárias, e puzera em cada navio do. 
ze escreventes, provendo -os de viveres para quatro annos, para 
que d'aquelle logar navegassem pelo espaço de quatro annos até 
o mais longe possivel, e lhes mandou escrever o que vissem, os 
paizes dezertos a que chegassem, e finalmente os contratempos 
que no mar experimentassem. Estes portanto, segundo nos foi 
contado, tendo sulcado o mar pelo espaço de dois annos comple- 
tos, chegaram a umas certas trevas, das quaes sahindo, passado 
o espaço de duas semanas aportaram a uma ilha. AUi, chegados 
os navios á praia, tendo desembarcado, encontraram debaixo da 
terra casas construidas, abundantes de ouro e prata, das quaes 
comtudo não se atreveram a tirar nada. » A lenda contada pelo 
viajante Rozmital é muito dramática e extensa, e tem recebido 
outras redacções curiosas em diíFerentes épocas. 

E visto que aqui cabe fallar de viagens, citaremos as Viagens 
de Marco Polo, traduzidas pelo Infante Dom Pedro, que se 
guardavam na Livraria do rei Dom Duarte. Este viajante era 
conhecido na Itália pelo nome vulgar de Marco o Milhão; no 
Cancioneiro de Resende vem citado pelo seu aspecto maravilhoso : 

Outros metera mais Mylham 
do mesmo ponteficado... ^ 

A corrente litteraria da época forçava-nos a abandonar as fic- 
ções medievaes pela erudição humanista, e a realidade dos acon- 
tecimentos levava-nos a occuparmo-nos em vez das narrativas no- 
vellescas das Chronicas históricas. 

1 Ed. Stutlgard, t. i, p. 14i. 



Século XV.) CORRENTE MEDIEVAL E CLÁSSICA 149 

§. m 

Predorainio da erudição latinista 



O século XV foi a grande época da erudição; a Renascença 
preludia por toda a parte sob o aspecto philologico e artistico. 
Não se opera de um modo brusco a negação da Edade media, 
mas os espiritos cultos ao passo que se apaixonam pelas obras- 
primas da antiguidade greco-romana, afastam-se calculadamente 
do contacto com o povo, ou o que vale o mesmo desprezam o 
elemento tradicional da litteratura. A coexistência das duas cor- 
rentes, a medieval e a clássica, apparece de um modo nitido nas 
transformações que recebe a lingua portugueza escripta, e obser- 
va-se também nas bibliothecas principescas antes da vulgarisação 
da Imprensa. 

1.° Estado da lingua portugueza : Formas populares e eru- 
ditas. — Como a litteratura, a lingua portugueza também rece- 
beu um desenvolvimento erudito, que a modificou e lhe imprimiu 
um caracter diverso do que teria se os escriptores do século xv 
em vez de augmentarem o vocabulário com palavras tiradas di- 
rectamente do latim urbano, fossem obrigados a escrever para o 
povo em uma linguagem que elle entendesse. Se a lingua portu- 
gueza seguisse uma evolução natural, chegaria indubitavelmente 
a essa contracção das palavras que tanto distingue a lingua fran- 
ceza, que só no século xvi foi aubmettida á auctoridade dos eru- 
ditos, quando já não podiam alterar a sua morphologia, não ob- 
stante todas as innovaçoes léxicas. A lingua portugueza desde que 
começou a ser escripta foi fixando as suas formas ao capricho 
dos traductores, e por isso as duas leis phoneticas que predomi- 
nam constantemente na formação divergente das línguas români- 
cas — o desapparecimento das vogaes mudas e a queda das con- 
soantes mediaes, — pela fatalidade da natureza exerceram-se sem- 
pre na linguagem oral, mas foram modificadas na linguagem es- 



ioO FORMAS DUPLAS (EpOCa 2.* 

cripta. Em virtude d'e3ta divergência, o vocabulário apresenta 
formas duplas, segundo a palavra proveiu de um fundo popular 
modificada pela lei das alterações phoneticas, ou introduzida di- 
rectamente do latim pelos eruditos com uma simples terminação 
portugueza. ^ A persistência das formas duplas resulta da diflfe- 
rença de sentido que a mesma palavra exprime, como em Logro 
e Lucro, ambas derivadas do latim Lucrus. 

As formas populares só foram introduzidas na linguagem es- 
cripta accidentalmente, como vicio do escriptor; as formas eru- 
ditas introduzidas com pretenção culta, tornaram a lingua litte- 
raria convencional, á qual el-rei Dom Duarte, ainda no século xv 
chamava lingua ladina ou ladinha; lingua que se tornou de uso 
entre as classes illustradas a ponto de já no fim do século xv se 
considerar a linguagem propriamente vulgar de tal modo archai- 
ca, que foi necessário traduzir para a linguagem corrente os do- 
cumentos officiaes, como aconteceu com a reforma dos Foraes ten- 
tada ainda no tempo de D. João ii. Quando se collige do dicta- 
do popular as cantigas, romances e contos, ó que se nota quanto 
hoje mesmo a phonologia, a morphologia e a syntaxe da lingua- 
gem do povo se afastam da linguagem escripta. Muitos dos gal- 
leguismos do século xv apparecem nos escriptores do século xvi, 
quando imitam a elocução popular. Na morphologia distinguem- 
se os substantivos pelo suffixo mento em vez de ão ; ha incerteza 
entre as formas em am e om; emprega-se o pronome homem ou 

1 Eis alguns exemplos de duplos : 

Ancho (popular) Amplo (erudito) Amplus (latim). 

Bodega Botica Apotheca. 

Combro Cômoro Comorus. 

Delgado Delicado Delicatus. 

Eira Área Área. 

Freima Fleuma Flegma. 

Grude Glúten Glúten. 

Insosso Insulso Insulsus . 

Nédio Nitido Nitidus. 

Olho Óculo Oculus. 

Pardo Pallido Pallidus. 

Quedo Quieto Quietus. 



Século XV.) ARGHAISMOS E NEOLOGISMOS 15i 

ornem como indefinido; formas verbaes em ades, participios muitas 
vezes em udo, e toma-se directamente do latim o suffixo issimus 
para a formação dos superlativos que antes do século xv eram 
compostos com o adverbio muito e mui muito. No Leal Conse- 
lheiro se determina a introducção d'este superlativo litterario : 
a porque nos Senhores esta virtude antre todas muyto recebe 
grande louvor, onde por especial d'ella som chamados illust7'issi- 
mos e sereníssimos, mostrando que som assy claros em verda- 
de ...» ^ É d'esta mesma época o documento sobre Behetrias, 
onde se lê: « Conde de Barcellos, filho do muito virtuoso e vito- 
rissimo rey Dom Joham. » ^ Nas Cortes de Évora, de 1481, ap- 
parecera os seguintes superlativos simples santíssima, Chrístianis- 
símo, grandíssimo. A natureza d'estes últimos documentos nos 
revela, que pelo seu lado também os jurisconsultos na traducçao 
das leis romanas imprimiram á lingua esse cunho artificial; nas 
formulas jurídicas, como teudo e manteudo, subsiste o caracter 
archaico. 

As traducções do latim. — No reinado de Dom João i conti- 
nuou mais calorosamente o enthusiasmo pelas traducções do la- 
tira. Este facto influiu no augmento do léxico pelos neologismos 
eruditos, e nas construcções syntaxicas, que se foram tornando 
«llipticas, O mesmo se dava em outras linguas românicas ; Pedro 
de Bercheure, traduzindo Tito Livio, introduz nas linguas mo- 
dernas as palavras cokorte, colónia, magistrado, tribuno do povo, 
J^astos, facção, transfuga, senado, triumpho, auspicio, auguro^ 
inauguração; Oresme, traduzindo Aristóteles, introduz os novos 
vocábulos monarchia, tyrannia, democracia, aristocracia, oligar- 
chia, déspota, demagogia, sedição, insurreição. Em Portugal o 
Infante Dom Pedro, ao fazer uma compilação dos sete livros de 
Séneca, usa d'esta mesma liberdade desculpando-se : « E os que 
menos letrados forem do que eu som, nem se anojem d'algumas 
palavras latinadas e termos scuros, que em taes obras se nam 
podem escusar. » ' João Pedro Ribeiro caracterisa assim a traduc- 
ção de Frei João Alves : « E que não fez o aliás erudito Frei 



1 Leal Conselheiro, p. 213. — ^ Ap. Mem. de Litt. portugtieza, t. i, 
p. 182. — 3 Ms. da Virtuosa Bemfeituria, liv. i, cap. 2. 



152 SOBRE A SYNONYMIA - (EpOCE Í/' 

JoSo Alves, secretario do infante Dora Fernando, o depois abba- 
de de Paço de Sousa ? Parece quiz trasladar todas as palavras lati- 
nas para o nosso idioma. » ^ A abundância e facilidade dos neo- 
terismos, actuava sobre o estudo da synonymia; assim diz o In- 
fante Dom Pedro, na Virtuosa Bemfeituria: « A taes prazeres 
como estes chamam-se em latim specialmente Jucunditates. E 
nós, por não termos em nossa linguagem vocábulo apropriado, 
podemol-os chamar Sobreavondante e extremada alegria. » O rei 
Dom Duarte também se entrega a estas considerações : « Da yra^ 
seu próprio nome em nossa linguagem é sanha . . . » ^ «do ódio, 
ou segundo nossa linguagem mal querença . . . » ^ Sobretudo no 
cap. XXV do Leal Conselheiro acha-se já uma especulação philo- 
sophica sobre a synonymia da lingua : « Antre nojo e tristeza eu 
faço tal deferença ; porque a tristeza, por qualquer parte que ve- 
nha, assy embarga sempre contynuadamente o coraçom, que non 
dá spaço de poder em ai bem pensar nem folgar ; e o nojo he a 
tempos, assy como se vee na morte d'alguns parentes e amygos, 
onde aquel tempo que per justa falia ou lembrança se sente, o 
sentymento he muyto rijo; porem taaes hi ha que passado o 
dia logo riim, faliam, e despachadamente no que lhes praz pen- 
sam. E a tristeza nom consente fazer assy, por que he hua door, 
e contynuado gastamento como apertamento do coraçom ; e o nojo 
nom contynuadamente, salvo se tanto se acrecenta que derriba 
em tristeza. E tal deferença se faz antre nojo e o 2>ezar ; porque 
o nojo no spaço que o sentem faz em aquel que o ha grande al- 
teração, mostrando manyfestos sygnaes em chorar, sospirar, e ou- 
tras mudanças de contenença, o que nom mostra o pesar soUa- 
mente, ca bem veemos que das mortes d'alguns nos pesa muyto, 
e nom nos derriba tanto que façamos o que o nosso nos constrange 
fazer, e menos caymos em tristeza, nem d'elles avemos sanha, mas 
propriamente sentymos no coraçom hum pesar com assas de senti- 
do. . . O desprazer he já menos, por que toda cousa que se faz, de 
que nos nom praz, podemos dizer com verdade que nos despraz 



1 Reflexões philologicas, n.° 4. p. 12. — ^ Leal Conselheiro, p. %. 
— » Idem, p. 103. 



Século XV.) BIBLIOTHECAS PORTUGUEZAS 153 

cl'ella, aynda que seja tam ligeira que pouco sintamos. » ^ N'esta 
grande Encyclopedia do saber medieval o rei Dom Duarte expõe 
as regras Da maneyra para bem tornar alguma leitura em 
nossa linguagem. Transcrevemos as primeiras duas regras : « Co- 
nhecer bem a sentença do que a tomar e poella enteiramente 
nom mudando, acrecentando, nem menguando alguma cousa do 
que está escripto. O segundo, que nom ponha palavras latinadas, 
nem d'outra linguagem, mas todo seja em nossa linguagem scri- 
pta, mais achegadamente ao geeral boo costume de nosso fallar 
que se poder fazer. » 

Sob a influencia do rei Dom Duarte, fez também o bispo de 
Burgos Dom Affonso de Cartagena a traducção da Rhetorica de 
Cícero, emquanto se achou aqui como enviado á corte portugueza. ^ 
A rainha Dona Isabel, esposa de Dom Aífonso v, mandou tam- 
bém traduzir a Vita Christi de Ludolpho Cartusiano; mas quan- 
do esta traducção foi revista em 1495 por Frei André, já a 
achou antiquada na linguagem ; este phenomeno tem um alto va- 
lor. Também em 1492 Ordoôes de Montalbo corregia o Amadiz 
de Gaula de los antiguos originales que estaban corruptos ó com- 
•puestos en antiguo estilo. Esta revolução não se deu na lingua 
castelhana ; pelo contrario Fernão de Oliveira e Nunes de Leão, 
no século xvi notaram esta transformação da lingua portugueza, 
apontando palavras que se tornaram archaicas e as differenças 
de estylo. Na Carta regia de 22 de Novembro de 1477 ordenan- 
do a reforma dos Foraes, diz-se que é para « tornal-os a tal for- 
ma e estylo que se possam bem entender. . . » 

2.* As Bibliothecas do Rei Dom Duarte — do Infante Santo 
e do Condestavel de Portugal. — O rei Dom Duarte dedicando- 
se aos estudos litterarios seguia o exemplo dos principaes monar- 
chas e príncipes da Europa, que segundo a tradição erudita de 
Salomão e de César elles procuravam imitar, honrando o sceptro 
e o calamo. Dom Duarte confessa o motivo da sua determina- 
ção : « E semelhante o muy excellente e virtuoso Rey, meu Se- 
nhor e Padre, cuja alma Deus aja, fez hti livro das Horas de 

^ Leal Conselheiro, p. 149. — 2 Biblioteca de Gallardo, t. n, p. 260. 



i54 BIBLIOTHECA DO KEI D. DUARTE (EpOCa 2.* 

Sanct<i Maria e Salmos certos pêra os finados, e outro de Mon- 
taria; e o lífíinte Dom Pedro, meu sobretodos prezado e amado 
irmão, de cujos feitos e vyda som contente, compoz o livro da 
virtuosa bemfeituria e as horas da confissora ; e aquel honrado 
Rey Dom AfFonso estrollogo quantas multidões fez de leituras? 
E assy Rey Sallamon, e outros na ley antiga e doutras creenças, 
seendo em real estado, filharom desejo e folgança em screver seus 
livros do que lhes prouve, os quaaes me dam para semelhante 
fazer nora pequena auctoridade. » ^ E no livro da Ensinança de 
bem cavalgar, confessa que escreveu o seu tratado a exemplo de 
Júlio César, que no desenfado dos negócios graves se distrahia 
escrevendo, ^ Só os reis e príncipes é que podiam possuir livros 
antes da descoberta da Imprensa, por causa do seu preço extra- 
ordinário; os livros que se facultavam aos estudiosos eram pre- 
sos á estante por uma corrente, concatenati, como se declara no 
testamento do Doutor Mangancha. Conhecemos três Bibliothecas 
portuguezas do século xv, pelo Catalogo dos Livros de uso do 
rei Dom Duarte, pelo testamento do Infante Dom Fernando, e 
pelo inventario dos livros do preclaro Dom Pedro Condestavel 
de Portugal. N'estas Bibliothecas acham-se promiscuamente o ele- 
mento medieval e o greco-romano e humanista, prevalecendo este 
ultimo a ponto de no século xvi os poemas da Edade media es- 
tarem já desconhecidos. Na Bibliotheca do rei Dom Duarte guar- 
dava-se a Dialéctica de Aristóteles, um Valério Máximo, Séneca 
commentado, Cicero, Vegecio, Tito Livio, Júlio César, as obras 
dos Santos Padres e moralistas ecclesiasticos ; mas acha-se ai li bri- 
lhantemente representada a poesia da Edade media, na maior vi- 
talidade da tradição ; pertencem a esta categoria o Livro de 
Tristão, o Amante de Grower, traduzido do inglez por um cónego 
de Lisboa Roberto Payno, ^ Merli, o Livro de Galaaz, a HistoHa 
de Troya, per aragoez, traducção de Jacques Coresa do francez 
de Benoit de Sainte More, o Livro do Conde de Lucanor de Dom 
João Manoel, a Gran Conquista de Ultramar, as Obras do Ar- 
cipreste de Hita, o Cancioneiro de Affonso o Sábio. Outros livros 

1 Leal Conselheiro, p. 169. — * Ibidem, p. 498. —- Ainndor de Ics 
Rios, Hist. de la Litf. espahola, t. vi, p. 46. 



Século XV.) BIBLIOTIIECA DO COXDESTAVEL D. PEDRO 135 

da Edade media eram conhecidos na corte de Dom Duarte, taes 
como o Ovídio da Velha, de Richard de Furnival, que com o 
titulo De Vetula fora attribuido a Ovidio. Lê- se no cap. xii do 
Manuscripto da Corte Imperial « bem sabedes que huu grande 
poeta muy genhoso e muy sutil antre os outros poetas foi o que 
ouve nome Ovidio Naso e foi gintil. E este fez muitos livros, o 
qual antes da sua morte compoz huíi livro que chama Ouvidio 
da velha, e este livro foi achado em no muymento ...» Este 
poema exemplifica o syncretisrao das duas torrentes medieval e 
clássica, que caracterisa a erudição da primeira metade do sécu- 
lo XV. 

No testamento do Infante Dom Fernando, feito antes da ex- 
pedição a Tanger, vem a lista dos livros que possuia, destacando- 
se entre as obras mysticas: um livro de linguagem chamado Ro- 
sal d' amor. Itsm, outro livro que chamam Izac (Izea?) em lingua- 
gem. ^ A bibliotheca do Condestavel de Portugal, como se vê 
pelo catalogo de 30 de junho de 1466, constava de 96 números, 
contendo obras extremamente raras, e com as mais esplendidas 
encadernações. N'esta livraria subsiste o elemento medieval, mas 
prepondera a erudição greco-romana ; citaremos o poema de Ale- 
xandre en ffrances, Deis fets de la cavalleria en ffrances, Boecio, 
de consolacion en vulgar castella, — Conquestes de ultramar en 
vulgar castella, Sidracho lo philosopho, Les Cent balades, Troya 
en leti, Joan Bocaci ; entre os livros da corrente greco-romana 
destacam -se o Sonho de Scipião, as obras de Aristóteles, Ethica, 
Politica e Economia, Suetonio, a Vida de César, Túlio De offi- 
ciis, Valério Máximo en vulgar francês, as Epistolas de Séneca 
en vulgar francês, Plutarcho Liber de viris illustribus, Virgilio 
Les Enehides, Tito Livio áe secundo bello púnico, Josepho De 
bello judayco, Plínio de la natural istoria, Cornelio Tácito, Com- 
mentai-ios de César, Justino, Declamações de Séneca, Ovidio Me- 
tamorfoseos, Liber ysocretis, etc. ^ No testamento do Dr. Man- 
gancha, de 1448, facultase assim a leitura dos seus livros: «e que 
os meus livros se posessem em huma Livraria per cadeas. » En- 

1 Doe. ap. J. Soares da Silva, t. i, p. 150. — * Andres Belngner y 
Merino, D. Pedro, el Condestable de Portugal, p. 20 a 34. 



Iri6 CAHACTKH civii, i>.\ HISTORIA (Epoca 2.* 

tre esses livros cita um Chino, o celebre Commentario de Cino 
da Pistoia aos nove primeiros livros do Código, ponto de resis- 
tência dos civilistas contra os decretalistas. 

A bibliotheca de Dom AíFonso v é-nos também conhecida pe- 
las citações que faz Azurara na sua Chronica da Conquista de 
Guiné, acabada em 1453 na livraria d'aquelle monarcha; cita o 
poema francez do Duque Jean de Lanson, e ao mesmo tempo 
abona-se com a auctoridade de Ovidio nas Metamorphoses, de 
Séneca na tragedia de Pkedra e Hypolito, de Cicero, de Aris- 
tóteles na Ethica; Valério Máximo, Lucano, Tito Livio, Plinio, 
Ptolomeu e Homero ahi se acham citados conjunctamente com os 
Padres da Egreja e os chronistas da Edade media. A erudição 
humanista, estudando os bellos monumentos históricos de Thucy- 
dides 6 Polybio, sentia-se espontaneamente levada a imital-os na 
transformação das chronicas e annaes em historia nacional, e nos 
primeiros trabalhos especulativos sobre politica. 

3.° Desenvolvimento da forma histórica. — Travada a ulti- 
ma lucta da realeza contra o poder senhorial, o movimento le- 
vado a cabo por Luiz xi contra o Duque de Borgonha apparece 
também em Hespanha na queda de Álvaro de Luna, e em Por- 
tugal com a execução do Duque de Bragança por Dom João ii. 
O século XV, d'essa3 poderosas conspirações e razões de estado, 
deixou-nos Memorias pessoaes ou particulares. A Chronica sim- 
ples ainda confundida com a tradição poética, veiu procurar nos 
fastos da vida social, nos interesses da ordem politica, nas modi- 
ficações da esphera civil o objecto das suas narrativas. As nacio- 
nalidades já constituídas reclamaram dos eruditos a invenção das 
suas genealogias históricas, e os eruditos filiaram as origens dos 
francezes, dos venezianos, dos hespanhoes e dos portuguezes nos 
foragidos de Troya ! Os estados geraes quizeram que se fixassem 
as razões das reformas que estatuíam, e os chronistas eram lison- 
gcados pela realeza para justificarem os seus crimes. Conta Da- 
mião de Góes que Afíbnso de Albuquerque presenteava com jóias 
Ruy de Pina para lhe ser favorável nas Chronicas. No meio d'es- 
tas pretenções de uma vaidade erudita, appareceram os Comines, 
03 Platinas, os Olivier de la Marche. Froissart viaja para colli- 



Século XV.) A HISTORIA NA FORMA LATINISTA V')7 

gir os successos do seu tempo : « Faltava-lhe alguma cousa a di- 
zer sobre as guerras de Hespanha, e precisava para isto o teste- 
munho dos portuguezes. Asseguraram-lhe que muitos cavalleiros 
d'essa nação estavam em Bruges. O cavalleiro errante da Histo- 
ria parte para Bruges ; ali sabe que um outro cavalleiro portu- 
guez valente e sábio estava na Zelândia ; eil-o a caminho para a 
Zelândia, para saber os successos de Portugal. Ali acha o seu 
homem, gracieux e accointahle, e está com elle durante seis dias, 
fazendo-lhe contar as historias e anecdotas que vae reduzindo a 
escripto. Depois de ter esgotado a memoria d'este cavalleiro parte 
para outra investigação. » ^ Com este mesmo espirito Fernão Lo- 
pes divagara por Portugal para escrever a historia do reino, e 
Azurara visitava as conquistas da Africa; mas o prurido da eru- 
dição latinista abafava por vezes o talento descriptivo e a acção 
da narrativa. 

No século XV propaga-se a tradição das Armas nacionaes, ex- 
plicadas pela lenda do Milagre de Ourique, como se vê pelas Me- 
morias de la Marche. N'este mesmo século o bispo D. Garcia de 
Noronha, orando diante do Papa, chama pela primeira vez a Por- 
tugal Lusitânia, considerando esta nação como representante da 
primitiva tribu céltica, e como se porventura o nome geographico 
concordasse com a designação ethnica. A realeza preoccupava-se 
com a organisação das Chronicas do reino, e convidava latinistas 
estrangeiros como Matheus Pisano, Frei Justo bispo de Ceuta e 
Angelo Policiano para traduzirem em latim as memorias nacio- 
naes. De Pisano resta a narração latina da tomada de Ceuta ; 
Frei Justo morreu repentinamente da peste, perdendo-se no seu 
espolio os materiaes que lhe tinham sido confiados ; Angelo Poli- 
ciano não accedeu aos desejos de Dom João ii. Apesar de um 
exagerado respeito pelos latinistas estrangeiros é no século xv 
que apparecem os grandes historiadores portuguezes, escrevendo 
na lingua nacional, com elevado bom senso, e com um admirá- 
vel relevo pittoresco. A redacção portugueza era provisória, sendo 
destinada á ampliação do latim académico, como se pode inferir 
da despreoccupação do estylo em Fernão Lopes, e dos plagiatos 

^ Lefranc, Ulst. critique de la Litt. franraise — Moyen-âge, p. 393. 



158 o AKCHivo NACIONAL (Epoca 2.» 

que d'este chronista fizeram outros que lhe suecederam. A insti- 
tuição de um Archivo dos documentos nacionaes por Dom Fer- 
nando e em seguida a creaçao do cargo de Chronista do reino 
inherente aos guardas d'este archivo, actuaram sobre o desenvol- 
vimento da forma histórica, e determinaram o apparecimento de 
Fernão Lopes, Gomes Eanes de Azurara e Ruy de Pina. 

a) Fundação do Archivo nacional, e a conversão das Estó^Z 
rias em Caronicas. — Nas Chronicas dos reis Dom Pedro i, (cap. 
12) e de Dom Fernando, (pr. e cap. 48) falia Fernão Lopes da 
Torre alvarrã ou do aver primitivamente construída para se guar- 
dar o thesouro real ; Dom Fwnando mandou guardar juntamente 
com o thesouro o Archivo do Reino, e d'este modo as escripturas 
publicas estavam confiadas aos empregados da fazenda, conver- 
tendo-se a Torre do aver em Torre do tombo. Os primeiros guar- 
das da Torre do Tombo, ainda não separados nas suas attribuiçoes 
dos empregados do thesouro, foram João Annes, vedor da Fa- 
zenda, por 1378 ; Gonçalo Esteves, contador dos Contos de Lis- 
boa encarregado do serviço da Torre em 1403, vencendo o man- 
timento e vestir, posto que não trabalhasse nos Contos, o que 
leva a fixar a separação do cargo de Archivista do de Thesou- 
reiro em 1403. Seguiu-se-lhe Gonçalo Gonçalves, Contador dos 
Almoxarifados de Setúbal e Óbidos, incumbido do serviço do Ar- 
chivo em 1414, e exercendo-o até 1418. Em outubro d'este anno 
já estava de posse de tal logar Fernão Lopes, o fundador da his- 
toria portugueza. O facto de apparecer nomeado em vida de Gon- 
çalo Gonçalves leva a inferir que as attribuiçoes de Archivista e 
de Thesoureiro foram separadas e tornadas independentes com a 
nomeação de Fernão Lopes. 

Desde 1418 até 1420 apparecem bastantes documentos assi- 
gnados por Fernão Lopes « a que desto he dado seu especial en- 
carrego de guardar as chaves das dietas escripturas e o traslado 
d'ellas. » Fernão Lopes exerceu durante trinta e seis annos este 
cargo, pedindo a sua exoneração por ser: a já tão velho e Jlaco, 
que per si não pode bem servir o dito officio. » 

A nomeação do novo archivista recaiu em Gomes Eanes de 
Azurara, indigitado pelo próprio Fernão Lopes : « per seu prazi- 
mento, e por fazer a elle mercê, como he razom de se dar aos 



Século XV.) ESTOREAS E CARONYCAS 159 

boos servidores. » A Azurara succedeu em 1490 Ruy de Pina, 
tão severo na critica histórica como o antecessor ; até Damião de 
Góes deu a instituição do Archivo nacional esplendidos resulta- 
dos, que outras causas mais fortes interromperam. ^ 

Na Carta escripta pelo rei Dom Duarte, de Santarém a 19 de 
março de 1434, a Fernão Lopes, encarrega va-o « de poer em ca- 
ronyca as estoreas dos Reys, que antigamente em Portugal fo- 
ram ...» Herculano ligava valor differente a estas duas pala- 
vras ; a estoria designava as memorias tradicionaes, os registos 
latinos, 03 obituários, as lendas oraes, tal como na Edade media 
a Historia e a Gesta se empregavam no sentido de poemas nar- 
rativos ; a chronica era a ephemeride palaciana com certa inten- 
ção de fixar os nascimentos, festas e casamentos reaes em rela- 
ção com a vida publica. No século xv ainda apparecem formas 
rudimentares da historia, que ficaram de fura da coordenação das 
chronicas do reino : 

A.] A Chronica da fundação do Moesteyro de Sam Vicente. 

— Este opúsculo, conhecido pelo nome vulgar de Chronica dos 
Vicentes, é uma traducção paraphrastica da relação latina intitu- 
lada Indiculum fundationis Monasterii S. Vicentii, escripta no 
reinado de Dom Affonso n ; ^ Dom João iii mandou imprimir 
em 1Õ33 a traducção d'esta Chronica, divergindo do texto que 
se acha nos Monumentos históricos da Academia, ^ reproduzida 
em 1861 do manuscripto da Torre do Tombo, que pertenceu ao 
mosteiro de S. Vicente. Frei António da Purificação diz, « que 
no Mosteiro de Sam Vicente se não consentia que alguém o to- 
masse na mão para o lêr, nem mesmo aos historiadores e chronis- 
tas do reino. » Segundo D. Rodrigo da Cunha foram auctores do 
Indiculum o allemão Otha, e Fernão Pires, natural de Lisboa, 
que Purificação diz serem simplesmente allegados como testemu- 
nhas vivas ao tempo da reducção do texto. A traducção pertence 
ao meado do século xv. * 

1 J. Pedro Ribeiro, Mem. authenticas para a Hist. do real Archivo da 
Torre do Tombo. — ^ Herculano, Hist. de Portugal, t. i, p. 306, not. xvii. 

— 3 Port. Mon., Scriptores, p. 407. — ■* Nas Questões de Litterutura e 
Arte portugueza, vem um estudo desenvolvido sobre a Chronica dos Vi- 
centes. 



l()i) moGRAPíiiAs (Época 



5 * 



]},] Vida de Dom Tello. — É a historia sob a forma biogra- 
phica ; a vida d'este arcediago de Santa Cruz de Coimbra, escri- 
pta em latim no século Xii, foi traduzida para portuguez por 
Mestre Álvaro da Motta, dominicano. N'este documento ae encer- 
ram alguns factos da historia nacional, que não . apparecem em 
outros monumentos ; por elle se vê qual era a litteratura culti- 
vada nò Mosteiro de Santa Cruz no século xii, pela lista dos li- 
vros oíFerecidos pelo mosteiro de Sam Rufo : « E emviarom-nos 
santo agostinho. Sobre Joham evangelista e sobre o genesy, que se 
chama adliteram ; questom sobre sam mateu e sam lucas ; e o exa- 
merom de santo ambrosio, o pastoraU de Santo ambrosio ; beda 
sobre sam lucas, pelas quaes cousas somos muito obrigados ao con- 
vento de sam RuíFo ...» Interessa pela traducção em portuguez, 
da qual se lê no prologo : a Esta obra está em latira no livro do 
erdamento de Santa cruz, e foi tornado em linguagem, porque o 
entendessem muitos, a requerimento de joedreannes, prior de po- 
dentes, irmão de affonseannes conigo de santa cruz. E esto foi 
em tempo de gomes prior de santa cruz, homem de santa vida, 
que primeiro foi abbade de frorença. E esta treladaçom fez de la- 
tira em linguagem mestre alvará da mota, da ordera dos prega- 
dores, o maior letrado da ordem, estando em santa cruz com o 
prior dora gomes no anno de LV, no mez de novembro. » A lin- 
guagem da traducção apresenta formas que já se não encontram 
em outros escriptores contemporâneos de mestre Álvaro da Motta, 
phenomeno que se explica por uma maior aproximação da lingua- 
gem popular : « Vinham muitos velhos cãaos fíizendo grande 
chanto por dom tello. . . » A forma vulgar de cãaos, cano ou en- 
canecido, desappareceu por causa da homonyraia com cão, ficando 
a forma feminina cãs ; o chanto era a forma vulgar de ijlan- 
■ctus, sendo substituída pela forma mais próxima do latim pranto 
por causa da homonyraia com chanto, de chantar ou plantar. O 
uso erudito observava estes phenomenos fixando as formas na lin- 
gua escripta. 

c] Ghronica do Condestabre. — Esta biographia é classifi- 
cada pelo auctor anonymo no seu pequeno prologo com o nome 
de estoria j a mesma designação lhe dá Gomes Eannes de Azu- 
rara comparando-a com a canção de Gesta do Duque João d-e 



Século XV.) FEBNÃO LOPES 161 

Lanson : « Antiguamente foi costume fazerem memoria das cousas 
que se faziam, assi erradas, como dos valentes e nobres feitos. 
Dos erros, por que se d'elle3 soubessem guardar ; e dos valentes 
e nobres feitos aos boos fezessem cobiça aver pêra as semelhantes 
cousas fazerem. » Azurara exemplifica os feitos errados com a 
fnulse geste do traidor João de Lanson ; a Chronica do Condesta- 
vel é apontada como o typo da memoria' dos feitos valentes. Na 
Chronica se diz que o Condestavel et avia gram sabor de leer li- 
vros de estorias, especiahnente usava mais ler a estoria de Galaaz, 
em que se continha a somma da Tavola Redonda ; » ali se encon- 
tra também a lenda da espada invencível, que o alfageme de 
Santarém entregou ao Condestavel, sobre que Garrett fundou um 
drama nacional. 

b) Os grandes Chronistas do século XV. — O rei Dom Duar- 
te, por Carta de 19 de março de 1434, deu : a carrego a Fernão 
Lopes seu escripvam, de poer em caronyca as estorias dos Reys 
<jue antigamente em Portugal forom ; esso meesmo os grandes fei- 
tos e altos do muy vertuoso e de grandes vertudes el-Rey seu se- 
nhor e padre, cuja alma deus aja; e por quanto em tal obra elle 
ha assas trabalho e ha muito de trabalhar, porem querendo-lhe 
agallardoar e fazer graça e merçee, mando que ele aja de teença 
€m cada hum auno em todollos dias de sua vyda, des primeiro 
dia do mez de janeyro que ora foy da éra d'esta carta em dean- 
te, pêra seu mantimento quatorze mil libras em cada um anno, 
pagadas aos quartees do- anno. » Quando o Infante Dom Fernan- 
do partiu para Tanger, no testamento que fez cita este chronista : 
«Item, leixo a Fernam Lopes, meu escrivão da puridade um liuro 
de linguagem, que ell me deu que chamam hermo espiritual. » 

Azurara falia do caracter do chronista : « notável pessoa, ho- 
mem de communal sciencia e grande authoridade ; escrivão da 
puridade do Infante Dom Fernando ; ao qual el-rei Dom Duarte, 
em sendo Infante, commetteu o cargo de apanhar os avisamentos 
que pertenciam a todos aquelles feitos (guerra entre Portugal e 
Castella) e os ajuntar e ordenar segundo pertencia á grandeza 
d'elles, e authoridade dos princepes e outras notáveis pessoas que 
os fizeram. » Tanto pela Carta de Dom Duarte como por esta ci- 
tação de Azurara, se vê que Fernão Lopes foi incumbido de es- 

11 



162 A CHRONICA GERAL DO RKINO (EpOCa á." 

crever a Historia geral do reino, e ao mesmo tempo a de Dom 
João I, já fallecido. Na carta de mercê de Dom AíFonso v, feita 
em Lisboa em 11 de janeiro de 1449, também ha referencia ao 
trabalho de uma Historia geral : a pelos grandes trabalhos que 
elle ha tomado e ainda hade tomar em fazer a Chronica dos fei- 
tos dos Reys de Portugal ...» 

D*este vasto trabalho de Fernão Lopes só restam as Chronica» 
de Dom Pedro I, de Dom Fernando e a de Dom João I, incom- 
pleta ; todos os outros livros foram passando por copias successi- 
vas, até que os copistas nas suas interpolações se persuadiram 
que eram auctores das obras plagiadas. Damião de Góes, na 
Chronica de D. Manuel, restituiu pela primeira vez, por um pro- 
cesso critico, a Fernão Lopes as Chronicas desde o Conde Dom 
Henrique até ao rei Dom Duarte, que andam firmadas por outros 
nomes. ^ José Soares da Silva, e Trigoso seguiram a auctoridade 
de Góes, e reforçaram-na : « Gomes Annes, no ultimo capitulo da 
Chronica do Conde D. Pedro, primeiro capitão de Ceuta, que elle 
compoz, na qual para verificar a jornada dos Infantes a Tanger, 
cita a Fernão Lopes, na Chronica geral do reino, como assim 
mesmo o allega em outras partes ; dando d'ella um notável teste- 
munho no principio do segundo capitulo da sua historia de Ceu- 
ta. . . E ainda que algumas d'estas Chronicas se acham accres- 
centadas ou recopiladas, como são as de Dom Affonso Henriques 
por Duarte Galvão (a quem o grande João de Barros, na tercei- 
ra Década, liv. i, cap. 4, chama seu apurador)^ a de Dom Duar- 
te por Gomes Annes ou Ruy de Pina ; as dos nove reis, por Duar- 
te Nunes de Leão, sempre as substancias e o principal d'ellas ê 
de Fernão Lopes. » ^ Na livraria de Dom Duarte guardava-se 
uma Chronica de Portugal. 

Sobre o modo das investigações históricas, diz o próprio Fer- 
não Lopes, que « com cuidado e diligencia vira grandes volumes 
de livros e desvairadas linguagens e terras, e isso mesmo, publi- 
cas escripturas de muitos cartórios e outros legares, nos quaes, 
depois de longas vigilias e grandes trabalhos, mais certidam aver 



1 Chr. de I). Manuel, P. iv, cap. 38. — 2 José Soares da Silva. Mem. 
de D. João I, t. i, procm. 



Século XV.) GOMES EANNES DE AZURARA 163 

nom pode do conteúdo era esta obra. » Também Azurara caracte- 
risa da mesma forma o trabalho do venerando mestre : « em an- 
dar pelos Moesteiros e Igrejas buscando Cartórios e os letreiros 
d'ellas, para aver sua informação ; e não só em este Reyno, mas 
ainda no reyno de Castella mandou el-rey Dom Duarte buscar 
muytas Escripturas que a este pertenciam. » ^ As Chronicas de 
Fernão Lopes são immensamente dramáticas ; os ditos pittorescos 
que definem um typo ou uma acção, os costumes populares que 
formam o fundo do quadro em que se vive e sente, a linguagem 
natural em uma construcção espontânea, dão ás narrativas de Fer- 
não Lopes o realismo de um Froissart temperado pelo bom senso 
de Montaigne. 

Gomes Eannes de Azurara. — A jyrasimento do próprio Fer- 
não Lopes, succedeu-lhe Azurara, compondo a Tomada de Ceuta, 
que forma a terceira parte da Chronica de Dom João I, escripta 
trinta e quatro annos depois da interrupção de Fernão Lopes. O 
rei Dom AíFonso v encarregou d'este trabalho Azurara, que era 
seu bibliothecario, posição que influiu no estylo rhetorico e no 
alarde de uma erudição humanista que tanto caracterisa o século 
XV. Para descrever as guerras de Africa, Azurara residiu bas- 
tante tempo em Alcácer Ceguer, podendo assim descrever ao vivo 
a tomada de Alcácer, Arzilla e Tanger. Escreveu a Ckronica do 
Conde Dom Pedro de Menezes e de Dom Duarte seu filho, e uma 
Chronica de Dom Affonso V até á morte do Infante D. Pedro em 
Alfarrobeira ; Ruy de Pina apropriou-se d'esta Chronica amplian- 
do-a e continuando-a, como fizera Azurara em relação á Chronica 
de Dom João I. Para a Chronica da Conquista de Guiné, ou pro- 
priamente a vida do Infante Dom Henrique, serviu-se Azurara de 
uma Relação escripta por AíFonso Cerveira. Como discipulo de 
Fernão Lopes, Azurara também procurava compenetrar-se da 
verdade histórica, visitando os logares da acção ; a corrente da 
erudição humanista destruiu em grande parte a sua ingenuidade 
medieval, e escrevendo em 1453 na opulenta livraria de Dom 
AíFonso V, o ambiente material dominava-o, seguindo com vai- 
dade esse prurido do século. Pela Carta de João Rodrigues de 

1 Chr. de D. João I, P. iir, cap. 2. 



164 RUY DE PINA (Época 2.* 

Sá a Damião de Góes, se sabe que « as Chronicas dos Reis pas- 
sados de Portugal, que se perderam em poder de Frei Justo, 
Bispo de Septa, italiano, que el-rei Dom Affonso v mandou bus- 
car a Itália, pêra lh'as escrever em latim, e elle morreu da peste 
em Almada, e aí se perderam. » ^ 

RuT/ de Pina. — Succedeu este chronista a Azurara na guar- 
da da Torre do Tombo ; compilou do trabalho dos antecessores as 
Chronicas de Dora Duarte e Dom Affonso v, e escreveu a Chro- 
nica de Dom João II, plagiada por Garcia de Resende, e come- 
çou a Chronica de Dom Manoel, levada até á tomada de Azamor 
em 1514. Na celebre Carta de João Rodrigues de Sá de Mene- 
zes se lê: «Ruy de Pina, em tempo de Dom João segundo, hou- 
ve á mão, por mandado d'el-rey umas Chronicas dos Reis anti- 
guos, que mingoavam, de hum homem d'esta cidade mui princi- 
pal, que se chamava Fernão Novaes, como elle me mostrou a 
Carta de el-rei, com o conhecimento de Ruy de Pina ; e regnan- 
do el-rei Dom Emanoel, elle ou por ter estas Chronicas ou tam- 
bém por estar em seu poder o Tombo, era que estavam as cousas 
d'aquelles tempos, e por Chronicas de Castella, se oíFereceu a el- 
rei a lhe fazer as Chronicas que falleciam, e a isso veo da Guar- 
da a Lisboa, e as fez com grande gosto de el-rei, e cora lhe fa- 
zer muita mercêe por isso. Depois de acabadas, muitas pessoas 
vi descontentar-se d'ellas, á minha vontade sem rasão, posto que 
o estylo de Ruy de Pina pelos muytos adjectivos e epithetos que 
se usavam n'aquelle tempo, he muito afeitado. » 

Ruy de Pina era escrivão da Camará de Dom João II, e bas- 
tante considerado pelo violento monarcha ; em uma carta datada 
de Évora, de 16 de fevereiro de 1490, nomeia-lhe um amanuense 
para o ajudar « no carrego e negocio de escrever em nossos fei- 
tos famosos e de nossos Reynos. » Com egual data lhe manda 
passar uma carta de tença de nove mil quinhentos e sessenta reis. 
Ruy de Pina contou as intrigas do Duque de Bragança, assassi- 
nato do Duque de Coimbra, envenenamento de sua filha a rainha 
D. Isabel até á traição castigada com a execução em 1483. Dom 
Manoel respeitando sempre os planos de Dom João ii, estimou 

1 Apud. Chr. de D. Manuel, P. iv, cap. 38, fl. 50. 



Século XV.) GRAMMATICA DA ARTE NOVA 465 

Ruy de Pina concedendo-lhe uma tença de doze mil reis annuaes, ' 
e nomeando-o « Coronista Moor das Caronicas e das cousas pas- 
sadas e presentes e por vir de nossos Eegnos e Senhorios ; » e 
também o nomeou seu bibliothecario com « o carrego e a chave 
da nosa Livraria que está nos nossos paços da cidade de Lisboa, 
o qual officio e carrego queremos que o dito Ruy de Pina aja, e 
tenha assy e pela guisa que hos tinha o doutor Vasques Fernan- 
des do nosso conselho e nosso chanceller em a Casa do Civel que 
no lo leixou pêra o darmos ao dito Ruy de Pina por satisfação 
que lhe delle demos de que foy contente e como o tyveram os ou- 
tros coronystas damtes elle ...» Este documento é datado de Évo- 
ra, de 24 de junho de 1497. O plagio da Ckronica de Dom João 
II por Garcia de Resende deve attribuir-se ao intuito de elimi- 
nação d'aquellas narrativas que não eram honrosas para os Bra- 
ganças, como se pode inferir pela consideração que o monarcha 
consagrava a Ruy de Pina, que escrevia com uma franqueza nada 
official. 

c) Os Humanistas : Philosophos e Moralistas — A Universi- 
dade de Lisboa — Estudantes portuguezes na Itália — A Imprensa 
portugueza e seus monumentos. — No Catalogo dos livros de uso 
do rei Dom Duarte, cita-se Alexandre, que era a forma lacónica 
de designar o Doutrinal de Alexandre de Villa Dei, em que se 
achavam compilados os tratados grammaticaes de Sérvio, Var- 
rão e Prisciano, que se estudava com grande arruido; em 1494 
já se mencionam mestres de grammatica da arte velha e da nova. 
Era a corrente dos novos estudos humanistas que penetrava era 
Portugal, assim como Nebrixa a introduzira em Hespanha. Ca- 
taldo Siculo, que professara rhetorica em Pádua, veiu a Portu- 
gal educar Dom Jorge bastardo de Dom João ii e Dom Manoel, 
desenvolvendo-se na corte a educação dos moços fidalgos ; Filelfo 
também foi conhecido em Portugal. Segundo a velha classificação 
das sciencias por Sam. Boaventura, remodelada por Lullo, a Gram- 
matica, Rhetorica e Lógica formavam a Philosophia racional, a 
Physica, a Mathematica e a Metaphysica constituíam a Philoso- 
phia natural, e a Monástica, Económica e Politica a Philosophia 
moral. A preoccupação d'estes estudos fez com oue Dom Duarte, 
conhecedor das doutrinas raymonistas, fizesse traduzir a Rlieto- 



KU) OBRAS PHILOSOPHICAS (EpOCa 2." 

rica de Cícero, e a Efhica de Aristóteles, cujo Canon dominava 
em Portugal sob a forma do averroismo. Os principaes livros phi- 
losophicos que nos apparecem escriptos em portuguez no século xv 
tem o caracter de compilações encyclopedicas, prevalecendo sem- 
pre o dogmatismo catholico em todas as suas conclusões ; apenas 
está publicado o Leal Conselheiro do rei Dom Duarte, conservan- 
do-se inéditos a Corte Imperial e a Virtuosa BemfeituHa. Esbo- 
cemos o valor de cada um destes livros. 

Corte Imperial. — Apparece este livro como fazendo parte da 
bibliotheca de Dom Duarte ; guarda-se na Bibliotheca do Porto, 
lendo-se no frontispício : « Este liuro é chamado corte emperial, o 
qual liuro he dafons Vasques de Calvos morador na cidade do 
Porto. » Como se sabe pelos Nobiliários, AfFonso Vasques Calvos 
foi criado do duque de Bragança em 1442. A rasao do titulo do 
livro explica completamente a sua forma dialogada e o seu intuito 
apologético : « e tal nome lhe he feyto, porque asj como na cor- 
te do Rey e do emperador ou doutro alto princepe soeê a seer 
trautados os grandes negócios e os altos feytos, e as árduas ques- 
tões determinadas, asy este liuro tracta de grandes cousas e de 
muy altas questões asy como a — essência de Deos e da trindade 
e da encarnação divinal e d'outras matérias proveitosas para co- 
nhecer e entender o senhor deus, segundo o poder da fraqueza 
humanai, provando tudo por auctoridades da santa escriptura c3 
declarações e exposições de doutores e per razões evidentes e di- 
zeres de barões sabedores declarados de latim em linguagem por- 
tugueza ...» Por este livro se pôde conhecer o estado do conhe- 
cimento das obras árabes em Portugal. 

A Virtuosa Bemfeituria. — Também na Bibliotheca do eru- 
dito rei Dom Duarte se guardava este livro escripto por seu ir- 
mão o Infante Dom Pedro, citando-o como auctoridade : « e o In- 
fante Dom Pedro, meu sobre todos prezado e amado irmão, de 
cujos feitos e vida som contente, compoz o liuro da virtuosa bem- 
feituria e as horas da confissom. » ^ Ruy de Pina, também* retrata 
assim o Infante : « foi bem latinado e assas mystico (encyclopedi- 
co) em sciencias e doutrinas de letras, e dado muito ao estudo ; 

1 Leal Conselheiro, p. 169. 



Século XV.) o LIVRO DAS LKIS 167 

elle tirou do latim em linguagem o Regimento de Príncepes, que 
Frey Gril Correado compoz, e assim tirou o Livro dos Ojjicios de 
Tullio, e Vegecio De Re militari, e compoz o livro que se diz da 
Virtuosa Bemfeituria. » ^ Este livro é uma compilação dos sete 
tratados de Séneca, e guarda-se em apographo entre os manu- 
scriptos da Academia das Sciencias. 

O L^al Conselheiro. — E uma vasta encyclopedia de theolo- 
gia, moral, medicina, lógica, pedagogia, de envolta com ingénuos 
traços biographicos, escripta por el-rei Dom Duarte. Diz elle : 
« E tal trautado me parece que principalmente deve pertencer 
para homens de corte, que alguma cousa saibam, de semelhante 
sciencia e desejem viver virtuosamente, por que aos outros bem 
penso que nom muyto lhes praza de o ler nem de o ouvir. » Ape- 
sar de escripto sob o regimen de uma importuna erudição, o Leal 
Conselheiro, pela sua origem familiar e domestica teve na sua re- 
dacção « de levar esta ordem de escrever na geral maneira de 
nosso fallar natural. » Sob este aspecto, é um dos maia importan- 
tes documentos philologicos. 

A codijicação das Leis. — Os jurisconsultos foram os princi- 
paes humanistas da Renascença ; conhecedores do systema das 
leis romanas trataram de codificar as diíFerentes ordenações espe- 
ciaes, formando um corpo geral que veiu a destruir a legislação 
foraleira. Com o titulo de Leis antigas achou em 1633 o escrivão 
Jorge da Cunha entre o lixo da Torre do Tombo um pergaminho 
de 168 folhas, mas em 1639 já não pôde dar com elle o Procu- 
rador da coroa Thomé Pinheiro da Veiga. Em uma certidão do 
Mosteiro de S. João de Tarouca da éra de 1459 cita-se o Livro 
das Ordenações que anda na Chancellaria ; é crivei que fosse o 
código mandado ordenar por Dom João i ao seu jurisconsulto 
João Mendes Cavalleiro. Na Bibliotheca do rei Dom Duarte 
« que em sendo Infante foi Regedor da Casa da Supplicação » 
encontra-se a designação do Livro das Ordenações dos Reis ; e 
no código aífonsino cita-se o Livro das Ordenações do Reino ^ e 
também o Livro das Leis que anda na Casa do Cível. ' 



1 Chronica de Dom Affonso V, cap. 125, p. 433.-2 0/-d. Affons., 
liv. m, tit. 6, %. 1. — 3 Ib., tit. 15, §. 29. 



168 A UNIVERSIDADE E OS COLLEGIOS (EpOCU 2." 

As occupações de Dom Duarte quando Infante levaram -no a 
emprehender uma nova codificação das Leis ; uma copia das Or- 
denações de Dom Duarte chegou ao poder do ministro José de 
Seabra da Silva, vindo outra copia do desembargador Joaquim 
Pedro Quintella parar na mão de seu filho o barão de Quintella. 
João Pedro Ribeiro que a examinou disse que tinha 450 folhas 
numeradas. ^ Hoje as Ordenações de Dom Duarte acham-se re- 
produzidas nos Monumentos históricos, da Academia das Scien- 
cias. As Ordenações Affonsinas codificam as leis dispersas dos 
diversos reis ainda da primeira dynastia ; cada um dos seus títu- 
los é precedido de um preambulo litterario, com ideias dos mora- 
listas greco-romanos, misturando-se com ellas o symbolismo pit- 
toresco da Cavalleria da Edade media no Regimento de Giierra 
portíiguez. Como obra de litteratura, a aíFonsina é um vasto repo- 
sitório de locuções populares, de costumes e de vida intima da 
nossa sociedade no século xv. Predomina a eschola bartholista, 
que impõe acima de todas as leis privilegiadas, ecclesiasticas, lo- 
cães e senhoriaes, o foro do rei, forma transitória da unificação 
civil. 

A Universidade de Lisboa. — O espirito de secularisação sub- 
siste no desenvolvimento das Universidades no século xv ; como 
no tempo de Dom João i se fixou a corte em Lisboa, assim elle 
quiz, em 1384, que a Universidade fosse para sempre para junto 
do poder real. A Universidade ficou collocada á porta de Santo 
André, « da parte de fora contra o arravalde dos mouros. » Ha- 
via as classes dos estudantes ricos, medianos e pobres. Durante 
as suas viagens o Infante Dom Pedro escreveu ao rei Dom Duar- 
te seu irmão lerabrando-lhe que reformasse a Universidade fun- 
dando junto d'ella Collegios « <í exemplo dos de Oxonia e Paris. » 
O Infante Dom Henrique coUocou as Escholas geraes em casa 
própria, em 1431, « para as sete artes liberaes, grammatica, lógi- 
ca, rhetorica, aresmetica, musica, geometria e astrologia,..». 
Para os estudantes pobres instituiu por testamento de 9 de de- 
zembro de 1447 o Dr. Mangancha um Collegio ; e por testamen- 
to do Infante Dom Henrique de 1460 instituiu uma cadeira de 

^ Dissert. chronologica$, t. iv, P. ii, p. 28. 



Século XV.) MONUMENTOS DA IMPRENSA 169 

Theologia, dotada com doze marcos de prata. Prevaleceu o espi- 
rito clerical na Universidade, e Dom AíFonso v em 1476 entrega 
ao bispo Dom Rodrigo de Noronha o governo e protecção do Es- 
tudo geral, ficando assim a Universidade de Lisboa estéril até á 
primeira reforma em 1504, nos conflictos dialécticos de Scotistas 
e Thomistas. 

A necessidade de ir frequentar as escholas humanistas da Itá- 
lia, pelos filhos da principal aristocracia portugueza, prova a in- 
sufficiencia do quadro dos nossos estudos. Por 1489 os filhos do 
Chanceller João Teixeira frequentavam os cursos humanistas de 
Angelo Policiano, e Henrique Caiado attribue ás lições de Ca- 
taldo Siculo a sua cultura litteraria. Os estudantes de Theologia 
procuravam especialmente a Universidade de Paris. 

A Imprensa em Portugal e os seus monumentos. — Sobre a data 
do apparecimento da Imprensa em Portugal achamos a seguinte 
noticia : « Em 1460 alguns negociantes d'esta cidade de Nurem- 
berg informaram o governo real de Portugal da descoberta e 
utilidade da Imprensa, feita por Gutemberg e Fausto em Mayen- 
ça. Um cardeal, ou o prior de um grande convento de Qoimbra 
mandou vir em 1465 os primeiros typographos de Nuremberg 
para Portugal, onde elles imprimiram de 1465 a 1473 em um 
convento, os auctores gregos e latinos e muitos livros ecclesiasti- 
cos, como por exemplo Thomaz de Aquino etc. — Segundo uma 
velha chronica, estes impressores que vieram a Portugal, eram 
Emanuel Semons (Simon) de Nuremberg, e Christophe SoU, de 
Altdorf, um burgo próximo de Nuremberg ; ensinaram muitos 
discipulos, e immediatamente a typographia espalhou-se por todo 
o reino de Portugal. » ^ Não sabemos até que ponto é rigorosa 
esta informação; comtudo são conhecidos os monumentos da Im- 
prensa portugueza no século xv, devendo citar-se em primeiro le- 
gar as Coplas do Menosprecio do Mundo do Condestavel de Portu- 
gal de 1478, a Istoria do muy nobre Vespasiano, de 1496, e a in- 
comparável tiragem da Vita Christi, mandada traduzir pela rainha 
Dona Isabel, e impressa em 1495 por Valentim de Moravia e 

1 Buckmann, Boletim da Sociedade de Geographia, 2.» serie, p. 674 
(1881.) 



170 EPISTOLOGRAPHIA (EpOCa 2.* 

Nicoláo de Saxonia por ordem e a expensas da Rainha Dona 
Leonor, um dos vultos mais eminentes do século, e a iniciadora 
das Misericórdias e do Theatro nacional, que entre si tiveram 
uma tão intima relação. Valentim Fernandes imprimiu ainda em 
1501, as Coplas de Jorge Manrique, e era 1502 as Viagens de 
Marco Polo, dois dos livros que mais apreciados foram durante o 
século XV ; a sua actividade continuou até ao anno de 1514. 

Durante a Edade media a litteratura epistolar teve uma im- 
portância especial, sendo cultivada com o titulo de Ars dictandi; 
na época da Renascença a carta era um pretexto para os huma- 
nistas mostrarem o seu estylo ciceroniano. Não fallando das Car- 
tas de Dom Duarte, Infante Dom Pedro, Marquez de Santillana 
e Angelo Policiano, distinguem-se por um notável vigor pittores- 
co as Cartas de Lopo de Almeida, escriptas da Alie manha em 
1451 a D. Affonso v, contando-lhe a jornada e festas do casa- 
mento da Imperatriz Dona Leonor, irmã do monarcha. ^ A 
preoccupação rhetorica do século xv fez com que o Magister di- 
ctaminis se tornasse na corte o moço da escrivaninha, como Gar- 
cia de Resende junto de Dom João ii. * 



§. IV 
Existência de um elemento popular 

O desenvolvimento erudito da língua e litteratura portugueza 
no século xv, mostra-nos que os escriptores tendiam a afasta^-se 
das relações naturaes com o povo. Todas as vezes que uma lit- 
teratura, á maneira de uma planta, não alimenta as suas raizes 
n'este huraus forte chamado a tradição nacional, cresce mas de 
uma maneira doentia ; como o ramo estiolado que procura a luz, 
ella segue as correntes do gosto em constante imitação. Seria por- 



1 Ap. Provas da Hist. genealógica, t. i, p. 633. — » Na Era Nova, 
p. 467, publicámos uma Carta de amores, do seeulo xv, que foi copiada de 
um Caderno de notas de Prazos do Mosteiro de Refoios de Basto, que prin- 
cipia em lii2 o acaba era 1452. 



Século XV.) COSTUMES POPULARES 471 

ventura a separação completa entre os escriptores e o povo, o re- 
sultado de não haver entre o povo portuguez vida moral, isto é, 
cantos, festas, costumes próprios? O povo portuguez, que pela 
sua organisação social em Behetrias se elevou muito cedo á uni- 
ficação nacional, possuia caracteres accentuados de invidualidade. 
Nas Viagens do Barão de Rozmital, de 1465 a 1467, encon- 
tram-se algumas noticias sobre tradições e costumes portuguezes, 
taes como as ilhas encantadas, e os ritos nupciaes e funerários: 
« N'esta villa (Thomar) vimos como os padres celebram sua pri- 
meira missa. Dita esta, n'esse dia e nos seguintes percorrem a 
povoação com flautas e n'ella tudo retumba com as dansas e can- 
tigas dos homens, mulheres e padres, entoando o coro o novo 
celebrante. » Rozmital refere-se também aos clamores e brados 
sobre finados, que se prohibiram no tempo de D. João i : « Ha 
também alli esta costumeira : morrendo alguém, levam para a 
egreja vinho, carne, pão e outras comidas ; os parentes do morto 
acompanham o funeral vestidos de roupas brancas próprias dos 
enterros com capuzes á maneira dos monges, com o qual vestuá- 
rio se vestem de um modo admirável. Aquelles porém, que são 
assalariados para carpirem o defuncto vão vestidos com roupa 
preta, e fazem um pranto como o d'aquelles que entre nós pulam 
de contentes ou estão alegres por terem bebido. » Estes costu- 
mes accusam a existência de uma poesia popular, como os Aurus- 
ta do Bearn, ou os Areytos hispânicos, ou os Tribuli e Voceros 
da Itália e da Córsega. 

a) Cantigas na sepultura do Condestavel. — Na Chronica dos 
Carmelitas pelo Padre José Pereira de Santa Anna, vem diver- 
sas cantigas do povo, colligidas em um Manuscripto de Gomes 
Eannes de Azurara, com as quaes a memoria do santo guerreiro 
era perpetuada na tradição nacional. O povo cantava á porta 
do convento onde o Condestavel se recolhera do ruido das armas 
nas austeridades da penitencia : 

O santo Condestabre 
En o seu mosteiro 
Dá-nos sua sôpa^ 
Mail-a sua roupa, 
Mail-o seu dinheiro. 



17á AS CANTIGAS AO CONDESTAVEL (EpOCa 2.* 

Pela Paschoa florida as mulheres de Lisboa cantavam varias 
seguidilhas sobre a sepultura do Condestavel, taes como: 



No me lo digades none 
Que santo es el Conde. 

O gram Condestabre 
Nunalves Pereira, 
Defendeu Portugale 
Com sua bandeira 
E com seu pendone. . . 



Os moradores do Rastello vinham também á mesma sepultura 
pela segunda Outava do Espirito Santo, e cantavam entre outras 
coplas : 

Santo Condestabre 
Boné português. 
Conde d'Arrayolos, 
De Barcellos, d'Orem, 
j\a campanha sondes 
Além d'uma bez, etc. 

E 08 moradores de Sacavém, cantavam no anniversario do 
Condestavel, em volta da sua sepultura: 



Do Rastello a Sacavém 
Nem ningola, nem ninguém 
Tem semelho ao Condestabre, 
Que le prougue e que le praze 
Ho fazer-nos tanto bem. . . ^ 



Um dos cantos populares mais antigos era a canção allusiva 
aos amores do rei Dom Fernando i, com a mulher de João Lou- 
renço da Cunha : « é por esto se levanto la cancion que dice : — 

* Ap. Cancioneiro popular, p. 9 a 13. 



Século XV.) CANTIGAS POLITICAS 17IÍ 

Ay donas! por que tristura? » ^ Fernão Lopes descrevendo a re- 
volução popular de Lisboa que levou ao throno o Mestre de Aviz, 
traz a cantiga que allude á morte do Conde Andeiro e do Arce- 
bispo de Lisboa : 

Esta es Lisboa presada, 
Miralda y leixalda ! 

Si quiserdes caraero. 
Qual dieran ai Andero ; 
Si quisierdes cabrito. 
Qual dieran ai Arçobispo. * 

Na Chronica anonyma do Condestavel, ao descrever-se a to- 
mada do Castello de Portel, que se não queria render ao Mestre 
de Aviz, vem intercalada essa outra cantiga : 



Pois Marina balhou, 
Tome o que ganou. 
Milhor era Portel, 
Velha ruiva, p . . . velha 
Que não çaffra e segura 
Tome o que ganou. (cap. 37] 



Depois da batalha de Aljubarrota, o povo continuou a dar 
aos seus cantos esse caracter satyrico, como se vê n'este Cantar- 
cillo da Padeira de Aljubarrota, intercalado em um velho roman- 
ce castelhano : 

Pois que Madanella 
Remediou meu mal. 
Viva Portugal 
E morra Castella. 
Seja amor testigo 
De tamanho bem ; 



1 Llaguna y Amirola, Compendio historial, ap. Rios, Hist. crit. da 
Litteratura esp.,'t. vn, p, 437, not. 2. — > Cliron. de D. João I, t. i, p. 
205. 



174 DESPREZO DA TRADIÇÃO POPULAR (EpOCa 2. 

Não chegue ninguém 
A zombar commigo ; 
Que a espada é rodella, 
A Forneira sal; 
Viva Portugal 
E morra Castella. ^ 



Do século XV ainda resta o vestigio de um outro canto po- 
pular, citado no cerco de Tanger em 1460, de que Azurara traz 
os primeiros versos em forma de provérbio, e que se pôde com- 
pletar pela tradição actual: 



« Oh noite má 

P'ra quem te aparelhas? 

— Pr'os pobres soldados 
E pastores de ovelhas. 

« E os homens do mar 
Aonde os deixar? 

— Esses ficam metidos 
Até ás orelhas. 



De todos estes factos conclue-se, que a litteratura do século 
XV tinha um elemento popular bastante vasto e nacional, de que 
poderia aproveitar-se se o comprehendesse. Um dos principaes 
escriptores do século xv, que muito influiu nas litteraturas penin- 
sulares, o Marquez de Santillana, na sua Carta ao Condestavel 
de Portugal, diz fallando do elemento tradicional : « ínfimos são 
aquelles, que sem nenhuma regra nem medida fazem estes Ro- 
mances e Cantares de que a gente baixa e de servil condição se 
alegra. » A auctoridade erudita que assim transviava o espirito 
do Marquez de Santillana, estabeleceu a scisão entre o génio po- 
pular e a litteratura portugueza, mais do que em nenhuma outra 
litteratura românica. 

b) Referencia a Romances tradicionaes. — Formação dos 
Romanceiros. — A referencia mais antiga a um romance popular 
apparece-nos na Chronica de Alfonso Onzeno, que attribuimos a 

^ Romancero general : Un gallardo português. 



Se<'UlO XV.) DUPLA FORMA DO ROMANCE 175 

Affonso Giraldes ; aí vem o verso : « Mal Io passaron francezes. » ^ 
No Cancioneiro geral de Garcia de Rezende, citam-se também 
alguns romances populares, como o Nunca fue pena maior, a 
que allude Pedro Homem, e a Bella mal maridada, citado por 
Nuno Pereira, Francisco da Silveira e Rezende. Miguel Leitão 
de Andrade, conta que ouvira cantar o romance do Figiieiral, 
a uma mulher muito velha do Algarve, isto é, nascida ainda no 
século XV. Alguns romances populares celebram successos do sé- 
culo XV ; no romance do Conde Nino, as aventuras de Tristão 
adaptam-se á historia verídica dos amores de Dom Pedro Ninho 
com a princeza Dona Beatriz ; no romance do Casamento mallo- 
grado, celebra-se a morte desastrosa do príncipe Dom Affonso 
em 1491. 

Nos Romances tradicionaes portuguezes notam-se duas formas 
de versificação, a redondilha menor, e a redondilha maior. Até ao 
século XV prevaleceu o romance em redondilha menor, ao qual o 
chanceller Ayala chamava Cantar de antiguo rimar, devido talvez 
á imitação do verso alexandrino dos cantos dos jograes. Perten- 
cem a esta forma o Figueiral, Santa Iria, O Cego, a Pastori- 
nha, o Hortelão das flores. Dom Beso, Confissão do Pastor e a 
Xacara do Galante que nos apparece na tradição das Astúrias e 
de Andalusia. Do século xv para xvi o Romance é transportado 
para o verso de redondilha maior. A causa de tal phenomeno ? 
Cremos devel-a attribuir a serem então os romances resados (re- 
citados) em vez de cantados. Os cantos do povo foram prohibí- 
dos na liturgia, como se sabe pela allusão de Dom Duarte para 
se não cantarem cantigas sagraes. Os eruditos não queriam ouvir 
os cantos do povo porque os achavam desprezíveis. D'aqui as 
duas designações d'este género de poesia heróica, a Aravia, usa- 
da pelo povo, e o Romance empregada pelos eruditos. Para os 
eruditos o Romance significava a linguagem vulgar, e os cantos 
sin regia ni cuento, como os caracterisava o Marquez de Santil- 
lana, pela despreoccupada vulgaridade. O erudito só julgava poe- 
sia a difficuldade da metrificação e da rima ; e o verso octosylla- 
bo, que é natural c quasi fallado, apenas assonantado em uma 

1 Verso 2283. 



I7() AHWIA E ROMANCR (EpOCa 2.' 

mesma vogal accentuada, nSo podia parecer aos palacianos senão 
um vernáculo rasteiro. 

nome que o povo dava aos seus cantos era o de Aravia, 
ainda hoje corrente era algumas ilhas dos Açores ; sao nnmerosos 
os documentos em que a palavra Aravia significou a linguagem 
plebêa, a giria e o canto do povo. Nas colónias hespanholas do 
México ainda se encontra o nome de Yaravi designando os can- 
tos heróicos de sete syllabas assonantados. O missionário Acosta, 
na Historia natural da ladia, fallando do gosto dos mexicanos pe- 
la musica, e da vantagem que d'isto se tirava para a catechese, 
diz : « Tambien han puesto en su lengua composiciones y tonadas 
nuestras, como de Canciones, de Romances de redondillas ; y es 
maravilla cuán bien las toman los Índios y cuanto gustan. » ^ 
Aqui temos uma evidente connexão histórica entre a Aravia in- 
sulana e a Yaravi mexicana; isto nos reporta a um fundo ethni- 
co commum a Portugal e Hespanha. Sabe-se que os cantos e 
dansas entre os Árabes só eram permittidos ao baixo povo; pelo 
Arcipreste de Hita se sabe da persistência d'esses cantos, leilas e 
tonadilhas ou lingui-Ungui árabes, que o nosso Gil Vicente ain- 
da accusa no seu Calbi ora bin. Sendo os Romances heróicos 
cantados antes do século xv, ás tonadilhas árabes deveram a de- 
signação de Aravia; o romance portuguez mais antigo que existe, 
acha-se no Cancioneiro da Vaticana, onde entrou por causa da 
musica a que andava ligado, e Soriano Fuertes publicou a musi- 
ca do romance do Figueiral. Essa classe popular onde persistiu o 
romanceiro era a que os chronistas chamaram os Mosarahes ; 
n'es3es Romances acham-se muitos symbolos jurídicos que esta- 
vam no seu vigor nos Foraes, signal de que são simultâneos com 
esses documentos escriptos era que as populações isoladas ou con- 
celhos vindicaram na sociedade neo-gothica a sua independência 
civil.. E assira como os foraes foram extinctos, por causa do foro 
do rei estabelecido pelos romanistas, também os Romances 
chegaram a ser esquecidos pelos eruditos que só achavam dignas 
da litteratura as imitações greco-romanas. 

c) Autos, MOmos e Entremezes. — Uma grande parte dos 

1 Op. cit., p. 447. 



SeClllO XV.) FORMAS DRAMÁTICAS TRADICIONAES 177 

<iosturaes portuguezes apresenta formas dramáticas, como os 
Descantes das Janeiras, as Maias, os CoUoquios de presépio ; e os 
actos da vida usual, como as malhadas do centeio no Minho, e a 
apanha da azeitona, no Alemtejo, terminam com paradas e im- 
provisos satyricos. Foi sobre este elemento popular que Gil Vi- 
cente, que floresceu na corte de Dom João ii, fundou o theatro 
nacional, dando-lhe fi')rma litteraria nos primeiros annos do 
reinado de Dom Manuel. Ha porém, ainda no século xv referen- 
cias a divertimentos theatraes ; lê-se no Leal Conselheiro de Dom 
Duaiie : « em tal maneira que nom pareça que os albardaães 
teem mais sabedoria que nós, por q le elles nom se trabalham 
d'arremedar as estorias melhores, mas que lhe som mais conve- 
nyentes. Pois estas cousas taes esguardará o albardam na zom- 
baria, e nom as veerá o homem sabedor em sua vyda. . . » ^ Es- 
ta palavra empregada pelo Arcipreste de Hita, é por Gil Vicen- 
te transformada para exprimir a sua predilecção pelos diverti- 
mentos dramáticos, dando-se figuradamente por filho de um ai- 
bardeiro e neto de um taraborileiro. Certas commemoraçoes histó- 
ricas eram celebradas com procissões dramáticas, como as quatro 
procissões de Corpo de Deus ordenadas por Dom João ii em 
1482, além da instituição da Eucharistia no dia do milagre da 
cera, em véspera de Santa Maria de Agosto pelo vencimento da 
Batalha real, e no dia da victoria do Toro e Samora. Para se 
vêr definida a forma dramática basta transcrever do regimento 
d'essa procissão : « Os homens d'armas, estes todos bem armados 
sem nenhuma cobertura, e com as espadas nuas nas mãos, e le- 
varão S. Jorge muy bem armado com um page, e huma Donzella 
para matar o Drago. » Nos festins do paço também se usavam 
Momos e Entremezes; dos Autos celebrados pelo casamento da 
Infanta Dona Leonor, lê-se no Cancioneiro de Resende : 



1 Op. cit., p. 321. — No Archivo da Gamara do Porto acham-se os Re- 
cibos de despezas feitas pelo Concelho d'esta cidade para o tablado, e com 
os que tangeram nas Matinadas, por occasião do baptismo do Infante Dom 
Henrique. De 20 o 22 do outubro, e de 7 o 8 de novembro, da éra do 1432. 
Perg. Liv. 3.0 fl. 40. 

12 



■178 MOMOS E ENTREMEZES (EpOCa 2.' 

Eram vossos tempos Autos 

Kas festas da Imperatriz (Fl. 47, t.) 

Duarte de Resende e Álvaro de Brito faliam nos novos entre- 
mezes ^ no casamento do príncipe Dom AíFonso, em 1491 fizeram- 
se ein Évora MOmoSf em que tomou parte Dom João ii « enven- 
cionado em CavaUeiro do Cisne. » No Cancioneiro geral ha uma 
referencia ao « singular Momo de Santos. » As grandes descober- 
tas maritimas do fim século xv, crearam uma certa riqueza pu- 
blica, que ampliando as relações civis proporcionaram o desen- 
\ olvimento da arte e liíteratura dramática nos séculos subsequen- 
tes. 



TERCEIRA ÉPOCA 



(século XVI) 

os QUINHENTISTAS 



^. I — -A. Renascença cia cultura greco-romana, como negação cia 
LCdade media s 

A) Período philologico e artístico : 

1." As Grammaticas de Fernão de Oliveira (1536) e de João de Barros (1539.) 

a) As alterarões phoueticas. 

b) Ah alterarões ntorpliologicasl 

c) Alterações syntajcicas. ■ 

d) Intluencia de Gil Vicente. • 
2." As três reformas da Universidade. 

3." Gil Vicente, Ourives, e os Artistas nacionaes. 

S. n — Conflicto entre a tradição naedieval e a erudição clássica, 
ou influencia italiana í 

1.° O Lyrisino popular e os Poetas da medida velha ■ 

a) Bernardim Ribeiro. , 

b) Cltristovam Falcão. ■ 

c) Poetas da medida velha. . 

2.° Os Romanceiros como rudimento da Epopêa medieval. 
3." Fundação do theatro nacional por Gil Vicente. 

a) Condições em que se introduz o Theatro em Portugal. :' 

b) Reacção dos eruditos contra o Theatro medieval. 

c) Eschola de Gil Vicente. 

í;. III — Sá de ]Vliranda e a imitação clássica sob a influencia da 
Itália : 

1." Lucta da introducção da Eschola italiana. 

a) Lyrismo : Ferreira, Bernardes, Caminha, D. Manuel de Portugal, Fal- 

cão de Resende. 

b) Theatro : A Comedia e a Tragedia clássicas. 

c) Novellas e Contos : Persistência do elemento medieval no Imperador 

Clarimundo, Palmeirim de Inglaterra, e Memorial dos Cavalleiros 
da segunda Tavola Redonda; o espirito das pastoraes italianas : 
Menina e Moça e Diana ; Os Contos de Proveito e Exemplo de 
Trancoso. 

B) Periodo theologico e critico : 

a) Influencia da Inquisição em Portugal. 

b) Os Jesuitas apoderam-se do Ensino publico. 

c) Damião de Góes e a situação dos Historiadores portiiguezes. 

C) Periodo scientifico e philosophico : 

a) Garcia d'Orta — D. Francisco de Mello e Pedro Nunes. 

b) A synthese negativista de Francisco Sanches. 
'2." Camões concilia os dois espíritos clássico e medieval 

a) Vida de Camões. 

b) Os Lyricos camonianos. 

c) Os Lusíadas e as Epopôas históricas no século xvi. 

§. IV — F*revalecimento da auctoridade clássica : 

a) Os Jesuitas combatem o Theatro : As Tragi-cumedias latinas. 

b) Çhronistas monachae.'-, e a decadência da Historia. 

c) Moralistas calholicos : Dr. João de Barros, iVmador Arraes, Heitor Pin- 

to, Fr. Thomé de Jesus, e Paiva de Andrade ; D. Joanna da Gama. 

d) Fim da Nacionalidade porlugueza — Revivescência das obras dos Qui- 

nhentistas. 

A Renascença da cultura fjreco-romana, como neoação 
da Edade media 

No século XVI estava creada a burguezia e estabelecida* a in- 
dependência do poder real nas monarchias absolutas ; e esta trans- 



180 os TRES ASPECTOS DA RENASCENÇA (EpOCa 3.* 

formaçSo social foi simultânea com uma modificação profunda do 
estado mental, que se exprime pela designação tão complexa de 
Renascença, em que a uma grande liberdade de espirito se liga 
um respeito excessivo pelas obras da antiguidade greco-romana. 
Quando começa a Renascença? Para Lange, este phenoraeno 
começa no século XV e prolonga-se ao xvii século, apresentando 
differentes aspectos, segundo as diversas phases da demorada cri- 
se da decomposição do regimen catholico-feudal. Prevaleceu o po- 
der dos reis sobre a theocracia da Edade media, e a burguezia 
industrial sobre o feudalismo militar ; as grandes descobertas ma- 
rítimas iniciadas pelos portuguezes determinaram a actividade pa- 
cifica e o desenvolvimento de uma classe media, como o conheci- 
mento das duas litteraturas clássicas fizera do humanismo a re- 
acção contra a disciplina theologica da Edade media. Os reis acha- 
ram-se protegendo naturalmente os estudos humanistas nas Uni- 
versidades, e os eruditos da Renascença repelliram com desprezo 
as creações medievaes, como productos monstruosos de uma pro- 
longada época de barbarismo. No seu primeiro fervor de admira- 
ção pela antiguidade, a Renascença apresenta-se sob o aspecto 
pJiilologico e artístico; com a reacção catholica, que na historia 
se denomina a Reforma, toma então o caracter theologico e criti- 
co / e quando pelas descobertas da circumducção do globo e do 
systema astronómico, propendera a corrente do experimentalismo, 
a Renascença torna-se scientijica e philosophica. 

A repentina solução de continuidade entre o século xvi e a 
Edade media fez com que á medida que as doutrinas se tornam 
incertas, o Poder temporal se impuzesse com mais impetuosidade, 
no meio das contradicções e incoherencia dos espirites. Os escripto- 
res separam-se do povo, escrevendo em latim ; mas o forte desen- 
volvimento da burguezia actua sobre a forma escripta das línguas 
vulgares ou nacionaes, conservando esse meio tradicional da Eda- 
de anterior, que os grandes génios souberam tão assombrosamen- 
te conciliar com os modelos clássicos. Os ódios djnasticos sepa- 
ram os estados entre si com guerras de farailia, invadindo-se mu- 
tuamente, porém uma solidariedade intellectual torna-se cada vez 
mais manifesta em todo o Occidente europeu. A Renascença da 
antiguidade iniciada pela Itália veiu imprimir uma direcção uni- 



Século XVI.) o HUMATÍISMO ITALIANO 18i 

forme ás Litteraturas românicas, e postoque as desviasse do ele- 
mento fecundo das suas tradições, renegando a Edade media, fez- 
nos sentir a unidade da origem da civilisação em contraste com a 
organisação politica. 

A Itália achou-se era condições especiaes para a obra da Ee- 
nascença ; nunca o conhecimento da antiguidade se perdeu alli 
completamente ; as suas escholas de jurisprudência eram tão re- 
putadas como as antigas de Labeão e Capitão ; os monumentos e 
as ruinas foram educando os novos génios, os quaes, quando a Itá- 
lia se viu occupada pela Allemanha, invadida pela França, con- 
quistada pela Hespanha, atraiçoada pelo Papado, desgostados da 
vida publica e sem esperança no futuro da sua pátria, esses gé- 
nios refugiaram-se no mundo sereno do passado e da arte, recon- 
struiram a vida grega e romana, consolaram-se reproduzindo esse 
antigo ideal que os alentava no meio das catastrophes. Emquanto 
os exércitos francezes talavam o solo italiano, os sábios discutiam 
o platonismo, e os pintores e poetas, como Archimedes outr'ora, 
não sentiam o estrépito das armas invasoras. Os que conquistavam 
a Itália, admiravam a sua cultura intellectual, e a Itália exercia 
sobre o vencedor o perstigio da Arte, como Roma subsistiu nas Leis 
civis depois da sua ruina. Em França, vemos Carlos viu chamar 
para a sua corte os sábios italianos ; Luiz xii enriquece com as 
bibliothecas da Itália as livrarias francezas ; Francisco l é educa- 
do por um pedagogo italiano, e inscreve-se como cidadão no Livro 
de Ouro de Veneza. 

Em Hespanha, a influencia da Itália data do principio do sé- 
culo XV, quando Micer Francisco Imperial tornou conhecidas as 
poesias de Dante; o Cancionero de Stuniga a cada pagina reve- 
la que foi escripto por poetas que estiveram na conquista de Ná- 
poles. Só no fim do século xv é que a nossa aristocracia se diri- 
giu para a Itália « a fim de se lhe formarem os costumes, serem 
instruídos nas boas .lettras, e aprenderem todas as artes liberaes, » 
como se lê em uma carta de Angelo Policiano. A Renascença 
propagou-se a Portugal era todos os seus aspectos, e a grande 
época dos Quinhentistas, pelo conflicto entre a tradição medie- 
val e a influencia clássica italiana, e pela sua conciliação admi- 
rável era Camões, é a edade de ouro da litteratura portugucza. 



182 VIDA nisTOiucv dk poiucgal (Kpora .*{.* 

Sigamos a ordem d'e3tes problemas, em que está implícita a evo- 
lução de um século. 

A) feriodo i^hilologico e artístico 

O século XVI é o período de maior actividade na litteratura 
portugueza ; a lingua fixa-se por meio da observação das suas leis 
grammaticaes, e a litteratura eleva-se á expressão do sentimento 
nacional synthetisado pelas mais preponderantes individualidades. 
Existiu para isto uma causa orgânica, immanente na vida social. 
Com a descoberta do caminho da índia, com a expansão colonial 
das grandes navegações, Portugal entrou n'e3se período a que no 
concurso da civilisação humana se chama a vida histórica de um 
povo. Apesar dos erros políticos de D. Manuel expulsando os Ju- 
deus de Portugal, e de D. João iii entregando aos jesuítas o ensi- 
no publico e a direcção da mocidade aristocrática, ainda assim o 
século XVI foi de uma riqueza não excedida até hoje, em toda a 
ordem de actividade, porque era orgânica a causa que o fecunda- 
va, partindo os impulsos da totalidade da nação que se affirmava 
independente. Portugal reconhece pela primeira vez na sua litte- 
ratura o génio popular em Gil Vicente, que precede a influencia 
italiana na Ourivesaria ; a lingua é disciplinada nas Grammaticas 
de Fernão de Oliveira e Joào de Barros, e a Arte apresenta vul- 
tos como João de Castilho, Grão Vasco e Francisco de HoUanda. 

1.° As Grammaticas de Fernão de Oliveira (1536) e de João 
de Barros (1539). — Escreve Fernão de Oliveira justificando-se 
da sua tentativa : « Quem não folga de dizer mal terá excusa com 
olhar a novidade da obra e como escrevi sem ter outro exemplo 
antes de mi, e isto mais excusará o defeito da ordem que tive em 
meu proceder, se foi errada, » (p. 120, ed. 1871.) A causa por 
que tão tarde se estabeleceu a disciplina grammatical é explicá- 
vel pelo uso exclusivo do latim nas escholas ; em uma Noticia das 
Escholas de Santa Cruz de Coimbra, se diz do trato dos estudan- 
tes : « A todos é opprobrio f aliar, salvo em a lingua latina ou gre- 
ga. D André de Resende diz na Vida do Infante D. Duarte acer- 
ca das lições de Clenardo : « Muitos houve que tinham opinião de 



Século XYI.) EDUCAÇÃO LATINISTA iS^i 

letrados, que per não descobrirem o fio de quara mal sabiam fal- 
lar latim, escolheram antes não ir á lição, nem entrar emquanto 
o mestre lá estivesse... » Por 1516, escrevia o conde de Vimioso 
aatjricamente a Ayres Telles : 

Coitado, triste de ti. 

Homem mofino; 
Que foste nascer era sino 

De latim. 

{Canc. ger., iii, 121.) 

Postoque as idéas grammaticaes de Fernão de Oliveira esti- 
vessem viciadas por uma falsa comprehensão da origem ethnolo- 
:gica do povo portuguez, e derivasse a sua lingua das colónias lu- 
sitanas, e a sua erudição resultasse da authoridade pedantesca ci- 
tando indigestamente Marciano Capella, Nebrissa, Marsilo entre 
Cicero, Quintiliano, Marco Varrão e Probo Grammatico, é certo 
que a sua origem popular influiu bastante para possuir um conhe- 
cimento especial da lingua nacional. Na dedicatória da Gramma- 
tica da linguagem portugueza a D. Fernando de Almada, confes- 
sa o seu humilde nascimento : « Sou um homem baixo. » (p. 4.) 

Fernão de Oliveira era natural da província da Beira, onde a \r\!/^ 
lingua como a tradição poética mantinham um caracter archaico ; '> 

foi educado em Évora, considerada a capital da erudição huma- 
nista : « Sendo eu moço pequeno fui criado em S. Domingos de 
Évora, onde faziam zombaria de mi os da terra, porque o eu assi 
pronunciava, segundo que o aprendera na Beira. » (p. 114.) Mais 
tarde foi preceptor em casa de Dom Fernando de Almada, que 
também era homem lido : « Aproveita seu tempo lendo bons livros 
para si, e no regimento de sua casa primeiro, cria com muito cui 
dado Dom Antão seu filho, a quem Deus guarde e prospere, pa- 
ra cuja doutrina com muita despeza me trouxe a sua casa, e gra- 
ciosa e cumpridamente me conserva n'ella. » (p. 4.) Aqui temos 
as condições especiaes de Fernão de Oliveira para assignalar as 
revoluções experimentadas pela lingua portugueza no primeiro 
quartel do século XYI. EUe nota o grande desleixo que os po.-tu- 
guezes tem pela lingua nacional, caracterisando o estado da in- 
disciplina grammatical : « Já confessamos ser verdade o que dia 



184 NECESSIDADE DE DISCIPLINA GRAMMATICAL (EpCCa 3." 

Marco Varrão nos livros da Etymologla, que se mudam as voze» 
e com ellas é necessário também que se mudem as letras ; mas 
não com tão pouco respeito como agora alguns fazem, os quaes 
como chegam a Toledo, logo se não lembram, de sua terra, a qu& 
muito devem. E em vez de apurarem sua língua, corrompem-na 
com en^prestilhos, nos quaes não podem ser perfeitos. Tenhamos 
pois muito resguardo n'e3ta parte, porque a língua e escriptura é 
fiel thesoureira do bem da nossa successão, e são, diz Quintiliano, 
as letras para entregar aos que vierem as cousas passadas. » (p. 
18.) 

Fallando da renascença dos estudos humanistas sob Dom 
João III, prosegue: «porque já os priguiçotos não tem excusa, 
nem se podem chamar remissos por falta de premio: e comtudo' 
appliquemos nosso trabalho a nossa língua e gente, e ficará com 
maior eternidade a memoria d'clle ; e não trabalhemos em língua 
estrangeira, mas apuremos tanto a nossa com boas doutrinas que 
a possamos ensinar a rauytas outras gentes e sempre seremos 
d'ellas louvados e amados, porque a semelhança é causa de amor, 
e mais em as línguas. E ao contrayro vemos em Africa, Guiné, 
Brazil e índia não amarem muito os Portuguezes que antre elles 
nacem só pella differença da língua ; e os de lá nacidos querem 
bem a os seus portuguezes, e chamam-lhes seus, porque faliam 
assi como elles.» (p. 16.) Fernão de Oliveira presentiu vagamen- 
te que a lingua é um elemento statico que conduz á unificação 
nacional : « por que desfazem muito na gloria do ceptro e coroa 
do nosso reino estes, assi como cortam a perpetuidade d'elle os 
que de novo trazem nova lingua á terra; porque a língua e a 
unidade d'ella é mui certo appellido do reino, do senhor, e da ir- 
mandade dos vassalos, . . . quanto de minha parte, segundo eu 
entendo eu juraria que quem folga de ouvir outra lingua na sua 
terra não é amigo da sua gente nem conforme a musica natural 
d'elle ; etc. » (p. 72.) D'aqui tira Fernão de Oliveira a prova da 
necessidade de se estabelecer a disciplina grammatical da lingua 
portugueza : « ó verdade que se não tivermos certa lei no pronun- 
ciar das letras não pode haver certeza de preceitos, nem arte na 
lingua ; e cada dia acharemos n'ella mudança não somente no som 
da melodia, mas também nos sinificados das vozes...» (p. 25.) 



Século XVI.) o PORTUGUEZ ARCHAICO 185 

Estas duas alterações da língua, notadas por Fernão de Oliveira 
são o Archaismo e o Neologismo. 

Vejamos como o velho grammatico observou o phenomeno da ^ 
archaismo no portuguez pela estabilidade da dicção popular: «As 
dicções velhas são as que foram usadas, mas agora são esqueci- 
das... o-uão, que quiz dizer cidadão, segundo eu julguei em ura 
livro antigo, o qual foi trasladado em tempo do mui esforçada 
rei Dom João, ... e chama-se estoria geral j no qual achei estas 
com outras anteguidades de fallar . . . Poys em tempo dei rei Dom 
Affonso Anriques cajpajpelh era nome de uma certa vestidura, e 
não somente de tanto tempo, mas também antes de nos hum pou- 
co nossos pães tinham algumas palavras que já não são agora 
ouvidas; como compengar, que queria dizer, comer o pão com a 
vianda ; e nemichalda, o que tanto valia como agora nemigalha, 
segundo se declarou, poucos dias ha, uma velha, que por isto foi 
perguntada, dizendo ella esta palavra; e era a veiha a este tem- 
po, quando isso disse, de cento e dezasseis annos de sua edade. . . 
acarão quer dizer junto ou a par; e samicas, que significa por 
ventura, e outras peores vozes ainda agora as ouvimos e zomba- 
mos d'ella3 . . . muitas vezes algumas dicções, que ha pouco são 
passadas, são já agora muito avorrecidas, como : abem, ajuso, 
acajuso, a suso, e hogano, algorrem, e outras muitas ; e porém se 
estas e quaes outras as meteram em mão de um homem velho da 
Beira ou aldeão, não lhe parecerão mal; etc.» (p. 80 e 82.) Da 
observação dos phenomenos de archaismo da lingua, é Fernão de 
Oliveira levado para a comprehensão das formas dialectaes : « tam- 
bém se faz em terras esta particularidade, jpor que os da Bei- 
ra tem umas falias, e os Dalentejo outras; e os homens da Ex- 
tremadura são differentes dos d'Antre Douro e Minho ; por que 
assi como os tempos, assi também as terras criam diversas condi- 
ções e conceitos; etc.» (p. 85.) «E também se este verbo nego 
servia em logar de conjuncção, e valia antre os velhos como se- 
não, e ainda agora assi vai na Beira.» (p. 118.) 

O desenvolvimento dos neologismos era provocado pelos novos r^sjj^ 
progressos da vida civil no século xvi; Fernão de Oliveira nota 
este facto ; « o costume novo traz á terra novos Vocábulos ; como 
agora pouco ha, trouxe este nome picote, que quer dizer burel ; 



186 MODIFJCAÇÕES NOS SONS, FORMAS E CONSTRUCÇÕES (EpOCa 3.* 

do qual por que de fora trouxeram os malgalantes o costume, ou 
para melhor dizer o desdém de vestir o tal pano, trouxeram tam- 
bém o nome com esse costume ; e alquice, também pouco é ves- 
tido da nossa terra, por isso também traz o nome estrangeiro 
comsigo. E arcabuz, ha sete ou outo annos pouco mais ou menos, 
que veo ter a esta terra com seu nome d'antes nunca conhecido 
n'ella.» (p. 69.) «Tornemos a fallar das dicções alheias, as quaes 
também com algum trato vem ter a nós como de Guiné e da ín- 
dia, aonde tratamos, e com arte não somente quando a arte vem 
novamente a terra, como veo a da Impressão ; mas também nas 
artes já usadas, quando de novo usam algum costumes os alfaya- 
tes em vestidos, e os sapateiros em calçado, e os amieiros em ar- 
mas de novas feições, e assim os outros ; porque os homens falam 
do que fazem, e portanto os aldeãos não sabem as falas da corte, 
e os sapateiros não são entendidos na arte de marear, nem os la- 
vradores d'antre Douro e Minho entendem as novas vozes que 
este anno vieram de Tunis com suas gorras.» (p. 70.) Estas três 
correntes do Archaismo, da Dialectologia e do Neologismo são uma 
revolução menos radical, de que as modificações operadas nos 
sons, nas formas e construcções da língua portugueza no secu- 
culo XVI, como vamos ver pelas próprias observações de Fernão 
de Oliveira : 

a) As alteraçdes pkoneticas. — Da mudança do l por r, 
fixando-se o seu uso no século xvi, diz o velho grammatico : a sa- 
beremos que a forma e melodia da nossa lingua foi mais amiga 
de ser sempre r onde agora escrevemos ás vezes l, como: gloria 
e flores, onde diziam grorea e f rores, e também outras partes 
com'estas. B (p. 35.) u ... pollo conselho de meus amigos^ em logar 
de por o conselho de meus amigos. Pul-a mão, por puz a mão. ..» 
(p. 42.) As alterações phoneticas d'e3ta época, correspondem ás 
duas correntes, a popular, que tende a modificar os sons latinos, 
e a erudita, que tende a restabelecel-os artificial e inorganicamen- 
te, como se vê em trauto, auto, substituídos no século xvi por 
tracto, apto e acto. Na diíferencíação do portuguez medieval para 
o portuguez clássico ou quinhentista, nota-se a queda do d medial 
nas segundas pessoas do plural dos verbos ; ex. : digades, digaes ; 
faredes, fareis; sodes, sois. Fernão de Oliveira nota a indíscipli- 



Século XVI.) FORMAS QUINHENTISTAS 187 

na da pronuncia da primeira pessoa do presente do indicativo do 
verbo ser : « o verbo substantivo, o qual huns pronunciam em om, 
como som, e outros em ou, como sou; e antes em ao, como são, 
também outros que eu mais favoreço em o pequeno (breve) como 
so. Do parecer da primeira pronunciaçao com o e w, que diz, 
som, é o mui nobre Joham de Barros, e a rasão que dá por si he 
esta, que de som, mais perto vem a formação do seu plural, o 
qual diz somos.» Preponderou a opinião de Fernão de Oliveira no 
uso definitivo. 

b) As alterações morphologicas. — Decahiram do uso alguns 
suffixos, como o mento, tão peculiar dos substantivos no século XV ; 
Fernão de Oliveira notou este facto : « os quaes velhos também 
foram amigos de pronunciar uns certos nomes verbaes em mento, 
como comprimento, affeiçoamento, e outros que já agora não usa- 
mos.» (p. 99.) Por effeito da imitação latina pelos eruditos, o em- 
prego do suffixo mente nas formas do adverbio tornou-se mais 
raro : « e não todos os que sinificam calidade acabam em mente, 
por que já agora não diremos ■prestemente, como disseram os ve- 
lhos, nem raramente. r> (p. 98.) A forma quinhentista era presto., 
raro. A forma em om dos substantivos passou para ão, compli- 
cando assim a formação dos pluraes : « se olharmos ao singular 
antigo que já tiveram, não mudam tanto como agora nos parece, 
porque estes nomes todos os que se acabam em ão ditongo, aca- 
baram- se em om, como Uçom, podom, melom, e accrescentando um 
e Q s, formavam o plural lições, podões e melões, como ainda 
agora fazem ; e outro tunto podemos affirmar dos que fazem o 
plural em ães, como pães, cães, dos quaes antigamente era o seu 
singular _pa7?z, cam, cujo testemunho ainda agora dá Antre Douro 
e Minho. » (p. 108). A alteração morphologica do infinito poer 
(ponere) em pôr é notada por Fernão de Oliveira : « este ver- 
bo ponho, pões, faz o seu infinitivo em ôr, dizendo pôr, o qual 
todavia já fez poer e ainda assim ouvimos a alguns velhos ...» 
(p. 114.) Os participios dos verbos da segunda conjugação, que 
eram formados em udo, como vemos nos Cancioneiros e Ordena- 
ções Aftbnsinas, alteram-se em ido confundindo-se com os parti- 
cipios da terceira conjugação, postoque este phenoraeno caracte- 
rístico do século XVI se manifeste já de épocas mais remotas. 



J88 ouiiKHVAçÃo DA Ll^GL•Al;^:M oHAL (Epoca 3.* 

c) Alteraçdes syntaxicas. — As modificações na syntaxe de 
uma língua nSo são tão fáceis de dar-sc como as phoneticas e as 
morphologicas, postoque sejam solidarias entre si; estabelecido 
uma vez o organismo de uma lingua, mantem-se, embora o voca- 
bulário se renove completamente e a sua morphologia varie. A 
construcção syntaxica apenas está sujeita á influencia individual, 
no que respeita ao estylo, mais ou menos elliptico e figurado. Na 
epoca quinhentista a lingua portugueza não soffreu alterações syn- 
taxicas, transformando-se comtudo completamente o estylo ; escri- 
ptores como Gil Vicente e Jorge Ferreira aproximam-se da elo- 
cução popular, outros imitam as construcções latinas, tomando 
Tito Livio como o modelo das narrativas históricas, Horácio e 
Virgilio como normas da linguagem poética. 

Fernão de Oliveira accusa os grammaticos do abuso da apro- 
ximação forçada da lingua portugueza da latina : « dando noticia 
dos casos a seus principiantes, e quam mal o elles entendam se 
mostra no pouco proveito que lhes com isso fazem, e mais lhes 
parecem que podem ensinar a fallar com cerimonias mudas.» 
(p. 101.) João. de Barros commetteu este erro na sua Grammati- 
ca, e o desvairamento erudito mostra-se no esforço de escreverem 
versos em portuguez podendo lêr-se com inflexão latina. 

Poucos livros portuguezes estavam publicados, quando Fernão 
de Oliveira quiz constituir a nossa disciplina grararaatical ; preci- 
sava de auctoridades escriptas, e muitas vezes teve de abonar-se 
com o uso oral : « n'este vocábulo convém a saber, ao qual pode- 
mos dividir e dizer como vem a saber. Porque assi o ouvi pronun- 
ciar poucos dias ha no púlpito ao muito reverendo padre mestre 
Balthazar, da Ordem do Carmo, cuja lingua eu não tenho em 
pouco antre os portuguezes. » (p. Õ3.) Quanto ao uso de escrever 
e pronunciar até ou té, abona-se com mais auctoridades oraes : 
€ Antre os quaes eu contarei trez não de pouco respeito na nossa 
lingua: antes se hade fazer muita conta do costume do seu fal- 
lar, e são estes ; Garcia de Resende, em cujas obras eu li no 
Cancioneiro portuguez, que elle ajuntou e ajudou. E Joham de 
Barros, ao qual eu vi affirmar que isto lhe parecia bem ; e o 
mestre Balthazar, com o qual fallando lhe ouvi assi pronunciar 
este adverbio que digo, sem a no começo ; e comtudo a mi me 



Século XVI.) A LINGUAGEM EM ARTE I8Í) 

parece o contrairo; e ao contrairo o uso dando-lhe a no começo, 
assim como o damos a muitas dicçõe?, segundo o que fica dicto.» 
(p. 77.) Cita egualmente a auctoridade de di)is poetas do Cancio- 
neiro geral j Jorge da Silveira (p. 107) e Nuno Pereira (p. 108) 
para a formação de certos pluraes, e para as interjeições, Gil Vi- 
cente (p. 32.) Fernão de Oliveira bem conhecia que era cedo ain- 
da para fixar a syntaxe portugueza, abstrahindo das variações 
do estylo, e por isso diz: « N'esta derradeira parte, que é da 
constituição ou composição da lingua não dizemos mais, por 
que temos começada uma obra em que particularmente e com 
maior cumprimento falíamos d'ella.» Não chegou a apparecer esta 
obra. 

A Grammatica de João ãe Barros (1539.) — O insigne histo- 
riador das Décadas também compoz uma Grammatica, que elle 
considerava a primeira escripta na lingua portugueza ; exemplifi- 
cando o uso do nome próprio desacompanhado de artigo, diz : 
« João de Barros foi o primeiro que poz a nossa linguagem em 
Arte, e a memoria de António, seu filho, que a levou ao prince- 
pe nosso senhor, não será esquecida.» Como se sabe pelo próprio 
João de Barros e por Severim de Faria, esta Grammatica foi es- 
cripta para por ella ser ensinado o princepe D. Filippe, que en- 
tão tinha por mestre o pregador Fr. João Soares. Escripta em 
1538, esta Grammatica foi publicada logo no anno seguinte pela 
avidez do livreiro ; vem confundida com um cathecismo religioso ; 
com este livro começou o celebre alphabeto por arte memorativa, 
com as vinhetas ainda hoje populares: A, arvore; B, besta; C, 
cesta; D, dado; etc, João de Barros teve a intuição do critério 
comparativo nas linguas românicas, conhecendo a utilidade da 
comparação do italiano, francez e hespanhol, sem comtudo o ter 
applicado. A monomania da erudição humanista leva-o a confor- 
mar artificialmente o portuguez com o latim, tornando assim im- 
profícuas muitas observações da sua Grammatica. 

Quanto ao Arckaismo, cita poucos factos de persistência : «E 
apraz, jaço, carecem de participio em boa linguagem ; porque 
os rústicos o formam muitas vezes.» (p. 139.) João de Barros era 
a favor dos archaismos : « Não somente os que achamos per escri- 
pturas antigas, mas muitos que se usam Antre Dowro e Minho, 



100 CAUSAS HISTÓRICAS DO NKOLOGISMO (EpOCa 3.* 

conservador da semente portugueza : os quaes alguns indoutos des- 
prezam por não saberem a raiz d'onde nacem.» (p. 225). 

Com o Neologismo não é este grammatico tcão complacente 
por causa do purismo clássico; ello indica alguns neologismos re- 
sultantes da actividade social : « mas agora era nossos tempos 
com ajuda da impressão, deu-se tanto a gente castelhana e fran- 
ceza a traducçoes latinas, usurpando vocábulos, que os fez mais 
elegantes do que foram ora ha cincoenta annoa. Este exercicio, 
se o nós usáramos, já tivéramos conquistada a lingua latina, 
como temos Africa e Ásia; á conquista das quaes nos dêmos mais 
que ás traducçoes latinas. E o signal d'estaí verdade, é que não 
somente temos victoria d'estas partes, mas inda tomámos muitos 
vocábulos ; como podemos vêr em todolos que começam em ai e 
xa, e os que acabam em :;, os quaes são mouriscos. E agora da 
conquista da Ásia tomamos chatmar, por mercadejar ; heniaga, 
por mercadoria; lascarim, por homem de guerra; e outros vocá- 
bulos, que são tão naturaes na bocca dos homens que n'aquella3 
partes andaram, como o seu próprio portuguez. » (p. 224). 

Com a sua preoccupação de rhetorico, João de Barros não vê 
nas alterações jjhoneticas mais do que figuras, paragoges, barba- 
rismos. Esse resto de galleguismo, aristocrático nos Cancioneiros 
do século XIV, e popular ainda além do século xvi, considerava-o 
elle como a figura antithese : « como quando dizemos dixe por 
disse.» (p. 165.) Chama paragoge esse outro facto natural da 
phonetica popular : « como se faz nos riraances antigos, que por 
fazerem consoante diziam — Os que me soem guardare — por 
guardar. » (p. 163). 

Porém sobre as alterações morphologicas proveniente dos Neo- 
logismos, apresenta João de Barros uma concepção justa; diz elle 
do emprego do infinitivo : « por que os meninos quando começam 
formar nossas palavras, primeiro conhecem a elle, que algum ou- 
tro modo, c por elle os ensinam suas madres. Os bárbaros que 
vem a nosso serviço d'elle começara corao em primeiro elemento 
de formação verbal. » (p. 141.) Por fim chama barbarismo as al- 
terações^ phoneticas e morphologicas que a nossa vida histórica 
causava na lingua : a E era nenhuma parte da terra se commette 
mais esta figura da pronunciação do que n'estes reir.os, por cau- 



Século XVI.) GIL VICENTE, GRAMMATICO 191 

sa das muitas nações que trouxemos ao jugo do nosso serviço. » 
(p. 161.) João de Barros conheceu que era este o momento histó- 
rico em que a lingua portugueza constituia a sua disciplina gram- 
matical, mas sob o jugo da grammatica latina, não soube obser- 
var as tendências d'ella nem tão pouco regularisal-a. 

d) Influencia de Gil Vicente. — Duas vezes é citado com 
auctoridade de grammatico o creador do theatro portuguez, Gil 
Vicente ; abonam-se com os seus escriptos Fernão de Oliveira e 
João de Barros, Por uma tradição, não fundada historicamente, 
Gil Vicente fora mestre de rhetorica do Duque de Beja. O gran- 
de poeta cómico era natural do Minho, onde a lingua portugueza 
conserva um caracter archaico ; vivendo em Lisboa, Santarém e 
Coimbra, os typos dos seus Autos são quasi sempre tirados da 
Beira, mostrando um largo conhecimento da dialectologia popu- 
lar. Tomaremos alguns factos comprovativos : o nego, tornado 
conjuncção é de um emprego habitual; umas vezes faz os futuros 
paraphrasisticos : « Azevias trazerei . . . y) (iii, 34); outras vezes 
contrae as formas verbaes: «Mas não sei se querrd.,.y> (ii, 425.) 
« E tu por que nsio faes sopas...» (i, 139.) « E assi ofaes tu co- 
mego. ..» (i, 140.) As velhas expletivas da lingua, põe-nas outra 
vez em vigor : « E eu do bem er também. Ora vos er ide ven- 
do... A segundo o que eu entendo.» (iii, 132.) Os participios 
em uclo, já abandonados, usa-«s'como quem emprega um dialecto: 
« E o trigo era creçudo.» (iii, 167.) Imitando a morphologia po- 
pular, Gil Vicente torna certos verbos regulares : « Não podo que 
estou pejada.» (iii, 260); faz imperativo do verbo haver: tAve 
dó, senhor, te peço.» (iii, 329); reproduz a forma archaica do 
superlativo : « Que dos wiwi muitos ciúmes — Nace o mui muito 
amor.» (iii, 278); e a forma de negação, que se aproxima do 
pas francez : « Nem 'passo não se esquecia. » (iii, 350) ; e o sub- 
stantivo casa tornado adverbio, como o chez francez : « Porém 
mesmo em cas dem-rei.» (ii, 422.) 

A natureza des escriptos de Gil Vicente, representando o vi- 
ver das diíFerentes classes da sociedade portugueza, levava-o a 
dar um vivo relevo á linguagem popular, que se tornava archai- 
ca e esquecida. Nos seus Autos está o maior numero de vestigios 
de uma lingua nacional substituída por um vocabulário erudito, 



i92 o HUMANISMO FRANCEZ (EpOCa 3." 

determinado pelas obras escriptas, que durante o século xvi fo- 
ram principalmente theologia, direito e moral. 

Sá de Miranda imitou em algumas das suas Éclogas a lingua- 
gem popular, que é uma das principaes bellezas do seu estylo, e 
Jorge Ferreira é opulentíssimo em modismos e provérbios em que 
realçam as construcyões do portuguez íallado. Este caracter da 
linguagem, desprezado pelos homens cultos, coadjuva esse con- 
flicto entre a tradiçSo medieval a que dá expressão, e a erudição 
humanista que se apoderara do ensino publico, 

2.'^ As três reformas da Universidade. — Os estudos na Eu- 
i-opa estiveram sempre sob a influencia das Universidades de Bo- 
lonha e Paris, conforme se procurava o conhecimento do Direito, 
de que a Itália era o foco mais activo, ou o da Theologia, de 
que Paris era o centro nas disciplinas escholasticas. Quando em 
» um paiz predominava o espirito democrático, era na Itália que a 
intelligencia procurava a sua orientação ; se prevalecia sobre to- 
dos os outros poderes a auctoridade monarchica, era para Paris, 
cidade monarchica, que os reis enviavam os seus estudantes. No 
reinado de D. Manuel terminam as garantias locaes foraleiras, 
acaba o costume das behetrias e implanta-se um franco absolutis- 
mo ; correlativamente é para Paris que se dirigem os alumnos 
portuguezes, entre os quaes se distinguiram os grandes pedago- 
gistas Gouvêas. Com a reforma da Universidade de Lisboa em 
1Õ04, pelo rei Dom Manuel, pode determinar-se a época em que 
em Portugal se implanta o humanismo francez. Dom Manuel avo- 
cou a si o poder de fazer estatutos para a Universidade, seguin- 
do em tudo o systema da Universidade de Paris. Muitos dos cos- 
tumes escholares existentes foram decretados ou confirmados por 
Dom Manuel. É n'esta reforma que se acha consignado o costu- 
me da troc^a ao doutorando, o Actiis gallicns, a que nas Univer- 
sidades hespanholas se chamava o Vejamen, e que em Lisboa de- 
via ser feito «em linguagem, per palaiiras honestas de alguns de- 
jectos ijera folguar, que nom seja muito de sentir. y> A corrente 
franceza dominava no ensino, como vemos por outros factos; era 
1516 o rei manda vir de França o Dr. Diogo de G-ouvêa para 
oppositor á cadeira de véspera de theologia, sendo em 1517 pro- 



Século XVI.) os GOuvÊAs i93 

vido Mestre João Francez, A Universidade reagiu contra mui- 
tas das determinações de Dom Manuel, como se infere de um al- 
vará de Dom João iii. D'e3ta lucta resultou a segunda reforma 
da Universidade em 1537, por Dom Joào iir, que a transferiu 
para Coimbra, incorporando n'ella as Escholas do Mosteiro de 
Santa Cruz, e entregando o seu governo ao Prior como Cancella- 
rio; as Escholas do mosteiro de Santa Cruz eram regidas por 
professores vindos de Paris, o que accentuava mais o caracter do 
humanismo francez. Depois de 1526, quando Francisco i perdeu 
o domínio da Itália, e muitos eruditos, philologos, poetas e artis- 
tas italianos se refugiaram em França, desloeou-se o fico da Re- 
nascença; o casamento de Francisco i com D. Leonor, viuva 
do rei Dom Manuel, fazendo com que se estabelecessem maiores 
relações entre as duas cortes, a mocidade portugueza preferiu 
também as escholas de Paris. Já em 1520 figura como -principal 
do Collegio de Santa Barbara Diogo de Grouvêa, o antigo ; suc- 
cessivamente brilham á frente do mesmo estabelecimento pedagó- 
gico André de Goavêa, em 1530, o grande mestre de Montaigne 
e de Rabelais; era 1534 Diogo de Gouvêa o moço, e em 1540 ou- 
tra vez Diogo de Gouvêa o antigo. Na Chronica dos Cónegos Re- 
grantes descreve-se a reforma das Escholas do Mosteiro de Santa 
Cruz, no período de 1527 a 1517; o padre Damião, que estuda- 
ra em Paris, indigitou os Mestres que deviam ser convidados, 
vindo de Paris Pedro Henriques e Gronçalo Alvares para mestres 
de grammatica grega e hebraica, e Dionysio de Moraes, para 
ler cânones. Com este pessoal vindo de Paris se reorganisou a 
Universidade em 1537. No Regimento de 9 de Novembro de 
1537, dado por D. João iii á Universidade dos studos d^e Coim- 
bra, ordena « que os lentes leam em hitim, e ho Rector mandaraa 
que se cumpra assi ; » e mais : « que os scholares das portas das 
scholas para dentro falem latim.» Assim a Renascença reagia 
pelo seu fervor humanista contra o desenvolvimento das linguas 
vulgai*es. 

Pedro Mariz falia no seu Dialogo quinto da reforma da Uni- 
versidade em 1537, dizendo: « houve também outros muitos n'es- 
te primeiro principio, que successi vãmente lhes succederara, tam- 
bém filhos da Universidade de Paris, que illustraram esta nota- 

13 



194 o MESTRE DE MONTAIGNE (EpOCa 3.* 

velmente; como foi o doutor Lopo Gallego, Ignacio de Moraes, 
Belchior Belliago, o mestre André de Resende, o Cayado, todos 
portuguczes ; e Nicolao Cleynarts, e outros muitos, que era letras 
de humanidade foram eminentes. » Na visita que fez Clcnardo a 
Coimbra em 1537, falia do professor de grego Vicente Fabrício 
« que explicava a Homero, não como quem o traduzia do grego 
para latim, mas como quem na mesma Athenas o estivesse len- 
do. » Em outra carta, Clenardo falia da amisade ao doutor 
de Paris João Petit, sem a presença do qual « recearia ser-me 
impossível continuar a estar até hoje entre os portuguezes, » 
D'e3ta reforma dos estudos saíram os principaes génios da Litte- 
ratura portugueza, como Camões, que frequentava a Universida- 
de de Coimbra, por 1542. 

Em 1547, Dom João iii tentou uma nova reforma da Uni- 
versidade, encarregando André de Gouvêa de convidar os pro- 
fessores francezes que vieram para Portugal do Collegio de 
Guienne em Bordéus. Pode talvez attribuir-se esta reforma á ne- 
cessidade de emancipar a Universidade da dependência do Colle- 
gio de Santa Cruz, seguindo n'isto a Universidade de Paris que 
prevaleceu sobre os Collegios ; André de Gouvêa trouxe para 
Portugal o celebre Jorge Buchanan e seu irmão Patrício Bucha- 
nan; Nicolau Grouchy (1520-1572) elogiado por De Thou ; 
Guilherme Guerente, celebrado por Montaigne como auctor de 
tragedias latinas; Elias Vinetus e Arnaldo Fabrício; com estes 
vieram o celebre Diogo de Teive, e João da Costa e António 
Mendes, distínctos nos estudos em Bordéus. Sobre a importância 
pedagógica de André de Gouvêa, basta lembrar as palavras de 
Montaigne: afeut sans co7nparaison le ^^lus grand princijjol de 
France. » ^ D'esta época data a corrente do gosto litterario, de 
que o Dr. António Ferreira, educado em Coimbra e auctor da 
tragedia clássica Castro, ó o superior representante. 

Dava-se na Europa uma crise profunda no ensino; o espirito 
íícicntifico e phílosophico reagia contra a falsa direcção theologica 
e critica, de que o Protestantismo era a deplorável consequência. 



^ Essais, liv, I, cap. 2S. 



Século XVI.) ARTE PORTUGUEZA 195 

Onde havia liberdade mental prevaleceu o regimen scientifico ; 
nas nações oecidentaes, a intolerância religiosa impoz pela vio- 
lência a reacção catholica, não só pela Inquisição, como mais 
tarde pelas escholas jesuiticas. Dom João m, que admittira a In- 
quisição em Portugal em 1536, acabou por entregar o ensino pu- 
blico aos Jesuitas em 15Õ0, quando se apoderaram definitivamente 
da Universidade de Coimbra. Fora o Dr. Diogo de Gouvêa, que 
recommendára ao monarcha os padres jesuitas ; e estes, uma vez 
senhores do ensino, expulsaram os professores trazidos a Portugal 
por André de Gouvêa. Foram estes os fautores de uma « aus- 
tera, apagada e vil tristeza » com que terminou a época fecunda 
dos Quinhentistas. 

3." Gil Vicente, ourives, e os Artistas nacionaes. — O an- 
tagonismo entre a tradição medieval e a erudição humanista, que 
temos observado no periodo philologico da Renascença, apresen- 
ta- se com 03 mesmos caracteres nas manifestações da Arte; a 
Architectura gothica, resiste sob a modificação florida {manuelina) 
contra a imitação servil das ordens gregas, como a Ourivesaria 
contra os cinzeladores italianos. Gil Vicente, que deu forma litte- 
raria aos typos populares do theatro medieval, e que sustentou a 
lucta contra os eruditos que com a imitação da Comedia clássica 
o queriam amesquiuhar, serviu-se do poder do seu génio artistico 
para pôr em evidencia o vigor e originalidade da tradição na Ou- 
rivesaria. Em um Alvará de Dom Manoel, de 15 de feverei- 
ro de 1509, Gil Vicente « ourives da Senhora Raynha minha 
irmã», isto é, Dona Leonor, a viuva de Dom João ii, é nomeado 
vedor de Todas as obras de ouro ou prata mandadas fazer para o 
Hospital de todos os Santos, Convento de Thomar e Mosteiro de 
Belém. Sem duvida esta mercê seria por causa da obra da Cus- 
todia dos Jeronjmos, que o Ourives acabara em 1502. Em outro 
documento do rei D. Manuel, de 4 de fevereiro de 1513, lè-se de 
Gil Vicente « ourives da rainha minha muito amada e presada ir- 
mã.. . » No testamento da rainha D. Leonor, de 7 de abril de 1517, 
de que se conhecem apenas fragmentos, lê-se que deixa ao mos- 
teiro da Madre de Deus « os dois cálices que andam em minha 
Capella, a saber o que corregeu Gil Vicente, e outro dos que elle 



19() GIL VICENTE, ouiuvES (Epoca 3.* 

fez, que já está no dito Mosteiro etc. » ^ No testamento do i'ei 
Dom Manuel, de 7 de abril de 1Õ17, citam-se duas obras artís- 
ticas de Gil Vicente, a Custodia feita por Gil Vicente para o 
mosteiro de Belém e a grande cruz — feita também pelo mesmo Gil 
Vicente. A importância que o ourives tinha na corte era tal, que 
a rainha Dona Leonor, conhecendo o seu talento poético, o obri- 
gou em 1493 a escrever algumas estrophes no processo chistoso 
de Vasco Abul ; ^ e no nascimento do príncipe Dom João, em 
1502, compoz elle um monologo em forma pastoral, que tanto 
agradou á rainha Dona Leonor, que d'esse primeiro esboço des- 
envolveu os principaes monumentos do theatro portuguez. Gar- 
cia de Resende, que pertence á eschola da erudição humanista, 
não cessou de ferir Gil Vicente no seu talento de ourives e de 
poeta, dizendo na Miscellanea, que elle segue as formas medie- 
vaes do Auto pastoril de Juan dei Encina, e na parte da ourive- 
saria : 

E vimos minas reaes 
D'ouro e d'outros nietaes 
No reyno se descobrir ; 
Mais nunca vi sair 
Engenhos de officiaes. 

E fallando das manifestações da arte da Renascença, diz em 
relação aos italianos : 



Ourivisis e esculptores 
São mais sotis e melhores. 



Na dedicatória da tragicomedia de Dom Duardos ao príncipe 
herdeiro de Dom Manoel, Gil Vicente confessa que escrevera os 
seus Autos em serviço da rainha Dona Leonor : « Como quiera, 



^ Frei Jeronymo de Belém, Chron. seraph., t. m, p. 8o. — ^ Canc. 
geral, fl. 210, col. S. 



Século XVI.) os FILHOS DE GIL VICENTE i97 

Excellente Príncipe y Rey mui poderoso, que Ias Comedias y 
Farsas y Moralidades, que he compuesto en servido de la Reyna 
vuestra tia ... » O mesmo desdém erudito de Resende tanto se 
estende ao poeta como ao ourives. Na Pedatura de Alão de Mo- 
raes, no titulo dos Vicentes, dá-se Gil Vicente como filho único 
de Martim Vicente, ourives de prata, natural de Guimarães, e 
como auctor dos Autos que em seu nome se imprimiram. Na pri- 
meira metade do século xvi a gloria de Gil Vicente provinha-lhe 
quasi exclusivamente dos seus trabalhos de ourivesaria, sendo o 
seu tiome citado como uma honrosissima antonomásia. Nos Com- 
mentarios de Affonso de Albuquerque, ao narrar a embaixada 
mandada ao Hidalcão, lê-se: « Despachado este Embaixador, 
mandou Aífonso de Albuquerque em sua companhia, para assentar 
paz, Diogo Fernandes, adail de Goa, e o filho de Gil Vicente 
por seu escrivão ...» Como se confirma pelo manuscripto de Alão 
de Moraes, chamava-se elle a Martim Vicente, que serviu hem na 
índia onde morreu solteiro. » ^ Em uma petição de Garcia Fer- 
nandes a Dom João iii, de 16 de abril de 1Õ40, em que recla- 
ma os privilégios que lhe concedera Dom Manoel no caso de aca- 
bar a obra do palácio da Justiça de Lisboa, figura como teste- 
munha : « Belchior Vicente, filho de Gil Vicente, a quem Deus 
haja, 7noço da capella dei rei nosso senhor. » Aqui temos outra 
vez a gloriosa antonomásia ligada ao nome de Gil Vicente, com 
certeza como ourives, porque só em 1562 é que as suas obras 
dramáticas foram conhecidas pelo publico. Luiz Vicente que as 
imprimia era wioço da camará do príncipe Dom João, e Paula 
Vicente, « que também compoz comedias e ajudou muito seu pae » 
como se lê na Pedatura Lusitana, era moça da camará da rainha 
Dona Catherina. Pela importância que os filhos de Gil Vicente 
alcançaram na corte pelo génio artistico de seu pae, é que depois 
da publicação dos Autos se generalisou a preferencia pelo titulo 
litterario, esquecendo-se systematicamente a profissã© de ourives. 



^ Segundo umas noticias genealógicas de Frei João da Conceição 
Vianna, Braz de Albuquerque era íillio natural de AfTonso de Albuquerque 
Vice-rei da índia, e de Paula Vicente, lillia de Gil Vicente. Resumo hist. e 
gen., p. 27. 



198 o ouTiiico MANUELINO (Epoca 3.* 

Gil Vicente apresenta a caracteristica dos espirites da Renas- 
cença — a universalidade; elle foi simultaneamente poeta, musico, 
auctor e actor dramático, decorador, ^ ourives, philologo, luctando 
pela liberdade de consciência. Quando o génio é acompanhado 
de qualidades d'esta ordem, hade por força imprimir ao seu sé- 
culo uma direcção segura; vencido na grande lucta da liberdade 
de consciência, não excedido nos trabalhos de ourivesaria, foi no 
theatro que o seu exemplo deixou encetada a vereda para os no- 
vos espíritos. Conhecidas e imitadas a tragedia e a comedia clás- 
sicas nos divertimentos escholares, para que se continuasse com 
fervor a escrever na forma de Autos e Moralidades era preciso 
que a impressão deixada por Gril Vicente fosse muito pro- 
funda. 

Proseguiremos na indicação de outros artistas para accentuar 
bem a dupla corrente, em que a tradição medieval reage contra 
o gosto da Renascença, que pelo seu aspecto erudito se unificou 
na Europa, obliterando a feição nacional na Arte. Onde bem se 
nota um tal phenomeno ó na Architectura, que já desde o tempo 
de Dom João ii obedecia á influencia italiana introduzida por 
André Contucci. No reinado de Dom Manuel o gothico florido 
retoma a sua preponderância; na construcção do Mosteiro dos 
Jeronymos, de Belém, começada em 21 de abril de 1500, mes- 
tre Boytaca põe de parte as ordens gregas, e João de Castilho 
concluo segundo o alvará de 23 de setembro de 1522 as aboba- 
das e columnas d'e3te monumento, definindo a forma typica do 
estylo manuelino « com alguma cousa de privativo, que pertence 
unicamente a Portugal » como affirma Raczynski. Este eminente 
critico viu com clareza no estylo manuelino, que também apparece 
na Hespanha, o caracter geral de uma reacção do gothico contra 
o eatylo clássico propagado por Balthazar Peruzzi, Bramante, e 
mesmo Raphael como architecto. No Auto da Ave Maria, de An- 
tónio Prestts, escripto por 1529, vem esboçada esta lucta das 



1 Na Gamara municipal de Lisboa existe um Alvará de 1S20 encarre- 
gando Gil Vicente de armar o catafalco para o auto por occasião do terceiro 
casamento do rei Dom Manuel. 



Século XVI.) ARCHITECTURA E PINTURA 193 

'duas correntes architectouicas, em que a Renascença renegava a 
Edade média : 



Mestre : E a que vem a esta terra ? 
Diabo : Mostrar mi saber, mis manos 
suena allá que luzitanos 
su gusto aora se encierra 
en edifícios romanos. 

Cavall. : Eu sou dos que estão postos 
n'es?e gosto ; 

que não vi melhor composto, 
hei-o por gosto dos gostos, 
jamais liie vivarei rosto. 



A reacção clássica prevaleceu com Francisco de Hollanda 
(1Õ17-1584), que se educou na Itália, e em Roma viveu na inti- 
midade de Miguel Angelo, Júlio Clovio, Baccio Bandinelli, Fe- 
rino, Sebastião dei Piombo, Valério de Vicence, Mtillechino, e a 
erudito Lactancio Tolomei. 

Na Pintura é evidente o mesmo antagonismo; o estylo gothico 
é representado por Grão Vasco nos celebres quadros de Vizeu. 
D'esses quadros diz Raczynski : a n'elles acho o que tantas vezes 
tenho dito a respeito de outros quadros — a influencia Jlamenga 
e allemcL, á qual os hespanhoes foram longo tempo submettidos 
com relação ás artes no tempo de Carlos v e seus successores. » * 
Rackzynski determina a época em que se operou a revolução no 
gosto da Pintura portugueza: «na época de Dom João m, entre 
1530 e 1550 fez-se uma revolução completa na arte em Portu- 
gal ; é a época que accentua a passagem do género flamengo e al- 
lemão para o género italiano, » ^ sendo principalmente introduzi- 
do o novo estylo por Gaspar Dias, Fernando Gomes, Manoel 
Campello e Francisco Vanegas. ' A hostilidade que Garcia de 
Resende revela contra o Theatro medieval e contra a Ourivesaria 
portugueza, apparece reflectida contra a pintura flamenga por 



1 Leíti-es, p. 378.-2 ibid., p. 176.— 3 Ibid-, p. 95. 



200 A INFERIORIDADE DA UENASCENÇA (EpOCa 'i.'' 

Francisco de HoUanda, que não cita o nome de Grão Vasco, da 
mesma forma que António Prestes declama contra o novo gosto 
italiano na Architectura. É admirável esta concordância em todos 
os ramos da Arte, explicada pelo rompimento do individualismo 
da Renascença contra o automatismo tradicional da Edade media. 
Comprebendida uma tão importante característica, ella nos ex- 
plicará os phenomenos capitães da Litteratura na época dos Qui-^ 
nhentistas. 



§. n 



Conílicto entre a tradição medieval e a erudição clássica^ 
ou influencia italiana 



A época da Renascença, como notou Burckardt, distingue-se^ 
e ó esse o seu maior defeito, por ter separado profundamente as 
classes cultivadas da multidão analphabcta. Também a começar 
do século XVI observa-se na litteratura portugueza este pbenome- 
no da separação progressiva entre os escriptores e o povo. Estas 
duas entidades, a especulativa e a activa, não se conbecem, e por 
isso as creações artísticas não se inspiram de uma unanimidade 
aftectiva por onde as litteraturas se subordinam a um fim social. 
Os escriptores foram-se esquecendo das tradições nacionaes, aban- 
donadas ao automatismo da transmissão oral do povo, e seguindo 
as suas predilecções individuaes alardearam o prurido da erudi- 
ção e da imitação clássica, escreveram ad sodales, uns para os 
outros, e procuraram a importância dos principes. Consequente- 
mente as Litteraturas cahiram na fatuidade académica, sendo ge- 
ral ao occidente da Europa o vicio do culteranismo. A influencia 
erudita da Renascença propagou-se em todos os paizes por via da 
Itália; era Portugal porém essa influencia encontrou uma forte 
resistência nos escriptores que continuaram a inspirar-se das tra- 
dições medievaes, sendo conhecidos depois da preponderância da 
cschola clássica com o titulo de Poetas da medida velha. 



Século XVI.) TRADIÇÃO E POESIA POPULAR 201 

Nos indivíduos que cão tinliam uma forte educação litíerariá, 
conservou-se vivo o sentimento da tradição e poesia popular ; de 
AíFonso de Albuquerque diz João de Barros : « Era sagaz e ma- 
nhoso em seus negócios, e sabia enfiar as cousas a seu propósito; 
trazia grandes anexins de ditos para comprazer á gente, segundo 
os tempos e qualidades da pessoa de cada um. » ^ João de Barros 
considerava o perstigio da tradição devido unicamente á acção 
material do tempo : « Pois as cantigas compostas do povo, sem 
cabeça, sem pés, sem nome ou verbo que se entenda, quem cui- 
das que as traz e leva da terra? quem as faz serem tratadas e 
recebidas do commum consentimento? O tempo. » ^ Os moralis- 
tas ecclesiasticos combatiam também as cantigas do povo, como 
vemos pela Paixão metrificada, de Frei António de Portalegre, 
e pelos índices Expurgatorios. Um grande numero de escriptores 
destacam-se n'esta época erudita pela predilecção das tradições pe- 
ninsulares, e pela preferencia pelo verso octonario ou de redondi- 
Iha ; os escriptores que adoptaram a eschola italiana, obedeceram 
na sua primeira maneira ás formas da velha poética tirando qua- 
si sempre d'esta relação a base da sua superioridade. 

1." O Lyrismo popular e os Poetas da medida velha. — A par 
do lyrismo individual, que dá expressão aos interesses cgoistas 
da personalidade do escriptor, subsistem certos cantos populares 
ligados á existência collectiva, e tninsmittidos pela musica, pela 
dansa, e em formas métricas especiaes ; taes são as cantigas fu- 
nerárias ou Endexas, as nupciaes, as do acalentar do berço, as 
Serranilhas, as Orações, Salvas, Ensalmos, Formulas dos jogos 
infantis, dos apodos locaes, das adivinhas, esconjures e prophe- 
cias. 

A Oração ó a forma que o povo conserva cora ura certo vi- 
gor ; no Index Expurgatorio de 1Õ81, prohibe-se a Oração da 
Conde, a de Sam Christovam e de Sam Cypriano, a da Empareda- 
da, a da Imperatriz, de Sam Leão Papa, de Santa Martinha e 



1 Década II, lib. 10. cap. 8 ad fin. — ^ Dialogo em louvor da 7io$sn 
linguagem, p. 226. 



232 A EGREJA PROUIBE OS CANTOS (El)OCa 3/ 

do Testamento de Jesus Christo. Era Prestes ainda encontra- 
mos : 



N'algQma Oração euidae, 
E cá a resae, 
Vede se sabeis dizer 
O Juslo juiz. (p. 396.) 



Gil Vicente allude ás Salvas « La salve antes dei dormir, » 
(lll, 321.) Jorge Ferreira, na Comedia Eufrosina, esboça o gos- 
to poético do povo : « Se escreveis a lavadeira que falia frautado, 
morde os beiços, lava as mãos com farellos, canta de soláo, in- 
venta trovas, dá ceitis para cerejas a meninos da eschola que 
lêa Autos... » (p. 187.) Prestes refere-se aos cantos ào& janei- 
reiros, e Jorge Ferreira diz : « eu lhe cantarei por Maias ...» 
(Eufr., p. 226.) Os Jesuítas procuraram combater o lyrismo po- 
pular ; diz Balthazar Telles, contando os esforços do Padre Igna- 
cio de Azevedo : « e para que os meninos fugissem de musicas 
deshonestas, fez compor e elle mesmo compoz algumas canções 
espirituaes e cantigas devotas, que andam no fim da Cartilha, as 
quaes ainda que não são as que estimara os cultos são as que 
prezara os santos, e estas lhes fazia tomar de cór e lhes fazia 
cantar de dia e de noite... » ^ Esta obra de reacção contra a 
poesia popular, começou antes dos índices Expurgatorios pelas 
Constituições episcopaes; nas do Porto se prohibe o cantar 
« chansonetas e villancicos, nem motetes, nem antiphonas e hy- 
mnos, que não pertençam ao sacrifício que se celebra, nem em- 
quanto se disser alguraa missa, se consinta cantar cantigas pro- 
fanas, nem festas, nem dansas . . . nem clamores ...» ^ Jorge 
Cardoso, no Agiologio traz uma estrophe da antiphona Boa gen- 
te, boa gente, que se cantava na sé do Porto, ^ e á qual Garrett 
ainda allude com saudade. Em Gil Vicente encontrase o syste- 



1 Chr. da Companhia, P. n, liv. 4, cap. 59. — * Const., Livro n, tit. 
l, const. 7.-3 Agiologio lusitano, l. iii. p. H4. 



Século XVI.) LYRISMO POPULAR 20'{ 

ma da farsiture medieval conservado nas OraçSes, como o Padre - 
nosso do Velho da Horta : 



Pater noster creador 
Qui es in ccelis poderoso^ 
Sanctificetur. Senhor, 
Notnen íuum vencedor 
Nos caos e terra piedoso . 



Gil Vicente termina muitos dos seus Autos com Vilhancicos, 
que tiveram no século xvii um grande desenvolvimento musical ; 
outros acabam com dansas de Chacota e Enselada, e em quasi 
todos ha cantares lyricos de Serranilha, segundo a velha tradição 
provençal, e no tjpo da MiiiTieira que ainda se canta na G-alliza. 
Este poeta, cujo espirito está a par dos génios encyclopedicos 
do século XV, pela comprehensão do sentimento nacional fundou 
o theatro portuguez, quando esta fórma litteraria se achou inti- 
mamente ligada com uma nova vida civil; é por isso que apre- 
senta em todas as suas obras os abundantes vestígios da tradição 
portugueza. Na Comedia de Rubena, traz Gil Vicente uma enu- 
meração das cantigas populares anteriores a 1521 : 



Feiticeira : E que cantigas canlaes ? 
Ama : A Ciiancinha despida, 

E também Vai' -me Lianor ; 
E De pequena mataes, amor ; 
E En Paris está Dona Alda ; 
Di-nie tu, seTwra, di; 
Vamo-nos, dijo mi tio, 
E Llevadim por el rio, 
E também Calbi ora bi, 
E Llevantém^ un dia, 
' Lunes de manana, 
E Muliana, Muliana 
E Não venhaes alegria, 
E outras muitas d'e9tas taes. 



Pelo verso do Arcipreste de Hita: « Cabel e orabin, taniendo 



204 revivi:ííci..nl:ia das sehhamlhas (Época 3.* 

la su rota » se vè como Gil Vicente ainda conservava a tradiçSa 
dos cantos árabes, como no Cancioneiro se allude também ao 
doce hailho da Mourisca; Cabel e orabin significa Avante, árabes. 
Frederico Diez comprehendeu a relação tradicional que exis- 
tia entre os cantos lyricos de Gil Vicente e os cantares jograles- 
C03 dos Cancioneiros portuguezes do século xiv; ^ escreve o poe- 
ta « arremedando os da serra » : 



E se ponerei la mano em vós, 
Garrido amor? 



Um amigo que eu havia 
Mançanas d'ouro me envia; 
Garrido amor. 

Um amigo que eu amava 
Mançanas d'ouro me mandava; 
Garrido amor. 

Mançanas de ouro me envia, 
A meltior era partida ; 

Garrido amor. (n, p. 4i4.) 

O velho solatz provençal ainda apparece no lyrismo do século 
XVI no soláo, a cuja forma alludem Bernardim Ribeiro, Sá de 
Miranda, Jorge Ferreira de Vasconcellos e Dom Manuel de Por- 
tugal. Na Comedia Eufrosina allude Jorge Ferreira a varias can- 
tigas: Por amor de vós senhora, (p. 181) e Corarão de carne crua. 
Nos Autos de António Prestes ha referencias a muitas cantigas 
populares : Que agora está cantando : Como no venis amigo (p. 
115); Canta-se la: Miran ojos (p. 300): 

E onde diz a cantiga : 
Lá de Traz-os- Montes 
Nascem meus amores, (p. 303.) 

Sá de Miranda e Camões, nas redondilhas glosaram muitas 

^ Ueber die erste poriugiesischer Kunst und Ilof Poesie, p. 100. 



Século XVI.) TROVAS DE BANDARRA 20e^ 

d'estas cantigas como Motes velhos, e ás vezes com o sabor popu- 
lar. Observa-se também no século xvi o phenoraeno de alguns es- 
criptores serem assimilados pela corrente popular ; o Pranto de 
Maria Parda, de Gil Vicente e as suas Coplas do Arraes do In- 
ferno entraram nas versões oraes ; o mesmo aconteceu com as 
Trovas de Gonçalo Eanes Bandarra, reminiscência vaga das pro- 
phecias merlinicas como se nota pelas referencias ao Leão dor- 
mente e ao Porco espinho, que na Chronica en redondillas de Ro- 
drigo Yanes alludem ao rei Dom Affonso iv e ao rei de Benama- 
rim. Pelo processo do Santo Officio de 1541 contra Bandarra, 
sabe-se que o auctor das Trovas fora abastado, mas para acudir á 
sua decadência adoptara o officio de sapateiro ; durante nove an- 
nos leu a Biblia em vulgar, que pertencera a João Gomes da 
Gram, o que nos revela a corrente do protestantismo que pene- 
trava em Portugal. Em 1531 vem Bandarra pela primeira vez 
de Trancoso a Lisboa, passa em casa de João de Bilbis, pedindo- 
Ihe alli João Lopes, caixeiro, a explicação das Trovas ; achando- 
se já em Trancoso em 1537 é visitado por Heitor Lopes, que lhe 
diz estar o Livro das Trovas já muito velho querendo-o mandar 
trasladar. Em 1538 é visitado em Trancoso por um Vargas, da 
Covilhã, para argumentar com elle sobre a Biblia; em 1539 re- 
gressando a Lisboa encontra na Guarda Filelfo que lhe pergunta 
pelo Livro das Trovas. As prophecias exerciam uma grande fas- 
cinação, e outra vez em 1540 é procurado em Trancoso em casa 
de Manuel Alvares para que lhe explique as Trovas; em 1541 o 
Santo Officio apodera-se do pobre sapateiro de Trancoso, mas a 
sua condemnação deu ás Trovas maior perstigio. Os Christãos no- 
vos virara n'ellas o seu ideal messiânico, os patriotas depois de 
1578 viram annunciado o Quinto Império e a vinda do Desejado 
Dom Sebastião á maneira do rei Arthur ; mais tarde os partidá- 
rios da restauração da nacionalidade portugueza propagaram as 
Trovas adaptando-as a Dom João IV, e nas luctas para a deposi- 
ção de Dom Affonso-vi, o Padre Vieira commentava-as e forja- 
va-as em favor do Enmherto que foi Dom Pedro ii. As Trovas 
tem um aspecto de écloga com certa ingenuidade popular, mas é 
difficil separar o que é authentico das excrescências e adaptações 
apocryphas. 



á06 o GÉNERO PASTORIL (EpOCa 3.* 

As Pastorellas provençaes, que se colligiram nos nossos Can- 
cioneiros palacianos, esquecidas sob a influencia castelhana em 
todo o século xv, reapparecem com uma esplendida forma litte- 
raria no século xvi. No vasto Cancioneiro de Resende nada se 
acha que indique o minimo conhecimento do bucolismo, e comtudo 
03 primeiros poetas quinhentistas, Bernardim Ribeiro, Christo- 
vam Falcão e Sá de Miranda figuram n'essa collecção como poe- 
tas dos serões do paço. Bouterwek notou este facto singular : 
« Portugal pôde ser considerado como a verdadeira pátria da 
poesia pastoril, que no mesmo periodo floresce na Itália, onde 
adquire formas mais cultas, particularmente depois de Sannaza- 
ro. » ^ Explica-se o facto pela persistência tradicional ; os que pri- 
meiro escreveram Éclogas em redondilhas octonarias, Bernardim 
Ribeiro e. Sá de Miranda, são os que revelam um directo conhe- 
cimento dos nossos trovadores. Em Bernardim Ribeiro achamos 
esta preciosa referencia : a começou a cantar um cantar á manei- 
iieira de Soldo, que era o que nas cousas tristes se costumava. » 
Sá de Miranda é mais explicito : 



Suspirou-se melhor, velu outra gente 
De que o Petrarcha fez tão rico ordume. 

Eu digo os Proençaes, de que ao presente 
Inda rythmos ouvimos que entoaram 
As musas delicadas altamente. ^ 



Isto explica-nos como o género pastoril, postoque desenvolvi- 
do por escriptores cultos, nasceu da persistência de uma tradição 
nacional ; a forma litteraria que lhe deu Bernardim Ribeiro é an- 
terior á imitação directa da Itália, como se acha na segunda ma- 
neira de Sá de Miranda que prefere o terceto e a outava em en- 
dccasyllabos. Quando os velhos metros foram substituídos pelos 
capítulos petrarchistas, rebentou uma lucta desesperada, que o 



í Couterwek, IM. da Litt. portugueza, p. 43. (Trad. ingleza.) 
— 2 Obras, p. 109. (Ed. de 1804.) 



Século XVI.) A CORTE DE DOM MANUEL 207 

próprio Sá de Miranda descreve, semelhante á que em Hespanha 
sustentaram Garcilasso e Bosean ; os que mantiveram o emprego 
dos versos quinarios e octonarios, foram chamados com desdém 
Poetas da medida velha. Historiemos este período pacifico do nos- 
so lyrisrao pastoral. 

a) Bernardim Ribeiro. — A biographia d'este poeta está 
implicita nas suas obras, e é o commentario d'ellas. Era natural 
da villa do Torrão, e oriundo da família dos Mascarenhas, que te- 
ve o maior valimento de D. João ii; veiu frequentar a corte em 
1496, quando contava 21 annos de edade. Este facto, que se deduz 
de vários logares da Écloga ii, justifica por que no Cancioneiro de 
Resende ainda figura com Coplas e Voltas no gosto castelhano, 
que estavam em moda na corte. A data de 1496, só por si des- 
cobre as alterações feitas nos costumes palacianos ; era fallecido 
Dom João II, e o seu successor Dom Manoel estava casado com 
a princeza Dona Izabel viuva do príncipe herdeiro Dom Affonso. 
De Castella tinham regressado as famílias aristocráticas compro- 
mettidas nas conspirações dos Duques de Bragança e de Vizeu, e 
entre ellas voltara a família de Dom Álvaro de Portugal, com a 
sua formosíssima filha Dona Joanna de Vilhena, que em 1483 
fora levada para longes terras, na fuga da conspiração e agora 
repatriava-se como camareira da nova rainha. 

Foi n'esta renovação de pessoal na corte do ostentoso monar. 
cha, que appareceu Bernardim Ribeiro, a quem a formosa Dona 
Leonor de Mascarenhas pedia versos. Era um reinado que come- 
çava pacificamente, conciliando sob a influencia moral da rainha 
viuva Dona Leonor, irmã de Dom Manuel, os antigos validos com 
os antigos homisiados. D'aqui em diante, é certo, o lyrismo por- 
tuguez apresenta uma paixão exaltada, e o amor canta-se como 
uma realidade séria da vida. Bernardim Ribeiro amou uma da- 
ma da corte, a quem chamava pelo anagran.ma de Joanna (Ao- 
ília) que « Menina e moça fora levada de cata de seus pães para 
longes terras.» As -cinco Éclogas, que compoz, são a historia 
d'estes amores, com uma ingenuidade e verdade inimitáveis. A 
interpretação d'estas Éclogas completa-se pelas allegorias da no- 
vel! a pastoral, cuja relação com esses versos era conhecida ; cm 
um documento judicial de 1552, fallando-se de Gonçalo Ribeiro 



:208 ÉCLOGAS DE BERNARDIM RIBEIRO (EpOCa 3.* 

lese « primo co-irmao de Bernardim Ribeiro, fidalgo principal, 
conhecido jielos seus versos intitulados Menina e Moça. » Dona 
Joanna de Vilhena era prima do rei Dom Manuel, o que se har- 
monisa com a lenda corrente no século xvii, de que o poeta ama- 
ra uma infanta. 

A Écloga I figura um dialogo entre dois pastores Pérsio e 
Fauno; aquelle queixa-se de ter sido desprezado por quem ama- 
va, para casar com um pastor mais rico ; Fauno é inexperien- 
te no amor e lança-se inconsiderado após o que a phantasia lhe 
representa. Sc isto fosse uma vaga situação banal, a Écloga se- 
ria illegivel ; mas os versos vibram com uma exaltação que se 
communica, O pastor Pérsio representa o poeta Christovara Fal- 
cão, cujos amores com Dona Mai*ia Brandão foram como a Éclo- 
ga os figura, repetindo ás vezes quasi com as mesmas rimas os 
versos do Crisfal. 

Na Écloga ii o interesse moral augmenta ; faliam dois pasto- 
res De extranhas terras nascidos; a personalidade de Bernardim 
Ribeiro é evidente ao descrever a sua naturalidade, e como veiu 
para a corte em tempo das pestes do Alemtejo, quando as seccas e 
as fomes afiligiam aquella provincia. O outro pastor é Franco de 
Saudomir, que outr'ora cantou Célia, nympha que a Em Mondego 
se banhou. » Evidentemente este interlocutor é Francisco de Sá 
de Miranda, e Célia é a denominação anagrammatica de Elisa ou 
Isabel Freyre, que saiu de Portugal indo como dama de honor da 
infante Dona Isabel, e casando em Castella com um tal Dom An- 
tónio da Fonseca. É n'esta Écloga ii que Bernardim descreve 
os seus amores com Aonia: 



O dia que ali chegou 



Joana acertou de ver 
Que se andava pela ribeira 
Do Tejo a flores colher. 



Aqui vemos o verdadeiro nome do anagramma ; Dona Joanna 
de Vilhena vivia como camareira da rainha nos paços da Ribei- 



Século XVI.) ALLEGORIAS PASTORIS 209 

ra. A poesia encobi"e aqui allegoricamente uma confidencia, por 
onde se conhece o remate d'esses amores : 



Que não me entendo corainigo 
D'onde esperarei repairo ? 
Que vejo grande o perigo 
E muito mó}' o contrairá . 



A superioridade d'este rival ou contrairo, verifica-se no facto 
de ser o Conde de Vimioso Dom Francisco de Portugal, também 
poeta nos serões do paço, casado com Dona Joanna de Vilhena 
por ajuste de el-rei Dom Manuel. 

A Écloga m é um dialogo entre Silvestre e Amador, fallan- 
do dos mútuos desastres dos seus amores. Amador é a personifi- 
cação de Bernardim Ribeiro, que deixa a corte, e no Alemtejo 
encontra Christovam Falcão, de quem se despede como quem vae 
deixar Portugal : 



*C3' 



Não te alambre que me viste 
Pois nunca mais me hasde vêr; 
Leixa-me a mim esquecer, 
Que a minha lembrança triste 
Mais triste te hade fazer. 

Ir-me-hei eontuiiigo queixoso 
Sem me queixar do que sento, 
Em meus euidadj)s cuidoso. 
Oli quem fora tão ditoso 
Que perdera o pensamento ! 



Na Écloga v ha um dialogo com o pastor Agrestes, de quem 
deixa os seguintes traços, que quadram com a personalidade de 
Jorge de Montemor: 

E postoque que sou doente. 
Pêra este mal não consente 
Haver Arte apollinea. 
Estes ares são morlaes 

u 



210 o cnisKAL (Época íK" 

E o (lue mais mo áesbarata, 
E dá dores desigiiaes, 
É lembrar-me os sinceiraes 
De Coimbra, que me mata. 

E vivendo triste, cego, 
Não sei, mesquinho, que faça, 
Qne suspiro por Mondego, 
E choro por a fíegaça. 



Jorge de Montemor, que vivera era Coimbra, exercia a pro- 
fissão de musico (Arte apoUinea) em Hespanha. A Écloga v foi 
encontrada fora da collecção de Bernardim Ribeiro, como se in- 
fere da rubrica : « A qual dizem ser do mesmo Auctor. » No Ijris- 
mo portuguez, nada ha que exceda era melanchoHa, em naturali- 
dade e vehemencia esta Écloga ; só em Camões reapparece unida 
esta perfeição poética e verdade de sentimento, como a d'aquellc 
a quem chamava o seu Ennio. A morte de Bernardim Ribeiro 
deve fixai'-se não longe de 1554, porque n'este anno se publicou 
o livro das suas obras « que se não imprimiu em sua vida ; por 
morte se achou entre os seus papeis » como diz o editor de 1645. 
As relaçSes poéticas entre Bernardim Ribeiro e Christovam Fal- 
cão, determinadas pelas Éclogas i e lll, adquirem maior funda- 
mento com a leitura da Écloga Crisfal e das poesias avulsas do 
apaixonado de Dona Maria Brandão. Os versos dos dois poetas 
imprimiram-se no mesmo volume, e alguns versos de Christovam 
Falcão apparecem no Cancioneiro de Resende como de Bernardim 
Ribeiro. ^ 

b) Christovam Falcão. — Era filho primogénito de João Vaz 
de Almada Falcão, que foi Capitão da Mina, e de Dona Brites 
Pereira ; os manuscriptos genealógicos conservam vagas referen- 
cias á sua vida romântica e ao desgraçado amor narrado na 
inspirada Écloga do Crisfal, nome formado das primeiras syl- 
labas do seu nome. Sendo ainda bastante criança amou Dona Ma- 
ria Brandão, filha mais nova do opulento Contador do Porto JoSo 

1 São a fl. 2H col. 3: A uma smliora que se vestiu de amarello; ib.;, 
col. 4 : Antre tamanhas mudanças; ib., col. 5 : Antre mim mesmo e mim. 



Século XYI.) LENDA AMOROSA 211 

Brandão, e irmã dos dois poetas do Cancioneiro gemi Diogo 
Brandão e Fernão Brandão. Resentiraentos ou cálculos de família 
oppuzeram-se a esta paixão sincera das duas crianças, resultando 
para Christovam Falcão o jazer cinco annos em cárcere privado, 
e para Dona Maria o ser clausurada no mosteiro de Lorvão. Se- 
gundo os Nobiliários, Dona Maria Brandão afinal obedeceu ás 
suggestoes da família acceitando por marido Luiz da Silva, Capi- 
tão de Tanger; e Christovam Falcão ajporque não casou com sua 
dama foi para a índia, » como conta o manuscripto de Alão de 
Moraes. Bastavam estes simples factos para despertarem o mais al- 
to interesse pelo Crisfal, se essa Écloga não fosse uma das maravi- 
lhas da litteratura portugueza. Começa a Écloga descrevendo o 
principio d'aquelles amores, como depois foram separados um do 
outro, e como conseguindo por fim vêr-se injustamente se recri- 
minaram : 

E dizendo : Oh mesquinha ! 
Como pude ser tão crua? 
Bem abraçado me tinha, 
A minha bocea na saa, 
A sua face na minha. 
Lagrimas tinha choradas 
Que com a bocca gostei, 
Mas com quanto certo sei 
Que as lagrimas são salgadas, 
Aquellas dôees achei. 



Eatam ella assi chorosa 
Por tão choroso me vér 
Já para me socorrer. 
Com uma voz piadosa 
Começou assi a dizer : 
— Amor da minha vontade. 
Ora não mais, Crisfal manso ; 
Bem sei lua lealdade, 
Ay que grande descanso 
É falar com a verdade I 



Na Écloga indica o convento onde foi clausurada Dona ]\Iaria 



álá INFLUENCIA DE GHRISTOVAM FALCÃO (EpOCa 3." 

Brandão ; uma estroplie termina com o verso : « Sobre as Serras 
de Lor. » E a estrophe seguinte começa pelo verso : o Vam ali 
grandes montanhas. » Em uma segunda parte do Crisfal, escripta 
por Balthazar de Brito e Andrade (Frei Bernardo de Brito,) ha o 
mesmo artificio de metrificação : 

E nas serras de Lor 

Vam sigDaes de tuas dores . . . 

Uma Carta em redondilhas, de Christovam Falcão traz a ru- 
brica: «estando preso. . . a uma Senhora com quem era casado a 
furto contra vontade de seus parentes d^ella, os quaes a queriam 
casar com outrem, sobre que fez (segundo parece) a passada Éclo- 
ga. 9 A impressão produzida pela Écloga, impressa sem data, foi 
immensa; Camões, na Carta i, da índia, de 1554, cita quatro 
versos d'ella correntes como provérbios. Diogo de Couto, na Dé- 
cada VII, capitulo 34, fallando de Damião de Sousa Falcão, ac- 
crescenta: «irmão de Christovam Falcão, aquelle que fez aquel- 
las cantigas e nomeadas trovas de Crisfal ...» E na Historia in- 
sulana^ Cordeiro fallando do Capitão donatário da ilha de Santa 
Maria e do casamento d'elle com uma filha de João de Sousa Fal- 
cão, ajunta: «parente mui chegado do Barão velho, e ào famoso 
poeta Christovam Falcão, que fez a celebre Écloga Critfal, das 
primeiras syllabas do seu nome ...» N'e3ta Écloga também se al- 
lude ao desastre dos amores do infante Dom Fernando com a fi- 
lha do Conde de Marialva, Dona Guiomar Coutinho, clandestina- 
mente casada com o Marquez de Torres Novas. 

Bestam de Christovam Falcão pequenas composições lyricas 
allusivas á ultima e desesperada situação do seu amor : 

Casada sem piedade, 
Vosso amor me hade matar. 

Se vos eu vira casada ■ 

Com í]uein vos bem conliecera. 
Já em vos vêr descansada. 
Algum descanso tivera ; 
Mas o vosso mão casar 



Século XVI.) o uso da redondilha 213 

Dobra minha saudade : 
Casada sem piedade, 
Vosso amor me hade matar. 

Para sempre vos casastes. 
Para sempre o sentirei, 
E pois no casar errastes 
Dae-me parte do que errei. 
Não vos engane o ca«ar, 
Pois não tollie a liberdade : 
Casada sem piedade. 
Vosso amor me hade matar. 



c) Os Poetas da medida velha. — Depois da reforma inicia- 
da por Sá de Miranda na imitação da poesia italiana, prevaleceu 
o emprego do verso endecasyllabo, e deu-se o nome de Poetas da 
medida velha aos que continuaram a metrificar na redondilha. A 
designação de medida velha tem implícita a existência de um par- 
tido de reacção litteraria contra a innovação italiana ; ^ mas de 
um e outro campo ninguém tinha uma comprehensão nitida do 
conflicto doutrinário. Em Hespanha, Castillejos e Gregório Sil- 
vestre foram os caudilhos d'esta reacção a favor dos metros octo- 
narios; em Portugal, João de Barros, em 1539, nos Louvores da 
língua portugueza queixa-se de estarem desprezadas as redondi- 
Ihas, e António Ferreira diz «que a antiga redondilha deixa ao 

vulgo. )) 

Entre os poetas quinhentistas que mais resistiram á imitação 
italiana, figura Luiz da Silveira, da grande familia dos Silveiras 
do Cancioneiro geral, auctor das Trovas Moraes que Chiado cita 
na Pratica de Outo Figuras ; em seguida Jorge Ferreira de Yas- 
concellos, com a Carta em redondilhas, achada entre os seus pa- 
peis, que vem junto á Aulegraphia. Abundavam as satyras, que 



i Lè-se na Aulegraphia, de Jorge Ferreira: «e hey muito grande dó 
de uns juizos poldros, e tão curtos da vista que acceitam toda novidade sem 
pezo, a olhos, e assi me parece de vós, senhor, que por andar com som do 
moderno sereis todo um Soneto, e eondemnaes logo o outro verso, sem mais 
respeito nem consideração. » Fl. 163, V. 



214 COMPOSIÇÕES KM mí:du)a velha (Kpoca 3.* 

procuravam de preferencia a forma da redondilha menor ou 
maior ; taes são as Trovas que se fizeram nas terças em temjjo de 
El-rei Dom Manoel, * as Trovas de Maria Pinheira, attribuidas a 
Damião de Góes, as Coidas do Moleyro, de Luiz Brochado ; os 
Letreiros sentenciosos, Regra Espiritual, Petição ao Commissario, 
e Avisos para guardar de António Ribeiro Chiado. Dos poetas da 
medida velha muitas composições tornaram-se populares, como o 
Pensando-vos estou, filha, de Bernardim Ribeiro, o Pranto de 
Maria Parda de Gil Vicente, os Arrenegos de Gregório AíFonso, 
e especialmente as composições de Balthazar Dias, como os Con- 
selhos para casar, e Malicia das mulheres. 

Apesar de terem com Dom Manuel acabado os serões do paço, 
continuou a estimar-se os géneros de Cancioneiro que se usava 
n'esses divertimentos ; Dom Francisco de Portugal na Arte de 
Galanteria, sustenta : « Las Decimas, no se les cerrará la puerta 
dei Palácio... las otras modas de versos hizieranse para leydos, 
e estos para sentidos ...» E explica a preferencia das damas do 
paço pelas redondilhas : « ni ay muger que apeteça versos sino 
aquellos que tienen poças syllabas, pensaraientos vivos y mucho 
ayre...» A influencia dos costumes galantes do paço é que se 
deve attribuir o terem Sá de Miranda, Bernardes, Caminha, Dom 
Manuel de Portugal, Falcão de Resende, e o próprio Camões, 
sendo a plêiade brilhante da eschola italiana, continuado a metri- 
ficar admiravelmente em verso de redondilha, e não poucas vezes 
em castelhano. Na Arte de Galanteria se acha accentuado o mo- 
tivo : « las coplas castellanas son las mas próprias para Palá- 
cio ... » 

2," Os Romanceiros como rudimentos da Epopêa medieval. 
— Apesar de se operar a separação entre os escriptores e o povo, 
circumstancias especiaes fizeram com que o Romance tradicional 
recebesse forma litteraria. Dom Francisco de Portugal, na Arte 
de Galanteria, fallando dos versos de poucas syllabas diz « que 
son propriedade de Romance, cuyos desenfades parece que se hi- 
zieron solamente para ellas (as mulheres). » Os Romances foram 

* Vid. Excerptos de um Cancioneiro quinhentista. Évora 1883. 



Século XVI.) REFERENCIAS AO ROMANCEIRO POPULAR 215 

postos em musica por Torres e Fuenllana, penetrando assim no 
paço; o aulico Jorge Ferreira de Vascoacellos na sua novella do 
Memorial dos Cavalleiros da segunda Ta cola Redonda intercalou 
bastantes composições na forma de romance popular, para serem 
cantados á viola de arco. E do gosto palaciano que assim fortale- 
<iia a corrente medieval, diz : « n'este e por este modo usaram os 
passados celebrar seus heróicos feitos, porque a gloriosa memoria 
d'elle3 assi viesse até nossos tempos e se conservasse, de que tan- 
to em flespanha se usou muito, e usar-se agora para estimulo de 
imitação não fora máo. » Jorge Ferreira metriíicára sobre situa- 
ções dos poemas do cyclo de Arthur e greco-romano ; na littera- 
tura castelhana, o romance também recebia a forma culta em Se- 
púlveda, Lasso de La Vega, e Juan de la Cueva. 

Nos escriptores quinhentistas as referencias aos Romances po- 
pulares são frequentes, e devem considerar-se como uma prova da 
sua comprehensào do elemento tradicional. Gril Vicente escreveu o 
romance de Dom Duardos, que entrou na corrente popular hespa- 
nhola, e nos seus Autos cita os seguintes romances : Los hijos de 
Dona Sancha, (i, 227) ; Eu me sam Dona Giralda, (ii, 27) ; Mal 
me quieren en Castilla, (iii, 143); La bella mal maridada, (ii, 
333) ; Donde estás, que te no veo, (ii, 329) ; Guay Valência, guay 
Valência, (iii, 270); En el mez era de Abril, (ii, 249); Yo me 
e,staha en Coimbra (iii, 212) parodiando os romances velhos. Usa- 
ram-se também os romances glosados, como vemos pelo de Be- 
lerma, em Bernardim Ribeiro. 

Jorge Ferreira de Vasconcellos, que encheu as suas comedias 
de locuções e adágios, traz numerosas allusões aos romances pe- 
ninsulares, reagindo comtudo contra o tfso excessivo da lingua 
castelhana pelos escriptores : « Não ha entre nós quem perdoe a 
uma trova portugueza, que muitas vezes é de vantagem das cas- 
telhanas, que se tem aforado comnosco e tomado posse do nosso 
ouvido. » 1 E fallando do gosto dos romances glosados : « Poreis 
tenda em Medina de Campo, e ganhareis vosso pão peado em 
grosar Romances velhos, que são appraziveis, e pôr-lhe-heis por 
titulo : Glosa famosa de um famoso e novo auctor sobre : 

^ Aulegraphia. act. n, se. 9. 



246 os ROMANCES VELHOS (Epoca 3.* 

Mal ouvistes los Franrezes 
La caça de Roncesvalles. 

{Eufrosina, 17o.) 

Na comedia Eufrosina, lê-se : « e ali tangem tudo sobre Con- 
de Claros (p. 189); Por aqxiel jpestigo viejo (p. 12); Buen Conde 
Fernan Gonsalves (p. 19); na comedia Aulegraphia, cita o ro- 
mance tão glosado no século xvi, Reirahida está la Infanta, 
(p. 256) 6 Para que paristes, madre, (p. 260.) Na Aidegraphia 
achamos allusSes : « Aquella Bella mal maridada, não se toma 
com fita vermelha...» (fl. 46); e mais: « he uma atalaya de 
fortuna cora epitaphio que diz A las armas, Mouriscote, Si en el- 
las quereis entrar. » (fl. 47) « eu vou n'outra volta Ribera dei 
Doro arHba. . .» (fl. 80) ; «que me irei lançar era lençoes de ve- 
ludo com a Bella infantinha da minha guelas de cegonha...» 
(fl. 133.) 

António Prestes, que pela imitação dos Autos de Gril Vicente 
comprehendeu o valor poético das tradições populares, allude 
também a muitos Romances velhos ; no Auto da Ave-Maria, cita 
o Moro alcaide. Moro alcaide; Yo le daria bel Conde; o Duran- 
darte ; no Auto do Procurador, allude ao Vamo-nos, dijo mi tio; 
no Auto do Desembargador, cita o Dom Duardos ; Conde Claros ; 
Falso, maio, enganador ; Guay Valência, e A Poma como se ar- 
dia (Mira Nero.) No Auto da Ciosa, cita a Bella mal maridada; 
no Auto dos Cantarinkos, Passeava-se el-rei Mouro, e o Doyn 
Duardos e Flerida. 

Jorge Pinto, no Auto de Rodrigo e Mendo cita En el mez era 
de Alyril ; Bella mal maridada; Helo, Jielo por do viene; Riberas 
dei Dauro arriba. Jeronvmo Ribeiro, o irmão de Chiado, cita So- 
bre mi vi guerra armar. Antes de apparecerem colligidos todos 
03 Romances Velhos na Silva de Romances de 1551 e no Cancio- 
nero de Romances, de 1555, já se achavam vulgarisados na tradi- 
ção portugueza, ficando depois desprezados pelos eruditos da Re- 
nascença até serem de novo colligidos da transmissão oral ao fim 
de três séculos. 

Quando a eschola italiana dominou em Portugal e já a Renas- 
cença greco-romana dirigira a reforma da Universidade de Coim- 



Século XVI.) os ÍNDICES EXPURGATOIUOS 217 

bra, é que o génio de Camões se revelou vacillando entre a influen- 
cia erudita e a tradição medieval. Espirites como o de António 
Ferreira e de Caminha, entregam-se inteiramente ao humanismo 
estéril rompendo com a tradição nacional; Camões pela incontes- 
tável superioridade do seu génio soube conciliar estas duas cor- 
rentes. Depois de Gil Vicente, é com certeza em Camões que se 
encontra o maior numero de referencias aos Romances tradicio- 
naes : nos Disparates da índia, cita o romance ainda hoje popu- 
lar Mi padre era de Ronda ; na Carta i, vem Riberas dei Dauro 
arriba ; Su comer las carnes crudas ; e A fora, a fora, Rodrigo. 
Nas Cartas em redondilhas cita como glosa : Una adarga até os 
jpechos ; Mirando la mar de Espana; Vi benir 'pendon vermejo ; 
La flor de Berbéria ; Caballeros de Alcala ; A las armas Moiiris- 
cote; Donde estas que te no veo ; Y que nova me traedes; Mira 
Nero da Tarpea. As suas Comedias estão repletas de referencias 
a essa poesia profunda e vigorosa que os eruditos não quizeram 
conhecer, e que os latinistas ecclesiasticos condemnaram. No In- 
dex Expurga tório de 1564, prohibe-se : « todos os Romances ti- 
rados ao pó da letra do Evangelho ; » no de 1581 prohibe-se o 
romance Con rabia está el Rey David e todos os mais tirados do 
velho Testamento ou do Novo ; no de 1507 prohibe O geri Dani 
fabulas sem duvida as Gestas de Ogier le Danois, de Ogeiro o 
Dão como traduzia Balthazar Dias. 

Nas Décadas de Diogo de Couto ha referencias aos Romances 
velhos que os cavalleiros portuguezes repetiam nas expedições mi- 
litares na índia : Dom Jorge de Menezes é avisado no mar por 
Dom António de Noronha, que lhe diz : Vamo-nos, dijo mi tio — 
A Paris essa Ciudad. . . EUe comprehende que é para irem á 
expedição de Surate, e responde com versos do mesmo romance : 
No en trajes de romero — Por que os no conosca Galvan. Ao en- 
trar victorioso em Barcellor Dom Luiz de Athayde, o musico Vei- 
ga ia cantando : Ejitran los Moros en Troya — Trez e trez e 
quatro e quatro. Debaixo das janellas do vice-rei Dom Constanti- 
no de Bragança o partido do ex-governador Francisco Barreto 
canta va-lhe como chufa : Mira Nero da janella — La nave como 
se hàzia. Na tomada de Salsete fez-se o Romance de que Diogo 
de Couto traz o fragmento : 



áJ8 THEATRO HIERÁTICO (EpOCa 3.* 

Pelos campos de Salsete 
Mouros mil feridos vão ; 
Vae-llie dando no alcance 
O de Castro Dom João. 
Yinlo mil eram por todos. . . 

Existia um poderoso elemento tradicional sobre que fundar as 
creaçoes individuaes da litteratura; João de Barros sentindo a ne- 
cessidade da creação de uma epopêa portugueza esboçava outavas 
era endexas no typo das de AfFonso o Sábio, enumerando os feitos 
da historia nacional ; o mesmo fazia Luiz Anriques descrevendo a 
tomada de Azamor. Só Camões é que teve a intuição d'esta inti- 
ma relação do elemento tradicional, inspirando-se das lendas por- 
tuguezas e agrupando-as era volta do facto histórico dos Lusía- 
das. A liga cathohca que venceu a batalha de Lepanto em 1572 
contra os Turcos, que ameaçavam a civilisação da Europa, foi ce- 
lebrada por dois poetas portuguezes Pedro da Costa Perestrello c 
Jeronymo Corte-Real; porém achando-se um ecco d'oste successo 
nos romances populares, vô-se que esses escriptores exclusivamente 
eruditos não se elevaram acima de uma deplorável mediocridade. 

3." Fundação do Theatro nacional por Gil Vicente. — No 
seu estudo sobre as Origens do Theatro, Magnin estabeleceu 
três divisões capitães em theatro hierático, popular e aristocráti- 
co, e por ellas se comprehendem melhor os primeiros monumentos 
do Theatro portuguez. A vida publica, na Edade media, começou 
nas cathedraes, onde o povo fazia as eleições e os contractos, as 
revoltas pela liberdade e a unanimidade dos sentimentos ; o thea- 
tro, que é uma consequência da vida publica, começou nas cathe- 
draes pelas formas hieráticas, vindo mais tarde a ser banido da 
liturgia e principalmente das festas do Natal, Reis e Paschoa, 
Nas Constituições do Bispado de Évora, de 1534, prohibe-se : 
« nem se façam nas ditas egrejas ou adros d'ellas jogos alguns 
{Ludi) postoque sejam em vigilia de Santos ou alguma festa ; 
nem representações ainda que sejam da Paixão de Nosso Senhor 
Jesus Christo ou da sua resurreição, ou nascença, de dia nem de 
noite, sem nossa especial licença, porque de taes Autos se seguem 



Século XVI.) THEATRO POPULAR 219 

muitos inconvenientes, e muitas vezes trazem escândalo no cora- 
ção d'aquelles que não estão mui firmes na nossa santa fó catho- 
lica vendo as desordens e excessos que n'isto se fazem. » [Const. 
10, tit. 15.) Nos costumes populares portuguezes ainda persistem 
estas formas hieráticas, por onde se vê que Gil Vicente no mono- 
logo da Visitação, e no Auto pastoril, Auto dos lieis Magos, 
Dialogo da Eesurreição, não fez mais do que fixar litterariamente 
03 typos tradicionaes. Na procissão de Corpus Christi, regulamen- 
tada por Dom João ii em 1482, exhibiam-se autos dramáticos, 
conservando-se ainda muitas das suas figuras como symbolos. 

O theatro popular ou leigo era também motivado por alguma 
festa religiosa ; as comedias da Bazoclie provieram de uma ori- 
gem ecclesiastica, como se infere da sua derivação de Basilica. 
Muitos jogos infantis convertiam-se em dramas, como o da Con- 
dessa, commum a Portugal, Gralliza, Catalunha e Andaluzia ; 
nas festas de Maio representavam-se o Carro das ervas, e pelo 
Sam João a Corrida do porco Preto, em Braga. Para as suas 
faiças Gil Vicente apropriou-se do typo popular do Ratinho. Mi- 
guel Leitão de Andrada explica assim este typo : « os Ratinhos, 
que sendo o concelho de Rates uma só freguezia de quatorze ou 
quinze lugarinhos ou aldeyas, e estes sejam os Ratinhos, d'elles 
se estende o nome a quasi toda a Beira, que quer dizer bordas do 
mar. » ^ Vendo-se nos Autos de Gil Vicente citados os bailes da 
Beira, e localisadas ali algumas farças como o Clérigo da Beira 
e o Juiz da Beira, vê-se que effectivamente o Ratinho era o typo 
lorpa (o Stupidus, na Satura latina) da comedia nacional : 

Muitos Ratinhos vão lá 
De cá da serra a ganhar, 
E lá os vemos cantar 
E bailar bem como cá. ^ 

theatro aristocrático apresenta também uma forma tradi- 
cional, como as Cavalhadas e Mouriscadas ; na corte de Dom 
AíFonso V e Dom João ii usaram -se os Momos e Entremezes, 

1 Miscellanea, p. 342. — * Obras de Gil Vicente, t. ii, p. 443. 



'1±0 THEATRO ARISTOCRÁTICO (EpOCa 3.* 

e pelas festas do casamento do príncipe Dom AíFonso, o rei seu 
pae appareceu invencionado em Cavallèíro do Cysiie. Entre o po- 
vo conservou-se esta fónna tradicional, como o Auto de elrei de 
Bôrberiãj a que allude Dom Francisco Manoel, ^ ou o Auto de 
Ferrabraz e Florippes que se representa na romaria da Senhora 
das Neves, no Minho. Gil Vicente deu forma litteraria a estas 
três manifeitações espontâneas do thcatro tradicional, nos Autos 
hieráticos, nas Farças populares, e nas Tragicomedias era que 
pSe em acção algumas novellas cavalheirescas. 

a) Condições em que se introduz o Theatro. — Sabendo-se 
que em 1482 já apparece Gil Vicente designado como criado e 
escudeiro de Dom João ii, e que em 1492 figura como poeta no 
processo chistoso de Vasco Abul, assistindo ás festas da corte 
como dá a entender no Auto pastoril castelhano, occorre pergun- 
tar como só em 1502 tentou escrever a sua primeira obra dra- 
mática? A morte desastrosa do principe Dom AíFonso, em segui- 
da a doença mysterioaa com que falleceu Dom João ii, e a viu- 
vez do novo rei Dom Manuel fez com que se sustassem as festas 
da corte; como lavrante da rainha Dona Leonor, Gil Vicente 
occupou-se em trabalhos de ourivesaria, taes como relicários, cá- 
lices, cruzes e custodias, que a rainha ofFerecia por dovoção a 
vários mosteiros. Porém um accidente casual veiu despertar o gé- 
nio drainatico de Gil Vicente ; tendo o rei Dom Manuel casado 
em segundas núpcias com sua cunhada a infanta Dona Maria, 
para ver se assim se unificava Portugal com a Hespanha, nas- 
ceu-lhe o principe Dom João, que lhe avivou as esperanças dece- 
padas com a morte do filho do anterior casamento Dom Miguel 
da Paz. O successo da rainha causou uma alegria publica, saindo 
todas as classes com festas. Em uma quarta-feira, 8 de junho de 
lõ02, dois dias depois do parto da rainha, Gil Vicente, pelas re- 
lações que tinha no paço, acompanhado de alguns fidalgos, entrou 
na camará da convalescente e aí recitou o Monologo de um Va- 
queiro, ou da Visitação, espécie de villancico da lapinha, no 
qual fazia vários offerecimentos e vaticínios ao principe recem- 
nascido. Esta homenagem agradou bastante na corte, e a rainha 

1 Feira de Anexins, p. 61, 



Século XVI.) A RAINHA DONA LEONOR 221 

Dona Leonor, irmã do monarcha, descobrindo esta nova prenda 
no seu lavrante, animou-o a que continuasse a compor mais algu- 
ma cousa n'aquelle género. A intelligencia superior da Rainha, 
que se assignalou pelo desenvolvimento que deu á Imprensa em 
Portugal e pela fundação das primeiras Misericórdias, bem mere- 
ce da historia pelo tino com que soube conduzir o génio de Gil 
Vicente a lançar as bases do Theatro nacional. É preciosa a ru- 
brica que poz Gil Vicente no fim do Monologo da Visitação: 
a E "por ser cousa nova em Portugal, gostou tanto a Rainha ve- 
lha d'esta representação, que pediu ao auctor isto mesmo lhe re- 
presentasse ás matinas do Natal, endereçando ao nascimento do 
Redemptor. » Gil Vicente em vez de repetir pela festa do Natal 
esse monologo, aporque a substancia era mui desviada, » compoz 
o Auto pastoril castelhano, na lingua então mais fallada no paço. 
A Rainha ficou maravilhada com a nova obra ; é de uma belleza 
ingénua a rubrica de Gil Vicente : « A dita Rainha satisfeita 
doesta pobre cousa, pediu ao auctor que para dia de Reis logo 
seguinte lhe fizesse outra obra...y) Em 1Õ03 escreveu pois o 
Auto dos Reis Magos ; o Auto da Sibylla Cassandra é repre- 
sentado n'este mesmo anno em Enxobregas, o mosteiro predilecto 
da rainha Dona Leonor. Em 1504 representa nas Caldas, diante 
da rainha o Auto de Sam Martinho, em fragmento « porque foi 
pedido muito tarde. » É ainda diante da rainha Dona Leonor, 
que Gil Vicente representa em 1505 o Auto dos quatro tempos, e 
em 1506 o Auto da Alma. 

O Theatro estava ligado ao gosto e sumptuosidade palaciana; 
de 1502 a 1536 raro é o anno em que Gil Vicente não compõe 
algum Auto, para distrahir a corte que foge das pestes de Lisboa 
para Évora, Almeirim, Santarém e Coimbra. Em qualquer suc- 
cesso das armas portuguezas na índia ou na Africa, Gil Vicente 
vem distrahir os ânimos alquebrados pelos desastres, ou' exaltal-os 
no momento da partida como no Auto da Exortação de Guerra, 
ao partir da expedição para Azamor ; é elle também que festeja 
o nascimento dos príncipes e infantes como Dom João, Dom 
Luiz e Dom Philippe, os casamentos reaes como o de Dom Ma- 
nuel, Dom João III, Dona Isabel e Dona Beatriz. Era preciso 
um talento assombroso para atravessar as temerosas intrigas d'es- 



222 LicTA Di: r.iL vickntk (Época 3.* 

sas tres cortes, junto com o forte apoio da rainha Dona Leonor; 
cora a morte d'ella, o artista e poeta sentiu-se decahido, e no 
Auto pastoril portuguez, diz de si: «Um Gil, um Gil um Gil — 
Um que não tem nem ceitil... » N'esta data de 1523, é que Gil 
Vicente se viu também atacado pelos eruditos, que propagavam 
ser elle o auctor d'aquelle3 Autos representados na corte. 

b) Reacção dos eruditos contra o Theatro medieval. — Como 
vemos pela Carta de Sá de Miranda a António Pereira, (st. 33} 
aquelle epigone da Renascença em Portugal chama Pasquinos 
aos que põem em scena os mysterios da religião, conderanando as- 
sim os Autos hieráticos; e no prologo da comedia Estrangeiros 
censyra o ter-se substituido o nome de Auto ao de Comedia, e a 
sua forma metrificada: « Já sois no cabo, e dizeis ora não mais; 
isto é Auto, e não desfazeis as carrancas ; mas eu o que não fiz 
até agora, não queria fazer no cabo de meus dias, que é mudar 
de nome. Este (de Comedia) me deixai por amor de rainha natu- 
reza, e eu também de vossos versos também vos faço graça, que 
são forçados d'aquelles consoantes. » Garcia de Resende, na 3Iis- 
cellanea, também faz uma insinuação malévola contra Gil Vicente, 
apoucando a originalidade dos Autos : 

E vimos singularmente 

Fazer representações 

D'estylo mui eloquente. 

De mui novas invenções, 

E feitas por Gil Vicente. 

Elle foi o que inventou x 

Isto cá e o usou 

Com mais graça e mais doutrina, 

Posto que Juan dei Enzina 

O Pastoril começou. 

Gil Vicente caracterisa aquelles que o atacavam chamando- 
Ihes « certos homens de bom saber. » Para levantar o repto dos 
que negavam a originalidade dos seus Autos, escreveu a Farça 
de Inez Pereira ; a rubrica que a acompanha é importantissima : 
« O seu argumento é, que, por quanto duvidavam certos homens de 
bom saber, se o Auctor fazia de si estas obras, ou se as furtava 



Século XVI.) A COMEDIA REGULAH 22'i 

de outros auctores, lhe deram este tliema sobre que fizesse : s. hum 
exemplo commum que dizem: Mais quero asno que me leve, que 
cavallo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta f arca. n 
Pôde dizer-se que a farça de Iiiez Pereira é a primeira comedia 
regular do theatro portuguez; regular quer dizer com typos, 
caracteres e situações, sem estar adstricta ás sotties medievaes 
nem á com.edia clássica terenciana. Dom João iii gostou do 
repto, e pediu a Gil Vicente que escrevesse uma continuação 
da farça; o Clérigo da Beira foi considerado como uma satyra 
contra Francisco de Sá de Miranda filho do clérigo Gonçalo 
Mendes de Sá. Na tragicomedia das Cortes de Juioiter Gil Vicente 
apoda também Garcia de Resende pela sua extrema gordura 
{Feito peixe tamboril) e pelo seu saber encyclopedico [E inda 
que tudo entende.) 

Nao se pode saber com certeza se Gil Vicente escreveu para 
o publico ; n'uma rubrica diz : « Este nome da farça seguinte 
Quem tem farellos? poz-lh'o o vulgo. » Jorge Ferreira allude ás 
— lavadeiras que dão ceitis a meninos de eschola pai'a lhe lerem 
Autos, e toma o typo da Mofina Mendes como vulgar : « formosu- 
ra sem vangloria dana mais que aproveita, e ás vezes lhe corre 
per devante Mofina Mendes, e a boa diligencia acaba o que me- 
recimento não alcança. » ^ Era esta communicação com o vulgo 
que tornava Gil Vicente temido pelos eruditos, e que lhe dava 
coragem para proclamar as ideias da Reforma. ^ No fim da tra- 
gicomedia Floresta de Enganos, vem a rubrica posta por Luiz 
Vicente com a data de lõ36 : « a derradeira qtie fez Gil Vicente 
em seus dias. » Na petição de Garcia Fernandes de 15 de abril 
de 1540, já se dá Gil Vicente como fallecido, extinguindo-se 
com a liberdade de consciência pela qual propugnara. 

c) Eschola de Gil Vicente. — Na lucta que o poeta teve de 



^ Aulegraphia,íl. 52.-2 j^a Biblioteca de Gallardo, se lê acerca da 
Tragicomedia aUegorica do Inperno y Paraíso, primeira redacção dos Autos 
das Barcas de Gil Vicente: « La traza de esta comedia menandrina (es deeir, 
ejcmplar. moral) se echa bien de ver que está tomada dei Dialogo de Mer- 
cúrio y Caron, de Juan de Valdês. » (p. 984.) Gil Vicente allude ao secreta- 
rio latino de Carlos v : «Diz que não hade cá vir — Sem Joanna de Valdês. » 



ferir contra « certos homens de bom saber » que reagiam contra 
a tradição da Edade média, procuraram levantar a reputação de 
um novo génio dramático para lhe opporem; caiu essa escolha 
sobre AíFonso Alvares, mulato, e criado do Bispo de Évora Dom 
AíFonso de Portugal. Sobre assumptos tirados da Legenda Áurea, 
de Voragine, escreveu AfFonso Alvares autos hieráticos « a pedi- 
mento dos muy honrrados e virtuosos coiiegos de Sam Vicente. » 
Restam d'elle o Auto de Santa Barbora, que ainda se representa 
pelas aldêas, o Auto de Santo António, o de Sam Tliiago e o 
de Sam Vicente. Apesar de todas as protecções era um metrifi- 
cador sem conhecimento da scena; Affonso Alvares escreveu uma 
Resposta em nome do Commissayro, á Petição (pie fez o Chiado, 
e n'ella refere-se á prisão do frade vagabundo : 

Nossa vida soberana 
Deixastes pela mundana, 
E como ovelha perdida 
Jaa de vós muy esquecida 
Vos torney a esta cabana, 
Porque não fosseis perdida. 

Porque éreis conhecido 
Por sacerdote perdido 
Com fama de gracioso, 
Sem graça do virtuoso, 
Que será mal de soíTrido 
Sem castigo reguroso. 

Entre aquelles a quem se procurou attribuir a invenção dos 
Autos de Gil Vicente cita-se o Infante Dom Luiz, considerado 
por muito tempo auctor de Dom Duardos, hypothese que caduca 
diante da dedicatória d'esta tragicomedia a Dom Joào iii, ainda 
príncipe, por Gil Vicente. 

António Ribeiro Chiado. — E o poeta dramático de mais ta- 
lento e graça, depois de Gil Vicente ; respondeu á inimisade do 
mulato Affonso Alvares em varias Quintilhas. Jorge Ferreira 
de Vasconcellos, em 1541 allude á graça do poeta: «Torna por 
ella, que concierta razones. — Isso é vosso ? — Senhor, nào ; ó do 



Século XVI, ) CHIADO E PRESTES 225 

'Chiado. — Em algumas cousas tem vêa esse escudeiro. » ^ Camões 
também o cita com estima no Auto de El-rei Seleuco, de lõ4S : 
« Aqui me veiu ás mãos, sem pios nem nada, e eu por gracioso 
o tomei ; e mais tem outra cousa, que uma trova fal-a tão bem 
como vós, como eji ou como o Chiado. » Este seria o legitimo suc- 
cossor de Gril Vicente, como se infere das datas em que appare- 
ce memorado, chegando a representar diante de D. João iii o 
Auto da natural invenção. Nos Autos que restam allude a succes- 
sos do seu tempo, como na Pratica de outo Figuras o cerco de 
Mazagão de 1547 ; no Auto das Regateiras falia da partida de 
Dom Sebastião para Almeirim no inverno de 1568, e na que~ 
bra da moeda antes da Peste grande de 1569. O seu Auto de 
Gonçalo Chambào está perdido, bem como as Sete Cartas jocosas 
que se guardavam na Livraria do Conde de Vimeiro, e as Quinze 
Cartas jocoserias que possuia o Cardeal Sousa. Fora frade fran- 
ciscano era Évora, vindo para Lisboa viver como goliardo ; fixa- 
se a data da sua morte em 1591. Seu irmão Jeronymo Ribeiro 
também escreveu um Auto do Physico, antes da reforma dos es- 
tudos em Coimbra, e já com conhecimento da assombrosa come- 
dia hespanhola a Celestina, que se tornou proverbial nas locuções 
populares. 

António Prestes. — É depois do Chiado o escriptor dramático 
da eschola de Gil Vicente que teve mais fecundidade e maior po- 
pularidade; era enqueredor do eivei em Santarém. O seu Auto 
^ da Ave-Maria resente-se da primeira maneira de Gil Vicente, 
quando imitava as Moralidades, e foi escripto por 1535, quando 
era vivo ainda o grande iniciador. O Auto dos Cantarinkos traz 
esta preciosa rubrica : « Representado n'esta cidade de Lisboa, » o 
que nos revela já então existir algum Pateo de Comedias aberto 
ao publico. O Auto do Procurador foi escripto antes de 1556, e 
no Auto dos dois irmãos allude ao Palmeirim de Inglaterra, de 
Francisco de Moraes. António Prestes apresenta o nosso typo po- 
pular do Ratinho, e embora seja incorreto na versificação merece 
' lêr-se pelas muitas referencias a costumes nacionaea. 

Luiz de Camões, — que conhecia a litteratura clássica por 

^ Aulegraphia, fl. 12G. 



226 BALTiiAZAR DIAS (Epoca 3.* 

causa da sua educação humanista, preferia seguir no thea- 
tro a eschola de Gil Vicente; os seus Autos de Elrei Seleuco, 
Evfatrives e Filodemo são em redondilhas. A Gil Vicente allude 
nos Enfatriões citando o romance de Flérida; este auto foi escri- 
pto para os divertimentos escholares, O auto de Elrei Seleuco 
foi já escripto em Lisboa em 1542; ai se acham allusões ao ter- 
ceiro casamento de D. Manuel com a noiva de seu filho. O auto 
de Filodemo foi escripto na índia por occasiao das festas de Fran- 
cisco Barreto ao ser nomeado governador em 15ÕÕ. N'e3ta com- 
posição cita o Auto de Braz Quadrado, que ainda apparece apon- 
tado nos índices Expurgc\torios, mas hoje totalmente perdido. 

Balthazar Dias, — é de todos os poetas da eschola de Gil Vi- 
cente aquelle com quem o povo mais sympathisou, e mesmo ainda 
hoje o lê e representa pelas aldeias. Era cego ; em um Ms. do sé- 
culo XVII lê-se: o Homem carecido de vista ; » ^ era natural 4a ilha 
da Madeira, escreveu no reinado de Dom Sebastião, e viveu por 
algum tempo na Beira. Pertence-lhe a celebre tragedia em re- 
dondilhas O Marquez de Mantua, sobre romances castelhanos ; 
o Auto de Santo Aleixo ainda se reimprime, e o Auto de San- 
ta Catharina ha poucos annos se representou em Sam Chris- 
tovam de Mafamude. Os índices Expurgatorios citam como de 
Balthazar Dias o Auto do Nascimento de Christo, o Auto de Sa- 
lomão, e o Auto breve da Paixão, que se não encontram já. At- 
tribue-se-lhe também o Auto da Feira da Ladra, desconhecido, 
e as Trovas de arte maior á morte de D. João de Castro. A sua 
lenda ou Historia da Imperatriz Porcina, desenvolvimento da 
lenda de Crescencia, é ainda saboreada pelo povo, bem como a 
Malicia das mulheres e Conselhos para bem casar. 

Muitos são os Autos anonynios que pertencem ao século xvi, 
quasi todos extremamente raros ; entre elles citaremos o Auto de 
Guioviar do Porto, cujo typo cómico é o de uma Celestina por- 
tugueza ; os Autos do Duque de Florenqa e de Dom Florambel 
apresentam uma certa frouxidão na estructura, proveniente tal- 
vez da sua mesma antiguidade. Pertencem a este cyclo nacio- 
nal o Auto dos Escrivães do Pelourinho, e os bellos Autos hiera- 

í Bibl. do Porto, Ms. n.» H93, p. 283. 



Século XVI.) o THEATRO E A NACIONALIDADE 227 

ticos Dia de Juizo, Auto da Geração humana, de 1536, Auto da 
Donzella da Torre, attribuido a Gil Vicente, e o Auto de Deus 
Padre, Justiça e Misericórdia. Os índices Expurgatorios prohi- 
bii'am a leitura da maior parte d'estas obras de litteratura popu- 
lar, resultando d'aí a perda de outros monumento^ os Jesuítas 
atacavam os Pateos das Comedias. Apesar d'esta irracional de- 
vastação, a eschola de Gil Vicente, baseada na tradição nacional, 
penetrou profundamente nos. costumes portuguezes, florescendo 
durante o século xvi como escriptores de Autos Simão Garcia, 
João de Escobar, Francisco Luiz, Frei Braz de Resende, Fr. An- 
tónio de Lisboa, Gaspar Gil Severim, António Peres e outros. 
Foi nos Autos populares que se manteve o uso da lingua por- 
tugneza depois da perda da nacionalidade, escrevendo de prefe- 
rencia era castelhano os escriptores eruditos. 



§. m 

Sá de Miranda e a imitação clássica sob a influencia da Itália 



A influencia italiana que se observa em França sob Car- 
los VIII, Luiz XII e Francisco l, e na Inglaterra sob Henri- 
que VIII com os lyricos Wyat e iSurrey, reapparece em Hespa- 
nha quando em 1524 Andrea Navagero foi enviado como embai- 
xador de Veneza a Carlos v. Durante seis mezes que esteve em 
Granada, Navagero encontrou-se com Boscan, e nas suas largas 
conversas sobre litteratura trouxe á observação do poeta os cara- 
cteres particulares do metro italiano, e pediu-lhe que experimen- 
tasse na metrificação castelhana o verso endecasyllabo. Boscan 
satisfeito com o êxito da tentativa, continuou a exercitar-se, mas 
teria por certo desfallecido na empreza, sob os rudes ataques dos 
apaixonados dos metros de redondilha, se Garcilasso, já então co- 
nhecido como um eminente lyrico, o não viesse fortalecer com a 
sua franca adhesão. A questão do emprego do verso endecasylla- 



228 REDONDILHA E ENDEGASYLLABO (EpOlM 1. 

bo foi O facto contra o qual se feriram pugnas aceradas contra a 
introducçào do gosto italiano; accusava-se o endecasyllabo de nSo 
ser nacional, mas é certo que equiparado ao verso alcaico, achou 
nas linguas românicas as mesmas condições prosodicas de accen- 
tuação, que geneiTilisaram o seu uso na época da Renascença. 

1." Lucta da introducção da eschola italiana. — Vendo-se a 
época em que entrou na Hespanha a eschola italiana, em 1524, 
immediatamente se nota que egual phenoraeno se deu em Portu- 
gal, quando Sá de Miranda, em 1526, regressara da sua viagem 
á Itália. Esta crise litteraria foi tao tempestuosa em Portugal co- 
mo na Hespanha. Já vimos como Jorge Ferreira falia contra os 
predilectos do soneto ; no prologo da Écloga Encantamento allu- 
de Sá de Miranda a esta lucta: 

que são dignos 

De perdão os começos que já flz 
Aberta aos bons cantares peregrinos. 
Fiz o que pude. como por si diz 
Aquelle, um só dos lyricos latinos... 
Andando após a paga, houve aos sizos 
Gram medo (que o confesso) e uns pontosos 
De rostos carregados, ou de uns risos 
Sardonios, ou mais claro, maliciosos... 

Successivamente se agruparam em volta do Sá de Miranda o 
nobilissimo D. Manuel de Portugal, filho do conde de Vimioso, 
Pêro de Andrade Caminha, o dr. António Ferreira, Diogo Ber- 
nardes e seu irmão Frei Agostinho da Cruz, Jorge de Monte- 
mor e André Falcão de Rezende. Estava triumphante a eschola 
italiana em Portugal, postoque alguns d' esses talentos se ames- 
quinharam na imitação de Petrarcha, e outros acabaram por es- 
crever exclusivamente em latim á medida que se possuiara da ad- 
miração das obras clássicas da antiguidade. 

a) Lyrismo : Sá de Miranda e sua eschola. — Dá-se n'este 
poeta a perfeita alliança do talento com o caracter ; a sua vida ó 
tão sympathica como a sua obra. Na biographia que d'elle escreveu 
Dom Gonçalo Coutinho, sobre tradições transmittidas por Diogo 



Século XVI.) GENEALOGIA DE SÁ DE MIRANDA 229 

Bernardes e Dom Manuel de Portugal, fixa-se a data do seu nas- 
cimento em 27 de outubro de 1495. Nasceu em Coimbra, sendo 
seu pae o cónego Gonçalo Mendes de Sá, que o teve com mais 
outros filhos de uma mulher nobre, como dizem as linhagens 5 pas- 
sou a sua meninice em Buarcos, em casa de seus avós João Gon- 
çalves de Miranda Souto Mayor, e D. Philippa de Sá. O poeta, 
que não queria julgar-se inferior em nobreza aos outros ramos 
d'e3ta grande familia, allude á sua fidalguia paterna e aos seus 
avós maternos; na Elegia á morte de Garcilasso dá-se como seu 
parente por parte dos Souto- Mayores : « Al tan antiguo aprisco 
— De Lassos de la Vega — Tuyo el nuestro de Sá viste ai/unta- 
do. » De facto verifica-se pelo Nobiliário o casamento de « uma 
filha de Ruy Paes de Souto Mayor com Garcia Lasso de la Ve- 
ga o velho. D ^ Por parte de sua avó, diz o poeta « os nossos Sás 
Coloneses » referindo-se a ser Dona Philippa de Sá, filha de Ro- 
drigo Annes de Sá, embaixador em Roma, e casado com Cecilia 
Colona. Parece talvez deslocada esta vaidade heráldica, mas o 
joven poeta tinha de competir na corte com João Rodrigues de 
Sá, e Henrique de Sá, celebrados poetas do Cancioneiro. Havia 
n'esta família uma teírivel hereditariedade moral, da qual se li- 
bertou o poeta pela austeridade da sua vida, mas que reappare- 
ceu em seu filho Jeronymo de Sá. O bispo de Coimbra Dom João 
Galvão, primeiro conde de Arganil, tinha amores com D. Guio- 
mar de Sá, irmã do cónego Gonçalo Mendes de Sá, e quando foi 
transferido para o arcebispado de Braga, casaram-na seus irmãos 
com Aífonso de Barros ; tanto que o soube o terrível prelado veiu 
de Braga a Coimbra para a matar « e dizem que doesta -paixão 
morreu. » ^ Dos outros filhos do cónego de Coimbra é também co- 
nhecido Mem de Sá, que foi desembargador dos Aggravos e go- 
vernador do Brazil dezesete annos ; a elle dedicou o poeta uma 
conceituosa Carta, e com elle veiu para a corte frequentar a Uni- 
versidade de Lisboa por 1511. Póde-se fixar esta data importante, 
porque em 1505 ainda vivia em Coimbra, alludindo á abertura 
do tumulo de Dom AíFonso Henriques por occasião da visita do 



1 Povtug. Mon. hist., Scriptores, p. 387. — * Ms. Pedatura lusitana, 
i. IH, p. 174. 



230 VIAGEM PELA ITÁLIA (EpOCa 3." 

rei D. Manuel ao mosteiro de Santa Cruz; ^ em 1516 já figura 
no Cancioneiro de Rezende com o titulo de Doutor, ' e allude em 
outros versos aos serões de Portugal onde ainda ouviu metrificar 
Dom João de Menezes. Segundo a tradição colhida por D. Gon- 
çalo Coutinho, ficou Sá de Miranda regendo uma cadeira na Uni- 
versidade de Lisboa, ou somente de substituição, como relatam al- 
guns manuscriptos. Fixa-se a sua frequência do paço por 1513, 
e alli se relacionou com Bernardim Ribeiro, celebrando ambos el- 
les em seus versos a extremada D. Leonor de Mascarenhas, da 
qual diz na rubrica inédita de uma das suas composições « que 
Portugal também teve a sua Vittoria Colonna em D. Leonor de 
Mascarenhas. » A Itália, como um foco da cultura humanista, 
attrahia Sá de Miranda ; era 1521 deixa repentinamente a corte 
e emprehende a viagem á Itália: í(Em tempo de Hespanhoes e 
de Francezes » quando alli combatiam os exércitos de Carlos v e 
Francisco i. A occasião não era azada para uma expedição artis- 
tica ; saindo de Portugal, Sá de Miranda obedecia a uma causa 
imperiosa. Sabe-se que em 1521 saíram da corte bastantes fidal- 
gos que seguiam o partido do príncipe contra o rei D. Manuel, 
porque o velho monarcha desposara em terceiras núpcias a noiva 
de seu filho. O casamento do infante D. Fernando com D. Gruio- 
mar Coutinho, desposada do marquez de Torres Novas, levaria 
Sá de Miranda a pronunciar-se contra este escândalo, de que fi- 
cou um ecco na Satyra das Terçarias : 

Joeirou o tesouro 
do grara Marialva, 
e quiz-lhe a salva 
levar de seu ouro... 

Durante a sua viagem por Veneza, Roma e Milão, Sá de Mi- 
randa frequentou a convivência do^ eruditos italianos, João Rus- 
cellai, e Lactancio Tolomei, sendo bem recebido pela Casa de 
Colona. Era 1526 regressou a Portugal, apparecendo-nos em 

1 Damião de Góes, Chron., cap. 64, fl. 40, etc. — ^ Canc. ger., íl. 
109, col. 1. 



Século XVI.) REGRESSO A PORTUGAL 231 

Coimbra, como se infere da Oração lida por Francisco de Sá na 
chegada de* D. João iii e D. Catherina, áquella cidade quando 
fugiam da peste de Lisboa. Em 1527 representou Gil Vicente 
em Coimbra a Comedia da Divisa, e temos por natural que esta 
forma medieval do theatro despertasse em Sá de Miranda o desejo 
de fazer conhecida a Comedia clássica, porque n'este anno escre- 
veu 03 Estrangeiros, dizendo no prologo que se não cansem a ac- 
cusal-o de imitar Ariosto, e muito menos Plauto ou Terêncio. A 
demora da corte em Coimbra causou a ruina de varias casas fi- 
dalgas, e Sá de Miranda na Carta a Pêro Carvalho, allude aos 
parvos honrados que desbaratavam a sua fazenda em sustenta- 
rem os cortezãos. Na Carta de Manuel Machado de Azevedo a 
Sá de Miranda descobre-se uma das causas que levou o poeta a 
abandonar a corte : 

Põe-se em muito grande prigo 
Quem descobre todo o peito. 
Por um bom dito ou conceito 
Não perdaes nenhum amigo. 

Os Carvalhos e os Carneiros 
Da Beyra, Entre Douro e Minho, 
São mui bons qua no seu ninlio. 
Aos fidalgos e escudeiros. 

A quem d'elles se aproveita 
São de proveito e sustento; 
Mas lá com seu valimento 
Só vive quem os respeita. 

(st. XII-XIV.) 

Não faltavam ensejes para Sá de Miranda se mostrar de « um 
«ó rosto, uma só fé. » A espoliação dos bens de seus primos Si- 
mão e Gonçalo de Miranda por uma ordem regia; o escândalo 
da sentença contra o marquez de Torras Novas; o exilio de Ber- 
nardim Ribeiro, e a prepotência do conde da Castanheira, o neto 
da Maria Pinheira das satyras anonymas, tudo levava Sá de Mi- 
randa ao convencimento de que não era homem de corte. As 
3uas Éclogas Andrés e Aleixo eram interpretadas com sentidos re- 

) 



23iá LEITURA DOS POETAS ITALIANOS (EpOCa 3.* 

servados, e commentadas ao capricho dos bandos palacianos. Em 
1534 Sá de Miranda abandona definitivamente a corte, como se 
sabe pela Elegia á morte do príncipe Dom João, fixando o seu 
retiro desde quando o malvado Inglez (Henrique viii) se separou 
da Egreja; por este tempo se soube do fallecimento de D. Isabel 
Freire, que elle celebrara nos seus versos com o nome de Célia. 
Dom João III, que sempre estimou Sá de Miranda, deu-lhe a 
Commenda das Duas Egrejas, e o poeta fundou a casa da Ta- 
pada, na freguezia de Fiscal, districto de Braga. Alli vivia en- 
tregue á meditação e á caça e montaria dos lobos ; visitava o so- 
lar do Crasto, dos Machados de Azevedo, e a casa dos Pereiras 
Marramaques em Cabeceiras de Basto, em um doce convívio lit- 
terario, que descreve com tanta suavidade. Os senhores de Basto 
viviam na quinta da Taipa, e alli junto da fonte da Barroca liam 
os poetas italianos e os seus imitadores hespanhoes ; escreve o- 
poeta a António Pereira, que lhe communicava os manuscriptos- 
de Garcilasso : 



A vossa fonte tão fria 
Da Barroca em Julho e Agosto, 
Inda me ó presente o gosto. 
Quão bem que nos hl sabia 
Quanto na meza era posto. 



Deshi o gosto chamando 
A outros mores sabores, 
Liamos pelos amores 
Do bravo e furioso Orlando, 
Envoltos em tantas flores. 

Liamos os Assolaiios 
De Bembo,, engenho tão raro, 
IS"estes derradeiros annos, 
E os pastores italianos 
Do bom velho Sanasarro. 

Liamos ao grande Lasso, 
Com seu amigo Boscão, 
Que honraram a sua nação; 
la-me eu passo a passo, 
Aos nossos que aqui não vão. 

(Carta ii.) 



Século XVI.) INFLUENCIA DE SA DE MIRANDA 233 

Frequentando a casa de Crasto conheceu alli o poeta D. Brio- 
lanja de Azevedo, irmã de Manoel Machado, a quem a pediu em 
casamento; realisou-se este enlace por intervenção de D. João iii, 
em 1536. Começou para Sá de Miranda um periodo de vida tran- 
quilla na sua quinta de Entre Homem e Cavado; alli recebia a 
homenagem dos bons espirites que surgiam na litteratura, e com 
o remanso campestre retocava delicadamente o que escrevia, che- 
gando a enumerar-se quatorze redacções da sua écloga Basto. 
Em 1545 o Cardeal-infante Dom Henrique manda-lhe pedir as 
suas comedias dos Vilhalpandos e Estrangeiros para serem re- 
presentadas; e o príncipe Dom João, herdeiro de Dom João iii, 
de quem eram aios Francisco de Sá de Menezes e D. Manuel de 
Portugal, mandou-lhe também pedir a collecção dos seus ver- 
sos. Diogo Bernardes recebeu a iniciação litteraria de Sá de Mi- 
randa, admirando-o no remanso domestico, occupado na educa- 
ção de seus filhos Gonçalo e Jeronymo de Sá, ensinando- lhes a 
tocar viola d'arco e commentando o texto grego de Homero. To- 
da esta felicidade ia ser destruída ; em 1 553 morre-lhe em Ceu- 
ta o seu primogénito Gonçalo de Sá, e seu sobrinho João Rodri- 
gues de Sá, filho de Mem de Sá, juntamente com Dom António 
de Noronha, esse intimo amigo de CamSes. D. Briolanja de Aze- 
vedo não pôde sobreviver a este golpe, fallecendo era 1555. A 
morte prematura do príncipe Dom João, que por três vezes lhe 
pedira a collecção dos seus versos, e o fallecimento de D. Joào iii 
em 1556, acabaram de prostrar-lhe o espirito, succumbindo em 
1558. E encantadora a ingenuidade com que Ferreira o consola 
pela morte de seu filho, como Jorge de Montemor o consulta so- 
bre o estado a seguir, como D. Manuel de Portugal. Francisco 
de Sá de Menezes e Andrade Caminha lhe pedem conselho sobre 
as suas obras poéticas. O poeta foi sepultado em Sam Martinho 
de Carrezedo. 

Unia grande parte das obras de Sá de Miranda foi escripta 
em castelhano, dizendo por isso Bouterweck que na historia da lit- 
teratura hespanhola ficará uma lacuna se fôr omittido o nome de 
Sá de Miranda. Com tudo foi um fervoroso propugnador da cul- 
tura da lingua portugueza; Castanheda no prologo da Ckronica 
do descol/iimento da Judia,. confessa que deve a Sá de Miranda a 



234 FKRHEiRA (Epoca 3.* 

animaçíío para escrever a sua narrativa era portuguez. Sá de Mi- 
randa distingue-se por uma abundância de locuções populares tal, 
que se não pode bem dizer se aquillo provém de uma naturali- 
dade desaíFectada se de um delicado tino artístico. Das suas com- 
posições as que foram sempre appetecidas pertencem á eschola da 
" medida velha, tendo a influencia exercida sobre os seus contem- 
; poraneos a sua base na propagação dos modelos italianos. 

O Doutor António Ferreira. — Entre todos os escriptores qui- 
nhentistas, distingue-se Ferreira pelo immenso respeito á au- 
ctoridade clássica. Nunca transigiu com as formas medievaes na 
litteratura empregando o verso de redondilha, da qual diz com 
desdém : « a antiga trova deixo ao vulgo. » Conhecia profunda- 
mente o grego e o latim, admirava os poetas italianos, mas a su- 
perioridade do seu espirito levava-o para a idealisaçSo das tra- 
dições nacionaes, como se vô pelo poemeto de Santa Comba dos 
Valles. A tradição dos amores de Ignez de Castro, tomada como 
thema de uma tragedia clássica, em tempo em que ninguém na 
Europa se atrevia a tratar n'esta forma assumpto que não fosse 
da mythologia grega ou da historia romana, revela-nos que a sua 
educação humanista não pôde desnaturar-lhe o génio. 

Ferreira nasceu em Lisboa ; era filho de Martim Ferreira, es- 
crivão da fazenda do duque de (Coimbra, e de D. Mecia Fróes 
Varella, Foi cursar a Universidade já estabelecida em Coimbra, 
sob o regimen dos professores francezes que vieram de Paris em 
1Õ47 por intervenção do doutor André de Gouvêa. A litteratu- 
ra grega foi-lhe revelada pelo celebre Diogo de Teive, e as re- 
lações directas com Sá de Miranda são-nos attestadas pela ele- 
gia á morte de seu filho. As suas composições lyricas foram es- 
criptas até ao anno de 1557, tempo em que ficaram coUigidas sob 
o titulo definitivo de Poemas Lusitanos. Compõem-se de sonetos 
em parte metrificados com a imperfeição de quem não domina o 
endecasyllabo, tendo em compensação uma pureza e naturalida- 
de de sentimento tão verdadeiras, que obriga a investigar a rea- 
lidade que o inspira. 

António Ferreira foi casado em primeiras núpcias com D. Ma- 
ria Pimentel, como se vê claramente pela Elegia iii, de Cami- 
nha ; a ella se dirigiram quasi todos .os seus versos. Depois de 



Século XVI.) CAMINHA E BERNARDES 235 

ser Doutor do Paço e enviado do rei Dom Sebastião a Castella, 
Ferreira casou em segundas núpcias com D. Maria Leite, filha do 
commendador de Santa Comba dos Valles; nasceram d'e8te con- 
sorcio, que pode fixar-se por 1564, Miguel Leite Ferreira, D. 
Catherina Moredo e Ruy Leite. O Dr. António Ferreira foi vi- 
ctima da Peste grande de 1569, e seu filho publicando os Poemas 
Lusitanos em 1598, diz de seu pae « deixando-me em tal edade 
que o não conheci. » As outras composições são Cartas, Éclogas, 
Elegias, Epithalamios aos mais notáveis espirites do seu tempo, 
celebrando emoções pessoaes que nos revelam a vida intellectual 
de uma época tão fecunda. 

Pedro de Andrpide Caminha. — Nas luctas de Pedro Cruel 
contra seu irmão bastardo, muitos fidalgos gallegos emigraram 
para Portugal; a familia dos Caminhas pertence a esse numero, 
que achou asylo na corte de D. Fernando. Suppoe-se que Pedro 
de Andrade Caminha nascera não longe de 1520; era o mais in- 
timo dos amigos de Sá de Miranda, sendo também o mais me- 
diocre. Os.^igramraas odientos que dirigiu contra Camões, e a 
delação de Dam'iãq^e Góes ao Santo Officio em 1571 acerca das 
opiniões hel^icas d'éste historiador, deprimem-lhe fundamental- 
mente o caractefT Caminha entrou muito cedo para o cargo de Ca- 
mareiro do infante Dom Duarte, e pela constante bajulação aos 
seus versos obteve pingues tenças e uma alcaidaria. Caminha elo- 
gia o cardeal -infante por ter estabelecido a censura dos livros, e 
para lisongear seu amo é que coUigiu as composições poéticas 
que ficaram inéditas até 1791. As noticias que deixou nos seus 
versos sobre outros poetas, como João Lopes Leitão, Heitor da 
Silveira, e acerca da morte de D. Catherina de Athayde, tornam 
necessário o estudo d'este quinhentista. 

Diogo Bernardes. — Foi um dos mais Íntimos amigos de Ca- 
minha, e portanto um dos inimigos de Camões ; é accusado de 
ter-se apoderado de bastantes Sonetos, Éclogas e do Poema de 
Santa Úrsula, que pertencem a Camões. Bernardes era natural de 
Ponte do Lima ; as suas primeiras composições foram na medida 
velha, Villancetes, Voltas, Endexas, Respostas e Romances ; de- 
pois que visitou Sá de Miranda na Residência da Tapada, an- 
tes de 1553, é que abraçou a imitação da poesia italiana ; via- 



236 CARACTER DE BERNARDES (EpOCa 3." 

do para Lisboa, foi cultivando-se com a convivência de Cami- 
nha 6 do Dr. António Ferreira, que lhe leu a sua tragedia Cas- 
tro. Protegeu-o o poderoso secretario de estado Pedro de Alcáço- 
va Carneiro, acompanhando-o em 1576 a Hespanha na embaixada 
a Philippe II. Quando em 1578 Dom Sebastião partiu para a es- 
touvada expedição da Africa, Bernardes foi escolhido para can- 
tor cesáreo da victoria que terminaria pela coroação do monar- 
cha em Fez como imperador. Na derrota de Alcacer-Kibir, Ber- 
nardes ficou captivo, como Ayres Telles, Fernão Alvares d' Orien- 
te, Miguel Leitão de Andrada e André de Quadros. Em 1581 
já Bernardes se achava resgatado, recebendo de Philippe ii a 
tença de quinhentos cruzados em propriedades e fazendas por car- 
tas de 16 de outubro de 1582, pelo facto de ter sido moço da toa- 
lha de Dom Sebastião « e a ir com elle na jornada de Africa e a 
ser captivo na batalha de alcacere. » Em 1593, Philippe ii deu- 
Ihe uma outra tença de quarenta mil reis em cada anno em sua 
vida, podendo testar metade d'esta quantia em sua mulher e fi- 
lhos. Bernardes era casado com D. Maria Coutinha, a Sylvia a 
quem dirigira a maior parte dos seus versos lyricos. Bernardes 
conhecia o estylo de Camões, mas faltava-lhe o sentimento da in- 
dependência e dignidade nacional para dar aos seus versos uma 
outra qualidade que nunca se adquire pela habilidade mechani- 
ca e pelas engenhosas imitações. Nas Varias rimas ao Bom Je- 
sus e Flores do Lima, publicadas em 1594 e 1596 ha muitos plá- 
gios de obras de Camões, e uma suavidade idyllica, expressa por 
uma correcção de quem pouco sente. Sabe-se pela tradição que 
pedira para ser enterrado próximo da sepultura de Camões. 

Agostinho Pimenta. — Este poeta, irmão mais novo de Ber- 
nardes, é mais conhecido pelo nome de Frei Agostinho da Cruz ; 
o seu lyrismo distingue-se por um exaltado fervor myatico, não 
tão simples como o de Sam João da Cruz ou de Frei Luiz de 
Leão, mas ainda assim admirável como expansão sincera de uma 
alma no meio do falso formalismo cultual imposto pelos jesuítas, 
e como desabafo na intolerância feroz do Santo Officio. Nasceu 
em Ponte do Lima era 1540, e recebeu a primeira direcção poé- 
tica de Diogo Bernardes ; veiu em 1556 empregado para a ca- 
sa do duque Dom Duarte, neto de Dom Manuel, e alli seduzi- 



Século XVI.) o LYRISMO AIYSTICO 237 

do pelos frades da Arrábida resolveu seguir a vida monástica. 
Tomou o habito em 3 de maio de 1560, indo passar o noviciado 
no convento de Santa Cruz da serra de Cintra. Agostinho quei-' 
mou t(^os os seus versos profanos, e quando o tédio claustral o 
accorametteu reconciliou-se outra vez com a poesia, eui que ex- 
pandiu os seus arroubos mysticos. A vida austera da solidão da 
Arrábida apressou-lhe a morte, em 14 de março de 1619. Era 
esta uma phase nova da poesia Ijrica da eschola italiana, que se 
desenvolveu com os desastres nacionaes; a ella pertence esse mi- 
moso lyrico Jorge Fernandes, mais conhecido pelo epitheto de 
Fradinho da Rainha^ e cujas composições se acham dispersas pe- 
los Cancioneiros manuscriptos. 

Dom Manuel de Portugal. — Chamava-lhe Sá de Miranda 
a Lume do paço, das Musas mimoso;» foi o mais considerado dos 
quinhentistas e hoje é o menos lido d'essa plêiada. Camões consi- 
derava-o como um dos restauradores da Poesia portugueza. Filho 
do afamado poeta do Cancioneiro geral, o conde de Vimioso e da 
decantada Aonia, D, Joanna de Vilhena, a sua situação social 
influia para que escrevesse a maior parte dos seus versos em cas- 
telhano, lingua preferida no trato do paço. O que fora D. Leo- 
nor de Mascarenhas na corte de Dom João ii, era-o agora D. 
Francisca de Portugal influindo na inspiração poética dos princi- 
paes escriptores da corte de Dom João iil. Dom Manuel de Por- 
tugal amou sem felicidade D. Francisca de Aragão, que tanto 
distinguia CamSes pedindo -lhe versos. Muitas das composições 
rumorosas de D. Manuel de Portugal, á parte as que se acham 
no Cancioneiro de Luiz Franco, estão perdidas ; os versos que se 
imprimiram são mysticos, celebram um vago amor divino, uma 
aspiração do que não é d'este mundo, a preoccupação. constante 
do estado transitório da vida, sendo por isso de uma monotonia 
quasi illegivel postoque perfeitos na estructura. Tem este cara- 
cter uma explicação que os torna ainda assim apreciáveis ; Dora 
^ílanuel de Portugal não se prestou á corrupção de Philippe ii, e 
a Casa de Vimioso soffreu as maiores atrocidades do invasor na 
incorporação de Portugal a Castella. Os desastres da familia e as 
suas profundas tristezas é que o dirigiram para a monomania as- 
cética. Quando Dom João iii deu casa ao príncipe Dom João, 



238 KVORA, CAPITAL DA 1 ItlDlCÃO ^Lj/v.^.. •>. 

recebeu logo Dom Manuel de Portugal as entradas; n'e8ta posi- 
ção nada pôde fazer em beneficio de CamSes, então victima de in- 
trigas motivadas pela inveja litteraria. Em 1572 foi por intermé- 
dio de D. Manuel de Portugal que pôde Luiz Cam3es apresentar o 
poema dos Lusíadas a Dom Sebastião. Dom Manuel de Portugal 
ainda viu o triumpho completo da eschola italiana no applauso 
dos Lusíadas e Rimas de Camões, fallecendo longe da espe- 
rança da revindicação da naéionalidade em 26 de fevereiro de 
1606. 

André Falcão de Resende. — Apesar de pouco conhecido por 
terem ficado inéditas as suas obras, Falcão de Resende é um dos 
mais notáveis poetas da eschola de Sá de Miranda. Foi seu pae 
Jorge de Resende, celebrado poeta do Cancioneiro geral, irmão 
do chronista Garcia de Resende. Nasceu em Évora, como se in- 
fere dos seus versos, por 1535; Évora era o centro da erudição 
latinista, convergindo alli sábios estrangeiros, como Nicoláo Cle- 
nardo, o bispo D. João Petit, Mafí*ei, e entre os nacionaes Pedro 
Nunes, André de Resende, Ayres Barbosa, Jeronymo Osório e 
João Vaz, encarregados da educação do infante D. Henrique, 
bispo de Évora. O infante chamou para Évora os jesuitas em 
1551 para fundar o Collegio do Espirito Santo ; provavelmente 
ahi cursou os estudos menores Falcão de Resende, que em 1553 
apparece inscripto na matricula da Casa do Cardeal Infante. 
Terminada a sua formatura jurídica por 1558, foi em seguida no- 
meado letrado e ouvidor da casa do Duque de Aveiro. 

Sob o pesado regimen da erudição latinista das escholas je- 
suíticas, escreveu Falcão de Resende o illegivel poema allegorico 
da Creação do Hoinevi, que editores néscios durante muitos annos 
imprimiram cora o nome de Camões. Falcão de Resende tentou 
uma traducção das Odes de Horácio, que ficou incompleta. Atra- 
vés dos seus versos descobrem-se as aventuras de um amor ro- 
mântico, que o fizera abandonar a casa paterna, e a perda pre- 
matura da desposada. Ainda escreveu a Sá de Miranda envian- 
do-lhe os seus versos. Exerceu o cargo de Juiz de Fora em Tor- 
res Vedras em 1577, e não obstante o aborrecimento que lhe cau- 
savam os litigios, desenfadava-se escrevendo versos, já para dar 
noticias a Heitor da Silveira e António de Abreu, na índia, já 



Século XVI.) THEATRO CLÁSSICO 239 

para se fazer lembrado dos poderosos e moralisar sobre os costu- 
mes do tempo. Falcão de Resende foi a Madrid requerer uma 
mercê de Philippe ii, e nos seus versos queixa-se de pobreza. 
Kão tinha ideal, sendo ainda assim superior a Caminha ; é o único 
dos poetas quinhentistas da eschola de Sá de Miranda que cita o 
nome de Camões, a quem chama bacharel latino, pondo em con- 
traste a sua situação com a dos bobos de D. Sebastião que viviam 
ricos e com o tratamento de Dom. EUe presentiu a impressão que 
tinha de fazer o poema dos Lusíadas; em uma écloga parece re- 
ferir-se á morte de Camões. Falcão de Resende morreu da terri- 
vel peste de 1599; ficaram três manuscriptos dos seus versos, um 
que colligira para o filho segundo do Duque de Aveiro, outro a 
que allude no soneto xxv, e finalmente o autographo que perten- 
cia á Bibliotheca da Universidade e sobre que se começou a fazer 
a edição que ainda não entrou no mercado. 

b) Theatro : A Comedia e Tragedia clássicas. — Quando Sá 
de Miranda tentou introduzir em Portugal a Comedia clássica, es- 
creveu : « Extranhaes-me, que bem o vejo. . . mas não ha de fa- 
lecer quem me arremede. » De facto, o dr. António Ferreira, 
o principal discípulo de Sá de Miranda, desempenhou este presen- 
timento do mestre. Nos divertimentos escholares anteriores ao cur- 
so de Ferreira já se notam tentativas dramáticas, como a Eu- 
f resina de Jorge Ferreira, escripta em 1527, e a Ulyssipo 
em 1Õ47. Em 1551, por occasião do doutoramento de D. Antó- 
nio, Prior do Crato, representou-se a tragicomedia Gollias, em 
latim, « pelos estudantes nobres da Universidade, na claustra da 
Portaria que fica anterior ao Mosteiro, » como conta D. Nicoláo 
de Santa Maria {Chr., pag. 183). Ferreira allude a outros diver- 
timentos dramáticos por occasião das festas pelo casamento do 
príncipe D. João com a filha de Carlos v : « N'esta Universida- 
de. . . onde jpouco antes se viram outras, que a todas as dos an- 
tigos ou levam ou não dão vantagem. » E confessa no Prologo o 
que deve a Sá de Miranda : a não fallo nos que o seguiram até 
agora em Itália, pois em nossos dias vemos n'este Bet/no a honra 
e o louvor de quem novamente a trouxe a elle, com tanta diíFe- 
rença dos antigos quanto ó a dos mesmos tempos. » E declara 
por fim que a comedia de Bristo fora composta em ferias furta- 



240 THEORIA DA TRAGEDIA GREGA (EpOCa 3.* 

das ao estudo «como cousa de poucos dias ordenada. » A come- 
dia do Cioso pertence á mesma corrente de imitação clássica te- 
renciana, em que os personagens são o Miles gloriosus, ou o fan- 
farrão italiano, a hetaira grega ou a cortegiana italiana, e os fi- 
lhos familias pervertidos. Com a morte inesperada do príncipe 
D, João em 1554, ficaram interrompidos os divertimentos escho- 
lares; para este príncipe estava Jorge Ferreira escrevendo a co- 
media Auhgrajphia. As três comedias em prosa de Jorge Ferrei- 
ra de Vasconcellos, cunhado de João Rodrigues de Sá, o Velho, 
pertc-ncem já á influencia italiana, obedecendo comtudo ao mo- 
delo da celeberrima comedia hespanhola a Celestina, em que pre- 
pondera o ideal da Edade módia. Jorge Ferreira protestava con- 
tra a inonomania aristocrática da viagem á Itália. 

Quando o dr, António Ferreira já residia na capital, occu- 
pando o cargo de desembargador da Relação de Lisboa, escreveu 
a tragedia Castro, cuja composição pôde ser fixada em 1558. O 
pensamento d'esta tragedia nacional foi-lhe despertado pela tra- 
dição que em Coimbra ainda se repetia no século xvi. O padre 
D. Marcos de S. Lourenço, commentando o episodio de Ignez de 
Castro nos Lusíadas, allude aos cantos populares que ouvia repe- 
tir nas margens do Mondego. Pela Castro conhece-se que Ferreira 
imitava directamente as formas gregas, sem recorrer aos pallidos 
reflexos de Séneca, como então se usava na Europa ; elíe repro- 
duz esse caracter divino da tragedia antiga na lucta entre o amor 
e a obediência fiiial; uma sombra à^ fatalidade logo no princi- 
pio empana a alegria do Coro que dá começo á acção. Nos monó- 
logos e diálogos ha esse ardor exaltado que na tragedia ó o mo- 
vimento dithyrambico do lyrismo religioso. A acção dramática ó 
simplesmente episódica em volta d'esse lyrismo elegiaco, e ape- 
nas serve para produzir logicamente a catastrophe que se sabe 
que \i^à<?. fatalmente succeder. Para imitar o iambo trimetro usa- 
do pelos trágicos gregos para a linguagem simples. Ferreira ser- 
ve-se pela primeira vez do verso solto usado por Trissino, que- 
brando -o nos seus hemistichios. A theoria do Coro grego, tão dif- 
ficil de comprehender, acha-se no modo como Ferreira talhou os 
seus. Analysando-se a Castro no conjuncto, convém ter em 
vista que o poeta não procurou o effeito artístico, mas somente a 



Século XVI.) ORIGINALIDADE DA TRAGEDIA CASTRO 241 

reconstrucção conscienciosa da estructura já não comprehendida 
da tragedia grega. 

A Castro, postoque não seja a primeira imitação da tragedia 
clássica que appareceu na Europa, conservará nas litteraturas 
modernas esse logar de prioridade, pois que foi o primeiro as- 
sumpto de historia nacional idealisado pela Renascença para o 
theatro. A influencia da Castro, de Ferreira, estendeu-se a toda 
a Europa, embora publicada quarenta aunos depois da morte do 
poeta. 

Em Hespanha escreveram-ae ainda no século xvi duas trage- 
dias, Nise lastimosa e Nise laureada, de Jeronymo Bermudez ; 
disputou-se algum tempo se a Castro, de Ferreira, seria traduzi- 
da do castelhano, pela conformidade da Nise lastimosa com ella, A 
questão está hoje resolvida a nosso favor pela authoridade de Mar- 
tinez de la Rosa. Ferreira, fallecido em 1569 da Peste grande, dei- 
xou col leccionados desde 1557 os Poemas Lusitanos ; no soneto 
cx de Bernardes allude-se á leitura da tragedia dç Ferreira. Por 
isso, embora a Nise lastimosa, de Bermudez, fosse impressa em 
1577 não é anterior á obra posthuma de Ferreira de 1598. Com- 
paradas as duas tragedias salta á primeira vista a originalidade 
portugueza, e a mediocridade de Bermudez accentua-se no modo 
como tratou o assumpto na Nise laureada, espécie de coroação 
como usou Nicoláo Luiz. 

Em 1555 publicou-se em Lisboa a traducção da tragedia 
Agamemnon por Henrique Ayres Victoria « tirada do grego em 
linguagem troada. » A Renascença tomando uma direcção exa- 
geradamente erudita, afastava-nos das tradições nacionaes, fa- 
zendo dispender a actividade litteraria em traducçoes e imitações. 
Cabe também ao dr. António Ferreira a gloria de ter comprehen- 
dido a necessidade de uma Epopêa nacional ; não tinha imagina- 
ção e poder creador para a fazer, mas se a morte não o arreba- 
tasse tão inopportunamente, teria influído bastante para que se 
realizasse mais cedo este elevado pensamento. 

c) Novellas e Contos. — N'esta forma litteraria, que substi- 
tuo na primeira metade do século xvi a epopêa clássica virgilia- 
na, é onde se observa a persistência das ficções medievaes na 
transformação da novella de Cavalleria, e o prurido da imitação 

16 



242 CLARIMUNDO E PALMEIRIM DE INGLATERRA (EpOCa 3.* 

clássica italiana nas Novellas jpastoraes, que tendem a iiiijiôr-BC. 
Quando JoSo de Barros foi dado como guarda-roupa do príncipe 
D. João, reinava no paço de D. Manuel a predilecção pelas no- 
vellas de cavalleria. Diz Severim de Faria : « Era então João de 
Barros de pouco mais de vinte annos de edade, e como andava 
em serviço do princepe, que lhe occupava a mór parte do tempo, 
só nos espaços que lhe restavam publicamente, e como elle diz, 
na mesma Guarda-roupa do paço sem outro repouso, nem mais 
recolhimento... em outo mezes compoz esta historia (de Clari- 
mundo) que para tal edade e occupação se pôde ter por grande 
cousa. Ainda que o princepe D. João, a quem elle communicou 
seu intento, o favoreceu tanto, que elle mesmo ia revendo e emen- 
dando 08 cadernos que compunha ; este favor lhe fez publicar 
logo o livro ; e estando el-rei Dom Manoel na cidade de Évora, no 
anno de 1520, lh'o apresentou, dizendo-lhe que a intenção com 
que o fizera fora para se empregar na historia de Portugal e 
principalmente na da conquista do Oriente. » Não obstante Ro- 
drigues Lobo a considerar como um dos livros de cavalleria mais 
bem escriptos, a Historia do Imperador Clarimundo é hoje illegi- 
vel, por estar desprendida da curiosidade das allusòes contempo- 
râneas. 

A antiga sympathia de D. João iii pelas novellas de Caval- 
leria, a ponto de copiar pela sua mão os cadernos de Clarimundo 
quando principe, dominava na sua corte. Em 1543 voltou a Portu- 
gal Francisco de Moraes, que estava em Paris como secretario do 
embaixador D. Francisco de Noronha ; tendo vivido na corte de 
Francisco i, casado com a viuva do rei D. Manuel, ao regressar 
á pátria, Francisco de Moraes oífereceu á infanta D. Maria, filha 
d'e38a rainha, a novella do Palmeirim de Inglaterra. Esta obra 
imprimiu-se anonyma e como tal foi traduzida para castelhano em 
1547. Com o tempo foi attribuida a traducção á invenção original 
de Luiz Hurtado ; mas é certo que os versos em que Luiz Hurtado 
traz o seu acróstico, dizem da traducção: dRobando lafructa de 
agenos huertos. » Demais no Palmeirim de Inglaterra ha circum- 
stancias pessoaes que só quadrara a Francisco de Moraes, taes 
como 08 amores da Torsi em França. Apesar de Cervantes per- 
doar ao Palmeirim de Inglaterra, no Auto de fé feito ás novellas 



Século XVI.) PASTOR.\ES ALLEGORICAS 243 

de Cavalleria pelo Cura, e de elogiar as aventuras do castello de 
Miraguarda, a novella é extremamente difFusa, de uma exage- 
rada amplificação rhetorica, como consequência de um género 
por extemporâneo mal comprehendido. A terceira e quarta parte 
do Palmeirim por Diogo Fernandes, e a quinta e sexta parte por 
Balthazar Gonçalves Lobato, do século xvii, levaram á insensa- 
tez estas amplificações. Também se attribue a D. Gonçalo Couti- 
nho uma novelLi intitulada Historia de Palmeirim de Inglaterra 
e de D. Duardos, hoje perdida. 

Para comprazer com o principe D. João, herdeiro de D. João 
III, Jorge Fen-eira de Vasconcellos compoz também uma novella, 
Memorial dos Cavalleiros da Segunda Tauola Redonda, que nada 
tem com o cyclo arthuriano, e na qual se descrevem as festas ou 
torneio de Xabregas, quando este principe foi armado cavalleiro. 
A Jorge Ferreira attribue se uma outra redacção intitulada Trium- 
phos de Sagramor, evidentemente sobre o thema da Tavola-Redon- 
da. Em um documento de 1Õ33 acha-se citado um individuo com 
o nome de Sagramor de Basto, ^ porventura tomado da novella. 
O nome de Sagramw apparece no poema do Bel Inconu, e em 
uns fragmentos de um poema em médio alto allemão, enxerto se- 
cundário sobre as lendas arthurianas. ^ 

As Novellas pastoraes representam a influencia clássica na Re- 
nascença, e muito especialmente a imitação do gosto italiano. A 
Menina e Moça de Bernardim Ribeiro é anterior ao conhecimento 
das Pastoraes italianas em Portugal, e um producto natural do iy- 
rismo bucólico. Póde-se dizer que a primeira parte d'esta obra é 
uma maravilha litteraria pela graça ingénua, pela simplicidade 
profunda, que deixa descobrir debaixo d'aquelle8 queixumes de 
pastores os amores de Bernardim Ribeiro por D. Joanna de Vi- 
lhena. Já se interpretam hoje essas allegorias : A menina e moça 
que figura sob o anagramraa de Aonia é a formosíssima prima 
do rei D. Manuel, que a casou com o Conde de Vimioso ; a dama 
que lamenta a morte de seu filho é a rainha D. Leonor, viuva 



1 Archivo portuguez oriental, p. 57. — ' Gervinus, Hist. da Poesia 
allemã, t. ii, pag. 42. 



244 INTERPHETAÇÃO DA MENINA E MOÇA (EpOCa 3.* 

de Dom João ii, e a acção passa-se nas cercanias de Évora. A no- 
vella da Menina e Moça trata do caso dos dois amigos: o Caval- 
leiro da Ponte, que morre de uma queda é o príncipe D. Aífon- 
so, e 03 três annos do passo de armas sao as terçarias antes do 
casamento com a infanta D. Isabel, que alli figura sob o ana- 
gramma de Belisa, e como ella também morreu de parto; Bim- 
narder, anagramma de Bernardim, é o amante de Aonia que 
casa com Fileno, e que desapparece, como Bernardim Ribeiro 
deixa a pátria depois do casamento de D. Joanna de Vilhena 
com D. Francisco de Portugal. Uma vez achado este fio allego- 
rico, a Menina e Moça torna-se de uma leitura encantadora ; a 
redacção manuscripta que se guarda na Bibliotheca da Acade- 
mia hespanhola ^ consta somente da primeira parte ; a segunda 
parte, por disparatada e illegivel, pertence a outra mão, devendo 
considerar-se apocrjpha. 

As relações pessoaes entre Bernardim Ribeiro e Jorge de Mon • 
temor, que se descobrem nas suas éclogas, revelam-nos a influen- 
cia que a Menina e Moça exerceu na creação da Diana. Jorge 
de Montemor também escreveu a historia de uns amores infelizes, 
em castelhano, e embora a sua obra seja uma das mais notáveis 
da litteratura hespanhola, pertence nos esta pastural pela natura- 
lidade do poeta e pela origem da imitação. Nasceu este fundador 
da novella pastoral em Montemor, da familia dos Paivas e Pinas, 
em 19 de março de 1523; ^ educou-se em Coimbra, onde convi- 
veu com Camões por 1Õ39, e em 1540 partiu para Hespanha, 
onde exerceu o logar de musico da capella real de Madrid. A 
primeira parte da Diana foi publicada em Valência em 1542, 
exercendo uma extraordinária impressão no publico. Quando a 
princeza D. Joanna veiu para Portugal em 1552 para casar com 
o filho de D. João iii, Jorge de Montemor regressou á pátria no 
séquito principesco, não podendo demorar-se aqui, não obstante 
as vantagens que na corte lhe offereciam. Foi n'este tempo que 



1 Ms., n.o 76, de pag. 1 a 39. — 2 gsta data acha-se apontada no 
Calendário musical para el ano de 1860, que se attribue a Soriano Fuer- 
tes, auctor da Hist. de la Musica en Espana. 



Século XVI.) A DIANA DE JORGE DE MONTEMOR 245' 

renovou relações pessoaes com Camões e que escreveu uma apre- 
ciável epistola autobiographica a Sá de Miranda. O prurido da 
fama attrahia-o para um campo mais vasto, e voltando para Hespa- 
nha, acompanha Philippe ii a Inglaterra em 1558, d'onde re- 
gressa em outubro do mesmo anno. Por occasião da evacuação 
das tropas francezas de Turim, em 1561, teve Jorge de Monte- 
mor um duello, em que morreu, no dia 26 de fevereiro, porven- 
tura pelo conflicto das suas idéas catholicas contra os protestan- 
tes. Pela novella nào se pode descobrir se elle teve por modelo a 
Arcádia, de Sanasarro ; é certo porém que os factos particulares 
da sua vida contados sob a forma allegorica dão um certo inte- 
resse á narrativa pastoral, ás vezes desnaturada pelo appareci- 
mento de gigantes, selvagens e fadas das novellas de cavalleria 
e de nymphas das tradições clássicas da Renascença. Cabe a Jorge 
de Montemor a gloria de ter inspirado Shakespeare. Do pensa- 
mento da Epopêa nacional prosegiiido por Jorge de Montemor, 
falia Lourenço Craesbeck : « determinava de escrever em verso o 
Descobrimento da índia oriental, mas a morte que logo lhe sobre- 
veiu, lhe atalhou este intuito. » 

O género pastoral foi mais tenazmente cultivado, quanto mais 
entrava na decadência ; a Lusitânia transformada de Fernão Al- 
vares d'Oriente ó uma imitação directa da Arcádia de Sanasar- 
ro; consta de prosas e versos, em que o auctor conta a historia 
de uns amores que o fizeram partir da índia para a Europa, e 
em que introduz personagens do ultimo quartel do século xvi sob 
a apparencia de pastores. A Lusitânia transformada começou a 
ser escripta em 1594, como se infere da referencia á translada- 
ção dos ossos de Camões por D. Gonçalo Coutinho, quando lhe 
deu sepultura honrada. 

Os Contos e Historias de Proveita e Exemplo. — O desenvol- 
vimento dos Fabliaux da Edade média em novellas ou contos 
litterarios é um dos caracteres das duas Renascenças na Itália. 
Reproduz-se o phenomeno em todas as litteraturas românicas. Te- 
mos em Portugal a preciosa coUecção de Gonçalo Fernandes 
Trancoso, em que a par de um elemento popular tradicional se 
conhece a influencia directa dos novellistas italianos. A época em 
que Trancoso veiu da Beira para Lisboa pôde fixar-se era 1544 ; 



246 CONTOS DE TRANCOSO (Epoca 3." 

nos Contos proveitosos, allude-se á morte do principc D. João em 
1554 ; e no conto nono da segunda parte, refere o terrível desas- 
tre da Peste grande, de 1569 : « todos os que este anno de mil e 
quinhentos e sessenta e nove, n'esta parte perdemos mulheres, fi- 
lhos e fazenda, nos esforcemos e nam nos entristeçamos tanto que 
caiamos em caso de desesperação sem comer e sem paciência, 
dando occasião a nossa morte... » Na primeira edição dos Con- 
tos, de 1575, vem uma Carta á rainha D. Catherina com pre- 
ciosos dados biographicos, em que Trancoso diz que a cidade de 
Lisboa se viu despovoada, e que lhe morreram sua mulher, uma 
filha mais velha de vinte e quatro annos, um filho estudante e ou- 
tro que era menino do coro. Foi no meio d'e3te desastre que es- 
creveu alguns dos Contos para distrahir a imaginação ; sobrevi- 
veu-lhe um filho, António Fernandes, que em 1596 publicou a 
terceira parte da coUecçao, que ao todo consta de vinte e nove 
contos, importantes pelas suas origens tradicionaes, embora o es- 
tylo rhetorico e as divagações moraes lhe tirem grande parte do 
seu merecimento. Esses Contos acham-se hoje resumidos nos seus 
themas tradicionaes em uma moderna collecção novellistica, em 
cujas notas comparativas se apontam as suas principaes fontes. ^ 
Nos índices expurgatorios prohibem-se muitas novellas italianas, 
taes como Cento Novelle scelte, Pecorone, Facecie, Motti de Do- 
menico, o que nos define a corrente litteraria, que se converteu 
em Exemplos usados pelos pregadores. 



B) IPeriodo theologico e critico 

O conflicto entre o poder temporal e o espiritual que no sé- 
culo XIII determina a fundação das Universidades, e o appareci- 
mento do terceiro estado que fortifica a independência da reale- 
za contra o feudalismo, caracterisam outra vez a crise social do 
século XVI. N'esta segunda phase da Renascença o poder espi- 



Nos Contos tradicionaes do Povo portuguez, f. n, n.°« 151 a 167. 



Século XVI.) o SEGUNDO ASPECTO DA RENASCENÇA 247 

ritual tende a deslocar-se da egreja, abandonando a auctoridade 
dos dogmas pela livre critica individual ; e o poder temporal 
separado de toda a interferência clerical, reduz a actividade mi- 
litar a ura officio estipendiado nos exércitos permanentes, favo- 
recendo ao mesmo tempo o trabalho pacifico da burguezia e o 
absolutismo monarchico. Como consequência dos estudos philolo- 
gicos, é estudado o texto da Biblia, que foi traduzida nas lin- 
guas vulgares e tornada accessivel ás intelligencias individuaes ; 
a discussão dos textos sagrados exerce a rasão em uma theologia 
escholastica, e na renovação das noções moraes em uma artifi- 
ciosa casuistica. A decadência do poder espiritual da Egreja pa- 
receu provir da corrupção dos costumes da hierarchia ecclesias- 
tica; 03 que consideraram a crise moral sob este aspecto, appel- 
laram para uma reforma, tentando remodelar a Egreja sobre a 
sua primitiva constituição. O Protestantismo foi esta solução ir- 
reflectida, que entre os povos germânicos e saxões desviou os es- 
píritos para o fervor proselytico de imitação da primitiva Egreja 
e da idealisação absurda da theocracia hebraica. Dentro da pró- 
pria Egreja a crise foi vista sob outro aspecto : a decadência do 
poder espiritual provinha da usurpação da realeza, e por isso o 
papado procurou defender-se com essas duas milicias, a Inquisi- 
ção e a Companhia de Jesus. Estes dois factores perturbaram 
profundamente a marcha histórica do século xvi, um aterrando 
03 espíritos pelos processos tenebrosos e pelas hecatombes dos 
Autos de Fé, e o outro apoderando-se da corrente humanista da 
Renascença e conseguindo dirigir a educação publica da Europa. 
Na Itália a Inquisição teve um caracter politico manifesto, ga- 
rantindo a supremacia dos papas contra os partidários dos impe- 
radores ; mas sob a protecção do braço secular, este tribunal 
tornou-se uma espécie de policia secreta dos reis, sendo por isso 
substituído pelos Jesuítas, que se consideravam os janisaros do 
papado. 

a) Influencia da Inquisição em Portugal. — O estabeleci- 
mento da Inquisição em Portugal data da bulia de 23 de maio 
de 1536 ; o próprio D. João iii dizia que trocava gostosamente 
o seu titulo de rei pelo de inquísidor-geral, e coube esta dignida- 
de ao cardeal-infante Dom Henrique, era 3 de julho de 1539, 



248 A INQUISIÇÃO E os jesuítas (Época 3.* 

cooperando desde logo para a ruina da nacionalidade. Começa- 
ram as perseguições contra os christãos-novos, e nas satyras con- 
temporâneas, como as quadras da Maria Pinheira, contra o 
Conde da Castanheira, valido do monarcha, em que se dizia que 
era neto de uma judia, se vê quSo terrivel era esse golpe vibra- 
do contra qualquer farailia. Prohibiram-se as traducç5es da Bí- 
blia, e a entrada de livros extrangoiros, porque podiam trazer as 
heresias da Reforma. O espirito publico teve uma forte depres- 
são, cahindo n'essa tristeza já notada por Gil Vicente, quando 
diz que as « cantigas do prazer acostumado, todas tem som la- 
mentado. » E Sá de Miranda allude também com pezar á me- 
lancholia da corte, onde já se nao encontram os Serdes em que 
tanto figuraram D. João de Menezes e outros afamados poetas 
do Cancioneiro geral, cujas ultimas vozes elle ainda ouviu." A 
reforma da Universidade de 1537 ficou também improfícua pela 
intolerância inquisitorial. 

b) Os Jesuitas ajjoderam-se do Ensino publico. — Em 1540 
o Dr. Diogo de Gouvêa recoramendou a Dom João iii a nova 
corporação religiosa dos Jesuitas, e postoque dominasse na corte 
a Inquisição, o rei resistiu a todas as violências da rivalidade, 
protegendo deliberadamente a Companhia. Recebeu os padres 
que lhe enviou Ignacio de Loyola, e lhes recomraendou que « to- 
massem muito a seu cargo o cuidado dos moços fidalgos que tra- 
zia em seu paço, pêra que os doutrinassem nos bons costumes e 
08 instruíssem em toda christandade. » Prosegue o padre Bal- 
thazar Telles: «Obrigação que sempre foi continuando nos da 
Companhia, até o tempo de el-rei D. Sebastião, no qual os com- 
panheiros do Padre Maurício seu confessor, tinham á sua conta 
doutrinar os moços illustres que no paço serviam as pessoas 
reaes. » * Em 1542 Ignacio de Loyola manda para Portugal mais 
padres, que tinham estudado em Paris, e Simão Rodrigues diri- 
ge-se para Coimbra, onde funda o Collegio das Artes, sendo o 
governo d'elle dado ao Padre Gonçalo de Medeiros; para alliciar 
08 estudantes a concorrerem ao Collegio, o Padre Manoel Godi- 



Chr. da Companhia, liv. i^ cap. viri. 



Século XVI.) o VEJAMEN ACADÉMICO 249 

nho andava « vestido em trajos de estudante, para que d'esta 
roaneira o admittissem pelo habito, além de ser mui conhecido 
pela pessoa. Vivia elle e tratava com os estudantes, era religio- 
so, e mostrava-se secular...» ^ Foi com estas e outras artima- 
nhas, que 08 Franchinotes, como então lhes chamavam em Coim- 
bra, alliciaram os filhos da principal nobreza, como D. Gonçalo 
da Silveira, de vinte annos de edade. Dom Rodrigo de Menezes, 
e D, Theotonio de Bragança. O caso produziu uma certa im- 
pressão no publico, e o Reitor da Universidade D. Diogo de 
Murça fez era 1544 um inquérito ao Collegio das Artes, não 
descobrindo erros de doutrina, nem violência na conservação dos 
escholares. A Companhia achava-se escudada com o favor do 
monarcha, e tornava-se provocadora, como se viu no caso do 
doutoramento do padre Melchior Barreto; usava-se no fim da ce- 
remonia dar um Vejamen ao graduado, ^ e o padre Simão Rodri- 
gues ordenou ao Barreto que levasse ás costas pela rua da cida- 
de um carneiro esfolado, indo offerecel-o a casa do Dr. Marco 
Romeo seu padrinho no gráo. Barreto obedeceu, dizendo ao ca- 
thedratico de theologia : « Este é, senhor Doutor, o Vexame que, 
depois do meu doutoramento me dá a Companhia de Jesus, a 
fim de me graduar no espirito da mortificaçam e desprezo do 
mundo. » ' 

Quando D, João iii foi a Coimbra em 1Õ50, visitou o Colle- 
gio das Artes, que contava já quarenta alumnos de theologia ; os 
Jesuitas trataram logo de apoderar-se da Universidade, e por Car- 
ta de 1556 dirigida a Diogo de Teive, ordena o rei : « Mando-vos 
que entregueis esse Collegio das Artes e o governo d'elle mui 
inteiramente ao Padre Diogo Mirão, Provincial da Companhia de 
Jesus, o qual assim lhe entregueis do primeiro do mez de outu- 
bro que vem d'este presente anno de 1555 em diante...» Os 
CoUegios estavam sob a dependência das Universidades ; os Je- 
suitas inverteram esta organisação franceza. Por opposição á 
Universidade de Coimbra o cardeal-infante D. Henrique tenta 



1 Ibid., cap. XXI. — ^ Vid. Historia da Pedagogia em Portugal (Rev. 
de Estudos Livres, t. ii, p. 477). — ^ Chr. da Companhia, cap. xn. 



250 o HUMANISMO JESUÍTICO (Epoca 3.* 

fundar em Évora uma outra Universidade, obtendo bulias do 
Papa em 1558 ; sendo inaugurada no 1." de novembro de 1559, 
já em 1563 era equiparada á Universidade de Coimbra em pri- 
vilégios. Nos Apontamentos dos Prelados, de 17 de fevereiro de 
1563, protesta-se contra esta absorpção dos Jesuítas: «Que o 
Collegio real de Latim e Artes se reduza ao que era d'antes, 
por ser de menos muita despeza, e avia n'elle Mestres dos que 
mais sabiam; que mais focil he acharem-se de todo o reino, que 
soo de hua Companhia, e de milhores Mestres se segue mais 
fruito. — E por ser hum logar só e pubrico, que temos como 
aquelle, nào estando reduzido soo aos da Companhia, possam os 
filhos dcs nobres e os da terra leer e perfeiçoar-se naquellas pro- 
fissões, e aja Latim no Reino e JMestres que o ensinen, que vae 
faltando de todo, e unir-se-ha com a Universidade, sem aver di- 
visão. » ^ Era Carta de Martim Gonsalves da Camará ao Reitor 
da Universidade em 1570, respondia a queixas análogas, que os 
portuguezes se contentavam mais em serem « catholicos, ainda 
que menos Latinos. » 

Os Jesuítas, que na questão theologica se achavam em anta- 
gonismo com os Protestantes, oppondo a doutrina das obras ou 
do livre arbítrio á da graça, obedeceram á cega admiração do re- 
gimen polytheico, tornando-se agentes de propagação d'e3se exa- 
gerado humanismo da Renascença. Em uma Carta do Padre Pa- 
lanco ao Padre Mirao, em 1564, lê-se : « Na éra em que estamos, 
por toda a parte se tem muito em conta a erudição nas cousas 
de humanidades, tanto que sem ellas a doutrina melhor e mais 
solida parece que luz menos. — Por isso ao P. Geral pareceu 
conveniente que se escrevesse ás províncias, que tenham conta 
com estas letras humanas, e façam estudar bem, quem mos- 
trar aptidão, pelo menos o Latim, e a Rhetorica, e que não pas- 
sem ás artes ou pelo menos á theologia sem se excitarem bem 
n'e8ta8 lettras. » ^ 

O regimen pedagógico dos Jesuítas acha se implícito n'esta 



1 Ap. Reflexões hist., t. u, pag. 116. — * Livro das Obediências ge- 
raes (Extractos de Gabriel Pereira.) 



Século XVI.) os índices expurgatorios 231 

mesma Carta do Padre Palanco : « que nenhum mestre de Theolo- 
gia nem de Artes tenha opinião nova. » O aristotelismo, que de- 
cahia na Europa, manteve-se em Portugal de um modo tão fer- 
renho, que se tornou conhecido pelo titulo de Philosophia Conim- 
bricense. O Cardeal infante ordenou em 1564 a formação de ín- 
dices Expurgatorios para os Livros com doutrinas prohibidas ; o 
poeta António Ferreira allude a este facto: (ii, 112.) 

Escuro e triste foi aquelle dia 

Que ao saber e engenho um juiz foi dado, 

Que nunca ao claro sol olhos abria. 

c) Damião de Góes e a situação dos Historiadores portiigue- 
zes. — Pela instituição dos Chronistas-móres do reino, que durou 
desde o começo da monarchia, em que este cargo era inherente 
aos Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, ^ até Garrett 
sob o regimen parlamentar, a Historia foi sempre uma espécie de 
registro authentico, em que a individualidade critica era sacrifi- 
cada á conveniência official. A actividade particular exerceu se 
compondo relações, memorias, viagens, com uma exuberância 
tal, que esse material histórico só por si constituo uma litteratu- 
ra. Os Chronistas do século xvi, são poderosas individualidades, 
que em geral atravessaram grandes fadigas e aventuras, como 
António Galvão, Castanheda. Damião de Góes, Fernão Mendes 
Pinto e Diogo do Couto; esta situação moral dá ás suas narrati- 
vas um colorido inimitável que as torna quasi uma obra de 
arte. Muitas vezes a auctoridade mandava truncar ou eliminar 
certas paginas das Chronicas ; é por isso que espirites eminentes 
ficaram simplesmente narradores annalistas, e aquelle que procu- 
rou dar á Historia uma feição critica, Damião de Góes, morreu 
victima da sua independência intellectual. 

Fernão Lopes de Castanheda, um dos primeiros chronistas a 
que cabem as considerações expostas, era natural de Santarém, e 
filho illegitimo de Lopo Fernandes de Castanheda, primeiro Ou- 
vidor de Goa. Acompanhou seu pae para a índia era 1528, e alli 



* D. Nicoláo de Santa Maria, Chr. dos Regrantes, P. ii, cap. 9, n.° 8. 



h 



252 VERDADEIRA CONCEPÇÃO DA HISTORIA (EpOCa 3.' 

compilou todos os factos que comprehendem os cincoenta annos da 
sua Historia do Descobrimento e conquista da índia pelos Portu- 
guezes. Relata as condições em que escreveu, e que abonam a sua 
veracidade: ^ Mas que a fui saber á índia, passando na viagem 
bravas è vivissimas tormentas com que me vi perto da morte e 
sem esperança da vida, com trabalhos, de grandes fomes e de 
muyto maior sede. E lá com mil perigos, em mui espantosas pe- 
lejas de bombardas, espingardadas sem conta; e antre ellas sou- 
be eu a verdade do que havia de escrever de muitas cousas de 
vista e ouvido. » Já em Portugal e entregue á redacção histórica, 
procurava todos os que sabia terem estado na índia, para con- 
sultal-os : « E assy em trelados e lembranças que muitos curiosos 
escreveram o que se fazia n'aquelle tempo. » Assim Castanheda 
define o processo da elaboração da^ historia : « E por isso quem 
hade escrever historia, hade fazer as diligencias que eu fiz e vêr 
a terra de que hade tratar, como eu vi, que assi o fizeram esses 
historiadores antigos e modernos. E bem sentia isto el-rei Dom 
Affonso o Quinto de Portugal, quando mandou Gomezeannes 
d' Azurara, cronista d'este8 reinos a Alcacere pêra lá escrever 
como testemunha de vista o que os nossos fizessem. » Castanhe- 
da foi guerreado por duas ordens de influencias, os eruditos 
e 03 descontentes com a franqueza das suas narrativas. ConX 
tra 09 eruditos allega a importância que a sua Historia achara 
fora de Portugal: «Do que he testemunho imprimir-se agora em 
Pariz em lingua franceza o primeiro livro desta Historia, que 
tornou na mesma lingua Mestre Nicoláo (Grouchy), que cá foy 
lente d'artes no Collegio real. . . » Os descontentes com a sua 
imparcialidade fizeram com que o nono e decimo livros fossem 
supprimidos, como nol-o descobre Diogo do Couto narrando o caso 
do requerimento de alguns fidalgos a Dom João iii, que por te- 
rem-se achado no segundo Cerco de Diu, pediam que o rei man- 
dasse eliminar o decimo livro de Castanheda por motivos de suas 
;, honras. '^^ j^este tempo (1559) já Fernão Lopes de Castanheda 
/ não era vivo, « que com o fim da Historia se lhe acabou a vida, 
que tinha muito trabalhada de muitas indisposições causadas de 

* Década IV, liv. 5, cap. 1. 



MCUlO XYI.) CARACTER DOS HISTORIADORES 253 

continuo cuidado e de continuas vigilias e leitura de muitos pa- 
peis que da índia trouxera. » Castanheda nunca encontrou re- 
compensa de suas fadigas, e para sustentar a familia conseguiu \j^^ 
apenas o miserável emprego de Bedel da Faculdade de Artes e*'" 
Guarda do Cartório da Universidade: « Gastei vinte annos, que 
que foi o melhor tempo de minha idade, e n'elle fui tão persegui- 
do da fortuna e fiquei tão doente e pobre, que por não ter outro 
remédio com que me mantivesse, acceitei servir uns officios na 
Universidade de Coimbra, onde no tempo que me ficava desoc- 
cupado do serviço d'elles, com assas fadiga do corpo e do espiri- 
to acabei de compoer esta Historia, que reparti em dez livros. » 
Tal é a individualidade do chronista; a sua obra tem o colorido 
original de um tal caracter. 

António Galvão, é ura chronista cuja personalidade extraor- 
dinária toca o assombro ; dotado do excepcional cosmopolitismo a 
que obedecemos desde as expedições marítimas do século xv, ani- 
mado do interesse scientifico dos espíritos da Renascença, Galvão 
obedeceu á paixão ideal e já extincta do civismo, ou o amor da 
pátria que nos tornou grandes na civilisação moderna. Era quin- 
to filho do antigo chronista Duarte Galvão (d. 1446, ms. 1Õ17), 
nascido fora do matrimonio, na índia ; ' foi nomeado capitão de 
Malaca em 1536 pelo governador Nuno da Cunha, conseguindo 
remediar pela sua prudência todos os erros dos antecessores. De- 
pois de ter augmentado em mais de quinhentos mil cruzados o 
rendimento da coroa, foi-lhe oíFerecido o throno de Ternate, por 
se achar alii extincta a dynastia; findo o triennio do seu gover- 
no, regressou á Indi^i e depois a Portugal, e quando esperava a 
recompensa de tantos sacrificios, achou a indiíferença e a misé- 
ria, tendo de acolher-se ao hospital onde era sustentado alterna- 
damente por alguns amigos ! N'e8te lamentável estado viveu de- 
zesete annos, sem conseguir despacho aos seus requerimentos, de 
modo que para o enterro, em 1557, a confraria da corte occor- 
reu com as despezas e o hospital com a mortalha. Entrou para o 
serviço do estado com uma fortuna apreciável, e nem depois de 
morto lhe pagaram uma parca divida contrahida. Passados seis 

1 Cardoso. Agiologio Luzitano, t. ii, p. 140. 



254 DÉCADAS DE BARHOS (EpOCa 3.* 

annos, é que o seu testamenteiro e amigo Francisco de Sousa Ta- 
vares conseguiu publicar o notável livro Tratado dos diversos e 
desvairados caminhos por onde nos tempos passados a Pimenta e 
especiaria veiu da índia ás nossas partes, e assi de todos os Des- 
cobrimentos antigos e modernos que são feitos até á era de lõõO. 
No meio das suas doenças e decepções, fiado sempre em que a in- 
justiça da sua época nào prevaleceria contra a integridade do que 
era dotado, António Galvão occupava-se no labor d'este livro, 
escripto nas torturas a de animo affligido » como diz o seu editor 
e amigo. 

João de Barros, educado sob a disciplina da erudiçRo huma- 
nista, preparou o seu estylo histórico escrevendo uma diflfusa no- 
vella de cavalleria e tomando Tito Livio, annalista rhetorico, pa- 
ra seu modelo. Tendo seu tio Lourenço de Cáceres, mestre do In- 
fante D. Luiz, fallecido em 1531 sem ter cumprido o seu compro- 
misso como Chronista-mór do reino a quem competia escrever a 
Historia da índia, João de Barros oífereceu-se a D. João iii pa- 
ra desempenhar esse encargo. Plagia no primeiro livro das Dé- 
cadas a Chronica de Azurara, fiado na existência do único exem- 
plar manuscripto que possuia, mas corrige a glorificação do in- 
fante D. Henrique mostrando como as navegações da pretendida 
eschola de Sagres eram um mercantilismo com que o Mestre de 
Christo resistia contra a unificação monarchica. A vida de João 
de Barros foi perturbada com desastres commerciaes, que lhe 
não macularam a honradez; já velho retirou-se á sua quinta da 
Ribeira de Alitem, em Pombal, onde falleceu ao fim de três an- 
nos, em 20 de outubro de 1570, com setenta e quatro annos de 
edade. 

Em 1591, Filippe ii mandou arrecadar os fragmentos das 
obras de João de Barros, entre elles o da quarta Década, em po- 
der de sua nora D. Luiza Soares, mulher de Jeronymo de Bar- 
ros ; foram estes papeis entregues a D. Fernando de Castro Pe- 
reira, mas tendo fallecido pouco depois, vieram para o Collegio 
de Sam Roque para serem entregues ao jesuíta Christovam Cla- 
vio ; como este não veiu de Roma, foram mandados entregar a 
Duarte Nunes de Leão, que não pôde tiral-os a limpo, cumprin- 
do este encargo em 1616 João Baptista Lavanha. 



Século XVI.) FALTA DE LIBERDADE NOS HISTORIADORES 2oO 

Diogo do Couto, foi encarregado por Fillippe ii de continuar 
as Décadas de Barros ; distingue-se este chronista pelas observa- 
ções dos costumes e pela narrativa pittoresca aproveitada das 
conversas dos próprios heroes que memora. Amigo intimo de Ca- 
mões, Diogo do Couto era também poeta e soldado ; foi-lhe pre- 
ciso dez annos de batalhas na índia, para que a natureza tornas- 
se a despontar sob as devastações da educação jesuitica do Colle- 
gio de Sam Roque. 

Nascido em 1Õ42, e protegido pelo Infante D. Luiz, partiu 
para a índia aos dezesete annos, na armada de 1559. Severim 
de Faria ftilla das suas obras poéticas, hoje perdidas: « Compoz 
alguns poemas assi na lingua vulgar, em que teve particular gra- 
ça, tudo obras lyricas e pastoris, de que deixou um grande tomo 
de Elegias, Éclogas, Canções, Sonetos e Grosas. » No regresso a 
Portugal em 1570, foi um dos que soccorreram Camões «seu 
matalote e amigo. » Na continuação das Décadas, Couto susten- 
tou uma nobre independência de juizo, dizendo sobre a sup- 
pressão do decimo livro de Castanheda exigida pelos partidários 
de D. João de Castro: «A estes e outros riscos &e põem os es- 
criptores que as escrevem em quanto vivem os homens de quem 
o fazem ; . . . nem por respeitos, nem por temor deixaremos de as 
fallar; e postoque também em algum tempo se mande recolher 
algum volume dos nossos, outro virá em que se ellas manifes- 
tem. » Por causa d'esta independência a oitava e nona Décadas 
foram roubadas a Diogo do Couto em uma occasiao em que esta- 
va doente. O caracter nacional estava já bastante degradado, 
«pois houve alguém que dizia publicamente que não queria an- 
dar em Chronicas, fazendo pouco caso que n'ellas se tratasse d'el- 
le com elogios ou vitupério. » Diogo do Couto foi nomeado Guar- 
da-mór do Archivo da índia, e morreu em Goa em 10 de De- 
zembro de 1616. 

Damião de Góes, é o primeiro chronista critico, e um espirito 
verdadeiramente encyclopedico em convivência com as mais ele- 
vadas capacidades da Renascença e da Reforma; nasceu em 
Alemquer em 1501, e entrou muito cedo para o serviço do pa- 
ço, sendo em 1 523 nomeado por D. João iii escrivão da Feitoria 
da HoUanda. Sua mãe era neta de um diplomata hollandez, cir- 



á,')G A DESGRAÇA DK DAMIÃO DE GÓES (EpDCa 3.* 

cumstancia que lho facilitaria as relações em Antuérpia, onde 
permaneceu até 1Õ29. O infante D. Fernando occupava-o em 
commissÕes litterarias, e em negócios diplomáticos foi ás cortes 
da Polónia, Dinamarca e Suécia. Em Wurtemberg conviveu 
com Luthero e Melanchton, que viviam na pobreza, e esse facto 
não ficou extranho ás perseguições religiosas de que foi victima ; 
em Friburgo conviveu com o epigone dos humanistas da Renas- 
cença, Erasmo, acompanhando -o nos seus últimos momentos. 
Quando Damião de Góes cursava os estudos na Universidade de 
Louvain foi chamado a Portugal para thesoureiro da Casa da ín- 
dia, cargo de que se eximiu, conseguindo ir terminar a sua edu- 
cação humanista em Pádua. Fixou-se em Louvain, onde casou, e 
nas guerras entre Carlos v e Francisco i, a cidade elegeu-o para 
dirigir a defeza. Regressou a Portugal por pedidos de D. Joào iii, 
sendo nomeado Guarda-mór da Tone do Tombo, e encarregado 
de escrever a Chronica de D. Manuel. O Cardeal D. Henrique 
prohibira o seu livro sobre a religião dos Ethiopes, e na sua hos- 
tilidade mandava por via dos secretários de estado reformar a 
Chronica, como se vê pela carta de 1Õ66, escripta em nome de 
D. Sebastião : « Vi os capítulos que me enviastes, assim o que 
falia no Cardeal Infante meu tio, como o que toca ás cousas dei 
rei Dom Fernando. No Cardeal mandei emendar o que vereis e no 
dei rei Dom Fernando mudar o que também vereis pelo caderno 
que com esta vae, conforme ao qual o fareis lançar em seu lu- 
gar. » ^ Em 1Ò64, occupado Damiões de Góes na redacção d'esta 
Chronica, lembrou a Pedro de Andrade Caminha, que alcançasse 
da viuva do Infante D. Duarte alguns apontamentos ; a infanta 
enviou-lhe uma relação das penitencias e visões do marido. Sobre 
isto disse o chronista a Caminha : a que não havia liomem que 
na morte não dissesse algumas parvoíces. » Passados sete anno.-i, 
Damião de Góes era preso nos cárceres da Inquisição, e Cami- 
nha apresentava-se espontaneamente a aggravar-lhe a perseguição 

^ Vem io Museu Portuense, de 1838. Este caderno, que emenda os ea- 
pitulos 23 e 27 da Parte ni da Chronica de D. Manuel, acha-sc na Biblio- 
tlieca publica do Porto, e as emendas «de uma mão que nos parece ser do 
Dr. António Pinheiro, bispo de Miranda que então figurava no Conseliio 
do Estado. » 



Século XVI, ) o TERCEIRO ASPECTO DA RENASCENÇA 257 

com O seu miserável depoimento. A reputação de Damião de 
Góes era europêa, e por isso o não queimaram, mas confiscaram- 
ihe todos os seus bens, e coberto de sarna por todo o corpo, o 
Santo Officio o mandou entregar ao mosteiro da Batalha, onde 
morreu em cárcere penitencial, em 16 de dezembro de 1572. 

Muitos são os Chronistas do século xvi, cuja feição litteraria 
se resente do meio social em que escreveram, tendo comtudo a 
importância da grande época de que foram testemunhas mais ou 
menos conscientes; merecem menção especial Gaspar Corrêa com 
as Lendas da índia, e Braz de Albuquerque, com os Commenta- 
rios de Ajfonso de Albuquerque, essa a nua e chã pintura » como 
os caracterisa o poeta quinhentista Dr. António Ferreira. Como 
todos 03 outros géneros litterarios, a Historia também decahiu 
nos fins do século xvi, não só por uma falsa erudição, de que 
é representante Frei Bernardo de Brito, como por se ter desviado 
a redacção das chronicas para as ordens nionacliaes. N'esta phase 
da Renascença em Portugal o dogmatismo theologico venceu o 
espirito critico. 



C) Período scieutifico e philosophico 

Emquanto os estudos humanísticos concorriam na Europa pa- 
ra a renovação das Sciencias pela leitura das obras mathemati- 
cas de Archimedes, Appollonio, Euclides e Diophante, e pelas 
obras politicas de Thucydides e Aristóteles, nós os portuguezes 
pelas descobertas geographicas e pela circumducção do globo coad- 
iuvavamos o critério da observação e da experiência, que deter- 
minou o estado actual da consciência moderna. As descobertas as- 
tronómicas de Copérnico e de Galileo deram logar a seguras con- 
cepções sobre o systema do mundo, e levaram os espirites a reco- 
nhecer a necessidade de uma nova synfhese philosophica, tentada 
com rigor por Bacon e Descartes, porém com o vicio de exage- 
rado subjectivismo. N'e8tas duas formas da actividade mental da 
Renascença, fomos dignamente representados ; na parte scientiji- 
crt por capacidades eminentes como Garcia d'Orta, D. Francisco 
de Mello e Pedro Nunes, e na parte philosophica por António de 



258 ESTUDOS MATHEMATICOS (EpOCa 3." 

Gouvêa e principalmente por Francisco Sanches. A grande sora- 
ma de livros de viagens, que apresenta a litteratura portugueza 
do século XVI, deve também considerar-se como uma fecunda co- 
operação scientifica, como se vê pelos geographos coevos copiando 
as relações portuguezas, e as noticias transmittidas pelo embaixa- 
dor de Veneza Pietro Pasqualige, e pelo enviado do Duque de 
Ferrara, Alberto Cantino sobre as viagens de Gaspar Corte Real 
nas regiões da America, Uma grande curiosidade scientifica esti- 
mulava, a par da audácia aventureira, a alma portugueza. 

a) Garcia d'Orta — D. Francisco de Mello — Pedro Na- 
nes. — O velho professor da Universidade de Lisboa, o Dr. Gar- 
cia d'Orta, obedeceu á extraordinária corrente scientifica da Re- 
nascença, acompanhando Martim Aífonso de Sousa para a índia 
em 1534 ; durante trinta annos frequentou as cortes de numero- 
sos rahjas, informando-se de todas as drogas e plantas medicinaes, 
consignando os seus conhecimentos no celebre livro dos Collo- 
quios dos Si'm2)lices e Drogas, impresso em Goa em 1563 e logo 
traduzido em latim por Clusius em 1567. É n'este livro que se 
encontra a primeira descripção do Cholera asiático. O typo morai 
do venerando sábio acha-se descripto na Ode com que Camões 
acompanhou este livro, escripto em lingua portugueza, quando em 
geral a lingua latina era pelos eruditos preferida para os traba- 
lhos scientificos. 

Os estudos matheniaticos foram os que maior desenvolvimento 
receberam na Renascença, por efíeito do conhecimento dos escri- 
ptores gregos d'esta sciencia ; Mausolico vulgarisa as secções có- 
nicas, Galigai as equações do segundo gráo, Tartaglia e Cardan 
a applicação da Álgebra á Geometria. Em Portugal distingue-se 
o celebre D. Francisco de Mello, nascido em Lisboa em 1490, o 
qual como estudante dei rey, frequentou a Universidade de Paris, 
com o subsidio de 38/5160 reis pagos pela Feitoria de Flandres 
por ordem de D. Manuel. Frequentou os cursos de Mathematica 
e Philosophia, e regressando a Portugal, D. João iii o tomou 
para mestre do infante D. Henrique. No conflicto das ideias do 
século, fez-se padre ; obedecendo á erudição humanistica, escre- 
veu em latim Elementos de Geometria necessários á Astronomia, 
e commentou em latim obras de Euclides e de Archimedes. Gil 



Século XVI.) o NONio 259 

Vicente, que na poesia reagiu contra o prurido da erudição gre- 
co-romana, ó coherente no seu espirito sarcástico quando falia em : 

Esse Francisco de Mello, 
Que sabe sciencia avondo. 
Diz que o Céo é redondo 
E o Sol sobre amarello. 
Diz verdade, não o escondo... 

, O desenvolvimento da Mathematica actuou sobre os processos 
da Astronomia e da Physica ; a esta corrente de trabalhos per- 
tence Pedro Nunes, (1492 a 1577) que estudou Medicina e Philo- 
sophia era Lisboa, e Mathematica na Universidade de Salaman- 
ca. Foi á índia como Vedor da Fazenda era 1519, e dos resulta- 
dos das observações nas suas viagens se aproveitou no livro De 
Crejmsculis, de 1542, no qual «existem elementos da theoria de 
Newton sobre as cores.» Em 1529 foi nomeado Cosmographo- 
raór do reino, e em 1530 professor de Philosophia na Universida- 
de de Lisboa; acompanhou a Universidade na trasladação para 
Coimbra de 1537, regendo a cadeira de Mathematica desde 1542 
a 1562. Exerceu uma grande influencia scientifica, attribuindo- 
se-lhe a prioKdade no estudo da loxodroraia ou propriedades das 
linhas curvas ; e Tycho-Brahe e Halley serviram-se nos seus tra- 
balhos astronómicos do apparelho micrometrico, conhecido pelo 
nome de Nónio, tomado do seu inventor. 

É tambera de um elevado mérito scientifico a nossa litteratu- 
ra de viagens. De todos os viajantes portuguezes o mais extraor- 
dinário é sem duvida Fernão Mendes Pinto, nascido em Monte- 
mór-o-veího, em 1509, vivendo alli na estreiteza da casa paterna 
até 1519, em que entrou para moço da Camará do Duque de 
Coimbra D. Jorge de Lencastre. Embarcou para a índia aos vin- 
te annos de edade, e n'essa vasta região da Ásia divagou duran- 
te vinte 6 um annos, sendo captivo três vezes e dezesete vendi- 
do. As suas maravilhosas aventuras na China, na Tartaria, era 
Sião, em Calaminhan, no Pegu e no Martavão, as suas relações 
com o jesuita Sam Francisco Xavier, tudo relatou no livro inti- 
tulado Peregrinação. Regressou a Portugal em 1558, e desde es- 
sa época até 1580, era que falleceu na villa de Almada, escreveu 

4c 



260 RELAÇÕES DE VIAGENS (EpOCa 3.* 

na miséria esse livro intimo das suas memorias, cujo manuscripto 
deixou á Casa Pia dos Penitentes de Lisboa. Poucos serão os li- 
vros comparáveis á Peregrinação pelas condições únicas em que 
foi escripto e pelo interesse crescente que provoca; longo tempo 
considerado como fabuloso, acha-se hoje comprovado pelas explo- 
rações dos modernos viajantes, readquirindo um alto valor scien- 
tifico. D'esta obra plagiou o Padre João de Lucena as paginaa 
mais importantes da Vida de Sayn Francisco Xavier. 

O Itinerário de António Tenreiro, que veiu da índia por ter- 
ra a Portugal, em 1529, é também o producto d'essas assombro- 
sas organisações cosmopolitas, que possuíamos no século xv. E 
também notável a Verdadeira informação das terras do Preste 
João, do Padre Francisco Alvares, que em 1520 acompanhou D. 
Rodrigo de Lima ; e a Pelaçam verdadeira do descobrimento da 
Frolida, em 1558. Por fira, mencionaremos o Itinerário da Ter- 
ra santa, por Frei Pantaleão do Aveiro, escripto depois da sua 
jornada era 1563. 

O gosto e o interesse pelas viagens deram logar á creaçao de 
nm género de litteratura popular, as Relações de Naufrágios, es- 
criptas em folhas volantes. Destaca-se n'este género o opúsculo, 
ainda hoje popular, intitulado O Livro das ParticBfis do Infante 
Dom Pedro; Ferdinand Denis revela a existência de um exem- 
plar na Bibliotheca nacional de Paris, cora o titulo Livro do In- 
fante Dom Pedro, que andou as quatro partidas do mundo, Lis- 
boa 1554. Julga Ferdinand Denis, que a redacção primitiva fos- 
se em castelhano, porque a primeira edição conhecida é a castelha- 
na de 1546, e porque nas suas falias o Infante Dora Pedro apro- 
senta-se aos outros monarchas como filho de um rei poderoso que 
conquistou a Hespanha, ou como vassallo e parente do rei de 
Leão. ^ Pertence ainda ao género das Mirahilia de Mandeville, 
Cubero e outros phantasistas. 



1 Este livro attribuido a Gomes de Santo Estevam é conheeido no vul- 
go com o titulo as Seíe partidas do Infante Dom Pedro, por elT<'ito de andar 
ligado com o opúsculo de Los siete Sabias de Roma, con cl Libro dei Infante 
Dou Pedro de Portugal, que anduvo las quatro partidas dei mundo. Harce- 
lona, 1593. Gallardo, Bibl., p. 114i. 



Século XVI.) REACÇÃO CONTRA O ARISTOTELISMO 261 

A litteratura popular do século xvi pertencem as relações de 
naufrágios ; ahi se encontra a genuína prosa portugueza, natural, 
espontânea, verdadeira, era que o narrador desconhece a affecta- 
çào rhetorica, transmittindo-nos plenamente a sua profunda com- 
nioção; o Naufrágio do galeão Grande, em que succedeu a per- 
da de Manoel de Sousa Sepúlveda e sua mulher, em 15Õ2 ; o 
Naufrágio da Não Sam Bento, em 1554, da Náo Conceição, em 
1555, da Náo Águia e Garça, ém 1559; de Santa Maria da 
Barca, no mesmo anno ; da Náo Sam Bento, em 1 560 ; o Nau- 
frágio de Jorge de Albuquerque Coelho, em 1565; da Náo Sa7n 
Taiago, em 1585 ; da Náo Sam Thomé, em 1589, eacripta por 
Diogo do Couto; da Náo Santo Alberto, em 1593, e da Náo 
Sam Francisco, em 1596, appareceram em folhas volantes para a 
exploração do gosto popular. * 

b) A syntkese negativista de Francisco Sanches. — Todas as 
vezes que em uma época entra em circulação um grande numero 
de ideias, os espiritos sentem a necessidade de reorganisarera as 
suas concepções por uma nova synthese. Aos trabalhos críticos e 
scientiíicos da Renascença são correlativas as luctas doutrinarias 
para destituir a philosophia scholastica que se identificara com 
aristotelismo ; as Universidades que eram então impotentes para 
fundarem um novo poder espiritual, tornaram-se focos de atheis- 
mo, como a de Pádua, e de heresias como as de Modena e Ve- 
neza. Existia uma revolta contra o subjectivismo theologíco, e 
campeava a critica de negação ; em 1536 na Universidade de 
Paris apresentou-se Pedro Ramus sustentando a celebre these : 
Qucecumque ab Aristotele dieta essent, commentitia esse. Todas as 
coisas ditas por Aristóteles são pura mentira. A these seduziu os 
espiritos mais especulativos, e o pedantismo doutoral presentiu a 
sua ruina, quando em 1543 Ramus publicou as Aristotelicce 
animadversiones. Era preciso oppôr um antagonista a Pedro Ra- 
mus ; o reitor da Universidade de Paris escolheu o grande huma- 
nista e jurisconsuno portuguez António de Gouvêa, que n'es- 
se mesmo anno publicou o Pro Aristotele responsio adversus Pe- 



^ Muitas d'est<i8 relações foram colligidas no século xvni por Bernar- 
do Gomes de Brito, nos dois volumes da Historia trapco-maritima. 



262 PHiLOsoPHiA coNiMBiucENSE (Epoca 3." 

tri Rami calumnias, sendo o seu triumpho proclamado por um 
conselho de árbitros composto de Pedro Danes e Francisco de 
Vicomercato, e pelo reitor João de Bomont com JoSo Quentin 
decano de direito. Porque defendia António de Gouvêa as doutri- 
nas de Aristóteles contra o espirito de livre critica da Renascen- 
ça, quando este professor illustre era apontado como sceptico 
no meio das luctas religiosas, e o próprio Calvino o considerava 
como atheu (Calvinus vocat illum atheam) ? ^ António de Gouvêa 
era ura dos mais profundos humanistas da Renascença, como o 
confessa De Thou ; assim como os seus estudos e commentarios 
sobre Cícero, Virgilio e Terêncio lhe revelai-am a verdadeira 
comprehensão do Direito romano, sendo por isso o iniciador da 
escola de Cujacio, também a leitura directa do texto grego de 
Aristóteles lhe revelou quanto as doutrinas do grande sábio an- 
davam pervertidas pelas apostillas dos commentadores escholasti- 
cos. Gouvêa precedeu o século xix na rehabilitação de Aristóte- 
les, conhecido na Edade média através das subtilezas averrois- 
tas ; foi esta a causa da força da sua argumentação. 

Contra a emancipação intellectual da Renascença, organisa- 
ram-se os Jesuítas, estabelecendo o nexo entre a religião e a lit- 
Uratura ; tornaram-se pedagogistas para dirigirem o ensino pu- 
blico europeu, e sustentarem com todo o afinco as velhas formas 
peripateticas, exgotando a rasão no esforço de conciliação dos 
diversos commentarios de Aristóteles. E então que em Portugal 
recrudesce de intensidade o ensino da Philosophía aristotélico -ale- 
xandrista, quando decahia em descrédito na Europa; o Collegio 
das Artes de Coimbra brilhou pela argúcia dos commentadores 
do Organum, tornando-se esta renovação dialéctica dos Jesuítas 
em Portugal conhecida como um phenomeno singular e pelo titu- 
lo de Philosoj)hia Conimbricense, 

N'estas vacillações doutrinarias era impossível formar a syn- 
these para a qual convergiam os espíritos, taes como Bacon e 
Descartes ; e d'e8ta própria impotência tirou Francisco Sanches 
os elementos com que estabeleceu o seu negativismo philosophico, 

1 Scaligerana, p. 79 : apud Caillemer, Étude sur Antonine de Govea, 
p. 33. 



Século XVI.) QUOD NIHIL SCITUR 263 

que o tornou o verdadeiro precursor de Descartes, de Kant e de 
Augusto Comte. Francisco Sanches era natural de Braga (n. 
1062} ; filho do medico António Sanches, acompanhou seu pae 
para França, viajou pela Itália e permaneceu algum tempo em 
Roma. Doutorou-se em Montpellier, e segundo Brucker ensinou 
philosophia por espaço de dezouto annos, e onze medicina, escre- 
vendo ao mesmo tempo sobre Mathematica. Pelo ensino philoso- 
phico conheceu os vicios da velha dialéctica, e pela Mathematica 
e Medicina comprehendeu não só a necessidade da renovação da 
methodologia, como dos novos conhecimentos que tinham de pres- 
tar-se á deducção philosophica. Era-lhe impossível satisfazer-se 
com o idealismo de Ramus ou com o aristotelismo-alexandrista, e 
de 1576 data a formação do seu livro extraordinário De multum 
nobile et prima universali Scientia — Quod nikil scitur. O livro 
veiu á luz em 1581. A fórmula negativista Nada se sabe, em uma 
época de conflicto entre avS noções absolutas da theologia e da 
metaphysica, foi acolhida com assombro. Sanches apenas susten- 
tava o principio positivo da relatividade dos conhecimentos huma- 
nos ; elle fundamenta a sua doutrina sobre a noção de Sciencia, 
isto é, um conhecimento baseado sobre três elementos : res cogni- 
ta ou os dados objectivos, ens cogaoscens ou a receptividade das 
relações, e cognitio ipsa ou a subjectividade mental na forma su- 
perior e tibstracta de lei. Para a comprehensão da res cognita es- 
tabelece Sanches a necessidade da variedade de sciencias, sua su- 
bordinação hierarchica e educação encyclopedica; quanto ao eus 
cognoscens, reconhece que as apparencias afastam o espirito da 
realidade, e que os conhecimentos advindos e comprovados pelos 
sentidos são os mais perfeitos ; quanto á cognitio ipsa, diz : « Ne- 
nhuma sciencia se formou com Syllogismos, ao contrario muitas 
se têm esteriiisado e pervertido por causa d'elles. » A revolução 
philosophica dos séculos xvii e xviii estava implícita na conce- 
pção de Sanches; renova-se a psychologia em Locke e Hume, 
como ratificação do Eus cognoscens, e Kant na sua poderosa es- 
peculação critica chegou á conclusão suprema, de que o conheci- 
mento só era verdadeiro quando se realisava o accordo entre o 
dado objectivo {res cognita) e a noção subjectiva [cognitio ipsa). 
Sanches tinha eífectivamente em vista organisar a nova synthese 



264 o IDEALISMO PLATÓNICO (EpOCa 3.'' 

philosophica; ^ faltavam-lhe o concurso das sciencias inductivas, 
como a Chimica e a Biologia, systematisadas no fim do século 
xviii, e as profundas investigações psychologicas da Escola es- 
cosseza, que coadjuvaram o criticismo de Kant. Em todo o caso, 
elle não é um systematisador do scepticismo, como se repete es- 
tupidamente nos apanhados de historia da Philosophia, mas o pre- 
cursor da grande synthese da relatividade pelo accordo e depen- 
dência dos elementos objectivos e subjectivos do conhecimento. 

Os estudos hellenicos na Itália tornaram accessivel o texto 
puro de Platão, que pela primeira vez sob Lourenço de Medids 
(1470-1492) apparece separado das phantasmagorias da Escola de 
Alexandria. E ao passo que em Pádua, Veneza e ao norte da 
Itália se adopta o texto verdadeiro de Aristóteles, em Florença 
impera o idealismo platónico, que tanto inspirou o génio artistico 
da Toscana. Tal foi a causa do esplendor da Poesia |yrica italia- 
na, que se impõe como modelo de todas as litteraturas. A com- 
prehensão do platonismo revelada por Camões nos Sonetos, e tão 
cedo abafada pela Philosophia Conimbricense, que fez prevalecer 
na educação portugueza o aristotelismo-alexandrista, collocou esto 
poeta acima de todos os lyricos quinhentistas. 

2.** Camões concilia os dois espíritos clássico e medieval. 
— A influencia da Itália, na época da Renascença, apresenta-se 
sob dois aspectos: os génios e os talentos originaes abdicam da 
sua individualidade imitando subservientemente os novos mode- 
los, como se observa em Garcilasso, Boscan e Sá de Miranda ; 
por outra forma, essa subserviência levou ao exagero da aiictori- 
dade e admiração exclusiva dos escriptores gregos e latinos, e 
ao abandono das línguas vulgares, como se nota no regimen peda- 
gógico dos jesuitas. Tanto o Protestantismo como o Catholicismo, 
no século xvi, renegaram a Edade n)edia; somente um génio ca- 
paz de sentir a tradição nacional, e em uma creação desinteres- 
sada, poderia fa«er a synthese das duas épocas conciliando-as 
pela sua continuidade histórica. Tal é o característico de Camões, 

* Diz elle : « Mihi nainque in animo est lirmam et facilera quantum 
possim, Scientiara fundare; etc. » Sanches morreu em Tolosa era 1632. 



Século XVl). MISSÃO DE CAMÕES 265 

na escola italiana em Portugal, e em relação á Renascença na Eu- 
ropa. O nome de Camões não pertence somente á litteratura e 
historia portugueza; a sua obra, inspirada de todos os elementOB 
poéticos que constituem a tradição de uma nacionalidade, repre- 
senta esse grande facto da vida histórica do século xvi, a allian- 
ça do Occidente com o Oriente realisada pelas descobertas dos 
portuguezes. A gloria de Camões tem sempre augmentado com os 
progressos das sciencias e da philosophia ; Humboldt considera-o 
um grande poeta da natureza, ou da realidade objectiva, e Schle- 
gel, que pertence á época do romantismo em que se restabeleceu 
a continuidade entre o mundo grecc-romano e medieval, aponta-o 
como synthetisando uma litteratura inteira. Oriundo de uma fa- 
mília do Algarve e da Oalliza, Camões funde na sua idealisaçao 
as tradições populares e o lyrismo trobadoresco dos costumes pa- 
lacianos harmonisando-os de modo, que elfe excede em belleza os 
mais ingénuos Vilancetes de Gil Vicente e as Redondilhas mais 
apaixopadas de Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão. Educa- 
do com todos os recursos da erudição do século xvi, não cae na 
exclusiva admiração das obras clássicas, nem em uma supersti- 
ciosa imitação dos poetas italianos, porque a sua vida tempestuo- 
sa lhe avigora a individualidade, que irrompe exprimindo o seu 
modo de sentir original. E por isso que na escola italiana e na 
plêiada dos Quinhentistas, Gamões destaca-se como uma entidade 
proeminente, completando a iniciativa de Sá de Miranda, e 
achando a forma definitiva dè uma nova época litteraria. 

a) Vida de Camões. — Nasceu em Lisboa em 1524, como 
se prova pelo Registo das pessoas que passaram a servir na índia 
desde 1550, que se guardava no Cartório da Casa da índia, e 
pela allusão aos terríveis prognósticos d*esse anno, que vem na 
canção XI. ^ Foram seus pães Simão Vaz Camões, segundo neto 
do trovador galleziano Vasco Pires de Camões, e D. Anna de Sá 
e Macedo, dos Gamas do Algarve. £m 1527, seu tio D. Bento 
de Camões toma o habito monachal em Santa Cruz de Coimbra, 
e n'este anno fugindo a corte de Lisboa para Coimbra por causa 

1 Acham-se estes prognósticos no raríssimo opúsculo Contra os juy- 
zos dos Astrólogos, por Frei António de Beja, impresso em loâ3. 



2GC ESCOLAS DE SANTA CRUZ DE COIMBRA (EpOCa 3.'' 

da peste, é de siippôr que SimSo Vaz, cavalleiro fidalgo, acom- 
panhasse a corte indo residir no solar de seu avô João de Ca- 
mões. Concorda esta inferência com a confissão do poeta na Can- 
ção IV, descrevendo a sua infância passada nas margens do Mon- 
dego. 

Em 1537 fez D. João iii a reforma da Universidade mudan- 
do-a de Lisboa para Coimbra, e nomeou Cancellario d'ella o ge- 
ral de Santa Cruz ; era este mosteiro o foco mais activo de estu- 
dos, e para elle convergia a mocidade aristocrática desde os doze 
annos de edade. Sob a égide de seu tio cursou Camões as huma- 
nidades em Santa Cruz de Coimbra, e da convivência esco- 
lar dataram as principaes amisades que encontrou no decurso da 
sua vida. Nos primeiros annos da reforma da Universidade a fre- 
quência não era obrigatória, provando-se por testemunhas a assis- 
tência ás lições ; tal é a rasão porque se não acha o nome de Ca- 
mões nas matriculas antigas do Cartório da Universidade. Ainda 
nos estudos escreveu o poeta a Elegia da Paixão, primeira 
imitação da Escola italiana, dedicando-a a seu tio D. Bento de 
Camões ; colligiu-a o seu amigo Luiz Franco; Em 1542 frequen- 
ta o poeta a corte de Dora João iii, onde a erudição era conside- 
rada como capacidade para os altos cargos, e o talento poético 
um distinctivo de fidalguia. Então a infanta Dona Maria, ultima 
filha de Dom Manoel, tinha em volta de si uma corte litteraria, 
em que figuravam varias damas, como Luiza'Sigea, Angela Vaz 
e Paula Vicente; Francisco de Moraes trazialhe de França o 
manuscripto da sua novella o Palmeirim de Inglaterra, e Jorge 
da Silva apaixonova-se pela sympathica infanta, fazendo de Ca- 
mSes o seu confidente. Boas esperanças alentaram Camões de 
abrir carreira social ; o seu génio extraordinário amedrontou logo 
todas as mediocridades, que se colligaram para produzirem a sua 
ruina. No soneto 193, Camões enumera as causas da sua des- 
graça : erros meus, má fortuna e o amor, dizendo, que bastava um 
só d 'estes poderes para o arruinar. Seu tio D. Bento de Camões 
tivera dois conflictos com Dom João iii sobre o thesouro achado 
era Santa Cruz de Coimbra, e sobre as rendas do Priorado ; a 
esta hostilidade do rei, repercutida no poeta, era ao que elle cha- 
mava má fortuna. Camões seguia também esse costume fidalgo 



Século XVI.) o príncipe dom joão 267 

da Valentia, verdcideira monomania do século xvi, e de que elle 
faz alarde nos seus versos e Cartas, não deixando por isso de con- 
sideral-a corao a cousa principal dos erros seus. Por fim as rela- 
ções de galanteria com as damas de uma corte beata, e em espe- 
cial os amores com a joven D. Catherina de Athayde, filha 
do Camareiro-mór do principe Dom Duarte, fizeram com que fos- 
se afastado da corte pouco mais ou menos por JÕ46. Todas estas 
causas influíram no seu destino, podendo-se-lhes também ajuntar 
a interpretação malévola dada ao seu Auto de Elrei Seleuco, allu- 
sivo aos amores de Dom João iii pela que veiu a ser sua ma- 
drasta. 

Cara5es ao sahir da corte dirigiu- se para Coimbra, demoran- 
do-se na sua excursão pelo Ribatejo ; em 2 de janeiro de 1Õ47 
morre seu tio D. Bento de CamSes, e cessando o motivo que o 
levava para Coimbra, ao espalhar-se a noticia do cerco de Maza- 
gão, Camões embarca-se para a Africa. Ali se demora dois an- 
nos, perdendo em imiíi surpreza dos árabes o olho direito. No- 
meado em 1549 vice-rei da índia D. Affonso de Noronha, Ca- 
mões regressa com elle a Lisboa, e em 1550 inscreve-se como 
homem de guerra, para seguir na náo Sam Pedro dos Burgalezes. 
A náo arribou desarvorada, e Camões não segue viagem ; novas 
esperanças o alentavam em Lisboa, poi'que o principe Dom João 
mo3trava-se um fervoroso apreciador dos talentos poéticos, man- 
dando copiar os versos de Sá de Miranda, os de Diogo da Silvei- 
ra, e formar um grande Cancioneiro. As intrigas palacianas eram 
tantas, que o génio de Camões conspirou para acabar de perdel-o ; 
os ódios litterarios foram suscitados por Pêro de Andrade Cami- 
nha, até certo ponto por Jeronymo Côrte-Real e por Diogo Ber- 
nardes. O amor de Catlierina de Athayde, filha de D. António 
de Lima, serviu para indispor contra o poeta as familias de ou- 
tras damas que tinham o mesmo nome, taes como D. Catherina 
de Athayde, da familia dos Gamas, ainda sua parenta, [prima, 
segundo a tradição coUigida por João Pinto Ribeiro) e D. Ca- 
therina de Athayde, filha de Álvaro de Sousa, que casou com 
Ruy Borges Pereira. Camões resentiu-se contra a stirpe dos Ga- 
mas, como se vê nos Lusíadas, e a cutilada que pela occasião da 
Procissão de Corpus, em 155j}, atirou a Gonçalo Borges, irmão 



268 DESGRAÇAS DE CAMÕES (EpOCa 3." 

de Rny Borges, resultava talvez das perguntas que a sua cunha- 
da faziam, se ella tinha sido amada por Camões, como consta da 
relação de Frei JoSo do Rosário. Por effeito do golpe no toutiço 
de Gonçalo Borges, CamSes foi recolhido na prisão de Tronco da 
cidade, e só no anno seguinte, a 7 de março de 1Õ53 é que o solta- 
ram. Durante o tempo em que esteve preso, e inspirado pela leitu- 
ra das duas Décadas publicadas por João de Barros, entreteve-se 
CamSes a compor o primeiro canto dos Lusíadas, [Elusiadas, se- 
gundo Luiz Franco). O pensamento da epopêa nacional occupava 
a sua alma em todas as desolações ; para servir esse pensamento 
offereceu-se para substituir Fernando Casado na viagem da ín- 
dia ; parte effecti vãmente em 24 de março de 1553, derribado das 
suas esperanças, na náo Sam Bento, a única da armada d'esse an- 
no qnc chega a Gôa, em principio de setembro. 

Na índia a vida de Camões foi ainda mais tempestuosa : en- 
ti'a logo em combate na expedição contra o Chembé; atravessa 
as doenças de um longo cruzeiro junto do Monte Félix, que elle 
descreve na admirável canção x. Em 1556 parte para a China, 
indo exercer na colónia de Macáo o difficil cargo do ministério 
publico, com o titulo de Provedor mór dos Defunctos e Ausentes, 
d'onde foi chamado a Gôa, passado dois annos, debaixo de prisão 
e mexericado de amigos, como diz Manuel Corrêa. Durante a 
permanência em Macáo trabalhou no poema dos Lusíadas, che- 
gando até ao canto vii, como se infere da referencia ao seu nau- 
frágio na costa de Camboja, tendo-se salvado a nado com o seu 
poema na foz do grande rio Mecon. Chegado a Gôa desprovido de 
tudo pelo naufrágio, e preso até justificar-se, recebeu no cárcere 
a noticia da morte de Catherina de Athayde em 1556. Restitui- 
do á liberdade, e vivendo na intimidade de Heitor da Silveira, 
João Lopes Leitão e D. Francisco de Almeida, ia escrevendo o 
poema, e dava-o a rever ao seu erudito amigo Diogo do Cou- 
to. Não querendo esperar para entrar na sobrevivência da Feitoria 
de Chaul, acompanhou Pêro Barreto para Moçambique em 1567, 
onde soffreu novos desastres que o lançaram na mais dura indi- 
gência. Regressando ao reino Diogo do Couto em 1569, arribou 
na armada a Moçambique, e conta que ali acharam Camões tão 
pobre, que comia de amigos, occupado em colligir o seu Parnaso 



Século XVI.) PARNASO DE LUIZ DK CAMÕES 269 

e em rever para a impressão o poema dos Lusíadas. Diogo do 
Couto e outros amigos pagaram-lhe a passagem para Lisboa, che- 
gando á pátria em 7 de abril de 1570 na náo Santa Clara. Já á 
vista de terra perdeu Camões o seu grande amigo Heitor da Sil- 
veira, e ao desembarcar veiu encontrar Lisboa devastada pela 
■peste grande de 1569. Ainda era viva sua mãe. Desde a chegada 
até 1572 occupou-se a terminar o seu poema, e a procurar ense- 
jo para offerecel-o a Dom Sebastião, e a atravessar os embara- 
ços da censura ecclesiastica. Serviu-lhe a antiga amisade de D. 
Manuel de Portugal. Roubaram-ihe a collecçao das suas Ivricas, 
a que dera o titulo de Parnaso de Luiz de Camões ; e foi furto 
notório, como diz Diogo do Couto. 

Depois do apparecimento dos Lusíadas começou para Camões 
uma nova lucta contra as invejas dos outros poetas, compensan- 
do-o a admiração do grande lyrico hespanhol Herrera, e do épico 
italiano Torquato Tasso. Agraciado com uma mesquinha tença, 
sempre em atrazo nas mãos dos funccionarios, Camões assistiu 
com magoa a esses enthusiasmos que arrastaram D. Sebastião 
para a Africa. Depois do desastre de Alcacer-Kibir em 1578, nun- 
ca mais teve saúde o poeta. Começaram as alterações, ou motins 
populares no curto governo do cardeal D. Henrique, que machina- 
va a entrega de Portugal a Philippe ii ; em volta do leito de Ca- 
mões reuniam-se alguns leaes portuguezes que procuravam para 
a successão um rei nacional. O Prior do Crato também negocia- 
va os seus pretendidos direitos com Philippe ii. Quando em 1580 
o exercito de Philippe ii marchava para a occupaçao de Portu- 
gal, Camões morria a 10 de junho, tendo escripto a D. Francis- 
co de Almeida a carta com as memoráveis palavras : « ao menos 
morro com a pátria. » Tal foi o homem ; estudemos o escriptor. 

b) Os Lyricos camonianos. — As formas lyricas usadas por 
Camões são o Soneto, Elegia, Oitava, Canção, Sextina, Écloga e 
o Poemeto, taes como as achamos em Sá de Miranda e Ferreira; 
ditferem porém no" espirito. Camões não publicou em sua vida as 
poesias lyricas, as quaes lhe foram roubadas quando as tinha col- 
ligidas sob o titulo de Parnaso; mas a grande quantidade de có- 
pias de que ha noticia, revela-nos o modo como elle actuou na 
poeeia portugueza do Beculo xvi, completando a obra de Sá de 



270 A LINGUAGEM DE CAMÕES (EpOCa 3.* 

Miranda pelo ideal platonico-mystico. No século xvi era se camo- 
niano, pelo modo de sentir, como no fim do século xviii havia 
elmanistas pelo modo de metrificar. 

A vida de Camões é um drama doloroso, e todas as suas poe- 
sias vibram com essas emoções intimas. O amor considerado como 
um sentimento divino, a natureza rehabilitada pela observação da 
scieneia, a belleza exaltada como uma manifestação da divindade, 
as imagens da mythologia hellenica ajudando a exprimir por al- 
legorias este novo estado da alma moderna ; a graça anecdotica, 
a comparação dos phenomenos naturaes aos moraes, a vaga incer- 
teza entre os limites da realidade e da aspiração quando conta as 
suas aventuras, a ingenuidade quasi infantil e instinctivamente 
destructiva das convenções banaes, tudo isto anima o lyrismo de 
Camões, fazendo das suas despedaçadas composições um poema 
subjectivo. A linguagem de Camões diíFere da dos seus contem- 
porâneos em uma certa harmonia por elle estabelecida no uso dos 
archaismos, que os eruditos condemnavam, e dos neologismos, 
que transportavam do latim para a lingua escripta. Tendo vivido 
em Lisboa e Coimbra, nas colónias da Africa, da índia e da Chi- 
na, Camões fallou a lingua portugueza de todas as classes sociaes 
e em todas as condições da existência ; e escrevendo sempre os 
seus versos para o meio que frequentava, Camões estabeleceu in- 
sensivelmente esse caracter de unidade que existe hoje entre o 
portuguez fallado e escripto. 

Muitas das composições lyricas de Camões apparecem em no- 
me de outros poetas ; este facto explica-se por terem andado iné- 
ditas até ao anno de 159Õ, em que Soropita deu publicidade aos 
primeiros cadernos colligidos ; seguiu-se-lhe Domingos Fernandes, 
que obteve da Livraria do Bispo Dom Rodrigo da Cunha inédi- 
tos contidos em um Manuscripto de 1568, com certeza da época 
em que o poeta organisava o seu Parnaso. É possivel que os dif- 
ferentes editores, na avidez de ajuntarem maior numero de inédi- 
tos de Camões, lhe attribuissem obras de outros ; e a impressão que 
esses versos produziram vê-se pela frequência dos centues camo- 
nianos nos escriptores da ultima metade do século xvi, e mesmo 
nos plagiatos das cópias manuscriptas. 

Sob o titulo de Lyricos camonianos se designam aquclle-j poe- 



Século XVI.) LYRICAS CAMONIANAS 271 

tas que foram amigos pessoaes de Camões, taes como Heitor da 
Silveira, João Lopes Leitão, António de Abreu, Luiz Franco, 
Fernão Alvares d'Oriente e D. Gonçalo Coutinho ; e também 
aquelles que o imitaram não só n'e3sa vaga melancholia e forma 
correcta do Soneto, como reproduzindo versos inteiros de Camões, 
e são esses Pêro da Costa Perestrello, Francisco Galvão, Estevara 
Rodrigues de Castro, Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Miguel 
Leitão de Andrada, Balthazar Estaco, e Vasco Mousinho de Cas- 
tello Branco. Caracterisemos cada um d'estes escriptores, posto 
que se tenham perdido as obras da maior parte d'elles. 

Heitor da Silveira, era filho d'es3e terrível poeta do Cancio- 
neiro geral, Francisco da Silveira; para fugir á barbaridade do 
pae, foi militar na Africa e na índia. Era irmão d'e8se outro 
poeta, senhor de Sarzedas, Fernão da Silveira, cujas obras poéti- 
cas o príncipe D. João mandou copiar a Évora por Luiz Vicen- 
te. Perderam-se os versos de Heitor da Silveira, conhecendo-se 
pelas obras de CamSes e de Falcão de Resende poucas composi- 
ções suas, em que se revela um bello caracter, confirmado pelas 
relações genealógicas e chronicas ; tem um pouco d'aquella falta 
de limpidez de estylo que o colloca a par de Caminha e Falcão 
de Resende. 

João Lopes Leitão, ó o nome do joven e travesso poeta, preso 
por ir vêr as damas do paço contra vontade do camareiro; elle 
é um dos que assistiu ao Convite de Camões, quando em Goa 
banqueteou os seus amigos com trovas, e por fim morreu no mar 
de uma maneira desconhecida quando a sua bravura e talento o 
tinham de tornar admirado. Restam d'elle alguns versos nas 
Obras de Camões e de Caminha. É de João Lopes Leitão o So- 
neto em que elogia Camões pela sua comedia o Filodemo, repre- 
sentada em Goa era lõ5ò: Quem é este que na harpa luzitana. 

António de Abreu e Luiz Franco. — Com a presença de Ca- 
mões, Gôa tornava-se um centro de cultura litteraria ; muitos 
poetas tomavam como titulo da honra o epitlieto ligado aos seus 
nomes nos Cancioneiros de mão : « muito amigo e companheiro de 
Luiz de Camões. » Achamos este titulo usado por Diogo do Cou- 
to, por António de Abreu e Luiz Franco Corrêa. Os versos de 
António de Abreu foram desconhecidos até ao começo d'este se- 



27á GOA, CENTRO LITTKHAUIO (EpQCa 3.* 

culo em que os publicou António Lourenço Caminha, sendo a sua 
authenticidade confirmada pelos que vem junto á obra do Falcão 
de Resende. Ao tempo em que teve relaç?!es com Camões era já 
velho; foi ura dos que acceitou cédula de Philippe ii. De Luiz 
Franco conhecem-se poucos sonetos, por via das relações com Ber- 
nardes e D. Gonçalo Coutinho. O seu principal titulo consiste em 
ter sido ura collector cuidadoso das lyricas de Camões, as quaes 
se acham incorporadas na edição-Juromenha. 

Fernão Alvares d'Oriente, é um dos poucos poetas do século 
XVI que^Ncita Camões; era natural de Goa, e em 1Õ76 veiu á Eu- 
ropa. Ficou captivo na jornada de Africa era 1578. Imita e glosa 
os versos de Camões, sempre preoccupado em mostrar-se sabedor 
de todos os artifícios da poética italiana, empregando os esdrú- 
xulos, e prejudicando a sua boa organisação poética. Fez a via- 
gem da Itália, como se usava na Renascença; tomou conheci- 
mento da Arcádia de Sanasarro, e sobre esse typo procurou re- 
produzir a novella pastoral allegorica aos costumes do tempo, na 
sua Luzitania transforviada. Vj n'esta pastoral que vêm interca- 
ladas as suas poesias. De Philippe ii recebeu a mercê de duas 
viagens de Cororaandel na vagante dos providos em 1584, e por 
alvará de 25 de março de 1598 conseguiu o privilegio de poder 
transferir para seu filho Luiz Alvares esse direito. A data do 
seu fallecimento pode fixar-se era 1599, como victiraa dos pri- 
meiros rebates da peste. 

Pedro da Costa Perestrello, era secretario do Archiduque 
Alberto, e um dos que receberam cédula de Philippe ii; tem so- 
netos, que se encontrara era parte nas obras de Caraões cora va- 
riantes notáveis. Este facto mostra-nos que a publicação de An- 
tónio Lourenço Caminha não é uma falsificação, como pretendia 
Innocencio. Perestrello traduziu algumas lições do livro de Job 
era tercetos, e a elle se attribuera os versos achados no paço pre- 
venindo Dom Sebastião contra a jornada de Africa. 

Manoel da Veiga Tagarro e Francisco Galvão. — A casa de 
Dom Theodosio ii, duque de Bragança, pertenceram estes dois 
poetas camonianos. Se recordarmos as relações amigáveis de Ca- 
mões com o Duque Dom Theodosio e com o Vice-rei D. Con- 
stantino de Bragança, e observando como Dom Theodosio ii era 



Século XVI.) POETAS DO PARTIDO NACIONAL 273 

considerado pelo partido da independência nacional como uma 
das suas esperanças, explica-se como a memoria de Camões veiu 
a influir n'estes dois poetas. Dos poucos Sonetos que restam de 
Francisco Galvão, quatro acham-se nas obras de Camões com 
variantes importantíssimas. Manoel da Veiga é um lyrico camo- 
niano já sob a influencia de Lope de Vega ; o celebre soneto da 
fuga do pajarillo acha-se dignamente imitado na Laura de Anfriso. 
Quando já era velho colligiu Manoel Veiga os seus versos em 
uni livro, versos feitos nas extraordinárias aventuras do amor de 
uma dama que se fez freira ; esteve em cárcere privado como 
Christovam Falcão, estudou jurisprudência, e por fim acolheu-se 
ao claustro. O motivo da publicação do seu livro foi a vinda a 
Portugal de Dom Duarte, Marquez de FrecUilla, irmão de Dom 
Theodosio ii, e celebrado poeta. Manoel da Veiga provoca um 
certo interesse com a Laura de Anfriso, quando através das suas 
odes pallidas se procura a realidade dos amores ali descriptos ; al- 
lude a Camões com respeito, e a constância em não escrever em 
castelhano, evidenciam um tal qual protesto a favor da extincta 
nacionalidade portugueza. 

Estevam Rod,rigues de Castro e Bernardo Rodrigues. — Na 
marcha das sciencias experimentaes no século xvi, Estevam Ro- 
drigues de Castro illustra o nome portuguez na Universidade de 
Pisa, segundo se pôde inferir de uma phrase de Dom Francisco 
Manoel de Mello, que diz d'elle : « teve melhor musa, que fé » ; 
saiu de Portugal talvez forçado pela intolerância religiosa, que 
perseguia os que se entregavam aos estudos de historia natural. 
Estevam Rodrigues de Castro escreveu Sonetos verdadeiramente 
camonianos pela perfeição artistica e por essa vaga melancholia 
que tanto o separa do modo de sentir pessoal dos seus contempo- 
râneos ; alguns d'esses Sonetos andam incluídos nas lyricas de 
Camões desde 1598, bem como uma Écloga apreciável. Explica-se 
este facto pelo modo como Estevam Rodrigues de Castro colligiu 
os seus versos, reunindo-os com varias composições de amigos 
seus cujos originaes tinha comsigo em Itália, principalmente de 
Bernardo Rodrigues, intimo amigo de Camões, e de Jorge Fer- 
nandes, conhecido pelo nome de Fradinho da Rainha, Os versos 
que dirigia a Filippe ii parecem accusar um certo despeito; 

18 



274 PUBLICAÇÃO DAS RIMAS DE CAMÕES (EpOCa 3." 

seu filho Francisco Estevam é que publicou as coraposiçõos que 
nos restam. Bernardo Rodrigues tratou pessoalmente Camões nos 
últimos annos, e foi ura dos que introduziu na litteratura portugue- 
za a forma italiana das Ballatas. A forma dos Poemeti, acha-se 
cultivada por Frei Paulo da Cruz, o denominado Fradinho da 
Rainha, na Trasladarão de Sam Vicente em oitava rima, que 
vem no raro livro de Diogo Pires Cinza. 

Vasco Mousinho de Castello Branco, é também auctor de ura 
poemeto sobre Santa Isabel ; embora mais conhecido como épico, 
apresenta nos seus versos lyricos bastantes reminiscências de Ca- 
mões, sobretudo nos Sonetos. Amigo do primeiro biographo de 
Camões, as relações com Pedro de Mariz explicam-nos como foi 
levado ao estudo e imitação camoniana. Vasco Mousinho de Que- 
vedo Castello Branco ó um dos primeiros que obedecem á cor- 
rente da imitação castelhana adoptando a forma do Romance 
subjectivo ; bajulou nos seus versos Philippe ii com não menos 
subserviência que Francisco Rodrigues Lobo. 

Fernão Rodrigues Lobo tíoropita, destaca-se entre os lyricos 
camonianos pelos seus protestos contra a falta de sentimento na- 
cional. As suas obras revelam-nos três phases distinctas do seu 
espirito: primeiramente entregue á soltura escholar, escreveu 
Vejamens, como se usavam nas Universidades de Salamanca e 
Paris; na tradição académica adquire uma admiração profunda 
por Camões, e estabelecendo-se em Lisboa como advogado entre- 
ga-se ao trabalho de colligir as poesias lyricas de Camões, das 
quaes apenas estavam publicadas a Ode a Garcia d'Orta, a Ele- 
gia a Magalhães Gandavo, e o Soneto a Manoel Barata. Em 
1595 Soropita conseguiu dar á estampa o primeiro corpo das Rimas 
de Camões, augmentado dois annos depois com novas descober- 
tas de inéditos. N'e3tas investigações logrou Soropita um perfeito 
conhecimento do estylo camoniano, imitando-o a ponto de se iden- 
tificar com elle, N'e8ta phase Soropita torna-se respeitável pelo 
seu amor á causa perdida da nacionalidade, escrevendo contra os 
traidores uma Satyra politica em quadras, que apparece com va- 
riantes apreciáveis. Por fim abandonou a poesia pelas allegações 
jurídicas, como o fizera também Mousinho de Quevedo. No meio 
das ruinas sociaes e incerteza de direitos em um paiz conquistado 



Século XM.) LYRISMO MYSTICO 275 

ou vendido, Soropita volveu-se para a concentração mystica, e 
parece ter-se acolhido ao claustro, pelo que se deprehende da 
Elegia A jpenitencia de Soropita. 

Dom Gonçalo Coutinho. — Cabe-lhe depois de Soropita o pri- 
meiro logar entre os lyricos camonianos, que mais trabalharam 
para alentar o culto pelo grande génio nacional. Na sua quinta 
dos Vaqueiros, onde hospedara Camões, entregava-se aos ócios 
litterarios, e Bernardes o dirigiu na comprehensão das bellezas 
da poesia. As poucas composições de Dom Gonçalo Coutinho que 
ainda se conservam, revelam um bom poeta, porque realmente 
foram poéticos os seus amores com Armia, a que lhe foi dedicada 
esposa, D. Maria de Oliveira. É lamentável que, tendo convivido 
com Luiz de Camões não colligisse os importantes dados biogra- 
phicos d'esta eminente individualidade, do mesmo modo que fi- 
zera consignando os elementos tradicionaes da preciosissima bio- 
graphia de Sá de Miranda, aproveitando-se das conversas de 
Bernardes e de Dom Manoel de Portugal. 

Miguel Leitão de Andrada. — Algumas Canções e Sonetos de 
Camões foram intercalados por este escriptor na sua Miscellanea ; 
Miguel Leitão é um d'aquelles poetas que ficaram captivos em 
Africa em 1578. O livro da Miscellanea em forma de dialogo é 
extraordinário pela riqueza das tradições e memorias avulsas dos 
successos tenebrosos do fim do século xvi; lembra por vezes a 
ingenuidade de Montaigne, e abunda em traços autobiographicos. 
Como poeta, Miguel Leitão passou do idealismo neo-platonico da 
eschola italiana para o mysticismo, caracter que a poesia lyrica 
portugueza apresenta no fim do século XVI. 

Baltkazar Estaco. — Prepondera em todos os seus versos 
a uncção mystica; cita este escriptor allusivamente Camões, 
quando define a sorte d'aquelle3 que cultivam a poesia. Os seus 
Sonetos reproduzem as figuras de rhetorica mais habitualmente 
usadas por Camões,, cahindo em um enfadonho excesso, como nos 
Sonetos dialogisticos e em antithese. Na Sylvia Lisardo, de Frei 
Bernardo de Brito, ha também perfeitas imitações camonianas, 
que decahiam já no conceito culteranista, que foi uma das formas 
de reacção contra a eschola italiana. 

c) Os Lusíadas e as Epopeas históricas do século XVL — 



276 ELEMENTOS ERUDITOS DA EPOPEIA (EpOCa 3.* 

Ao tempo em que Luiz de Camões trabalhava nos Lusíadas, ou- 
tros poetas elaboravam o pensamento de uma epopêa portugueza. 
Esta coincidência explica-se pela própria corrente da Renascença, 
que se manifesta com o mesmo caracter em França e Hespanha. 
Os eruditos confundindo as epopêas orgânicas da Grécia com as 
epopêas litterarias de Roma, entenderam reproduzir nas littera- 
turas modernas essa forma mal comprehendida da poesia. Em 
Portugal achamos esforços para a realisaçao de uma epopêa nos 
conselhos de António Ferreira instigando Caminha para uma tal 
empreza ; Jorge de Montemor tentava escrever o Descobrimento 
da índia oriental, e Pedro da Costa Perestrello o Descobrimento 
de Vasco da Gama. O assumpto da navegação de Vasco da Gama 
fora por vezes indicado pelos Chronistas como um bello thema 
épico, quando comparam as expedições marítimas dos antigos 
com as dos portuguezes. Indivíduos educados sob um regimen de 
erudição livresca, como di^ia Montaigne, sábios de gabinete, es- 
crevendo em nobres ócios, completamente separados do povo, 
como poderiam sem virilidade moral e intellectual conceber a 
epopêa de uma nação V Para esses eruditos, o ideal da Pátria 
consistia em identificarem Portugal com a Luzitania, assento 
imaginário de uma triba céltica, como primeiro o usara o bispo 
Dom Garcia de Noronha orando diante do papa, no século xv ; 
as lendas do cyclo troyano confundiam-se com a toponymia por- 
tugueza, e as theorias politicas da Monarchia universal provoca- 
vam os nossos cavalleiros a estender pelas descobertas maríti- 
mas e conquistas longiquas a. Fé e o Imjjerio. Camões inventou o 
seu poema sob estas influencias eruditas, mas as impressões dire- 
ctas da realidade salvaram-no do pedantismo humanista em que 
caliiram os outros poetas. Os Lusiadas foram escriptos nas pri- 
sões de Lisboa, depois do regresso da Africa, no desterro ou 
missão arrojada de Macáo, nos cárceres de Gôa, na miséria de 
Moçambique, e terminados na desolação publica da ^^eáíe grande 
no seu regresso á pátria. Tudo isto deu á linguagem dos Lusia- 
das um tom solemne e convicto na affirmação gloriosa da missão 
histórica da nossa pequena nacionalidade. A epopêa é escripta na 
ottuva rima usada por Ariosto e com a estructura virgiliaua ; ha 
porém nos Lusiadas um pensamento philosophico que o salva de 



Século XVI.) SYNCRETISMO DA MYTHOLOGIA COM o CHRISTIAMSMO 277 

todas as imitações, é a idealisação do facto da aproximação da 
Civilisação Occidental das suas origens orientaes. Baccho, oppon- 
do-se á descoberta da índia que é senão o deus Soma, que veiu 
pela Thracia para a Grécia e da Grécia para a civilisação euro- 
pêa? E Vénus, defendendo os Portuguezas, que é senão uma di- 
vindade marítima da antiga Roma continuada na incorporação 
do mundo por esta nacionalidade novo-latina? Uma intuição pro- 
funda levou Camões a esta aproximação. A confusão da Mytho- 
logia com o Christianismo, foi provocada por esse notável phe- 
nomeno de conformidade entre os mythos de Christna e as 
lendas de Christo, que no próprio Roteiro de Vasco da Gama, 
e mesmo a Castanheda não passara despercebida. Com uma im- 
mensa intuição artistica soube Camões agrupar em volta do facto 
histórico, que constitue o thema épico, todas as bellas tradições 
lendárias das chronicas nacionaes, formando assim os encantado- 
res episódios do Milagre de Ourique, da fidelidade de Egaz Mo- 
niz, da praga de D. Thereza contra seu filho, dos amores de 
D. Ignez de Castro, da surpreza de Giraldo Sem Pavor, do jura- 
mento de Martim de Freitas, da batalha do Salado, da bravura 
do Condestavel, do heroismo do Infante Santo, dos Doze de In- 
glaterra, da Ilha dos Amores. 

O episodio do Gigante Adamastor, producto de impressões 
pessoaes na sua passagem pelo Cabo das Tormentas, acha-se 
pela primeira vez esboçado na Elegia ili; o caso do Naufrá- 
gio de Sepúlveda, foi-lhe com certeza contado com todas as 
cores sinistras ao aportar em Moçambique em 1553 na viagem 
para Gôa. Camões mistura com as narrativas históricas as suas 
mais carinhosas affeições, ligando ao poema os nomes de Heitor 
da Silveira e Gonçalo da Silveira, e Dom Francisco de Almei- 
da, dos temidos Almeidas por quem ainda o pátrio Tejo cho- 
ra. Na sua independenciar de caracter condemna a iniquidade 
do rei Dom Manoel contra Duarte Pacheco ; verbera a dureza 
de Affonso de Albuquerque mandando matar o joven soldado Ruy 
Dias por uma questão amorosa, e accusa a nobreza de Portugal 
como estúpida, insurgindo -se contra a austera, apagada e vil tris- 
teza em que vê a pátria cabida. O poema foi publicado na vés- 
pera quasi da ruina da autonomia nacional ; e n'elle se conservou 



278 EPOPEIAS HISTÓRICAS (Epoca 3.* 

o espirito de independência que irrompeu na restauração de 
1640. 

Conta-se que Perestrello rasgara o seu poema do Descobri- 
mento de Vasco da Gama, ao vêr publicados os Lusíadas em 
1572; é certo porém que o apparecimento do extraordinário poe- 
ma despertou esse prurido que produziu seis epopêas litterarias 
no fim do século xvi. Para se conhecer a relação em que estuo 
essas Chronicas rimadas com o poema de Cam3es, basta notar 
que Jeronymo Corte-Real, Francisco de Andrade, Luiz Pereira 
Brandão e Vasco Mousinho de Quevedo escreveram sob as mes- 
mas condições em que versificaram Lucano, Stacio, Silio Itálico e 
Valério Flacco depois que Virgilio creou a Eneida. 

Jeronymo Corte-Real é o primeiro d'e3ses epicos-chronistas, 
distinguindo-se por ser um dos inimigos de Camões. Em uma 
Epistola escripta em 1574 ao seu parente Francisco de Sá de 
Menezes pedindo conselho para a composição do poema do Se- 
gundo Cerco de Diu, falia como se não existissem os Lusíadas, 
já por duas vezes impressos. Jeronymo Corte-Real era filho de 
Manoel Corte-Real^ capitão da Ilha Terceira, e por parte de sua 
mãe D. Brites de Mendonça, neto de D. Maria Baçan; este pa- 
rentesco com a fidalguia hespanhola levou-o a escrever em caste- 
lhano um longo poema sobre a batalha de Lepanto, a Austriada, 
que dedicou a Philippe ii, a cuja facção se bandeou. Teve uma 
vida aventurosa, indo a Africa e índia, e achando-se também no 
captiveiro depois da derrota de Alcacer-Kibir. Sobre este successo 
escreveu outra epopêa intitulada Perdição de el-rei D. Sebastião 
em Africa, e das calamidades que se seguiram a este Reino, hoje 
perdida. Encarecem os seus biographos o raro talento que tinha 
para a pintura, acompanhando os seus poemas de desenhos de ba- 
talhas e naufrágios ; Raczyuski considera sem fundamento esses 
encómios. Em 1574, publicou o poema Successo do Segundo Cer- 
co de Diu, estando Dom João de Mascarenhas ijor Capitão da 
Fortaleza. Dedicou-o a D. Sebastião ; reconhecendo a difficuldade 
de ser lido, accrescenta : a E porque a leitura é grande, debuxei 
de minha mão os combates, os socorros e tudo o mais que no de- 
curso d'este trabalhoso cerco succederam, para que a invenção da 
pintura satisfaça a rudeza do verso. » Bernardes, Caminha, e 



Século XVI.) CHRONICAS RIMADAS 279 

Francisco de Andrade, que ficaram mudos no apparecimento dos 
Lusíadas, correram solícitos a exaltar o novo Orpheo, novo Apol- 
lo, e novo Marte. O verso solto iniciado com o Segundo Cerco 
de Diu aggrava o prosaismo do poema. 

Jeronymo Corte-Real foi casado com D. Luiza da Silva, filha 
de Jorge de Vasconcellos, Provedor dos Armazéns de Lisboa; 
tocamos esta circumstancia pessoal, porque influiu na composi- 
ção de uma outra epopêa, o Naufrágio de Sepúlveda, publi- 
cada já depois da sua morte em 1Õ94. O editor, genro do 
poeta, o declara : a fez este discurso do naufrágio de Manoel de 
Sousa Sepúlveda e D. Leonor de Sá sua mulher, vindo da índia 
por capitão de uma náo por nome o Galeão Grande, assy por ser 
esta senhora muito parenta de sua mulher D. Luiza da Silva a 
(/uem elle muito amava... í» O poema já estava escripto desde 
1Õ89, como se infere de um epigramma de Caminha ; é também 
em verso solto e começa desde o nascimento de D. Leonor de 
Sá, de quem os Tritões se enamoraram provocando o naufrágio 
para possuil-a ! Que differença entre este convencionalismo e as 
três estrophes dos Lusíadas, ou melhor ainda a Relação do Nau- 
frágio por Álvaro Fernandes! Corte-Real foi com os desastres 
do século acabar na melancholia religiosa, deixando um poe- 
meto, hoje publicado, sobre os Novíssimos do homem, mas ille- 
givel. 

Francisco de Andrade, auctor da epopêa sobre o Primeiro 
Cerco de Diu, publicada em 1Õ89, é antes de tudo um chronis- 
ta; foi escolhido para substituir António de Castilho no cargo de 
Guarda-mór da Torre do Tombo, e Philippe iii nomeou-o Chro- 
nista-mór do reino por alvará de 24 de julho de 1599. Deixou 
escripta a Chroníca de D. João III. A Phílomena de Sam Boa- 
ventura, que traduziu em 1566, mostra quão prosaico é o seu ly- 
rismo. O Primeiro Cerco de Diu compõe-se de vinte cantos em 
oitava rima, de uma monotonia invencível ; ha quem aprecie no 
segundo canto a biographia de João de Samthiago; no canto 
nove o amor de dois esposos mogores ; no canto dezesete o com- 
bate de um joven portuguez contra um mouro que foge pelo rio ; 
e no canto dezeseis a descripção da Casa de Somno. A exacçao 
"histórica na epopêa era uma mouomania do fim do século, e o 



280 DEPRESSÃO DO SENTIMENTO NACIONAL (EpOCa 3.* 

próprio CamSes teve de defender-se em trez Cartas das arguições 
que lhe fez o medico portuguez João Fragoso. ^ 

Luiz Pereira Brandão. — A catastrophe de D. SebastiSo em 
Africa, em 1578, provocou varias tentativas de epopêa, como se 
vê pelos poemas ou ensaios de Jeronymo Corte-Real, Estevam 
Rodrigues de Castro, e do anonymo de quem restam quarenta 
Outavas. Luiz Brandão publicou também em 1588 sobre este as- 
sumpto a Elogiada, exaltada phreneticamente pelos inimigos de 
Camões, esses Caminha, Jeronymo Corte-Real, Francisco de An- 
drade e Diogo Bernardes. A Elegiada foi dedicada ao Cardeal Al- 
berto, Archiduque de Áustria, que estava governando Portugal 
por ordem de Philippe ii ; por isto se vê que o poema é uma 
chronica metrificada sem uma emoção de protesto como essa sim- 
ples quadra do povo na morte do Cardeal-rei. 

Vasco Mousinho de Quevedo. — As expedições em Africa des- 
de Dom João I até ao abandono de Arzilla, são o período cava- 
lheiresco da nossa historia, em que Portugal por tamanhas con- 
quistas deixava de ser um appenso da Hespanha. Camões conheceu 
o valor poético d'estas tradições ; e Mousinho de Quevedo celebran- 
do no Affoyiso Africano uma parte d'esse cyclo heróico, viria no 
fim do século xvi lembrar a uma nacionalidade extincta o esti- 
mulo das glorias passadas? Não; esta epopêa é uma allegoria mo- 
ral ; D. Aífonso v symbolisa o varão que combate contra si mesmo 
para avassallar a Cidade da Alma ; Arzilla com as suas cinco 
portas representa os cinco sentidos, e a sua torre com três ba- 
luartes as potencias da alma, sendo a mesquita a allegoria do co- 
ração humano ! A nacionalidade estava extincta, porque os es- 
pirites estavam n'este estado de depressão mental, de que a litte- 
ratura do fim do século é um flagrante documento. 



^ Du Perron de Gastara allude a estas três Cartas na sua traducção 
dos Lusíadas. 



Século XVI.) SEPARAÇÃO ENTRE OS ESCRIPTORES E O POVO 284 

§. IV 

Prevalecimento da auctoridade clássica 



No fim do século xvi já se notava na litteratura portugueza 
o máo gosto culteranista, consequência directa da separação entre 
os escriptores e o povo. Essa separação resultara do exagerado 
regimen da erudição ; preferia-se escrever em latim, tanto na poe- 
sia como na historia, como vemos em André de Resende, Caiado, 
e em Jeronymo Osório. O dominio absoluto dos Jesuitas no ensi- 
no publico aggravou este vicio geral da Renascença. O methodo 
alvaristico era um processo violento com que ensinavam o latim 
pela volumosa Grammatica do Padre Manoel Alvares, cujas re- 
gras eram escriptas em latim, e decoradas automaticamente pelos 
alumnos, com appensos de Churros, Cartapacios, Promptuarios e 
Paes- Velhos para a traducçSo dos textos fragmentados das suas 
Selectas de 1587 e 1594. Traduzia-se do latim para grego e do 
grego para latim, e nenhum livro era lido sem a censura previa 
dos Jesuitas, como ordenara o Cardeal-Infante-Inquisidor-Geral, 
por provisão de 3 de Fevereiro de 1578. Perdera-se o sentimento 
nacional nos espirites mais elevados; e a sua ausência nas obras 
da litteratura não é ainda assim tão lamentável, como nos actos 
dos homens públicos que venderam a sua nacionalidade a Philip- 
pe II em 1580, com uma indiíFerença tal, que deixou assombra- 
dos os embaixadores venezianos. 

a) Os Jesuitas combatem o Theatro : As Tragicomedias lati- 
nas. — Na lucta do elemento medieval contra a imitação clássi- 
ca, foi o theatro portuguez o que resistiu mais tenazmente, apre- 
sentando em Gil Vicente um verdadeiro caracter nadonal ; foi es- 
pecialmente contra o Theatro portuguez que os Jesuitas dirigi- 
ram as prohibiçoes, quando pela sua preponderância pedagógica 
e politica se apropriaram em seu interesse da corrente humanísti- 
ca da Renascença. No Index de 1564, prohibe-se a Ulyssipo de 



282 OHIGEM DAS TRAGICOMEDIAS (EpOCa 3.* 

Jorge Ferreira, e mauda-se cortar o prologo das obras de Gil 
Vicente, onde se diz que el-rei Dom Sebastião se recreava com a 
leitura d'esses velhos Autos; no Index de 1Õ81 e 1597, prohibem- 
se « Comedias, Tragedias, Farças e Autos onde entram por figu- 
ras pessoas ecclesiasticas. » Lê-se na Synopse do Padre António 
Franco: «A esforços e conselhos do Cardeal Alberto (1586) silo 
os comediantes condemnados a degredo, como peste e corrupção 
dos bons costumes, EUes oíferecem dotar a cinco donzelas órfãs 
e resgate para cinco cativos com tanto que os deixem. Os padres 
mofam d'esta liberalidade e foram aquelles pobres coitados expul- 
sos de Lisboa! Não desesperam no emtanto de tSo mofina sorte, 
tanto que voltaram á carga em 1588, promettendo d'esta feita 
dar oitenta comedias e mil dinheiros reaes (cruzados?) á Santa 
Casa por cada um d'elles; mas os Jesuítas não cedem, e fazem 
com que refuzem o pedido. » ^ 

No regimen escholar era de costume festas nas classes ; usa- 
vam os Jesuítas representar uma comedia antes dos prémios, a 
que chamavam Ludi prioris, e por occasiao da distribuição dos 
prémios, representava-se outra comedia de apparato em verso la- 
tino, a que chamavam Ludi sõlemnes. De taes festas nasceu esse 
género litterario, que os Jesuítas usavam em todas as grandes fes- 
tas da Companhia, as Tragicomedias. Na visita que D. Sebastião 
fez a Coimbra, os Jesuítas representaram a tragicomedia Sedecias, 
do Padre Luiz da Cruz, em 1570. Distinguiram-se n'este género 
hybrido o Padre João da Rocha, D. AíFonso Mendes, o Padre 
Simão Vieira, e o Padre António de Abreu; os mestres de rhe- 
torica eram obrigados a estas composições. 

b) Chronistas monachaes e a decadência da Historia. — O 
cargo de Chronista-mór do reino passou para as ordens religiosas, 
onde a simplicidade dos narradores se confundiu com o syncre- 
tismo lendário. Todos os defeitos da erudição banal aggravados 
com as phantasmagorias de uma imaginação poética bastante vi- 
gorosa, apparecem em Frei Bernardo de Brito, que encetou um 
corpo de historia nacional com o titulo de Monarchia luzitana. 



1 Synopsis Annalium e Societatis Jesu in Lusitânia, auct. Padre Antó- 
nio Franco. Trad. Henriíjues Leal, Apontamentos, n, 205. 



Século XVI.) CHRONISTAS MONACHAES 283 

EUe acceita em boa fé os documentos forjados por Anio de Vi- 
terbo, e elabora dramaticamente as lendas troyanas para historiar 
as origens de Portugal. Os falsos-chronicões hespanhoes, e a fa- 
bricação de documentos apocryphos por Lousada e Higera, re- 
velam-nos que esta decadência obedecia a causas mais profundas 
do que a incapacidade individual. Os institutos-monachaes organi- 
saram também as suas Chronicas, não para mostrarem a sua 
cooperação na illustração portugueza, mas para preconisarem as 
devotas doações e as beatificações fradescas. Contra o prurido 
rhetorico da historia destaca-se pela negligencia e simplicidade do 
estylo, Frei Marcos de Lisboa, auctor da Clironica dos Menores^ 
mas sem o sentimento poético da antiga tradição dos claustros 
franciscanos, embora traga intercalada no seu texto uma boa 
parte das composições de Jacopone da Todi, traduzidas em por- 
tuguez. A Chronica da Companhia, do Padre Balthazar Telles, é 
seccamente correcta. 

O Dr. Oaspar Fructuoso escreveu sob o titulo de Saudades 
da Terra, em 1Ò90, a Historia das Ilhas dos Açores, do Porto 
Santo, Madeira, Desertas e Selvagens ; serviu-se como subsidio 
dos escriptos de João de Barros e de Damião de Góes, e imita 
no começo da sua obra a allegoria pastoral de Bernardim Ribei- 
ro, mas nem conseguiu reproduzir o senso critico d'aquelles, nem 
a belleza ingénua do estylo do auctor da Menina e moça. Entre 
as fontes que cita, falia em uma Historia da Madeira, que sup- 
pomos ser a Relação do Descobrimento da ilha da Madeira attri- 
buida a Gonçalo Ayres Ferreira e ampliada pelo cónego Henri- 
que Dias Leite. Nos livros de historia especial, como a Ethyopia 
oriental de Frei João dos Santos, ou o Tratado das Cousas da 
China, por Frei Gaspar da Cruz, acham-se noticias ainda não 
aproveitadas pelos modernas orientalistas. 

c) Moralistas catholicos. — O conhecimento das obras de 
Plutarcho e Séneca, na época da Renascença, veiu revelar á con- 
sciência moderna, que fora das doutrinas theologicas também 
existia uma moral secular, com sancção universal. Na dissolução 
do poder espiritual, a Egreja reage por um exagerado formulis- 
mo e por um abuso deplorável da casuística ; só escaparam a es- 
ta corrente deletéria as almas puras, que pela ingenuidade do 



284 PEDANTISMO ERUDITO (EpOCa 3.* 

sentimento se elevaram á contemplaçSo mystica. No chroniata 
João de Barros nota-se a influencia erudita : « vendo como os ho- 
mens occupavam o mais do tempo jogando, inventou um jogo de 
tabolas a que reduziu as Etkicas de Aristóteles, introduzindo 
n'elle as virtudes e vicios por excesso e por defeito, o qual jogo 
imprimiu no anno de 1540 e o dedicou á infanta Dona Maria, 
princeza que depois foi de Castella, a qual jogava com el-rei D. 
João seu pae destramente, segundo elle affirma em varias partes ; 
e teve intenção de pôr a Economia também em jogo de cartas, e 
a Politica no enxadrez, por estes três jogos serem mais com- 
rauns, e para n'elles ao menos aprenderem os homens o nome das 
virtudes ...» Isto nos revela Severim de Faria. Emquanto João 
de Barros esteve refugiado da peste de 1530 na sua quinta junto 
a Pombal, compôz e enviou a Duarte de Resende o dialogo mo- 
ral intitulado Rho^ica pneuma, ou mercadoria espiritual. E uma 
allegoria em que são interlocutores a Vontade, o Entendimento, 
a Rasão, o Tempo, legivel por uma ou outra referencia aos cos- 
tumes da época ; com o fim de afastar das escolas a leitura dos 
processos judiciários, escreveu também em 1539 o Dialogo da 
Viciosa vergonha, de valor exíguo. 

O pedantismo erudito apparece na sua pompa no Espelho de 
casados, do Dr. João de Barros, escrivão da Camará de Dom 
João III desde 1549 ; era formado em Cânones por Salamanca, 
em 1522. O Espelho de casados appareceu em 1540, e sem a com- 
prehensão do sentimento como Frei Luiz de Leão na Perfecta ca- 
sada, é um apontoado de reflexões abonadas com auctorldades 
clássicas e patrologicas, inspiradas por um pessimismo de casuis- 
ta, que vê na mulher a herdeira do peccado de Eva, e no homem 
o logrado das novellas italianas. 

A forma de dialogo allegorico, que vimos em João de Barros, 
achava-se já no livro intitulado Bosco deleitoso, impresso em 
1515; n'elle faliam as Virtudes, exaltando as vantagens da vida 
contemplativa e eremitica, citando opiniões dos santos padres e 
exemplos dos mais fervorosos ascetas. Pelos seus archaismos e 
construcções syntaxicas parece este livro pertencer ao fim do sé- 
culo XIV ; porém se foi escripto na época em que apparece im- 
presso, pertence a um espirito alheio á cultura humanista, a cuja 



Século XVI.) ESCRIPTORES MYSTICOS 285 

corrente poucos escaparam. É também este o caracter dos Ditos 
da Freira, pensamentos moraes colligidos das reflexões de D. 
Joanna da Gama, reclusa do Salvador de Évora. Ella conheceu 
a eschola italiana, escrevendo poucos sonetos. Alguns desastres 
da sua vida fizeram-lhe crear em volta de si uma solidão religio- 
sa perturbada pelo Cardeal Infante ; os desabafos das suas angus- 
tias foram colligidos como máximas pelas suas companheiras de 
cenóbio; não têm abstracção, são comparações vulgares que re- 
velam uma santa simplioidade natural. 

Distinguem-se como escriptores mysticos. Frei Thomé de Je- 
sus, que na captiveiro de Africa, depois de 1578 escreveu o no- 
tabiiissimo livro Trabalhos de Jesus ; Fi'ei Heitor Pinto, com a 
Imagem da Vida christã, e Amador Arraes com os Diálogos. 
Procuram dar o maior relevo ás suas descripções, servindo-se dos 
effeitos do estylo, e aproveitando -se com felicidade de muitos con- 
ceitos da linguagem popular. 

A eloquência apparece-nos no século xvi viciada pela empha- 
se rhetorica dos eruditos ; João de Barros escreveu um Panegy- 
rico á imitação do de Plinio o moço. Na predica religiosa distin- 
gue-se o Dr. Diogo de Paiva de Andrade, que em 1561 fora ao 
Concilio de Trento por ordem de D. Sebastião, e lucíara em du- 
ra controvérsia com o theologo protestante Kemnitz ; « costumava 
muito introduzir a forma de dialogo nos seus discursos ; » nos seus 
sermões « o gosto dos conceitos e trocadilhos de palavras começa- 
va a apparecer. » ^ Citam-se outros pregadores notáveis, D. An- 
tónio Pinheiro e o Padre Luiz Alvares, parente de Diogo do Cou- 
to; mas n'uma época em que a carnificina de Saint Barthólemy, 
annunciada dias antes pelo embaixador portuguez, era recebida 
em Portugal com luminárias e sermões de graças, a obcecação 
era absoluta, e avançávamos inconscientemente para a ruina. 

d) Fim da Nacionalidade portugueza. — Revivescência das 
obras dos Quinhentistas. — Com a morte do Cardeal-Rei, e em- 
quanto os vários pretendentes á soberania portugueza discutiam 
preferencias, Philippe ii, ainda em 1580, occupou militarmente 
Portugal, realisando a unidade politica da Hespanha. Em uma 

1 Pan., t. I, 15. 



286 PUBLICAÇÃO DAS OBRAS DOS QUINHENTISTAS (EpOCa 3.* 

carta de 24 de Março de 1579 escrevia D. Jorge de Noronha a 
Phillippe II « que o reino de Portugal é de s. m., e que pode vir 
quando quizer, porque até as crianças cantam que todo o seu re- 
médio está em sua magestade. » A nobreza recebia cédulas do 
monarcha hespanhol para futuro pagamento da sua traição á pá- 
tria ; 08 poetas e escriptores, como Bernardes, Caminha, Jerony- 
mo Corte-Real, Falcão de Resende, Fernão Alvares d'Oriente, 
Rodrigues Lobo, Duarte Nunes de Leão, bajulavam o invasor nos 
seus versos e recebiam tenças de favor. A nacionalidade portu- 
gueza estava bem morta; a litteratura vegetava profundamente 
separada de todos os elementos tradicionaes e populares; os es- 
criptores e classes cultas adoptavam a lingua latina ou a caste- 
lhana para as suas especulações, e o povo ignorava em absoluto 
a historia do seu passado glorioso. Os Lusíadas, que poderiam 
despertar o sentimento nacional, foram deturpados pela censura 
clerical na celebre edição dos Piscos, de 1584. Era impossivel 
qualquer resistência material contra a incorporação castelhana; 
deu-se porém uma convulsão moral, que acordou o interesse por 
todas as obras da litteratura portugueza da grande época de Qui- 
nhentos, deploravelmente inéditas. Era como um esforço incon- 
sciente a favor da lingua portugueza que se extinguia ; assim, em 
1587 publicou-se pela primeira vez os Autos de António Prestes 
6 Camões ; em 1 590 as obras lyricas de Vasco Mousinho de Que- 
vedo ; em 1592 as poesias de Gregório Silvestre, chefe da reac- 
ção castelhana contra a eschola clássica italiana; em 1595 é que 
pela primeira vez se lêem as obras de Sá de Miranda, que Fal- 
cão de Resende surprehende nas mãos de uma senhora; em 1595 
e 1598 é que se vulgarisam as Rimas de Camões, perdidas desde 
o roubo do seu Parnaso em 1570; em 1595 e 1597 traz a lun)e 
Diogo Bernardes as Flores do Lima e Varias rimas; o filho do 
Dr. António Ferreira em 1598 salva do esquecimento o manu- 
scripto dos Poemas lusitanos ; em 1597 publica Frei Bernardo de 
Brito a Sylvia de Lisardo. A vontade de salvar as obras portu- 
guezas pela imprensa, quando o século terminava com uma terrí- 
vel peste e devastações, ^ prova-nos que havia um interesse inti- 

1 « Consta por tradição que a Livraria de D. Jeronymo Osório, foi rou- 



Século XVI.) CANCIONEIROS MANUSCRITOS 287 

mo que vivificava estas emprezas, que se continuaram sob o ca- 
ptiveiro: em 1602 imprime-se o notável livro dos Trabalhos de 
Jesus, de Frei Thomé de Jesus, e em 1602, 1604, e 1616 os 
Sermões do Dr. Diogo de Paiva de Andrade ; em 1604, appare- 
ce a Laura de Anfriso, de Manoel da Veiga; em 1605 as Éclo- 
gas de Rodrigues Lobo e as poesias de D. Manoel de Portugal; 
em 1606 a Origem da Língua portugueza, de Nunes de Leão, e 
a Lusitânia transformada de Fernão Alvares d'Oriente, e D. Ro- 
drigo da Cunha facilita a publicação dos inéditos de CamSes, que 
possuia. A lingua portugueza já não podia ser extincta, e por el- 
la se despertou o sentimento da individualidade nacional, sobre 
que a França se apoiou em 1640 para destruir o ominoso poder 
da Casa de Áustria na Europa. 



bada pelos inglezes, quando em 2S de julho de 1596 incendiaram e rouba- 
ram Faro, sendo levada para a Universidade de Oxford, onde existiu. » Sil- 
Ta Lopes, Chorographia do Algarve, p. 325. — Ficaram inéditos muitos Can- 
cioneiros do século XVI, taes como o de D. Maria Henriques, que colligiu 
seu pae era Marrocos, o do Padre Pedro Ribeiro, o de Luiz Franco Corrêa, 
o de Manuel Godinho, o de D. Cecília de Portugal, e o da Bibliotheca de 
Evora publicado ultimamente pelo fallecido Victor Eugénio Hardung. 



QUARTA EPOGA 



(século xvii) 



os CULTERANISTAS 



§. 1 — Syncretismo da influencia italiana e Iiespanliola em I*or- 
tugal : 

1." Reacção contra a Eschola italiana. 

a) As Lyricas de íYancisco Rodrigues Lobo e D. Francisco Manoel de 

Mello. — A Poesia mystico-amorosa. 

b) As Epopêas históricas — Tassistas e Camoistas. 

c) Pateos das Comedias. — Comedias de Capa y espada. 
■2.° As Tertúlias e Academias Litterarias. 

«) As Academias dos Generosos e dos Singulares. Os Poetas da Phoni.v 
renascida. 

b) Pastoraes e Novellas allegoricas. 

c) As Tragicomedias dos jesuítas. — Oratórias e Ballets. 

*;. II — Tentativa cie reforma d.os estudos philolosicos : 

o) A Eloquência sacra : Vieira e Frei António das Chagas. 

b) Clironistas e historiadores. — Os primeiros Jornaes portuguezes. 

c) Os Moralistas. — Cartas da Religiosa portugueza. Primeira influencia 

da França. 



§. I 

Syncretismo da influencia italiana e liespanhola em Portugal 

O exagero da imitação clássica, quer por via do estudo di- 
recto das litteraturas greco-romanas, quer pela admiração reflexa 
dos poetas italianos, produziu uma natural reacção que se obser- 
va em França cora Malhcrbe reagindo contra os neologismos eru- 
ditos de Ronsard, com Balzac procurando o purismo da phrase, 
com Du Bartas adoptando uma desusada liberdade no empre- 
go das figuras rhetoricas. Porém, essa reacção apresenta o seu 
maior vigor em Hespanha, onde o génio oriental irrompe na 
imaginação andalusa de Gongora, e se impõe pela pompa deslum- 
brante das imagens poéticas exprimindo as ideias vulgares. O no- 



Século XVII.) CARACTER DO CULTERANISMO 289 

vo gosto inspira-se da natureza, mas embellezando-a convencior 
nalmente ; e esse artificio procurado cora estudo é um signal de 
cultura de espirito, que não sente a graça sem lhe dar a forma 
pittoresca do conceito. A nova corrente litteraria propagou-se a 
toda a Europa ; na Itália, Marini, « hespanhol de origem e educa- 
ção » como diz Cantu, é o chefe dos Concettists, e na França os 
CuUurisfas ditam as leis do gosto aífectado nas intimidades do 
Hotel Rambouillet, que Molière retratou nas Preciosas ridícu- 
las; em Inglaterra Lylli propaga este falso estylo litterario com 
o nome de Euphuismo. A universalidade da influencia italiana da 
Renascença, corresponde esta reacção do Culteranismo hespanhol, 
systematisado em regras dogmáticas pelo jesuíta Lourenço Gra- 
<jian nas suas Agudezas de Ingenio. Dava-se o nome de ingenio 
á vã habilidade de converter em figuras de rhetorica todas as si- 
tuações moraes ou materiaes, corrigindo a realidade não por um 
ideal mas pelo equivoco, pelo paralogismo, pela redundância, pe- 
lo euphuismo. 

O Culteranismo provinha de uma verdadeira intuição da ne- 
cessidade de independência de espirito para a concepção artistica ; 
infelizmente, os escriptores que reagiam contra o predomínio da 
Itália estavam separados do povo ou não conheciam o valor es- 
thetico do elemento tradicional, de sorte que na impossibilidade 
de acharem o caracter nacional da litteratura, caíram no desvai- 
ramento de uma phantasia sem disciplina. La Bruyère notou a 
causa dos desconcertos da linguagem culteranistci, referindo -se aos 
membros do Hotel Rambouillet : « Elles deixam ao vulgo a arte 
de fallar de uma maneira intelligivel. » A Hespanha era o cen- 
tro d'onde irradiava o prurido d'este novo gosto litterario ; e no 
século XVII vemos a litteratura franceza inspirar-se para a crea- 
ção poética dos seus principaes génios da imitação da litteratura 
hespanhola. Scarron, no Roman comique, imita o género picaresco 
hespanhol ; principalmente no theatro é onde se observa uma imi- 
tação mais evidente, como em Corneille no Cid, no Menteur, e no 
Don Sancho d' Aragão ; em Molière, no Festin de Pierre, imita- 
do do Burlador de Sevilha de Gabriel Tellez, na Princeza d' Eli- 
da, no D. Garcia de Navarra; Quinault, Hardy, Rotrou seguem 
a mesma senda, e Le Sage transforma os esboços de Velez de 

19 



290 o SEISCENTISMO EM PORTUGAL (EpOCa 4.* 

Guevara no seu bello Gil Blas, e no Diable boiteux. Quando a 
fecunda litteratura franceza obedecia ao influxo perstigioso da 
litteratura hespanhola, e o próprio Richelieu considerava a admi- 
ração pelo Cid de Corneille « como se os hespanhoes tivessem to- 
mado Paris,» era impossível que o Culteranismo não dominasse 
de um modo absoluto em Portugal, no século xvii. Estávamos 
sob o dominio hespanhol tanto em politica como em litteratura. 
A lingua portugueza, como se sabe pela declaração de Manoel 
de Galhegos, que se defende de haver escripto na lingua pátria, 
era considerada pelas classes elevadas como própria para ser fal- 
lada nas praças e pelo vulgo rude. Os escriptores portuguezes 
preferiam o castelhano para a poesia e para a historia, e concor- 
riam para a riqueza do theatro hespanhol compondo Comedias fa- 
mosas no estylo de Capa y espada. Muitas das obras dos grandes 
génios da litteratura castelhana tiveram as suas primeiras edições 
em Portugal, e occuparam-se de assumptos portuguezes. Quem 
organisasse os annaes da imprensa portugueza n'este período, con- 
cluiria que três quartas partes das suas obras publicadas foram 
em castelhano. A falta de participação de Portugal no extraor- 
dinário movimento scientífico do século xvii, fez com que a acti- 
vidade intellectual se dispendesse em um exercício disparatado 
da rhetoríca, que viciou tudo, a linguagem, a poesia, o theatro, 
a historia e a própria eloquência do púlpito. As Academias ita- 
lianas, que de litterarias se converteram em scieutíficas no sécu- 
lo XVII, na Hespanha immobilisaram-se em Tertúlias e com esse 
caracter se reproduziram em Portugal. Sob a influencia do Cul- 
Uranismo, a poesia lyrica retoma os velhos metros de redondilha, 
e Sá de Miranda, o venerando chefe da Eschola italiana, é lido, 
estudado e imitado na sua parte antiquada, nas Cartas era quin- 
tilhas de medida velha. E aquelles mesmos que voltavam aos me- 
tros de redondilha, do lyrismo hespanhol, não achavam emprego 
mais azado para as redundâncias e equívocos de linguagem do 
que as NoveTlas pastoraes do gosto italiano contra o qual rea- 
giam inconscientemente. 

1." Reacção contra a Eschola italiana. — Na poesia lyrica 
seiscentista accentua-se uma grande predilecção pelo estylo camo- 



Século XVII.) TASSISTAS E CAMOISTAS 291 

niano ; mas eraquanto ás doutrinas da epopêa, levantou-se uma con- 
tenda litteraria entre os Tassistas e Camoistas. Esta revivescên- 
cia das poesias de Camões provinha da comprehensão de que es- 
tava n'ellas a verdadeira forma litteraria moderna derivada do 
impulso italiano, sem por isso ser um pallido reflexo do esplendor 
da Renascença. Os lyricos seiscentistas apresentam os dois aspe- 
ctos, hespanhol, na renovação dos metros de redondilha, e italia- 
no na reproducção do endecasyllabo camoniano ; Sá de Miranda 
e Camões são os modelos consagrados, e quando os estudam os 
poetas escapam sempre aos absurdos do culteranismo. 

a) As Lyricas de Francisco Rodrigues Lobo e D. Francisco 
Maiwel de Mello. — As relações do estylo de Francisco Rodrigues 
Lobo com o de Camões, levaram Faria e Sousa a suppôr que este 
poeta roubara o manuscripto do Parnaso de Camões : « Al tiem- 
po que empece a estudiar, que fué a los afios de 1600, y los onze 
de mi edad, me cogió este libro un mozo, que luego se fué a es- 
tudiar a Coimbra, aonde entoncea florecia Francisco Rodrigues 
Lobo, que entonces publico un libro intitulado Primavera, que , 

consta de prosas y versos, y siempre me pareció que en el avia •- ; '"5^ 
algunas cosas de las que estaban en aquel libro. Mas porque yo (^i%f,4'U 
no vi este de Lobo, luego quando salió, tiempo en que de esse ç^*/*. 
otro teria algo en la memoria, sino raucho despues, quando yo no ^ 
la tenia d'el, no pude asegurarrae bien : pêro imagino que unas Ir^ 
Otavas que alli tiene el Lobo, luego ai principio, a que llaraa la Jc^Cfi 






historia de Sileno, estaban en aquel libro ; y tarabien- unas Co- 
pUllas que estan antes d'ella ; y tambien una Cancion, que se vê 
a la entrada da Floresta sexta. » A suspeita de Faria e Soii 
tem apenas uma verdade: é que na plêiada do século xvii,\Ro- v^, 
drigues Lobo é o lyrico mais completo e apaixonado. Nos seus 
versos, que se resentem já da exuberância de imagens c abuso «. 

de epithetos, resultantes da admiração não discutida da poesia ' 7* 
castelhana, ha ainda, a disciplina quinhentista de quem estudou 
bastante o texto de Camões e ao mesmo tempo soube conhecer o 
que ha de bello na tradição popular. Rodrigues Lobo teve o alto 
senso artístico de exprimir os seus sentimentos na forma das Ser- 
•anilhas « aquelle outro canto, que ao som do rabil — cantam os' 
bcrranos. » {Deseng., pag. 323). N'este género é realmente inimi- 



y 



292 ÉCLOGAS DE IIODRIGUES LOBO (EpOCa 4.'' 

tavel ; a tradição communica-lhe o seu vigor, e o poeta eleva-se 
á belleza fixada por Christovara Falcão e Bernardim Ribeiro 
nas suas Éclogas. EUe usa a redondilha quinaria, a que chama, 
segundo a designação antiga. Endechas. No Pastor j)eregrino, diz 
elle o nome da mulher que o inspirava : « Chamava-se ella Lui- 
za,..y> Nas Memorias do Bispo de Gram Pará lê-se, que Rodrigues 
Lobo « tinha cantado nas ribeiras do Liz e Lena, nos loucos amo- 
res da aia ou dama do palácio do Duque de Caminha, em Lei- 
ria. . . » 

Rodrigues Lobo obedece á imitafi^S.Q. JtallaJia- nas prosas insul- 
sas das Pastoraes ; porém nas íJcZq^as, ^publicaxlas em 1606, allia 
a simplicidade popular com a g£a£a do endacasjllabo camoniano. 
A posição de inferioridade em que viveu no palácio do Duque 
de Caminha em Leiria, não lhe deixou imprimir nos seus versos 
a galante audácia com que Camões hallucinava as damas da cor- 
te de D. João iii. A vida provinciana esterilisou o infeliz poeta 
Lereno, que acabou de perverjer-se, com a imitação do romance 
allegorico vulgarisado por Grongoi-a simulando o gosto mourisco, 
e abjurando do sentimento da pátria ao cantar a visita de Phi- 
lippe III a Portugal. A sua vida passou indiíferente para os 
contemporâneos, postoque o seu talento bem merecesse mais in- 
teresse ; morreu afogado no Tejo, segundo contam o Padre Ma- 
noel da Esperança e o Bispo de Gram Pará. Celebram a sua mor- 
te um desconhecido mas apreciável poeta portuguez António Lo- 
pes da Vega, e D. Thomaz de Noronha, que em una Soneto da 
Phenix termina dizendo ; « (^ ue a Lereno matou o villao .Eolo. » 
A perversão do gosto na época seiscentista preferia as suas pro- 
sas culteranas e os diálogos rhetoricos ás lyricas que são hoje o 
seu melhor titulo litterario. 

D. Francisco Manoel de Mello. — Na sua vida e obras pare- 
ce-se immensamente cora esse génio singular de Quevedo ; nas 
aberrações do espirito, filhas em grande parte da época, ob- 
3erva-3e o estado moral de quem viveu longos annos solitário 
em um cárcere entregue ao arbítrio da prepotência irresponsável. 
Nasceu D. Francisco Manoel em Lisboa em 23 de novembro de 
1611, e no Collegio dos Jesuítas de Santo Antão estudou huma- 
nidades, philosophia e theologia ; seduziu-o a carreira das armas, 



Século XVII.) DOM FRANCISCO MANOEL 293 

em que entrou aos dezesete annos. Ainda nos estudos, em 1628,, 
.publicou doze Sonetos á morte de Ignez de Castro, e era 1628 
escreveu a novella Las finezas mallogradas . A sua actividade lit- 
teraria mistura-se com a participação da vida publica, dando -lhe 
isto essa superioridade que primeiro se observou nos escriptores 
inglezes e em França na época da Fronda. E um poeta, um po- 
litico, um bravo, e nobre victima de um rei que pagou cora 
ingratidão aos que lhe deram um throno ; esta admirável figura 
acha se ligada a todo o movimento para reivindicação da autono- 
mia da nação portugueza. Tendo servido na armada hespanhola, 
regressando a Madrid ali teve relações com um agente secreto do 
Duque de Bragança; a elle escolheu o duque em 1637, por oc- 
casião dos Tumultos de Évora, para ir appresentar ao rei os 
seus protestos de fidelidade, e o governo hespanhol o escolheu 
para vir pacificar os tumultos, sendo em seguida nomeado Mestre 
de Campo para Flandres. O seu livro Politica militar em avisos 
generales, escripto oíferecido ao Conde de Liftares, considera-se 
como um guia composto a pedido do duque de Bragança, quando 
foi nomeado Governador das Armas de Portugal. Vindo de Flan- 
dres á Catalunha ali soube da revolução de Portugal ; e como as 
suas informações sobre um inquérito a Villa Viçosa em 1637 não 
condiziam com o movimento que rebentou em 1640, o Conde- 
Duque de Clivares mandou prendel-o. Dom Francisco Manoel 
justificou-se como pôde, sendo solto e nomeado governador para 
Ostende. Foi então que abraçou directamente a causa da inde- 
pendência de Portugal, recebendo do embaixador portuguez na 
Hollanda o commando de uma esquadra de dezoito navios para 
trazer reforços ; Dom João iv recebeu-o com enthusiasmo dando- 
Ihe varias commendas, e mandou-o commandar um esquadrão de 
cavalleria no Alemtejo. Sobre este primeiro golpe. Dom Francis- 
co Manoel reconheceu que o ministro Francisco de Lucena era 
vilmente accusado de traidor, e não quiz jurar contra elle ; Dom 
João IV dissimulou então o seu ódio, esperando ensejo para per- 
del-o. Em 19 de novembro de 16i4 foi Dom Francisco Manoel 
de Mello mandado praiider na Torre do Bugio, attribuindo-se-lhe 
cumplicidade no assasánato de Francisco Cardoso, mordomo do 
Conde de Villa Nova de Portimão. Em uma Nota á margem de 



294 NOVA INFLUENCIA DE SÁ DE MlítANHA (EpOCa 4." 

uma copia do Memorial, que em 1648 dirigiu a Dom João iv 
expondo-lbe a sua innocencia e serviços, explica-se o ódio impla- 
cável do rei por causa de ciúmes, por ambos terem relações com 
á Condessa de Villa Nova e Figueiró. Desde o primeiro anno 
da prisão, escreveu constantemente a f!ivor da causa nacional, 
destacando-se o admirável livro da Historia dos movimentos e se- 
paração da Catalunha; o próprio Dom João iv o encarregou de 
redigir o Manifesto de Portugal, em 1647, quando já estava con- 
demnado em segunda instancia para o Brazil. O ódio do monarcha 
resistiu a tudo, mesmo a uma carta de Anna de Áustria, escripta 
a favor do poeta em nome de Luiz xiv. Em Março de 1650 foi 
transferido para a enxovia do Castello de Lisboa, saindo em 
1653 para o Brazil, para o degredo na Bahia. Só depois da mor- 
te de Dom João iv pôde regressar a Portugal em 1^59, impri- 
mindo aqui no anno seguinte as Epanaphoras de varia historia. 
Por ventura, fugindo ás intrigas da corte entre a regência e o 
príncipe, D. Francisco sahiu de Portugal para França em 1662, 
e vindo, depois de uma constante actividade, morrer em Lisboa 
em 13 de outubro de 1666. São numerosas suas obras impressas, 
apreciando-se especialmente As três Musas de Melodino, as Epa- 
naphoras, os Apologos dialogaes, as Cartas familiares, a Carta 
de guia de Casados e a Feira de Anexins. 

Dom Francisco Manoel obedeceu á influencia castelhana, es- 
crevendo uma parte das Obras métricas em hespanhol ; ensaiou 
todas as formas, o romance mourisco, as jacarillas, ou xacaran- 
dinas postas em moda pelo seu amigo Quevedo, os madrigaes ita- 
lianos, as sylvas, os tonos e os primeiros rudimentos da Opera. 
Porém, nas segundas três Musas de Melodino reage contra a sub- 
serviência do estylo e lingua castelhana, rompendo contra os ab- 
surdos culteranistas, e imitando Sá de Miranda, especialmente 
nas redondilhas : « Uma só cousa vos lembro, que me deveis um 
grande desejo de resuscitar o grave estillo de nossos antepassa- 
dos. Não aquelle cuja aspereza já para muitos foi desagradável, 
como no antigo Mena condemnou o grande Sá ; mas aquelle ou- i 
tro, d'onde, como o diamante que reluz por entre os diamantes / 
da lava, vae scintillando por entre as phrases naturaes engraça- i 
das e facilissimas. Se minha tenção fora allegar-vos serviços, e 



Século XVII.) VALOR DAS TRADIÇÕES 295 

ainda á minha pátria, bem pudera dizer-vos que a fim de vos re- 
novar este interesse, da formosa imitação da antiguidade, passei 
mil descontos com meu natural, que o prendi e sopeei, a troco 
de seguir aquelles nobres exemplos. » Este esforço, que o aproxi- 
mou da tradição popular, tornou-o o mais perfeito lyrico do sécu- 
lo XVII. As suas Éclogas e Cartas em redondilhas têm a graça 
desaífectada recebida de uma superior comprehensão de Sá de 
Miranda ; serve-se também dos Motes velhos, e de cantigas po- 
pulares para glosas ajpelo modo antigo. » No seu Canto de Bahy- 
lonia hombrêa com Camões, nas redondilhas em que paraphra- 
seou o psalmo quando naufragou na foz do Mecon. No bello Auto 
do Fidalgo aprendiz, que se representou no paço, e em que adi- 
vinhou o thema mais tarde universalisado por Molière no Bour- 
geois gentilhomme, o poeta apropria-se da forma do auto nacional 
creada por Gil Vicente. Emfim ha um manancial occulto de poe- 
sia em que elle bebe: é a tradição popular, a que allude por ve- 
zes, como os Contos da Maria sabida, da Carochinha, como os 
romances da Sylvana, da Lifantina, da Angelina gloriosa, de Gay- 
feiros, os anexins e locuções vulgares, que reuniu artificialmente 
na sua Feira de Anexins, e o sentimento nacional compre- 
hendido na observação dos costumes domésticos e das supersti- 
ções. O pedantismo rbetorico preponderava no meio social, e 
Dom Francisco Manoel obedeceu á corrente, dispendendo o seu 
génio em fazer Obeliscos litterarios, Labyrinthos, Sylvas en- 
comiásticas para entreter a inanidade das sessões das Academias 
poéticas. 

A Poesia mystico-amorosa. — As doutrinas theologicas que no 
fim do século xvi perturbaram os espirites com a questão da 
Graça eficiente, reappareceram no século xvii sob um novo as- 
pecto, o Quietismo, formulado pelo mystico hespanhol Molinos. 
Contra o formalismo devoto do jesuita Molina levantam-se os su- 
blimes poetas S. João da Cruz e Frei Luiz de Leão, porém no 
quietismo de Molinos (prep. 25, 41 e seg.) a sensualidade tor- 
nou-se uma fói-ma do ascetismo, e o amor divino, tomado como 
thema das subtilezas culteranistas, deu logar a uma falsa poesia 
religiosa, a um lyrismo de freiraticoa. Fallando do poeta mystico 
Frei António das Chagas, diz o Bispo de Gram Pará : « Em 



296 o QuiiíTisMO NA POESIA (Epoca 4." 

Odivellas pregava elle em companhia de Frei Leandro, e n'este 
mesmo tempo estavam o mestre Frei Ignacio de Athaide e Frei 
António de Tovar, depois pregador geral. Eram moços, e muita 
a liberdade das grades d'aqueUe miserável tempo. Em quanto 
durava a missão não se fechavam palratorios, como hoje se usa. 
Por ali pois se passava o tempo. » 

Frei António das Chagas, que antes da sua conversão escrevera 
com nome de António da Fonseca Soares, é o mais notável d'entre 
os poetas mysticos seiscentistas. Um crime de homicidio o obrigou 
a abandonar a vida das armas, e a refugiar-se na Bahia, era um 
convento benedictino ; passados alguns annos voltou a Portugal, 
e escapando a um tiro que lhe dispararam em Setúbal acolheu- 
se á ordem franciscana, professando em 1663. Do seu poema Fi- 
lis e Demofonte, escripto quando secular, diz Barbosa ; « Promet- 
tia o venerável padre a quem lh'as desse para as reduzir a cin- 
zas, jejuar ou disciplinar-se um anno por sua tenção. » Sob outra 
forma repete o Bispo de Gram Pará: «Depois de religioso, sa- 
bendo que no mosteiro de S. Bento da Saúde vivia o seu amigo 
Frei Jeronymo Vahia, e que havia copia de seus versos entre 
aquelles cujos olhos se deviam tam somente occupar em versos de 
David no coro, quiz rasgal-os, por terem as taes coplas muitas 
profanidades. Não obteve despacho; gracejaram com elle e met- 
teram-no á bulha. » Entregue á penitencia, Frei António das Cha- 
gas não cessou de metrificar, conservando-se algumas Elegias, 
verdadeiramente estimáveis no livro do Padre ]\Hanoel Godinho 
sobre a sua Vida; n'ella3 pinta o habito monachal como a mor- 
talha, a cella como a sepultura, comparando-se ao guzano que se 
alimenta abrindo a sua cova. Os desvarios de uma turbulenta mo- 
cidade passam-lhe na imaginação como as nuvens que toldam um 
céo sereno ; nas covas dos seus olhos chora arrependido, e vendo 
em tudo uma tentação, um simples ribeiro representa-se lhe um 
áspide de prata. Rejeitou o asceta a mitra de Lamego em 1679, 
morrendo em cheiro de santidade era 20 de outubro de 1682. 

Dom Francisco de Portugal, que sem se lembrar que perten- 
cia á casa de Vimioso, viveu na corte de Philippe iii em Madrid, 
depois de ter militado na Bahia em 1624, tomou o habito de ter- 
ceiro franciscano, cultivando esta poesia do ascetismo com raistu- 



Século xYii.) o uso da língua hespanhola 297 

ra de elementos picarescos. Os seus Divinos e humanos versos, es- 
criptos em castelhano, fatigam as formas das duas poéticas italia- 
na e hespanhola, o Soneto, Canção, Oitava, Sextina, Romances 
e Mottes, destituidos de ideia. 

Soror Violante do Céo, nascida em 1601, fallecida em 1693, 
com sessenta e três annos de clausura, é a expressão mais com- 
pleta do lyrismo seiscentista, emquanto aos requebrados concei- 
tos rhetoricos, emquanto ao quietismo quasi sensual com que tra- 
duz as suas effusões do amor divino, que muitas vezes encobre 
allegoricamente paixões de intrigas freiraticas. As suas composi- 
ções são quasi todas em castelhano e escriptas para as festas do 
seu convento de Nossa Senhora da Rosa; deixou numerosissimos 
Villancicos, que eram cantados principalmente na festa do v^atal. 
D. Bernarda Ferreira de Lacerda, escreveu sob esta fascina- 
ção do lyrismo ascético o livro das Soledades do Bussaco, que a 
tornou conhecida antes do poema épico que compoz em verso cas- 
telhano. Delia diz Miguel Leitão na Miscellanea, Dialogo XX : 
« Senhora, além de muitos dotes pessoaes de que é dotada, e ser 
também de uma rara subtileza de engenho e felicíssima memoria, 
com uma curiosidade grande de se applicar a ler livros honestos 
e cousas curiosas em que passa antes .o tempo. » Não eram estas 
as qualidades que convinham para uma inspiração mystica. E por 
isso que as formas lyricas não se prestavam para darem expres- 
são aos sentimentos banaes d'esta devoção exterior; metrificou-se 
a frio e com abundância pondo em verso heróico as vidas dos san- 
tos. Contam-se n'este género documentos característicos. Da Vida 
de Sam João Evangelista, de Nuno Barreto Fuzeiro, poema em 
verso heróico, diz a Censura da época, que é: «Tão corrente a 
historia, como se fosse solta jjrosa, qualidade sempre desejada na 
poesia... » O bom senso irrompe na referida Censura, quando rea- 
ge contra o classicismo : « Que era Poesia podia haver formosura 
sem fabula, melodia sem Musas, maravilha ou admiração sem 
ficções, sem Polifemos, sem Circes, sem Medêas, sem redes de 
Vidcano, sem fúria de O restes. » Estas ideias dirigiam os poetas 
mysticos, e suscitaram também um certo azedume contra Camões, 
como se vê na lucta dos Tassistas ; sob estas doutrinas escreveu 
D. Francisco Child Rolim de Moura o poemeto em quatro can- 



298 poKMAs AciOGRAPnicos (Epoca 4.* 

tos sobre os Novissimos do Homem, assumpto já tratado por Je- 
ronymo Corte Real. A falta de liberdade critica pôa-lhe a ima- 
ginação, de modo que o poema é verdadeiramente illegivel. D, 
Francisco Child Rolim de Moura, nascido em 1572, recebeu a di- 
recção da geração decahida do ultimo quartel do século xvi, ser- 
vindo sob os Philippes como presidente da Junta das Lezírias, e 
cobrindo a falta de sentimentos cavalheirescos com a perícia da 
equitação e da esgrima. Morreu a 12 de novembro de 1640, tal- 
vez extranho ao movimento revolucionário da independência sue- 
cedido dias depois. Citam-se outros poemas, como o de Manoel 
Thomaz sobre Sam Thomaz, em redondilhas, o de Bernardo Ro- 
drigues o Mocho, sobre Sam Thomê. 

Centre estes poetas agiographicos destaca-se o livreiro Fran- 
cisco Lopes, que soube dar á quintilha de Sá de Miranda o ca- 
racter descriptivo com o relevo pittoresco da dicção popular; me- 
recem lêr-se os poemas em redondilhas sobre Santo António, e os 
Martyres de Marrocos, máo grado a sua extensão ; é extrema- 
mente raro esse outro poemeto de Francisco Lopes, em seis can- 
tos com 522 quintilhas, Sam Bom Homem, cujo mérito consiste 
na relação d'esta lenda com o mytho do Omomi ou Haama, o me- 
diador do culto mazdeano. Francisco Lopes, foi dos pouquíssimos 
poetas que serviram a causa da revolução nacional, escrevendo 
Sylvas sobre as victorias dos portuguezes e sobre milagres para 
fortificar a resistência do povo. 

b) As Epoptas históricas. — Tassistas e Camoistas. — Quan- 
do estava mais obliterado o sentimento nacional, na primeira me- 
tade do século XVII, é quando na litteratura portugueza appare- 
cera mais Epopêas, em diífusissiraas oitavas, e sem o mínimo pro- 
testo em favor da autonomia da pátria. A fonte histórica, que 
esses poetas épicos mais consultavam, era a Monarchia luzitana 
de Frei Bernardo de Brito, onde achavam as fabulas de Ulysses 
entretecidas com as origens ethnologicas de Portugal, as aventu- 
ras de Viriato, e as lendas heracleanas, era um syncretismo poé- 
tico com elementos colhidos nos falsos documentos de Anio de 
Viterbo e Martin Polonus. 

Francisco Rodrigues Lobo, abre esta epoca do culteranismo 
com o poema do Condestabre, que~èsíãva destinado a ser na tra- 



Século XVII.) A ULYSSEIA 299 

diçào portugueza o Cid nacional ; o povo chegou a idealisal-o nas 
suas cantigas. O Condestavel D. Nuno Alvares Pereira decahiu 
como heroe poético, elle que imitava o typo da virgindade liei*oi- 
ca de Gralaaz, ficando apenas um personagem histórico em uma 
Chronica era prosa. Rodrigues Lobo seguiu esta fonte, construin- 
do uma extensissima relação métrica em oitavas. Como podia 
idealisar o heroe da independência de Portugal sob o Mestre de 
Aviz, quem dedicava os seus versos á bajulação de Philippe lil? 
Gabriel Pereira de Castro, ó o grande épico seiscentista, que 
os seus contemporâneos quizeram collocar acima de Camões, ma- 
ravilhados com o regular alinhamento da fabula da Ulyssêa. O 
erudito Doutor, Corregedor do Crime da Corte, e nomeado pelo 
invasor castelhano Chanceller-Mór de Portugal, revela-nos em to- 
das estas categorias o seu estado moral e ordem de ideias para a 
concepção de uma epopêa nacional. Como juiz a sua memoria an- 
da envolvida na trágica e injusta morte do namorado Simão Pi- 
res Solis ; e como jurisconsulto, em plagiatos das consultas de Tho- 
mé Pinheiro da Veiga. Manoel de Galhegos escreveu o elogio da 
Ulyssíia, publicada em 1636 depois da morte de Gabriel Pereira 
de Castro ; exalta-a acima dos Lusíadas, porque satisfaz a todas 
as regras da poética grega : é admirável emquanto á peripécia, 
ou imprevisto das situações, magnifico na mngthaina, ou emprego 
das machinas do maravilhoso ou sonhos, vaticínios, magias ; gra- 
duado na periferia, ou área percorrida pelos heroes ; compassado 
na bracologia e na ecthania, ou amplificações e abreviações da fa- 
bula. Galhegos admira o emprego da figura dianomi, ou reparti- 
ção symetrica das partes do poema, e das mais figuras de paras- 
ceve, analogia, teliotis, gorgotis, e enargia. Com a falsa tradição 
recebida de Frei Bernardo de Brito, com o conhecimento do tex- 
to homérico pelas Selectas das escholas, cora uma subserviência 
á Poética de Aristóteles, e bajulando o usurpador da autonomia 
da sua pátria, comQ é que poderia Gabriel Pereira de Castro ele- 
var-se a uma verdadeira idealisação épica? Os melhores versos 
da Ulyssêa são reminiscências dos Lusíadas; Faria e Sousa ad- 
mirou também esse poema e fez-lhe um commentario, porque era 
um excellente pretexto para explanações e apparatos eruditos ; 
d'este commentario falia o Conde da Ericeira, no prologo da Hen- 



300 DETRACTORES DE CAMÕES (EpOCa 4.* 

riqueida : « Não saberíamos haver também commentado a Ulys- 
sea, se o R. P. Pedro Alvares da Congregação do Oratório nos 
não trouxesse de Madrid este e outros thesouros litterarios ; etc. » 
Debalde se procurava offuscar o poema dos Lusíadas oppondo-lhe 
a Ulyssta ; a espíritos que exploravam a corrupção do jugo cas- 
telHano, esse poema apparecia com os defeitos da falta de unidade 
de acção e de heroe, mistura da mythologia cora o christianismo, 
oitavas menos perfeitamente construídas, e omissão de accentos 
que tomavam o pensamento obscuro. Não faltaram um advogado 
Manoel Pires de Almeida, um João Soares de Brito, um D, Fran- 
cisco Child Rolim de Moura, para deprimirem o grande épico na- 
cional, cnjo poema consolava o desalentado patriotismo do velho 
Bispo de Targa, e era commentado por João Pinto Ribeiro, o fau- 
tor da revolução de 1640. Por causa do seu assumpto religioso 
preferiram alguns a Jerusalém libertada aos Lusíadas, formando 
estes o grupo dos Tassistas. Galhegos queria impor a Ulyssea á 
admiração á custa dos Lusíadas : « Em nenhuma outra cousa mais 
o nosso poeta manifesta seu talento, que no exórdio da narração, 
pois começa do principio da fabula, que é o ponto d'onde deve 
começar o poema heróico, e não no meio como fez Camdes, vendo 
que Virgilio dcá principio ao seu poema com Eneas á vista de Car- 
thago.., » E depois d'esta insinuação contra a originalidade de Ca- 
mSes, prosegue: «Valério Flaco no seu poema dos Argonautas 
(que he quasí a mesma acção que a de Luiz de Camões)... E não 
se entenda que o meu animo é reprovar a Luiz de Camões ; que 
isto e;n que elle se não ajustou com a arte, he cousa em que mui- 
tos se enganaram, e não lhe tira a auctoridade ; etc. » A gloria 
de Camões venceu estas cabalas da critica, descriptas por Dom 
Francisco Manoel no Hospital das Letras; cora a reivindicação 
da autonomia portugueza elevou-se a comprehensão do seu maior 
génio poético. 

Os poetas seiscentistas não viram na revolução de 1640 senão 
o thema de uma bajulação abjecta ao Duque de Bragança. Ma- 
noel de Galhegos no Epithalamio O Templo da Memoria, celebra 
o desposorio do Duque ; Frei Manoel de Santa Thereza, no poe- 
ma em dez cantos a Lusifineída, sobre a decadência desde D. 
Sebastião até D. João iv, adula o novo monarcha ; o mesmo faz 



Século XVII.) INSULANA E MALACA CONQUISTADA 301 

João Nunes da Cunha no poema em doze cantos Lisboa conquis- 
tada; Manoel Thoraaz, no poema Phenix da Lusitânia exalta com 
emphase a acclamação de D. João iy. A litteratura decahida pe- 
lo culteranismo acabava de afundar- se na degradação do cesa- 
rismo. 

Manoel Thomaz, natural de Guimarães, viveu na ilha da Ma- 
deira, onde morreu assassinado em 1665, com oitenta annos de 
edade; a descoberta da ilha da Madeira serviu-lhe de thema pa- 
ra a sua epopêa A Insulana, em que celebra a lenda dos Amores 
de Machim e Anna d' Arfet. Em vez de se inspirar da tradição, 
diz : « Na verdade histórica segui o mais apurado e verdadeiro 
Manuscripto, cujo principio abreviou na primeira Década da sua 
Ásia... )) E a conhecida relação attribuida a Alcoforado, extraída 
da Epanaphora de D. Francisco Manoel. Tornávamos outra vez 
ás epopêas das conquistas portuguezas. 

Francisco de Sá de Menezes, filho de João Rodrigues de Sá e 
de D. Antónia de Andrade, seguiu a vesânia aristocrática, tro- 
cando o seu nome heráldico pelo de Frei Francisco de Jesus, em 
1642, era Bemfica, onde morreu em 1614; escreveu o poema em 
oitava rima sobre a Malaca conquistada, no estylo das chronicas 
rimadas de Francisco de Andrade ou Rodrigues Lobo. Por muito 
tempo lhe assignaram o primeiro logar depois dos Lusíadas. Ber- 
narda Ferreira de Lacerda escreveu os Argumentos que acompa- 
nham 03 cantos da Malaca conquistada. 

Bernarda Ferreira de Lacerda, « também Leitôa, filha de 
Ignacio Ferreira Leitão, chançarel-mór » como escreve o auctor 
da Miscellanea, continuou a corrente das epopêas sobre a antiga 
historia da Hespanha na sua Espana Libertada, em castelhano, 
que foi recebida com assombro, como o declara Miguel Leitão de 
Andrada : « obra excellente, e tal, que se não sabe outra de jnu- 
Iher, que possa ser sua comparação. » A segunda parte foi espe- 
rada com anciedade ; n'este poema a regularidade da metrificação 
substitue a individualidade. 

Braz Garcia de Mascarenhas, nasceu em 1596, e pela sua vi- 
da extraordinariamente accentuada, revela uma individualidade 
vigorosa, que se reflecte no seu talento poético. Frequentava em 
1616 a faculdade de leis em Coimbra, quando por uma questão 



302 VIRIATO TRÁGICO (Epoca 4." 

de amores foi preso na cadêa da portagein, e d'alli se evadiu ho- 
misiando-se em Hespanha. Depois de perdoado embarcou-se em 
Cadiz para regressar a Lisboa, quando o navio foi aprisionado 
pelos piratas de Argel, que foram em seguida tomados por um 
navio hollandez 5 Braz Garcia de Mascarenhas foi desembarcado 
em uma praia de Sevilha, d'onde depois seguiu viagem para o 
Porto. Interrompida a sua carreira litteraria resolveu ir para o 
Brazil; dirigiu-se para a Bahia, e tendo escapado de um naufrá- 
gio, seguiu para Olinda militando contra os hollandezes sob o 
commando de Mathias de Albuquerque. Ao fim de nove annos 
de combates na defeza de Pernambuco, regressou a Portugal em 
1663; envolvido em uma rixa, por terem espoliado seu irmão do 
priorado da Sam Salvador da Travanca, homisiou-se em casa de 
Jacintho Freire de Andrade, á espera de ensejo para exputriar- 
se. A revolução de 1640 rebenta, e Braz Garcia de Mascarenhas 
forma a Companhia dos leões, occupa Pinhel e trata de repellir da 
Beira os hespanhoes, D. João iv nomeou-o governador da praça 
dos Alfaiates, na fronteira; a rivalidade de D. Sancho Manoel, 
fez com que o prendessem no castello de Sabugal, e uma carta 
que elle escrevera a um amigo de Madrid, do tempo do seu homi- 
sio appareceu a propósito para o accusarem de traidor. Isto bastava 
para ser enforcado; Braz Garcia de Mascarenhas representou a 
D João IV a sua innocencia recordando as letras de um Fios San- 
ctorum. A forma da communicação era commovente, e o rei apesar 
de vêr traidores em todos os que o serviam, mandou soltal-o. 
Braz Garcia de Mascarenhas voltou para a sua villa de Avô, e 
no remanso de tantos desalentos escreveu o poema Viriato trágico, 
que ficou inédito ao tempo do seu fallecimento em 8 de agosto 
de 16Õ6. A escolha do assumpto tem uma grande analogia com 
o caracter do poeta, porém a submissão ás regras culteranistas 
annuUaram os Ímpetos espontâneos d'esta bella individualidade. 
Como o Viriato trágico estava inédito, em 1671 publicou o 
desembargador André da Sylva Mascarenhas um plagiato com o 
titulo de A destruição de Hespanha, restauração summaria da 
mesma, em que põe em verso a historia de Dom Rodrigo com a 
intervenção de Vénus, Plutão e Júpiter, em nove cantos em oita- 
vas. O poema do Viriato só foi conhecido do publico em 1699. 



Século xvn.) corros e pateos 303 

O poema do desembargador era preambulo para um poema dos 
Milagres da Virgem da Lapa, que não chegou a apparecer. Fize- 
ram-se traducções de outros poemas, como a Jerusalém Liberta- 
da, por André Rodrigues de Mattos'; as Éclogas e Georgicas de 
Virgilio por Leonel da Costa, em verso solto : « por ser verso, 
como diz Rengifo, na sua Arte ■poética hespanhola, cap. 41, o que 
responde ao heróico latino... » Também traduziu as Comedias de 
Terêncio. João Franco Barreto traduz a Eneida em oitava rima, 
com muitos versos dos Lusíadas : « Do mesmo Camões acharão 
em esta minha obra muitos versos e logares inteiros, e o fiz de 
propósito, porque como elle os tirou de Virgilio, cujas partes eu 
fazia, pareceu-me bem re3tituir-lh'o3... » 

c) Pateos das Comedias. — Comedias de capa e espada. — 
Por Alvará de 9 de abril de 1603, Philippe iii concedeu ao Hos- 
pital de Todos os Santos a mercê de se representarem comedias 
logo depois da quaresma, ficando a censura delegada aos desem- 
bargadores do paço. Eram estes privilégios concedidos por dez 
annos, mas por Alvará de 10 de novembro de 1612 ficaram in- 
definidamente exclusivos do Hospital de Todos os Santos. Repre- 
sentavam-se as comedias em Corros, ou segundo a designação hes- 
panhola, era Pateos; conheceu-se o Pateo das Fangas da Fari- 
nha, de 1588 a 1633, o Pateo da Bitesga, de 1591, e o Pateo 
das Arcas ou da Praça da Palha, onde se concentrou a nossa 
actividade dramática desde o fira do século xvi até ao seu in- 
cêndio era 1698. As representações erara dadas por companhias 
ambulantes vindas de Hespanha, como a do celebre Escamilha, 
e o gosto publico só admittia comedias escriptas em castelhano, 
como se vê pelo Florilégio de Padre Bento Pereira, escripto em 
1655: «Todos los dias resuenan en los teatros de Lisboa la dis- 
crecion de sus Comedias ; en todas las fiestas que en las Iglesias 
d'este Reyno se celebran, con sus Coplas, Villancicos y Motetes, 
se alientan las armonias. » Francisco Rodrigues Lobo attribue ao 
costume hespanhol o dividirmos os actos das comedias em Jorna- 
das. Era justificada esta influencia, porque então o theatro estava 
dominado pelas creações imponentes de Lope de Vega, de Cer- 
vantes, Calderon, Tirso de Molina, Luiz de Belmonte, Guevara 
e Ruiz de Alarcon, que de vez em quando tratavam nas suas Co- 



304 SIMÃO MACHADO (Epoca 4.* 

jnedias famosas assumptos da historia portugueza. Entre a gran- 
de plêiada dos escriptores dramáticos hespanhoes figuram com 
vantagem poetas portuguezes, taes como João de Mattos Fragoso, 
o alferes Jacintho Cordeiro, António Henriques Gomes e Manoel 
Freire de Andrade, que escreveram em castelhano. N'e9te géne- 
ro, o único poeta dramático verdadeiramente nacional é Pedro 
Salgado, soldado nas guerras da independência portugueza. Re- 
duziu a dramas muitos successos da campanha, taes como o Dia- 
logo gracioso de Terracuça e o Hospital do mundo, postoque im- 
perfeitamente metrificados. 

Simão Machado, nas suas Comedias de Diu, e de Alfêa, faz 
o syncrctismo das comedias hespanholas de capa y espada com a 
forma popular dos Autos de Gil Vicente. Usa de tvamoyas, nas 
suas mutações maravilhosas ; acabou por se metter a frade. Na 
eschola de Gil Vicente ainda figuram Pires Gonge, Clemente 
Lopes, D. Francisco Manoel e Rodrigues Lobo ; o Auto do Dia- 
logo de três Pastores, de Frei António da Estrella, tornou-se po- 
pular. O Tratado da Payxão, pelo Padre João Ayres de Mo- 
raes, é um documento em que se observa o vicio de culteranismo 
corrompendo a expressão ingénua dos Autos populares. Bernarda 
Ferreira de Lacerda, Soror Maria do Côo, José Corroa de Brito, 
e Manoel Thomaz imitam os Autos sacramentaes, proseguiudo a 
degradação da forma dramática até ás banalidades da Musa en- 
tretenida, collecção publicada por Manoel Coelho Rebello. 

2.° As Tertúlias e Academias litterarias. — O movimento 
scientifico realisado fora das Universidades, accentua-se no sécu- 
lo XVII pelo desenvolvimento das Academias particulares, ou In- 
stitutos que vieram a receber dos governos a consagração ofiScial. 
Em Inglaterra, já sob o protectorado de Cromwel, alguns philo- 
sophos reuniam-se para investigarem os phenomenos da natureza ; 
em França, Richelieu e Colbert aproveitaram estas iniciativas par- 
ticulares, fundando a Academia franceza e a Academia das In- 
scripçôes e Bellas-Lettras. Ao novo critério scientifico deu-se o 
nome de Philosophia natural, e naturalistas aos sábios que noa 
seus estudos experimentaes desprezavam a auctoridade da tradi- 
ção acceitando só os resultados da razão. Nos paizes em que pre- 



Século XVII.) ACADEMIAS LITTERARIAS 305 

dominava a intolerância catholica, esta emancipação dos espíritos 
era combatida, e o ensino publico mantinha-se estável no velho 
humanismo, bem como as Academias conservaram ura exclusivo 
caracter litterario. Foi preciso o decurso de um século para que 
em Portugal se fundasse uma Academia de sciencias ; as Acade- 
mias seiscentistas, além de corromperem a litteratura portugueza, 
foram deploráveis instrumentos de apathia mental. 

a) As Academias dos Generosos e dos Singulares. — Dava- 
se na Itália o nome de Academia a uma simples reunião de poe- 
tas e cantores ; assim começou também em Portugal a Academia 
dos Getie7'osos, porventura como eífeito do grande desenvolvimento 
que a musica teve na corte de D. João iv, a qual influiu na poe- 
sia pela forma dos Tonos, Motetes e Villancicos. Foi a Academia 
dos Generosos fundada por D. António Alvares da Cunha, trin- 
chante-mór de D. João iv, guarda-mór da Torre do Tombo, e um 
dos solicitos investigadores dos inéditos de Camões. Celebra vam- 
se as sessões em casa de D. Francisco Manoel de Mello, e desde 
1647 a 1688 em casa do próprio fundador, aos domingos. Nas 
obras de D. Francisco Manoel de Mello vem algumas das theses 
que se discutiam n'es3e cenáculo rhetorico, e os discursos que 
aí se recitavam. Pertenceram á Academia dos Generosos os Drin- 
cipaes escriptores do século xvii, mas infelizmente esterilisou-os 
um tal meio ; eram na maior parte fidalgos, e preferiam escrever 
em castelhano. As theses que discutiam são deploráveis. Em uma 
sessão académica, D. Francisco Manoel de Mello disserta sobre : 
el descontento de alguns Autores quexosos de los princejpes por 
falta de premio. E para bajular o príncipe herdeiro, toma-se : Por 
assumto académico cuya lei era mostrar em poças estancias como 
la gloria de los reales Alfonsos pide la pluma de mejores Tassos. 
A poesia tornou-se um artificio insensato, de anagrammas, obe- 
liscos, acrósticos, labyrintos, em formas de pyramides, como o 
usavam os eruditos italianos. Eis como D. Francisco Manoel abriu 
uma sessão dos Generosos: «Que é isso? Hoje é domingo? Hoje 
é o celebre dia do nosso celebrado ajuntamento? Hoje é o dia em 
que eu devo ostentar alguma generosa Oração ao generoso audi- 
tório dos nossos Generosos? Sim. Hoje é este dia. Tal ó hoje mi- 
nha obrigação, e minha maior divida ; etc. » Depois da morte do 

80 



306 ACADEMIA DOS SINGULARES (EpOCa 4." 

trinchante-mór a Academia foi renovada por seu filho D. Luiz da 
Cunha ; n'ella floresceram o Conde da Ericeira, o Conde de Ta- 
rouca, o Marquez de Alegrete, que transportaram para o século 
XVIII a paixão pelas academias litterarias nos seus palácios. 

A Academia dos Singulares, instituida em outubro de 166o 
por Pedro Duarte Ferrão, deixou cinco volumes de trabalhos das 
suas sessões, documento palpável da perversão das ideias littera- 
rias da época ; d'esta tertúlia diz D. Francisco Manoel, no dialogo 
da Visita das Fontes : « Famosa Academia de Lisboa, que se 
chamou dos Singulares por ser a primeira que se celebrou n'esta 
cidade á imitação dos Illuminados, Insensatos, Lyricos da Itália, 
em Urbino, Pádua e Roma. » (p. 203). D*entre os seus membros 
destacam-se os nomes de André Rodrigues de Mattos, que tradu- 
ziu a Jerusalém libertada, o Padre João Ayres de Moraes, auctor 
de um auto hierático Tratado da Paixão, António Serrão de Cas- 
tro que deixou a longa e inintelligivel satyra em redondilhas Os 
ratos da Inquisição, Manoel de Galhegos, conhecido pela Giganta- 
machia e Templo da Memoria. De ordinário as ephemerides do 
paço eram o único thema da versificação académica ; e em Hes- 
panha os reis chegavam a visitar estas tertúlias, sendo por isso 
uma gloria o pertencer ao numero dos seus sócios. Philippe iv vi- 
sitava a celebre Academia poética de Sebastiano Francisco de 
Medrano, á qual pertencia Manuel da Silveira, auctor do poema 
épico El Macaheo. Manoel de Faria e Sousa procurou debalde 
entrar para a Academia de Medrano, escrevendo por despeito nas 
Noches claras, contra as Academias : « Cuantos poetas revientan 
por ver divulgados sus nombres en letras de molde, ó por menos, 
tener entrada en las Academias, piensan algunos que tienen me- 
jor silla en el Parnaso ; como si acá por fuera nos no diseran sus 
obras el lugar que les cabe. » A abundância de poesias sem ideal 
não correspondia a nenhuma necessidade moral da sociedade, e 
Faria e Sousa, clama na Parte iii da sua Fuente de Aganippe: 
«Ya se tienen por escusados livros de rimas por ser tantas ; por 
malas si, que por muchas, a ser buenas, no pudiera ser. » Por 
fim desculpa-se de ter escripto a maior parte dos seus versos em 
castelhano : « Algo se verá en portuguez de cada suerte de rima, 
por no negar a mi lengua, teniendo un justo sentimento de que 



Século XVII.) CERTAMENS POÉTICOS 307 

no me vea en nuestro reyno, para no escrivir en otra : bíen que 
hay en ella muchos, que estando en el escriviendo en la castel- 
lana muestran claramente que no saben ninguna. Duélome que 
siendo tan parecidas estas dos lenguas, no se entienda la portu- 
gneza en Castilla. » Os versos que compõem todas as partes da 
Fuente de Aganippe são medíocres, postoque Lope de Vega con- 
siderasse bastante o auctor. Também em 1634 escreveu Manoel 
de Galhegos no prologo do Templo da Memoria : « A lingua por- 
tugueza, como não é hoje a que domina, esqueceram-se d'ella oa 
engenhos ; e quem agora se atreve a sair ao mundo com um livro 
de versos em portuguez, arrisca-se a parecer humilde ; pois escre- 
ve n'uma lingua cujas phrases e cujas vozes se usam nas praças : 
o que não deixa de ser embaraço para a altiveza que as palavras 
de que menos usamos soara bem e agradam em razão da novida- 
de, e por isso os rhetoricos lhes chamam peregrinas. » 

As festas religiosas das canonisações, dos oragos, das eleições 
de abbadessados eram o principal objecto da poesia em congressos 
académicos chamados Certamens ; o tio de D. João iv, D. Duarte, 
Marquez de Franchilla, foi juiz em um Certamen poético por oc- 
casião da canonisação de Santa Isabel, tendo por adjunto Lope 
de Vega. Foi talvez do conhecimento das poesias d'e3te D. Duar- 
te, que veiu o attribuir-se ao infante D. Duarte, irmão de D. 
João IV, o livro de poesias que se diz andar publicado em nome 
do seu secretario João Bautista de Leon. Quando em Portugal 
constou a morte desgraçada do infante D. Duarte, a Universida- 
de de Coimbra celebrou um Certamen poético onde já figurou 
Braz Garcia de Mascarenhas com um Labyrinto, que mereceu o 
primeiro premio, porque se lia por todos os lados com diversos 
sentidos. 

Onde se caracterisam bem os vicios do Culteranismo é na ce- 
lebre collecção de poesias lyricas A Phenix Renascida, colligida 
por Mathias Pereira da Sylva ; alli se lê uma curiosa satyra con- 
tra essa aberração litteraria, parodiando o estylo : 



Do quarto globo a gema nunca avara 
Que tem por casca o céo, nuvens por clara, 
Nunca ninguém tal disse. 



308 o ESTYLO PICARESCO (Epoca 4.* 

Não vi mais descascada parvoíce ! 
Grande cousa ó ser Culto, 
Fingir chimeras, e fallar a vulto. 

Mas sempre ouvi dizer d'tísta poesia. 
Que vestido de imagem parecia. 
Pois quando vemos o que dentro encobre. 
Quatro páos carunchosos nos descobre. 
Faça-lhe a culterana 
Muy bom proveito á língua castelhana; 
Que a phrase porlugueza por sezuda. 
Por prezada e por grave não se muda. 
Não se occulta entre cultas ignorâncias. 
Pois toda é cultivada de elegâncias. 
Mas porque me não digas, culto amigo, 
Que do ovo a metaphora não sigo 

Esse amigo de Frei António das Chagas, e que guardava os 
versos da sua mocidade, Frei António Vahia, auctor do Soneto 
Ao Girasol a quem chama a águia das flores, » é um dos que me- 
lhor caracterisa essa monomania das metaphoras; a falta de sen-- 
timento e a consciência da falsidade da linguagem levava-os para 
o estylo 'picaresco, applicado aos cantos de devoção e áa odes so- 
bre os triumphos das armas portuguezas nas luctas da indepen- 
dência. No género picaresco destaca-se Diogo de Sousa, ou tam- 
bém chamado Camacho, na sua Jornada ás cortes do Parnaso, 
em que chega até á obscenidade. Para elle a tradição litteraria 
quinhentista, que ainda animou Rodrigues Lobo e D. Francisco 
Manoel era objecto de irrisão : 

Um Luiz de Camões, poeta torto, 

Que era em cousas de mar este mui visto, 

E já comera muita marmelada 

Desde o polo de antárctico a Calisto... 

No fim de companhia tão lustrosa, 
Um Francisco de Sá apparecia. 
Poeta até o embigo, os baixos prosa. 

No Hospital das Letras protestava D. Francisco Manoel con- 
tra este verso travesso «maldito o mal que lhe tem feito» contra 
a auctoridade litteraria de Sá de Miranda. A poesia continuou 



Século XVII.) ALLEGORIAS PASTORAES 309 

em decadência, e só no século xviii é que Tolentino comprehen- 
deu a belleza das quintilhas de Sá de Miranda. 

b) Pastor aes e Novellas allegoricas. — Como as Pastoraes 
não derivam de elementos tradicionaes, o pedantismo erudito ser- 
viu-se d'esta forma italiana para dar largas ao engenho ou con- 
ceitos do culteranismo. Constam estas Novellas quasi sempre de 
um apaixonado pastor, que desabafa as suas ausências em proli- 
xos solilóquios ; que intermeia as suas prosas calcadas de cansados 
epithetos com elegias e romances, recitados junto das fontes ; ou- 
tros pastores intervêm para o consolarem, as nymphas escutam-os 
por detraz dos arvoredos, condoem-se do triste que morre quan- 
do por fim e já tarde sabe que é amado. O fundador do género " 
foi Jorge de Montemor, que soube infundir interesse n'estas si- 
tuações insípidas, animando-as com allusoes aos seus amores por 
uma dama de Valência de San Juan ; os seus imitadores eram 
geralmente nullos, e sem factos importantes na vida, cahiram 
n'esse refinamento de linguagem que caracterisa o Pays du Ten- 
dre. As Pastoraes que ainda merecem attenção intitulam-se O 
Desenganado, Pastor peregrino, e Primavera, de Francisco Rodri- 
gues Lobo. Produz um cansaço invensivel essa prosa cheia de 
imagens e comparações, e entremeada de versos simulando a sim- 
plicidade popular em contraste com a pompa declamatória dos 
solilóquios. Debalde se procura algum traço autobiographico, al- 
guma referencia a costumes. A novella Ribeiras do Mondego, de 
Eloy de Sá Souto Mayor, segundo a affirmaçSo do seu auctor, 
disputa a prioridade do género ás Pastoraes de Rodrigues Lo- 
bo, por já se achar escripta quando estas foram dadas á es- 
tampa. Com o desenvolvimento do género perde-se a noção do 
senso commum ; é o que se conclue da leitura da novella pastoral 
Desmaios de Maio em sombras do Mondego, por Diogo Ferreira 
Figueiroa, criado do Duque de Bragança em Villa Viçosa, em 
cujos paços escreveu em 1636 essa imbecil semsaboria; tem ain- 
da menos valor essa outra novella Crystaes da Alma, frases do 
coração, rhetorica do sentimento e amantes desalinhos, de Gerardo 
de Escobar, publicada em 1672. Todas estas novellas foram escri- 
ptas em Coimbra. O Alivio de Ti^stes e Retiro de Cuidados do 
Padre Matheus Ribeiro, de 1688, os Infortúnios trágicos da Con- 



310 TRAGICOMEDIAS E ORATÓRIAS (EpOCa 4.* 

stante Florinda do Padre Gaspar Pires Rebello, de 1665, o Serão 
politico, de Félix Castanheira Turacem, e o Peralvilho de Cór- 
dova, em que Matheus da Silva Cabral continua o Bacharel Tra- 
paça, de Solorzano, não abusam tanto do ludibrio do bom senso, 
mas também nao se inspiram do elemento tradicional, que ainda 
no século xvu tornava bastante lidos os Contos de Trancoso. O 
gosto das Novellas pastoraes allegoricas representava uma certa 
corrente do espirito publico, e como tal os jesuitas aproveitaram- 
na logo ; essa admirável allegoria ingleza do anabaptista Bunyan, 
o Pilgrim Frogress, acha-se desfigurada ou imitada na allegoria 
catholica do padre Alexandre de Gusmão, Historia do Fredesti- 
nado peregrino e de seu irmão precito, cujo valor se limita a de- 
terminar um veio litterario que era desconhecido. O Feregrino da 
America, de Nuno Marques Pereira é também uma allegoria. Ain- 
da se escreveram novellas de cavalleria, como as continuações do 
Falmeirim de Inglaterra, por Balthazar Gonçalves Lobato, e D. 
Gonçalo Coutinho, mas a execução de Cervantes fez desapparecer 
totalmente um género em que a acção se tornava ridicula sob a 
exuberância da rhetorica. 

c) As Tragicomedias dos Jesuitas. — No regulamento escho- 
lar dos Jesuitas, ou Ratio Studiorum, estabelecem-se exercícios 
litterarios de composição e declamação ; nas festas da Companhia 
representavam-se nos Collegios extensas peças dramáticas, escri- 
ptas em hexametros latinos sobre assumptos bíblicos, e que eram 
levadas á scena com grandes coros e decorações, em dois e mais 
dias. As Tragicomedias tornaram-se o meio faustoso para celebrar 
as visitas regias e os casamentos dos príncipes. A tragicomedia 
mais celebre foi a que se representou na recepção de Philippe iii 
em Lisboa em 1619 ; intitula-se Real tragicomedia do Descobri- 
mento e conquista da índia, composta pelo mestre de rhetorica 
Padre António de Sousa. Existe um grosso volume, ou Relação 
de Mimoso Sardinha, em que se descreve a riqueza do scenario e 
a pompa do espectáculo. No Index Expurgatorio de 1624 ataca- 
ram os Autos nacionaes, para melhor imporem a sua hy brida 
creação theatral. As tragicomedias convertei'am-se em Oratórias 
(1656) com musica, quando nos fins do século xvii, se fizeram as 
primeiras tentativas para a introducção da Opera na corte musi- 



Século XVII.) AS IDÉAS DE BACON 311 

cal de D. João iv, onde pelas relações de protecção que recebia 
da França começamos a imitar os Ballets, da corte de Luiz xm. 



§. n 

Tentativa de reforma dos Estudos philologicos 



Emquanto o methodo alvaristico e a syntaxe rhetorica de 
Sanches dominavam absolutamente os estudos humanistas, já as 
ideias de Bacon sobre a Grammatica geral se disseminavam pela 
Europa provocando a renovação do critério philologico. Bacon 
formula as seguintes phrases, que encerrara uma das maiores des- 
cobertas realisadas pelo nosso século : « Em verdade, seria obra 
preciosa aquella em que um homem que conhecesse perfeitamente 
o maior numero de linguas scientificas e vulgares, tratasse das 
propriedades de cada uma, mostrando 03 defeitos de cada qual... 
Basta-me distinguir a Grammatica simples e elementar da philo- 
sophica, e notar que esta, que ainda está por nascer, é digna da 
nossa attenção. » Em Portugal, já em 1619 publicava Amaro de 
Reboredo o seu Methodo grammatical para todas as linguas, cu- 
jas doutrinas se derivam ou são ura presentimento das theorias 
de Bacon. Quer Reboredo, que se estude primeiramente o portu- 
guez para se ter melhor intelligencia do latim : « Para o que fo- 
ra de muita importância crear-se uma cadeira de lingua materna, 
ao menos nas Cortes e Universidades... Saberão os principiantes 
por arte em poucos annos e melhor a lingua materna, que sera 
arte mal sabem por muitos annos, com pouca certeza, a poder de 
muito ouvir e repetir... e serão mais certos e apontados no que 
faliam e escrevem, terão mais copia de palavras e usarão d'ellas 
com mais propriedade. Porque, por falta de regras, ainda nas 
Cortes e Universidades se faliam e escrevem palavras necessita- 
das de emenda. Saberão por regras de compor e derivar, ampliar 
a lingua materna e ajuntar-lhe palavras externas com soíFrivel 



312 AMARO DE REBOREDO (EpOCa 4.* 

corrupção e formar outras de novo ; para que com menos rodeios 
se possam explicar os concertos e as sciencias quando nas mater- 
nas se queiram explicar. Porque a pobreza das maternas na tra- 
ducção de livros gregos e latinos e na declaração de especulaçSes 
philosophicas se manifesta. Saberão fugir de palavras externas 
ainda não recebidas, quando tem próprias, por não mostrarem 
que a lingua é mais pobre... O principiante que passar por este 
Methodo para as outras linguas, tem meio caminho andado... Co- 
mo por exemplo : quem souber bem por Arte a Portugueza ou 
Castelhana, descorrendo na Latina por semelhança irá descubrin- 
do um concerto, propriedade e metaphora racional, e ainda as ir- 
regularidades e particulares modos de fallar, que o ignorante vul- 
go introduziu: os quaes são certas quebras da arte, que sendo 
muito arreigadas devemos usar. A razão é, que os Latinos eram 
homens com os quaes concordamos na racionalidade, que encami- 
nha o entendimento e lingua a declarar o que sentimos : e ainda 
que as palavras sejam diversas, assi cada uma per si, como mui- 
tas juntas, na rasão da phrase comtudo, a única racional d'ellas 
em todos é a mesma. » A reforma philologica proposta por Ama- 
ro de Reboredo, foi, segundo o grammatico Gomes de Moura 
« tão attendido como os vaticinios de Cassandra. » ^ Os gramma- 
ticos procuraram reduzir as regras da lingua materna ás da lin- 
gua castelhana; os jesuitas, como Bento Pereira, transportavam 
do latim para o portuguez o vocativo, o modo potencial, gerún- 
dios e supplementos de supino. Em geral faziam-se divagações 
rhetoricas sobre as qualidades da lingua portugueza. 

Em 1631, Álvaro Ferreira de Vera publica uma Orthogra- 
phia e modo para escrever certo na lingua portugueza, confundin- 
do com o modo material da transcripção da palavra os factos or- 
gânicos das modificações dos sons e formas da lingua. Apenas se 
encontra no trabalho de Ferreira de Vera uma observação impor- 
tante : a incerteza da formação do plural dos nomes acabados em 
ão. Incapaz de comprehender o critério histórico, Ferreira de Ve- 
ra fixa a formação d'e3ses pluraes submettendo a lingua portugue- 
za á grammatica castelhana : « E porque no formar dos pluraes 

^ Mon. da Lingua latina, p. 354. 



Século XVII.) A FALTA DE CRITÉRIO HISTÓRICO 313 

dos nomes, cujos singulares sao em ão, se embaraçam muitos sem 
saberem se hão pronunciar e escrever cidadães, cidadões ou cida- 
dãos ; villães, villdes ou villãos; cortezães, cortezdes ou cortezãos, 
farei aqui regra geral para esta pronunciação e escriptura : To- 
das as vezes que na lingua portugueza acabar qualquer nome em 
ão, avendo duvida na forma do plural, veja-se como termina na 
lingua castelhana, porque se acaba em an faz o plural (cerca dos 
Castelhanos) em anes, como : capitan, capitanes, gavilan, gavila- 
nes, alleman, allemanes. E assi forma sempre sem exeição alguma 
o Portuguez o singular em 5o e o plural em ães ; capitão, capi- 
tães; gavião, gaviães ; allemão, allemães. » E prosegue comparan- 
do os pluraes castelhanos anos e enes com os portuguezes em ãos 
e des. (fl. 25 v.)'Sob o domínio hespanhol os grammaticos lison- 
jeavam por esta forma os invasores ; já Duarte Nunes de Leão, 
que alardêa a Philippe iii a protecção que recebera sempre de 
Philippe II, explica o phenomeno histórico da mudança das for- 
mas dos nomes em om para am, no fim do século xv pela « ana- 
logia e respeito que a lingua portugueza vae tendo com a caste- 
lhana ; que sempre onde a castelhana diz an ou on, que é sua par- 
ticular terminação, responde a portugueza com aquella pronun- 
ciação de ão, que succede em lugar da antiga terminação dos 
portdguezes de om, que punham em logar de an ou on dos caste- 
lhanos. D ^ A falta de critério histórico no estudo da lingua por- 
tugueza, levava a procurar explicações era uma lingua que obe- 
decia ás mesmas leis da degeneração phoneticá latina. O jesuíta 
Bento Pereira, em 1655, « renovando a memoria dos annos que 
professou letras humanas » compoz um Florilégio dos modos de 
fallar e Adágios da lingua 'portugueza, no qual traz uma Proso- 
popta dei Idioma portuguez a su hermana la lengua castelhana, 
na qual ridularisa os philologos portuguezes que derivam a lin- 
gua pátria das sessenta e duas falladas na confusão da torre de 
Babel, e propõe a derivação tanto do castelhano como do portu- 
guez da lingua latina. Na Grammatica da lingua portugueza, que 
imprimiu em 1672 em Londres, e escripta em latim, o Padre 
Bento Pereira seguindo as opiniões do Dr. Manuel Luiz, também 

^ Orthographia da lingua portugueza, p. 29. 



314 o HUMANISMO JESUÍTICO (EpOCE 4.* 

da Companhia, acha na lingua portugueza vocativo no pronome 
Eu, género neutro nos pronomes Isto, Isso, admitte nos verbos 
modo potencial, gerúndios e supplementos de supinos, e reduz a 
syntaxe a regras de concordância. ^ A syntaxe figurada fazia 
comprehender a Grammatica como uma rhetorica, e sob este pon- 
to de vista do humanismo jesuítico os philologos fizeram longas 
declamações sem valor; João Franco Barreto escreve em 1671 a 
Orthographia da Lingua portugueza pobremente calcada sobre 
o opúsculo de Ferreira de Vera, a quem copia na regra de for- 
mação dos pluraes dos nomes acabados em So, e levanta sobre o 
uso dos accentos e perigos da araphibologia essa ridícula questão 
dos litteratos do século xvii, que se encarniçaram para determi- 
nar a hora do Sonho de Dom Manoel, nos Lusíadas. (Op. cit., 
p. 207.) Na Corte da Aldêa, Francisco Rodrigues Lobo, expan- 
de-se em amplificações sem critica : « A lingua portugueza, assim 
na suavidade da pronuncíação, como na gravidade e composição 
das palavras é lingua excellente... É branda para deleitar, grave 
para encarecer, efiâcaz para mover, doce para pronunciar, breve 
para resolver, e accommodada ás matérias mais importantes da 
pratica e escriptura... Tem de todas as línguas o melhor : a pro- 
nuncíação da latina, a origem da grega, a familiaridade da cas- 
telhana, a brandura da franceza, a elegância da italiana. Etc. » 
{Dial. I.) A mesma vacuidade rhetorica apresenta Manuel Seve- 
rim de Faria, no Discurso das partes que hade haver na lingua- 
gem para ser perfeita; e como a Portugueza as tem todas e algu- 
mas com eminência de outras linguas. Álvaro Ferreira de Vera 
deixou ainda outro documento d'esta erudição banal dos rhetori- 
cos seiscentistas e que prova a decadência dos estudos humanis- 
tas sob a férula jesuítica ; nos Breves louvores da Lingua portu- 
gueza com notáveis exemplos da muita semelhança que tem com a 
latina, concluo : « que não ha na Europa língua, tomada nos ter- 
mos em que hoje a vemos, mais digna de ser estimada para a 
historia que a Portugueza: pois ella entre as mais é a que era 
menos palavras descobre ínóres conceitos, e a que com menos ro- 
deios e mais graves termos dá no ponto da verdade. Os espíritos 

* Gram. de Lobato, Intr., p. xix a xxv. 



Século X¥ÍI.) VICENTE NOGUEIRA 315 

mais distinctos, como António de Sousa Macedo, nas Flores de 
Espana, repetiam este thema das excellencias da língua portu- 
gueza, começado no século xvi por Pedro de Magalhães Gandavo 
no Dialogo em defensão da língua portugueza, e Alvares d' Orien- 
te na Lusitânia transformada, (liv. ii, prosa 6.) O vicio capital 
na forma do ensino do latim reflectiu n'esta disciplina grammati- 
cal portugueza ; a Grammatica do Padre Manoel Alvares foi mo- 
dificada por Sanches, na sua Minerva com a subserviência rheto- 
rica, e os factos grammaticaes explicavam-se pela figura ellipse, 
6 todas as dificuldades se venciam por meio de redundâncias ou 
amplificações. Ainda no século xviii Cruz e Silva chasqueava no 
Hyssope esta erudição clerical : (Canto vn) 

Yérte em máo portuguez do Tridentino, 

Com o que, e repetir alguns exemplos 

Da longa, jesuítica Syntaxe, 

Passa entre os seus por homem consnmmado. 

Um nome longo tempo ignorado, representa a grande e ver- 
dadeira erudição do século xvii em Portugal; é Vicente Noguei- 
ra, (1586-16Õ4) que viveu no estrangeiro homisiado pelas persegui- 
ções do Santo Oíficio, (1631) e do qual existe uma vasta corres- 
pondência com os sábios mais illustres, e por via de quem vieram 
para Portugal as obras mais revolucionarias. ^ 

a) A Eloquência sacra. — Os sermões foram no século xvn 
em Portugal, o que eram as Comedias para a sociedade hespa- 
nhola ; era o púlpito o único logar onde havia liberdade para di- 
zer tudo. No celebre sermão da Sexagésima, pregado por Vieira 
em 16õ3, estabelece-se esta relação entre os Sermões e as Come- 
dias : « antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversan- 
do... os ouvintes vem ao sermão como á comedia, e ha pregadores 
que vem ao púlpito como á comedia. Uma das felicidades que se 
contava entre as do tempo presente, era acabarem-se as comedias 
em Portugal; mas não foi assi: não se acabaram, mudaram-se, 
passaram-se do theatro para o púlpito. Não cuideis que encareço 

1 Sobre este sábio existem trabalhos de Morel-Fatio, que revelam a sua 
importância no estrangeiro, e de Graça Barreto sobre as suas Cartas. 



V 



316 os SERMÕES SEISCENTISTAS (EpOCa 

em chamar comedias a muitas pregações que hoje se usara. » O 
próprio Vieira era arrastado n'e3ta corrente do gosto publico, e a 
alta aristocracia mandava deitar de manhã tapetes na egreja de 
Sam Eoque, para ir ouvil-o á tarde. O sermão apresentava dois 
aspectos, que o tornavam appetecido : umas vezes era cheio de 
allusoes politicas, outras impressionava pelos eíFeitos theatraes que 
inventava o pregador. O Padre Manoel Bernardes caracterisa es- 
tas formas : « O que mui ordinariamente ouvimos aos Pregadores 
d'este tempo são dictames politicos e razões de estado, tocando 
nos vicios dos que governam, talvez com demasiada clareza e in- 
dividuação, e por ventura para saborear a gente popular sempre 
queixosa. » ^ O Padre Vieira, em uma Carta de 1675, caracterisa 
o outro género de Sermões de eífeito, descrevendo a forma das 
prédicas de Fi*ei António das Chagas : « Haverá dois ou três an- 
nos começou a pregar apostolicamente exortando á penitencia, 
mas com cerimonias não usadas dos Apóstolos, como mostrar do 
púlpito huma caveira, tocar uma campainha, tirar muitas vezes 
um Christo, dar-se bofetadas, e outras demonstrações semelhan- 
tes, com as quaes e com a opinião de Santo, leva após si toda 
Lisboa, prega principalmente na Igreja do Hospital, concorrem 
fidalgos e senhoras em grande numero, e huma vez lançou do púl- 
pito entre ellas o crucifixo a que se seguiram grandes clamores ; 
e com isto se entende que o dito pregador tem na mão os cora- 
ções de todos e os poderá mover a quanto quizer... » A lingua- 
gem dos Sermões reflecte todos os defeitos litterarios do seiscen- 
tismo, contra os quaes reclama o Padre Manoel Bernandes: «o 
estylo em que se tratam ó tão acceiado, tão sumido em discrições, 
tão estafiido de lumes rhetoricos, tão pendurado de correspondên- 
cias de palavras e períodos, que não pôde o serio e espiritual do 
assumpto lograr a sua efficacia. » (Op. cit., p. 333.) O Padre Viei- 
ra, que tanto abusou das allusoes politicas, e dos equivocos cul- 
teranistas, como na celebre imagem do homem-pó, ataca também o 
vicio das agudezas de engenho dos pregadores : a Um estylo tão 
empeçado, um estylo tão difíicultoso, um estylo tão affectado, um 
estylo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? O esty- 



* Últimos fins do homem, p. 329. 



Século XVII.) CRITICA DO PADRE MANOEL BERNARDES 317 

lo ha de ser muito fácil e muito natural. Por isso Christo compa- 
rou o pregar ao semear... É uma Arte sem arte, caia onde ca- 
hir... Assi hade ser o pregar. Hãode caliir as coisas e haode nas- 
cer: tào naturaes que vão cahindo, tão próprias que venham nas- 
cendo. Que diíFerente é o estylo violento que hoje se usa. Ver 
vir os tristes passos da Escriptura como quem vem ao martyrio: 
uns vem acarretados, outros vem arrastados, outros vem despe- 
daçados, só atados não vem... Este desventurado estylo que hoje 
se usa, os que o querem honrar chamam-lhe culto; e os que o 
condemnara chamam-lhe escuro, mas ainda lhe fazem muita hon- 
ra. O estylo culto não ó escuro, é negro boçal e muito cerrado. 
É possível, que somos portuguez, e havemos de ouvir um prega- 
dor em portuguez e não havemos de entender o que diz ? Usa- se 
hoje o modo que chamam apostillar o Evangelho^ em que tomam 
muitas matérias, levantam muitos assumptos ;... pregam o alheio 
e não o seu. «/'Bernardes enumera o conteúdo dos Sermões seiscen- 
tistas ""em^eral : « Mais, o que ouvimos são graças indecentes, 
apodos, chistes e historiasinhas ridículas, especialmente nas tardes 
de Quaresma e menhã de Ressurreição. Finalmente o que ouvi- 
mos são questões de theologia escholastica, de que os ouvintes 
quasi todos ficam em jejum ; como succedeu em uma occasião, 
que tratando o Pregador com grande subtileza da graça efficaz, 
ficaram os ouvintes persuadidos que eram louvores a uma Santa 
chamada Graça Efficaz, e vieram perguntar pela sua vida e mi- 
lagres. São fabulas gentílicas, panegyricos floridos, encarecimen- 
tos enormes e fora de toda a semelhança de verdade, compara- 
ções e preferencias de Santos entre si, injuriosas aos mesmos San- 
tos, e tudo semeado de discrições poéticas, por agradar ao vulgo 
com o prurito dos ouvidos, que reprehendeu Sam Paulo. » {Ib., p. 
331.) O papa Innocencio xi, ordenou ao seu Núncio em Portu- 
gal, Francisco Nicolini : « que avisasse aos Superiores regulares 
que puzessera aos Pregadores seus súbditos preceitos de obediên- 
cia 2)ara que não pregassem conceitos e floreios... » Foi o aviso 
communicado em 1688, e acrescenta o Padre Bernardes : « porém 
não me parece que se guarda. » {Ib., p. 318.) Também a questão 
jesuítica da graça efficaz tinha sido prohibida por Paulo v, mas 
continuava no púlpito como thema de subtilezas. , Nas ordens mo- 



■V 



318 o PADRE ANTÓNIO VIEIRA (EpOCa 4.* 

nachaes desviou-se o prurido rhetorico para theses apparatosas, 
ás quaes ainda no século xviii allude Diniz no Hyssope. 

typo mais completo do pregador no século xvi é o Padre 
António Vieira, cuja personalidade se mistura com as intrigas di- 
plomáticas para a defeza do throno de Dom João iv e para a 
usurpação da soberania de Dora AfFonso vi para seu irmão Dom 
Pedro II. O Padre António Vieira nasceu em Lisboa em 1608, 
tendo em 1615 de acompanhar seus pães Christovam de Oliveira 
Ravasco e D. Maria de Azevedo, para a cidade da Bahia de To- 
dos os Santos, Alli recebeu educação nas Escholas dos Jesuítas, 
e por elles seduzido vestiu a roupeta com pouco mais de quinze 
annos de edade. Em 1641 voltou a Portugal na commissão que 
vinha declarar a D. João iv que o Brazil adherira á restauração 
nacional. Revelou-se então como um extraordinário pregador, e 
entrou na intimidade do paço, communicando-lhe o rei a cifra se- 
creta dos seus embaixadores. D. João iv confiou-lhe varias mis- 
sões secretas, sendo uma d'ellas a de 1647, em que o rei abando- 
nava Portugal, indo com mulher e infante para o Brazil, ficando 
o Duque de Longueville governando Portugal na menoridade do 
príncipe D. Theodosio desposado com sua filha. Em outro pro- 
jecto de casamento apparece Vieira, como no da infanta D. Cathe- 
rina com D. João da Áustria, 1647, e do príncipe D. Theodo- 
sio com a infanta de Castella, incorporando-se assim Portugal na 
Hespanha, segundo as instrucçoes dadas por D. João iv em 1550. * 
A acção politica de Vieira, em tanta evidencia, levou a Compa- 
nhia a pretender expulsal-o, para salvaguardar-se da responsabili- 
dade das intrigas diplomáticas. Sob o governo de Aflfonso vi e 
acção do Marquez de Castello Melhor, os Jesuítas foram repelli- 
dos da governação, como o sustenta o historiador Muller; ' Viei- 
ra entrou no plano da deposição do monarcha, sustentando no es- 
pirito popular a esperança da vinda do Encoberto, que era D. Pe- 
dro II; assim commentara as Prophecias de Bandarra, sobre o 
Quinto Império, primeiramente na expectativa de que D. João iv 

1 J. Francisco Lisboa, Obras, t. iv, p. 161. É o trabalho mais comple- 
to e perfeite que existe sobre o Padre Vieira. — * Hist. universelle, t. ii, 
p. 221. 



Século XVII.) FREI LUIZ DE SOUSA 319 

ou D. Luiza de Gusmão fundariam no Brazil um Império novo 
sob a direcção da Companhia, e depois na reivindicação da pre- 
ponderância da Companhia passando a coroa para o Encoberto, ou 
D. Pedro II. Tal foi a causa da perseguição que lhe promoveu o 
Santo Officio, em cujos cárceres esteve preso em Coimbra. A sua 
actividade como missionário no Maranhão, como agente diplomá- 
tico nas varias cortes da Europa, a sua vastíssima correspondên- 
cia politica, e flexibilidade de talento, fazem-no a testemunha his- 
tórica de um século, morrendo com perto de noventa annos em 
1697. 

D 'entre a multiplicidade dos oradores sacros destacam-se ou- 
tros, como Balthazar Paes, Balthazar Limpo, Frei Philippe da 
Luz, Frei Christovam de Lisboa, Frei António Feo, mas em to- 
dos a ingenuidade da crença está substituída pelo appello aos re- 
cursos da rhetorica. 

b) Chronistas e Historiadores. — A forma litteraria da histo- 
ria não escapou á perversão do estylo culteranista, e a sua conce- 
pção soíFreu desde que os narradores, que colligiam os factos nos 
legares da acção e tomavam parte nos acontecimentos, foram prin- 
cipalflietííe frades, escrevendo na apathia da clausura e para cum- 
prirem o preceito da obediência. A ornamentação do estylo tor- 
nou-se o seu exclusivo cuidado. 

Frei Luiz de Sousa, é de todos os Chronistas do século xvii 
o mais celebrado, attribuindo-se-lhe o maior purismo na dicção 
portugueza. Escreveu a Vida de Frei Bartholomeu dos Martyres, 
e a Chronica de Sam Domingos; porém d'esta3 obras apenas lhe 
pertence o estylo, porque os materiaes de investigação histórica 
tinham sido amontoados pelo desconhecido Frei Luiz de Cacegas, 
fallecido, segundo Barbosa Machado, em 1616, o qual tinha per- 
corrido o paiz por mais de vinte annos. Os superiores da ordem 
dominicana, conhecendo os talentos cultos de Frei Luiz de Sousa, 
excellente poeta latino, mandaram que se lhe entregassem os ma- 
nuscriptos de Cacegas, para que os apurasse e os vestisse com a 
exposição rhetorica. Contava Frei Luiz de Sousa pouco mais de 
sessenta annos, essa edade apathica em que o dizer toma uma 
forma conceituosa e auctoritaria. Liberto do trabalho das investi- 
gações, que tanto ensina ao historiador a critica da importância 



320 A CHRONICA DE SAM DOMINGOS (EpOCa 4.* 

e vitalidade dos factos, entretinha-se Frei Luiz de Sousa descan- 
sadamente a arredondar phrases, e a soprar as simples narrativas 
de Frei Luiz de Cacegas. No emtanto confessa quanto deve ao 
ignoi-ado obreiro : t Frei Luiz de Cacegas, a cujo nome e traba- 
lho se deve a parte mais substancial da presente escriptura, e dos 
outi'03 dous volumes...» E accrescenta : « Serviram-me os seus 
caminhos para eu poder escrever assentado, quieto e escondido no 
canto da cella... » ^ Sobre o valor de Frei Luiz de Sousa como 
chroniáta, transcrevemos o testemunho insuspeito do seu melhor 
biographo, D. Francisco Alexandre Lobo : « Estes Chronistas 
quasi nunca são muito hábeis, e raramente podem ou se atrevem 
a sair da esphera que o costume, a authoridade dos superiores, e 
as ideias na corporação dominantes lhes tem assignado. A funda- 
ção dos Conventos ou Mosteiros, o descahimento e reformas, as 
vidas espirituaes e reformas dos alumnos, enchem totalmente a 
dita esphera ; de ordinário os casos políticos e ainda militares, 
cora que estes se prendem, as alternativas da litteratura, as cau- 
sas do descahimento, os meios sábios e efficazes de reforma, são 
deixados com descuido muito digno de censura. Não accusarei ou 
arguirei Frei Luiz de Sousa de ir aqui pela vereda dos mais 
Chronistas : Sei que não foi o arbítrio seu. . . Mas nem por isso 
deixarei de confessar, que a sua Chronica é n'e3ta parte como 
poucas, postoque com algumas excepçSes similhante ás outras ; e 
que não deve servir de exemplar no tocante á selecção dos factos 
graves e momentosos, que podem interessar e aproveitar a gran- 
de numero de leitores. » ^ Eis a severa opinião do Bispo de Vi- 
zeu sobre a Chronica de Sam Domingos. 

Sobre a Vida de Frei Bartholomeu dos Martyres, tão incon- 
scientemente admirada, falia o citado Bispo de Vizeu citando a 
sua falsidade histórica : « o Arcebispo, que na maior parte dos ca- 
sos representa um honrado príncipe da egreja, aqui e alli parece 
somente um frade rasteiro ; e fora melhor que o oráculo de Tren- 
to, o desenganado e intrépido conselheiro do Vaticano ou de Bel- 
vedere se não mostrasse comendo as couves grosseiras em tisnada 
escudella nas choupanas de Barroso. Eu creio que Frei Luiz de 

1 Chr. de Sam Domingos, P. n, liv. 4, c. 7. — ^ Obras, t. ti, p. lol. 



Século XVII.) A VIDA DO ARCEBISPO 32i 

Sousa errou n'esta parte por seguir os papeis de Cacegas... » {Ib.y 
p. 153.) Frei Luiz de Sousa serviu-se d'estas pequenas anecdotas 
do arcebispo para encobrir as manchas da sua individualidade 
histórica, que apparecem de um modo miserável nos documentos da 
terrível época da perda da nacionalidade portugueza. Em hostili- 
dade com Roma, por não lhe acceitarem as decisões do Synodo 
que celebrou em Braga em 1566; em demandas contínuas com o 
seu cabido ; em conflicto com a jurisdicção secular, não consentin- 
do que entrasse em Braga uma alçada mandada por Dom Sebas- 
tião ; em recriminações contra D. Catherina por ceder a regência 
ao Cardeal Dom Henrique, o celebrado Arcebispo está longe de 
ser essa figura extactica repintada por Frei Luiz de Sousa. Elle 
se oppoz ao movimento de resistência nacional no Minho, exer- 
cendo a sua auctoridade moral e religiosa em fazer reconhecer 
Philippe.ii, refugiando-se era Tuy desde que viu que lhe era mo- 
mentaneamente impossível oppôr-se á corrente patriótica, e vindo 
ás cortes de Thomar cora os Arcebispos de Évora e Lisboa reco- 
nhecer a soberania do invasor. Frei Luiz de Sousa calava a ver- 
dade histórica acobertando a sua deficiência com as flores recor- 
tadas do estylo culto. Philippe iv, por carta de 20 de outubro 
de 1627 escolheu-o para redigir a Clironica de D. João III; co- 
mo o que se pretendia de Frei Luiz de Sousa era somente o es- 
tylo, trataram de poupal-o a todo o trabalho de investigação ; o 
secretario Francisco de Lucena mandou-lhe um livro dos despa- 
chos de Pêro de Alcáçova, Dom Luiz Lobo deu-lhe um manu- 
scripto das cousas de Africa ; Manuel Severim de Faria ofFereceu- 
Ihe uma Chronica de D. João III esboçada por António de Cas- 
tilho, as notas diplomáticas de Pêro de Alcáçova, e uma Chronica 
de Arzilla por Pedro de Andrade Caminha. Para escrever os seus 
Annaes de Dora João III, achados em um sótão da Bibliotheca 
das Necessidades e impressos em 1844, consultou o Chronisfa- 
mór de Hespanha Gil Gonsalves d'Avila : « que lhe parece bera 
escrevermos por annosr, ao modo como escreveu o chronista del- 
rei Dom João ii de Castella, cujas obras vimos e lemos, e é de 
estimar. » Herculano, que publicou esses Annaes, diz que o ma- 
nuscripto é « cheio de muitas emendas, mais de estylo e de lin- 
guagem, que de outra cousa ; quanto aos successoa da índia resu- 

21 



322 JACINTHO FREIRE DE ANDRADE (EpOCa 4." 

me JoSo de Barros, e os da metrópole « sâo pouco mais que uma 
série de apontamentos. » 

Jacintho Freire de Andrade, que já nas poesias se manifestara 
um exagerado cultista, como historiador é um palavroso, que em 
vez do encadeamento dos factos busca o effeito das apostrophes, 
dos discursos postos na bocca dos capitães á maneira de Tito Lí- 
vio. Assim, depois de Frei Luiz de Sousa, é o estylista mais ad- 
mirado pelos sectários da tradição humanista dos collegios jesuí- 
ticos. Para comprazer com o Inquisidor geral D. Francisco de 
Castro, escreveu Jacintho Freire, abbade de Sambade e de Santa 
Maria das Chans, a Vida de Dom João de Castro, quarto Visa- 
rei da índia. Sobre o estylo d'e8te inchado panegyrico, escreve 
D. Francisco Alexandre Lobo : « Um estylo tão discreto, tão agu- 
do, tão aífectado, não diz com um heroe tão grave; diria melhor, 
por exemplo, com Persiles e Segismunda. Quer ser eloquente o 
auctor e não é senão inchado. A larga oração de Coje Çofar nem 
tem verosimilhança, nem tem em vários rasgos senso commum... 
Até o numero e cadencia das palavras em todo o livro são pouco 
entendidos, porque fogem do que é dado á prosa, e vão entrar 
no que pertence á poesia. A cada paragrapho e quasi a cada ora- 
ção topamos com versos. » {Ib., t. ii, p. 164.) É d'este livro que 
ainda hoje se extrahem os themas escholares. 

Quando os Chronistas não tinham a preoccupação do estylo, 
única forma da sua individualidade, plagiavam as relações raa- 
nuscriptas ; assim as Doze excellencias da China, escriptas pelo 
missionário portuguez Padre Gabriel de Magalhães, em 1668, e 
mandadas traduzir para francez pelo Cardeal d'Estrées, com o tí- 
tulo Nouvelle Relacion de la Ckine, acham-se incluídas no Vergel 
de plantas e flores de Frei Jacintho de Deus, (de p. 149 a 264) 
titulo verdadeiramente culteranista para um livro de historia. ^ 

Dom Francisco Manoel de Mello. — É o único escriptor seis- 
centista, que apresenta uma elevada concepção da historia, influin- 
do na forma pittoresca e viva das suas Guerras da Catalunlia. 
Ninguém na Europa o egualava no vigor das narrações e no exa- 

1 Sousa Viterbo : Achado bibliographico — As Doze excellencias do hn- 
perio da China. 



Século XVII.) VERDADEIRA CONCEPÇÃO DA HISTORIA 323 

me das causas moraes dos factos, com um critério aprendido na 
vida real como parte activa nas revoluções, como victima das ar- 
bitrariedades, como prudente nas missSes diplomáticas, e como 
excellente poeta, com o dom de animar o que se passou ante seus 
olhos ou o que o impressionou profundamente. Como o que revela 
o historiador é o critério, por isso aqui se menciona o auctor das 
Epanaphoras, apesar de ter escripto era castelhano a Historia 
das Guerras da Catalunha. Philarète Chasles avalia assim este 
livro : « A simplicidade viril do estylo, alheio aos ornamentos ri- 
diculos com que a poesia se arreiava então ; a liberdade dos juí- 
zos, o vigor com que os caracteres se desenham, são dignos do 
assumpto. Vê-se alli uma nação selvagem combatendo pelos seus 
direitos, governando-se a si própria, completamente republicana 
pelos costumes, catholica pelas crenças, monarchica pelo habito, 
muitas vezes esmagada pelo inimigo, mas nunca abatida. — Os 
personagens do drama collocam-se todos em relevo ; conheceil-os ; 
estaes a ouvil-os ; acha-se alli o movimento dramático de Thucy- 
dides e de Heródoto, sem esforço, sem imitação da antiguidade. 
Circumstancias análogas produzem communs resultados ; esses ho- 
mens proferiram esses discursos assim; comportaram-se por essa 
forma; verdade, pujança, eloquência, interesse enérgico sobre 
um theatro acanhado, pintura animada dos costumes catalães; 
axiomas politicos naturalmente deduzidos do jogo das paixões e 
do curso dos successos: estes méritos numerosos deveriam ter fi- 
xado a attenção sobre um livro que desgraçadamente appareceu 
pela primeira vez em Portugal, em um paiz então pouco litt erá- 
rio, e que se precipitava rapidamente para a decadência. » ^ Os 
hespanhoes contam D. Francisco Manoel entre os seus grandes 
escriptores. 

O apparecknento dos primeiros Joi-naes em Portugal deveria 
ter influído algum tanto na forma da redacção histórica ; em de- 
zembro de 1641 appareceu o primeiro periódico com o titulo de 
Gazeta, e durou pelo" menos até septembro de 1647. Dava noti- 
cia dos acontecimentos do paiz, principalmente das novidades da 
guerra entre Portugal e Hespanha; taxava-se em seis reis cada 

1 Voyage d'un critique — Espagne, p. 283. 



324 CARTAS DA RELIGIOSA PORTUGUEZA (EpOCa 4.* 

folha. Seguiu-se-lhe o Mercúrio portuguez, redigido pelo secreta- 
rio de estado António de Sousa Macedo, publicando-se mensal- 
mente desde 1663 até 1667; tinha em vista as noticias da guerra 
da fronteira e desmentir as falsas informações que as folhas vo- 
lantes hespanholas propalavam acerca de Portugal. Faltaram-nos 
as Revistas litterarias, usuaes em todas as nações da Europa. 

c) Os Moralistas. — No século xvii a moral apresenta um 
caracter secular, por eíFeito do conhecimento das Máximas de La 
Rochefoucauld, dos Caracteres de La Bruyère ; estuda-se de pre- 
ferencia o homem nas suas relações humanas. Pertencem a este 
género philosophico e litterario o interessante livro Arte de fur- 
tar, attribuido geralmente ao Padre Vieira, e por inferência cri- 
tica a Thoraé Pinheiro da Veiga. Encerra noticias preciosas so- 
bre costumes portuguezas, A Carta de guia de Casados de Dom 
Francisco Manoel de Mello é inapreciável pela graça do estylo e 
pelos bellos traços descriptivos da vida domestica portugueza. 
Cita-se o Casamento perfeito, de Diogo de Paiva de Andrade, sq- 
brinho do celebrado pregador quinhentista, Parada Leitão e ou- 
tros. 

As Cartas da Religiosa portugueza são o documento psycho- 
logico mais verdadeiramente sentido que a alma portugueza apre- 
senta no século xvii. São cinco Cartas escriptas por uma menina 
reclusa em um convento de Beja a um official francez, o Conde 
de Saint Leger, vindo a Portugal por ordem de Luiz xiv, quan- 
do mandou soccorrer-nos contra uma nova invasão na fronteira 
do Alemtejo em 1663. O einidito Boissonade descobriu em uma 
Nota manuscripta do seu exemplar das Cartas o nome da dama 
que as escrevera : « Sobre o meu exemplar da edição das Cartas 
'portuguezas, de 1669, ha esta nota, de uma lettra que me é des- 
conhecida : La Religieuse qui écrit ces Lettres se nommait Mariau- 
ne Alcoforado, religieuse à Beja, entre V Estremadure et VAnda- 
lusie. Le chevalier à qui ces Lettres étaient écrites était le Comte 
de Chamilly, dit alors Comte de Saint Leger. » * Pela noticia do 
Nobiliário compilado por Cabedo, Aguilar e Monterroyo, sobre a 

^ Journal de lEmpire, du 5 janvier 1810. — Vide o nosso estudo 
mais desenvolvido na Era Nova, sobre as Cartas da Religiosa portugueza. 



Século XVII.) A INFLUENCIA FRANCEZA 325 

genealogia dos Alcoforados de Beja, se authenticam as Cartas 
de Marianna em todas as suas referencias ; ai se nomeia o ir- 
mão que lhe facilitou a remessa das Cartas, Francisco da Cos- 
ta Alcoforado, companheiro de armas do Conde de Chamilly, 
e casado com D. Brites Montes, á qual também alludem as Car- 
tas como confidente da Religiosa; pela citada genealogia se vê 
que Marianna entrara muito cedo para o mosteiro da Conceição 
de Beja, onde era professa sua irmã mais velha D. Peregrina. 
Embora as Cartas só existam em francez na traducção de Couil- 
leraque, de 1669, revelam a construcção da syntaxe portugueza, 
e a Europa as recebeu como a revelação mais perfeita do génio 
portuguez. Não devem passar despercebidas na historia littera- 
ria, sobretudo quando através d*ella se procura a expressão de 
caracter nacional. A influencia politica da França na restaura- 
ção de 1640 prolongou-se sob difFerentes aspectos, já da imitação 
dos Ballets, já nos hábitos da vida sumptuária e ideias económi- 
cas dos nossos estadistas. É na actividade litteraria onde essa in- 
fluencia melhor se caracterisa. 



QUINTA EPOGA 



(século xviii) 
os ÁRCADES 



§. I — o psetido-classicismo francez í 

1.° A protecção official na litteratiira : 

a) Reforma da Lingua portugueza — O Vocabulário de Bluteau. 

b) Fundação da Academia de Historia. 

c) Os Ericeiras — A Academia dos OccuUos e as origens da Arcádia 

Ulijssiponensc. — A Opera e o Cesarismo. 
2." Reacção contia o humanismo jesuítico : 

a) Verney e o Verdadeiro methodo de estudar. 

b) Estado da Poesia portugueza antes da Arcádia. 

c) As Cartas do Cavalheiro de Oliveira, e do Abbade António da Costa, 

§. II — As reformas pombalinas sob o influxo dos XCconomistas 
iraucezes : 

1." A Arcádia Ulyssiponense — Sua organisação e Catalogo dos seus só- 
cios. 

a) Garção, Diniz, Quita e Manoel de Figueiredo. — Imitação do 

Lutrin de Boileau. 

b) Dissidentes da Arcádia : A Guerra dos Poetas, 

c) Associações litterarias. — João Xavier de Mattos, 
2." O Intolerantismo sob Dona Maria i. 

a) Tolentino e Filinto — José Anastácio da Cunha. 

b) A Arcádia ultramarina — Poetas mineiros. 

c) As Cartas de Beckford — O poema Reino da Estupidez. 

§. IH — O negativismo encyclopedista em I*ortagalt 

a) Fundação da Academia real das Sciencias : O Duque de Lafões, 

Corrêa da Serra, Brolero. 

b) Nova Arcádia — Bocage e José Agostinho de Macedo. 

c) A crise revolucionaria em Portugal : As Tragedias philosophicas de 

Voltaire, e os theatros particulares — Transição para o Romantismo. 

O pseudo-classicisnio íraucez 

O século XVIII em Portugal apresenta-se na litteratura com 
aspectos complexos, que logicamente se comprehendem e expli- 
cam, desde que se relacionem com a corrente intellectual e politi- 
ca da Europa, Durante a época da Renascença, a França cedeu 
á Itália o seu logar na hegemonia do Occidente ; abandonando-se 
as tradições medievaes pelo estudo e imitação dos monumentos 
greco-romanos, os seus humanistas tiveram de supplantar os eru- 
ditos italianos, vindo somente no século xvii a impôrem-se como 
modelos de um renovado classicismo. Nas luctas religiosas do pro- 



Século XVIII.) CARACTER OFFICIAL DA LITTERATURA 327 

testantismo, a Casa de Áustria, servindo a unidade catholica, ad- 
quiriu essa extraordinária preponderância politica, que Richelieu 
conseguiu demolir, nas largas intrigas e luctas que terminaram na 
paz de Westphalia. Luiz xiv, continuando esta politica, foi leva- 
do pela ambição pessoal a explorar a unidade catholica entregan- 
do-se aos jesuítas e tornando-se o instrumento de perseguições re- 
ligiosas ; a litteratura, sem a liberdade de consciência, limitou -se 
á imitação das obras-primas da antiguidade, e á bajulação servil 
do rei que absorvia a nação na sua personalidade : UÉtat c'est 
moi. O despotismo de Luiz xiv, e a pompa official da sua corte 
reproduziam-se nas outras cortes da Europa, e a litteratura fran- 
ceza era lida e admirada como a expressão da grandeza exterior, 
que mascarava uma intima decadência. Os outros monarchas tam- 
bém procuravam proteger officialmente a litteratura, desconhecen- 
do que os escriptores da plêiada que dera nome ao Século de 
Luiz XIV ou eram anteriores a esse reinado, ou foram n'elle desco- 
nhecidos ou perseguidos. A verdadeira influencia intellectual da 
França do século xvii, manifesta-se nas doutrinas philosophicas 
de Descartes, foragido da sua pátria, e na lucta doutrinaria da 
moral dos Padres de Port-Royal contra os Jesuítas, que dirigiam 
o ensino publico francez. 

A politica da restauração da nacionalidade portugueza, levara 
Castello Melhor, pelo casamento de Dom Affonso vi, em 1666, a 
aproximar a corte portugueza da corte faustosa de Luiz xiv ; imi- 
tou-se em Portugal a vida dissoluta palaciana, os Jesuítas arvo- 
raram-se em omnipotentes senhores d'e3te pequeno estado, onde 
nunca mais depois de Dom Pedro ii se convocaram as Cortes. E 
durante o longo reinado de Dom João v, que em Portugal se ma- 
caqueiara os hábitos faustosos da corte de Luiz xiv, a ponto de 
serem combatidas as modas francezas na pragmática do monar- 
cha. O rei protege oíficialmente a litteratura, formam-se acade- 
mias á maneira da de França, e a auctoridade de Boileau é trans- 
portada para Portugal pelo Conde da Ericeira, que lhe traduz a 
sua Poética. A primeira metade do século xviii em Portugal ma- 
nifesta-^e como um arremedo tardio da cultura do século anterior 
em França ; a Academia de Historia portugueza parodiava a 
Academia das Inscripções e Bellas Lettras, nas suas investigaçSes 



328 AS TRES INFLUENCIAS FRANCEZAS (EpOCa 5.* 

eruditas, e a Arcádia reagindo contra o máo gosto do Seiscentis- 
mo culteranista, procurava na imitação do pseudo-classicismo 
francez os modelos para a renovação da litteratura portugueza. É 
assim que Pina e Mello imita João Baptista Rousseau, Garção 
imita-lhe as Cantatas, Diniz imita o Lutrin de Boileau, Cândido 
Luzitano traduz a Athalia de Racine, o capitão Manuel de Sousa 
traduz o Telemaco de Fénelon. 

Com esta corrente de imitação mais ou menos inconsciente, ap- 
parece a necessidade da adhesao ao espirito scientifico das Acade- 
mias do século XVII ; Jacob de Castro Sarmento não consegue vêr 
admittida em Portugal a sua traducção do Novum Organum 
Scientiarum de Bacon, encommendada por Dom João V, mas era 
algumas ordens religiosas inaugura-se o estudo da lingua france- 
za juntamente com a mathematica e physica, substituem aos cora- 
mentarios aristotélicos as novas doutrinas de Descartes, Gassen- 
di e Locke, vindo esta nova crise intellectual portugueza a ir- 
romper em toda a sua força na obra de Verney, Verdadeiro 
methodo de Estudar, onde se faz o duro processo ao systeraa pe- 
dagógico dos Jesuitas. A acção dos Padres de Port-Royal contra 
08 Jesuitas é sustentada em Portugal pelos Padres da Congrega- 
ção do Oratório, de quem Pombal veiu a servir-se quando na ex- 
pulsão da Companhia seguiu os planos do ministro francez Choi- 
seul. 

O influxo dos Economistas francezes apparece dirigindo as re- 
formas do ministro de Dom José, como as doutrinas dos Ency- 
clopedistas penetram por seu turno, quando apesar do intoleran- 
tismo do reinado de Dona Maria i, o Duque de Lafões, coadjuva- 
do por Corrêa da Serra, funda a Academia real das sciencias de 
Lisboa, era 1779. É certo que em Portugal os homens de Let- 
tras não exerceram a acção politica, que tanto os caracterisa em 
França, mas cooperaram em grande parte na dissolução do regi- 
men catholico-feudal, e a crise revolucionaria da França aqui pe- 
netrou pela litteratura ferozmente perseguida pelo Intendente 
Manique. 

1." A protecção official na Litteratura. — As Academias 
seiscentistas, em uma sociedade sem representação politica, e sob 



Século XVIII.) o FAVOR REAL 329 

a espionagem das consciências e da censura do pensamento, con- 
tinuavam a subsistir automaticamente, como ura meio de distra- 
cção entre pessoas cultivadas. Em 1696 inaugurara o Conde da 
Ericeira, Dom Francisco Xavier de Menezes, uma Academia, in- 
titulada Conferencias discretas ; era composta da mais selecta aris- 
tocracia, que tinha a monomania da erudição latina, e as reuniões 
celebravam-se aos domingos na Livraria do conde. Tinham por 
fim as Conferencias discretas «examinar e resolver questões phy- 
sicas e moraes ; e para maior elegância da prosa e poesia na- 
cional, decidia as difficuldades que se propunham sobre a signifi- 
'ação dos vocábulos da sua lingua. » ^ O Conde da Ericeira, sa- 
bia que a Sociedade real de Londres recebera protecção oíficial 
em 1660, como a Academia franceza a recebera do governo em 
1635; todos os que procuravam em Portugal a restauração das 
Lettras confiaram na protecção ofíicial como o talisman maravi- 
lhoso para fazer brotar o talento, transformar-se a lingua e bri- 
lhar a poesia. O cesarismo comprehendia que para gosar e dar 
perstigio ao poder era conveniente gastar, e por complacência es- 
tender ás tertúlias culteranistas um raio da sua opulência conce- 
dendo-lhes favor oíficial. O auctor do Antídoto da Lingua portu- 
gueza, publicado em 1710, appella para a intervenção official do 
monarcha para que se aperfeiçoe a lingua nacional : « se alguma 
pessoa de auctoridade fallar ao nosso monarcha sobre a reforma- 
ção da nossa lingua, mui facilmente se moveria o seu generoso 
animo a fazer-nos tocante a este negocio algum favor tão grande 
que parecesse dos maiores que um principe pode fazer a seus vas- 
salos, e que por isso bem se podesse contar entre as acções memo- 
ráveis de sua magestade, e as mais dignas do amor paterno que 
nos deve mostrar, e da summa propensão e benevolência com que 
nos deve favorecer. » (Op. cit., 416.) Tal era o critério da philo- 
logia. O ensino publico estava atrophiado sob o terrível Edital de 
1703, dos Jesuítas do Collegio das Artes de Coimbra, e elles eram 
os ministros e directores espirituaes do monarcha. A primeira ini- 
ciativa de reforma litteraria partiu de um estrangeiro, o P.® Blu- 



Bluteau, Vocabulário, \h.° Academia. 



330 BLUTEAU E O VOCABULÁRIO PORTUGUEZ (EpOCa 5.* 

teau, e o ataque franco contra o humanismo jesuítico realisou-se 
era Roma pelo portuguez Luiz António Verney. 

a) Reforma da Língua portugueza. — O Vocabulário de 
Bluteau. — No Antídoto da Língua portugueza, confessa Mello 
da Fonseca, que no seu tempo se julgava a lingua portugueza 
inferior á castelhana pela « grande frequência cora que usamos do 
dipthongo ão, faz a nossa lingua mui tosca e grosseira. Isto con- 
fesso que nunca n'ella me parecem bera ; mas nem basta que eu 
a julgue inferior a alguma das vulgares, nem cuido, como cui- 
dam geralmente todos os portuguezes, que é irremediável este 
defeito. » E em seguida propõe a substituição das formas em ão 
adoptando o nominativo latino ; assim substituía solidão por soli- 
tude, mansidão por mansuetude, etc. Bluteau também nos revela, 
que em 1727, se imaginava que a lingua portugueza era «casual- 
mente formada de vários fragmentos da lingua mourisca e caste- 
lhana. » Bluteau, logo que chegou a Portugal, interessou-se pelo 
estudo da lingua portugueza: «No anno de 1668, cheguei a este 
reino, e desde aquelle tempo, raro foi o dia em que não me apro- 
veitasse de alguma noticia da lingua portugueza. » No fervor do 
seu estudo, que começou por formar catálogos de palavras, diz 
elle : « Tambera houve quem cora rústica simplicidade me disse, 
que não merecia a lingua portugueza tanto trabalho. A rasão 
d'este disparate é, que na opinião da maior parte dos estrangei- 
ros, a lingua portugueza não é lingua de per si, como é o fran- 
cez, o italiano, etc, mas lingua enxacôca, e corrupção do caste- 
lhano, como os dialectos, as linguagens particulares das provín- 
cias, que são corrupções das linguas, que se falia na corte e ca- 
beça do reino. . . Sobre esta errada aprehensao tenho tido gran- 
des debates com estrangeiros de porte e litteratos. A rasão em 
que se fundam, é que muitos vocábulos portuguezes são radical- 
mente castelhanos, mas truncados e diminutos; falta que (segundo 
elles dizem) denota a sua pouca derivação. » Bluteau recebia ca- 
dernos de palavras colligidas sobre dadas especialidades pelos 
principaes horaens cultos, taes corao o Marquez de Alegrete, o 
Conde da Ericeira, José Soares da Silva, o cosraographo Manoel 
Pimentel, os Padres António dos Reys, D. José Barbosa, D. Je- 
ronymo Contador de Argote, D. Manuel Caetano de Sousa, e 



Século XVIII.) A ACADEMIA DE HISTORIA 331 

outros muitos. Nenhum diccionarista tornou a pôr em pratica o 
processo de Bluteau para fixar no léxico a parte oral da lingua 
portugueza. Bluteau passou a França para imprimir o Vocabulá- 
rio ; como ensaio deu á estampa na impressão real do Louvre um 
volume de Sermões, e diante do preço e dos erros de trabalho, 
regressou a Portugal quando se quebrou a paz cora a França. 
Julgaram-no espião, e foi mandado custodiar no convento de Al- 
cobaça, onde durante três annos r^ócou continuamente o Voca- 
bulário. Pelo favor official de Dom João v, é que foi terminada 
a impressão do Vocabulário : « Se com auxílios do real erário não 
acudira V. M., no meio da carreira parava a obra, e a suspensão 
d'ella era por agora uma espécie de sufFocação e morte para a 
lingua portugueza. » E torna a referir-se ao favor official : « foi 
acabado no reinado de um monarcha tão amante das lettras, que 
do seu motu próprio e por essa ingenita munificência lhe deu, 
para sair á luz, preciosos alentos. » A riqueza da lingua era des- 
conhecida ; o seu conhecimento era a primeira condição para a 
transformação da litteratura ; o próprio Bluteau confessa : a depois 
de ajuntar os materiaes para esta obra, eu mesmo fiquei admira- 
do e juntamente opprimido da multidão de vocábulos que achei 
nos Authores antigos e modernos, w Quando mais tarde a Arcádia 
tentou restaurar a Poesia portugueza, Francisco José Freire, pe- 
las Reflexões da Lingua portugueza, aproximou os litteratos do 
conhecimento dos escriptores mais considerados das differentes 
épocas. 

b) Fundação da Academia de Historia jjortugueza. — Foi 
esta corporação constituída com os sócios da Academia dos Ano- 
nymos e com os membros das Conferencias discretas, as quaes du- 
raram desde 19 de fevereiro de 1696 até ao tempo da guerra 
em 1703. Nasceu da iniciativa particular do Conde da Ericeira, 
que reunia os académicos no seu palácio do largo da Annuncia- 
da ; em uma Oração panegyrica do quarto Conde da Ericeira se 
lê : « Por emulação dos Scientes de França, ou com o exemplo do 
Cardeal de Richelieu, que no anno de 1635 estabeleceu em Paris 
a Academia franceza, formou o Conde outra com o titulo de 
Portugueza, no seu palácio na Annunciada.» (Or., p. 8.) Para 
solemnisar os annos de Dom João v, em dia de S. João Evange- 



332 TRABALHOS ACADÉMICOS (EpOCa 5.' 

lista, em 1719, pediu <a rainha ao Conde da Ericeira para cele- 
brarem no paço uma sessão da Academia portugueza ; concorre- 
ram os vários litteratos, recitaram discursos e odes, e o rei lison- 
geado dignou-se conceder- lhes patrocinio oflBcial, mandando que 
se regulamentasse a Academia portugueza, tomando-a sob a sua 
protecção em 4 de novembro de 1720. A primeira sessão so- 
lemne sob o titulo de Academia real da Historia portugueza, ce- 
lebrou -se em 9 de dezembro de 1720, tendo além dos quarenta 
sócios da primeira fundação mais outros dez escolhidos pelo rei. 
Choveram os favores officiaes sob a douta corporação; pela Carta 
regia de 11 de janeiro de 1721 é a Academia authorisada a re- 
clamar das Camarás e Cartórios do reino Noticias para os seus 
estudos ; por Alvará de 20 de agosto do mesmo anno prohibe-se, 
tendo em vista a Academia, desfizerem-se edifícios, estatuas, 
moedas, medalhas e mais monumentos antigos; pelo decreto de 
20 de outubro, é auctorisada a nomeação de certos paleographos 
para tirarem da Torre do Tombo as cópias necessárias para os 
académicos; porém o principal favor do monarcha, foi o Decreto 
de 29 de abril de 1722, isemptando da censura prévia e de li- 
cenças do Desembargo do paço as obras dos membros da Acade- 
mia. Os impressos sumptuosos dos trabalhos académicos, bem re- 
velam a mão esbanjadora que levantou o convento de Mafra ; 
apezar de todos os vicios de uma apparatosa erudição, deixou 
esta Academia os trabalhos monumentaes da Bihliotheca luzitana, 
de Diogo Barbosa Machado, a Historia genealógica da casa real, 
por D. António Caetano de Sousa, as Memorias de Dom João 1, 
por José Soares da Silva, e as Memorias e Noticias da Ordem 
dos Templários, do Dr. Alexandre Ferreira. 

Uma das dotaçSes esplendidas de Dom João v ás lettras por- 
tuguezas foi a fundação da Bibliotheca da Universidade de Coim- 
bra; começou a ser construída a 10 de abril de 1712, e ficou 
concluida durante o anno de 1728, tendo custado sessenta e seis 
contos, seiscentos e vinte e dois mil reis, e em compra de livros 
quatorze contos, trezentos e oitenta e cinco mil reis. Ao reitor 
Nuno da Silva Telles, por provisão regia de 31 de outubro de 
1716, foi approvada a compra que fez para esta Bibliotheca da li- 
vraria de Francisco Barreto, pelo preço de quatorze mil cruzados. 



Século XVIII.) A TRADUCÇÃO DA POÉTICA DE BOILEAU 333 

Dom João V estendeu a sua desvairada protecção á Aca- 
demia poética Arcádia de Roma, que no seu começo celebrava 
as sessões no palácio da pliantastica rainha Christinaj deu-lhe o 
capital para fundar um palácio próprio, e recebeu o titulo de 
pastor Albano. O Conde da Ericeira, que era a alma das acade- 
mias litterarias, também foi eleito árcade romano, com o nome 
bucólico de Ormano Palisco ; outros portuguezes figuram na lis- 
ta dos seus sócios, como Ignacio Garcez Ferreira, com o nome 
de Gelmedo, José Peres de Macedo de Sousa Tavares com o de 
Libenio Orentejo; Luiz António Ver^ey com o de Verenio Or- 
gianOf e bem assim o beneficiado Francisco Leitão Ferreira, 
Philippe José da Gama, Padre Seraphim Pitarra, etc. Estávamos 
em Portugal alheios ao movimento scientifico do século xvii, e 
por isso toda a actividade era dispendida na continuação das ter- 
túlias culteranistas. 

c) Os Ericeiras. — A Academia dos Occultos, e as origens 
da Arcádia Ulyssiponense. — A illustre familia dos Condes da 
Ericeira, tão rapidamente! extincta, distinguia-se pelo seu fervor 
litterarlo e pelas suas opulentas bibliothecas ; Dom Francisco 
Xavier de Menezes, quarto Conde da Ericeira, sentia a necessi- 
dade de reagir contra o culteranismo seiscentista, que dominava 
na própria Arcádia de Roma, e procurava abrir curso ao pseudo- 
classicismo francez, tornando Boileau conhecido e admirado em 
Portugal. Elle próprio traduziu em versos portuguezes a severa 
Poética do dictador do Parnaso ; agradecendo-lhe a remessa de 
um exemplar, escrevia Boileau, na sua Carta xiv : « Dizei-me 
antes, como fizestes para me perceber tão bem, e para alcançar 
na minha obra até essas cambiantes que eu julgava que só po- 
diam ser sentidas por gente nascida em França, e que vivesse na 
corte de Luiz o Grande.» O Conde da Ericeira mandúra-lbe 
também versos seus escriptos em francez, dos quaes Boileau di- 
zia: «Não ha n'elle3 de estrangeiro senão o vosso nome, e não 
ha em França homem de bom gosto que não quizesse tel-os es- 
cripto. » Esta corrente franceza, seguida mais tarde por novos re- 
formadores litterarios. Garção, Diniz, Cândido Lusitano e outros, 
não vencia a monomania culteranista, que dominava nas outras 
Academias que precederam a Arcádia Ulyssiponense ; taes eram 



334 SOCIEDADE DOS occuLTOs (Epoca 5.' 

as Academias dos Anonymos, a que presidia José Freire Montar- 
royo Mascarenhas, dos Escolhidos, dos Applicados, que se cele- 
brava na cella do Padre Cenáculo, dos Particulares, dos Unidos. 
Nas Meinorias históricas, de Cenáculo, referindo-se a esta época, 
lê-se : « no reino dominava o calor das Academias de Bellas-let- 
trás, das quaes umas foram acabadas pela critica ou invectivas 
mal soífridas. » (t. ii, 180). Vegetações ephemeras d'esto calor, 
apparecem outras academias, como a Problemática de Setúbal, a 
Scalahitana, a Pastoril, a dos Aventureiros de Santarém, a dos 
Abandonados, os Conformes Lisbonenses, a Sertoria, a Marianna 
da villa de Bellas, os Obsequiosos de Sacavém, etc. 

O Conde da Ericeira falleceu era 1744 e foi chorado por to- 
das as Academias litterarias; porém novos esforços se fizeram 
para reagir contra o espirito de máo gosto, como então se chama- 
va ao seiscentismo. Fundou-se em 1747 a Sociedade dos Occultos, 
da qual se conhece apenas um folheto de encómios poéticos, mas 
a sua importância é-nos revelada por uma Oração recitada na 
Arcádia, por Grarção, onde confessa ter sido ella o gérmen da 
Arcádia Ulyssiponense : « Poderia ser que a ella (a Sociedade dos 
Occultos) se devesse toda a gloria, se a publica desgraça (o terra- 
moto de 1755) não separasse tão útil e tão sabia companhia.» 
Uma parte dos poetas da Sociedade dos Occultos contribuiu com 
esforços para a fundação da Arcádia Ulyssiponense, como ten- 
tativa de reacção clássica. 

A Opera e o Cesarismo. — Em uma sociedade privada de 
opinião publica, para quem a ordem era a estabilidade mantida 
pelas forcas do rei e pelas fogueiras do Santo Officio, o theatro, 
que outra coHsa poderia ser senão um espectáculo de deslumbra- 
mento para a aristocracia, ou a facécia equivoca da farça para o 
povo? Por esta relação se ligam no theatro do século xviii a 
Opera e a baixa Comedia. A imitação das cortes mais faustosas 
da Europa, em que a Opera era o principal divertimento cesáreo, 
quiz também D. João v gozar este dispendioso divertimento. A 
medida que o Cesarismo se tornou mais absorvente, assim appa- 
receram os theatros régios de Queluz, de Salvaterra, da Ajuda e 
da Opera do Tejo. As composições dramáticas eram sem valor 
litterario, assentando o seu interesse na pompa do scenario e no 



Século XVIII.) AS MODINHAS BRAZILEIRAS 335 

machinismo das tramóias. Não podiam formar-se artistas dramáti- 
cos, porque a profissão de actor era julgada infamante. Havia um 
elemento tradicional para fundar-se a Opera nacional portugueza, 
mas os compositores desconheceram -no e imitaram a Itália; essa 
antiga tradição lyrica reapparecera em Portugal na revivescên- 
cia da Modinha brazileira, da qual escreve Beckford : « Quem 
nunca ouviu este original género de musica, ignorará para sem- 
pre as feiticeiras melodias que tem existido desde o tempo dos 
sybaritas. Consistem em languidos e interrompidos compassos, 
como se faltasse o fôlego por excesso de enlevo e a alma anhelas- 
se unir-se a outra alma idêntica de algum objecto querido. Com 
infantil desleixo insinuam-se no coração antes de haver tempo de 
o fortificar contra a sua voluptuosa influencia; imaginaes sabo- 
rear o leite, e o veneno da sensualidade vae calando no intimo da 
existência ...» (Carta VIII.) Na Historia da Musica, Strafford 
caracterisa technicamente o valor dos Lieds portuguezes : « O 
povo portuguez possue um grande numero de Árias lindissimas e 
de uma grande antiguidade. Estas árias nacionaes são os lunduns 
e as Modinhas. Em nada se parecem com as árias das outras na- 
ções, a modulação é absolutamente original. As melodias portu- 
guezas são simples, nobres, e muito expressivas. E para sentir 
que os compositores portuguezes abandonem o estylo da sua mu- 
sica nacional para adoptarem a maneira italiana.» ^ A Modinha 
brazileira, sobrevivência das antigas serranilhas gallezianas, que 
se acham nos nossos Cancioneiros provençalescos, actuou na re- 
novação do lyrismo portuguez nas composições da Marília de 
Dirceo; a sua vulgarisaçao no gosto popular proveiu da represen- 
tação das Operas do Judeu, á influencia das quaes allude Gar- 
ção: 

As portuguezas Operas impressas. 
De Encartíos de Medêa ; Precipicios 
De Phaelante; Alecrim e Mangerona; 
Em outras nunca achei galanteria. 

Eram estas as principaes Comedias do brazileiro António José 

1 Op. cit., p. 263. Trad. franeeza. 



330 ANTOMO josi': K McuLÁo LLiz (Epoca 5.* 

da Silva, em que retratava typos populares, e nas situaçSes chu- 
las empregava todos os modismos peculiares da língua portugue- 
za, imitando os costumes e servindo-se por vezes de traàiçííes na- 
cionaes. Macaqueava a comedia italiana do imbróglio, parodiava 
a acção mythologica, e para comprazer com a predilecção pela 
Opera cesarista introduzia em scena a Modinha brazileira. Antó- 
nio José nasceu no Rio de Janeiro em 8 de maio de 1 705, de uma 
familia de christãos-novos longo tempo perseguida pela Inquisição. 
No pequeno intervallo de liberdade que a Inquisição lhe deixou, 
escreveu para os theatros do Bairro Alto e Mouraria essas Come- 
dias a que o povo chamou Operas do Judeu ; sustentaram- se duran- 
te um século na scena, e ainda hoje fazem rir involuntariamente. 
A graça portugueza está alli representada na chalaça. O talento 
de António José não chegou a completa maturidade ; preso pela 
segunda vez em 5 de outubro de 1737, foi relaxado ao braço 
secular pelo Santo Officio em 18 de outubro de 1739, degolado, 
e queimado na fogueira do Auto de fé, como consta do respecti- 
vo processo inquisitorial archivado na Torre do Tombo. 

A forma da baixa Comedia, creada por António José, foi con- 
tinuada por Alexandre António de Lima, que também pertenceiv 
á Sociedade dos OccuUos, Depois de António José, o escriptor 
dramático mais querido do povo foi Nicoláo Luiz, o creador da 
comedia de cordel, formada com elementos do theatro hespanhol, 
italiano e francez, A sua profissão de ensaiador do Bairro Alto 
obrigava-o a fornecer comedias novas para os espectáculos regu- 
lares d'aquella empreza. Apenas deixou assignada a comedia dos 
Maridos peraltas, e em recibos a Constância da Fortuna e Filha 
ohediente. Representava-se ainda em verso, pela prolongada in- 
fluencia das comedias famosas. Nicoláo Luiz pôz em verso quan- 
to pôde traduzir ; a sua comedia mais popular foi a D. Ignez de 
Castro, traduzida de Vellez de Guevara. O ultimo representante 
d'este género dramático, António Xavier Ferreira de Azevedo, 
deixou persistindo no gosto do povo a farça de Manoel Mendes. 
As grandes despezas com a Opera não provocaram o appareci- 
mento de um poeta lyrico como Metastasio, nem a baixa comedia 
achou um talento como o de Goldoni para dar-lhe a forma defini- 
tiva. 



Século XVIII.) CARTESIANISMO EM PORTUGAL 337 

A atonia mental fazia sentir-se em tudo, quando se reconhe- 
ceu que o mal pronnha da falta de cultura scientifica. 

2." Reacção contra o humanismo jesuítico. — No Ritual 
theologíco do Collegio das Artes de Coimbra, impunham os jesuí- 
tas o seu dogmatismo auctoritario : a Não se defenderão opiniões 
contra Lógica conimbricense ; e quando muito se poderá propor 
a questão problematicamente, mas poucas vezes. » ^ O jugo aris- 
totélico com que os Jesuítas manietavam as intelligencias nas 
€Schola3 desde a Renascença, quebrava-se em França pelo es- 
forço dos jansenistas de Port-Royal, que renovavam o ensino 
pelas doutrinas philosophicas de Descartes. O próprio Luiz xiv, 
protector dos Jesuítas, teve em 1670 de increpar a Universi- 
dade da acanhada rotina dos seus antigos methodos. A Portugal 
chegaram as doutrinas pedagógicas dos Padres de Port Royal, 
primeiramente applicadas á Grammatica portugueza por Conta- 
dor de Argote; em 1718 inicía-se uma renovação dos estudos na 
ordem franciscana com a introducçao das disciplinas mathemati- 
cas e physicas ; em 1730 outras ordens monásticas, dos Cruzios, 
Benedictínos e Gracianos, abandonaram o jugo de Aristóteles e 
Scoto, admittíndo no ensino a Philosophía moderna ^ consignada 
nas obras de Bacon, Descartes, Gassendi, e Locke. Conhecendo 
quanto o estudo da Medicina estava atrazado no reino, mandou 
D. João V por via do Conde da Ericeira, consultar em Inglaterra 
Jacob de Castro Sarmento, qual o modo para restaurar entre nós 
esta sciencia; o insigne medico propoz a traducção em portuguez 
do Novum Organum scientiarum de Bacon, como a primeira base 
para a reorganisação da intelligencia. O rei concordou no plano, 
e começou a ímprimir-se a traducção em 1735; os Jesuítas viram 
minada a sua auctoridade pedagógica, e o rei abandonou misera- 
velmente a empreza, como se queixa Jacob de Castro Sarmento. ' 
A revolução philosophica achavase então mais adiantada pelos 
trabalhos de Descartes" e desde que se generalísasse o conheci- 
mento da língua franceza estava achada a primeira condição para 

1 Ms. da Mesa Censória, ap. Cenáculo, Mem. hist.^ t. ii, p. i;}6. — 
Os Frades julgados no tribunal da Rasão, p. 86. — ' Ap. Compendio 
'úrico, p. 360. 



338 A CRITICA DE VERNEY (EpOCa .' 

a renovação scientifica. Na biograpbia de Frei Joaquim de Santa 
Clara, diz Cenáculo : a Por estes estimulos viu então ser-lhe ne- 
cessária a língua franceza, e lh'a facilitar o mestre Lehmg, que 
chamou ao convento de Lisbo£f^ Padre Barradas como pai-a cou- 
sa útil á Litteratura da província e se tirar o aproveitamento de 
que a lingua franceza é capaz em seus bons livros, » As ordens 
monacaes reagiam naturalmente contra a preponderância jesuíti- 
ca, e 03 Padres da Congregação do Oratório tomaram ostensiva- 
mente a mesma acção, em Portugal, dos Padres de Port Royal em 
França. Visto no seu aspecto mais geral, este movimento, que 
prepara as reformas pedagógica^ de Pombal, representa o appa- 
recimento do critério cartesianib*a. O que se passava em Itália 
com António Genuense, e em Hespanha com Feyjó, reprodiiz-se 
em Portugal com as celebres Cartas criticas de Luiz António 
Verney. 

a) Verney e o Verdadeiro Methodo de Estudar. — O auctor 
das Cartas, onde cora todas as formas exteriores de respeito pe- 
los jesuítas se analysa implacavelmente os erros dos seus metho- 
dos de ensino, nasceu em Lisboa, a 23 de julho de 1713, de 
Dionysío Verney, francez, e de D. Maria da Conceição Arnaut, 
de Penella. Graduou-se em theología, e mestre em Artes pela 
Universidade de Évora, onde foi arcediago, doutorou-se era Câ- 
nones e Direito pela Universidade de Roma. Viajou em 1736, 
com destino á Itália, e em Roma viveu a maior parte da sua vida. 
Alli trabalhava como secretario da legação portugueza junto da 
Cúria, e de Roma escrevia as Cartas publicadas em 1747, com o 
título de Verdadeiro Methodo de estudar, pondo em evidencia os 
erros pedagógicos dos jesuítas. Do ensino do latim nas escholas 
baixas, pela Grammatica do Padre Manuel Alvares, escreve; 
"y^ «. Sei que em muitas partes onde se explica a Grammatica de 
Manoel Alvares, também lhe accrescentam algum livrinho ; mas 
I tantos como em Portugal nunca vi. As declinações dos nomes e 
verbos estudam pela Grammatica latina; a esta se segue um 
i Cartapacio portuguez de rudimentos; depois outro para gene- 
I xos e pretéritos muito bem comprido; a este um de syntaxe 

1 Panorama, t. viii, p. 152. 



SCCUlO XVIII.) REPLICA DOS JESUÍTAS 339 

bem grande (por José Soares, Lisboa, 1684, 4.°); depois um li- 
vro a que chamam Churro, e outro a que chamam PromptaariOj 
pelo qual se aprendem os scholios dos nomes e verbos; e não sei 
que mais li vro ha.» A Lógica conimbricense era ensinada por ou- 
'tros cartapacios entregues á memoria, as revoltantes Lógica Bar- 
reia e Lógica Carvalha, usando os mestres do estimulo da panca- 
da. (Op. cit., II, 214.) A Rhetorica ensinava-se por cadernos ma- 
nuscriptos do Padre Cypriano Soares, de Pomey e Juglar, em 
exercidos de citações pedantes, declamadas em voz chorosa com 
accionado cómico. O livro de Verney provocou uma extraordiná- 
ria reacção da parte dos Jesuitas, que atacaram com fúria o 
Frade Barbadinho, pseudonymo do atilado critico, acobertando-se 
elles com outros pseudonymos, taes como Frei Arsénio da Pie- 
dade (Padre José de Araújo), Dom Aletophilo Cândido de Lacer- 
da (Padre Joaquim Rebello), Theophilo Cardoso da Silveira 
(Padre Francisco Duarte), Theotonio Anselmo Brancanalco, ana- 
gramma de Manoel António de Castello Branco, e Padre Severi- 
no de S. Modesto. Esta polemica litteraria é um dos factos impor- 
tantes da nossa historia intellectual no século xviii ; os jesuitas 
sophismaram a defeza. As consequências da critica de Verney 
foram immediatas (17Õ0). Os Padres da Congregação do Orató- 
rio obtiveram a Casa e Hospicio de N. S. das Necessidades para 
abrirem escholas ao publico, e para isso compuzeram novos com- 
pêndios, alcançando privilégios exclusivos da propriedade d'elles 
em resolução de 26 de março de 1747 e 18 de abril do mesmo 
anno. A medida que a lucta pedagógica proseguia, os Padres do 
Oratório iam-se aproximando dos intuitos de Port Royal, e tra- 
duzindo 03 seus principaes livros elementares. O systema alvaris- 
tico, das escholas dos Jesuitas, levou um golpe mortal no Novo 
Methodo para se aprender a Grammatica latina, do Padre Antó- 
nio Pereira de Figueiredo, que imitou a grammatica de Cláudio 
Lancelloto ; por ultimo Pombal, nas Instrucçoes regias de 1759. 
mandou adoptar nas aulas publicas, um Resumo do Novo Metho- 
do. Póde-se concluir que as reformas da instrucção publica feitas 
em 1770 pelo Marquez de Pombal, tomaram por base o Verda- 
deiro Methodo de estudar. Em uma carta de Verney, de 8 de fe- 
vereiro de 1786 a um amigo da Congregação do Oratório, quei- 



340 os artifícios de metrificação (Época 5.* 

xa-se elle da falta de reconhecimento pelo seu trabalho ; só eni 
1790 foi nomeado deputado honorário da Meza da Consciência e 
Ordens, fallecendo em Roma a 20 de março de 1792. 

b) Estado da Poesia poHugueza antes da Arcádia. — Ver- 
ney descreve no seu livro monumental o estado mental dos versi- 
ficadores : « quando escrevem dez versos lhe chamam Decima ; 
e quando unem quatorze chamam -lhe Soneto, e assim das mais 
composições. De sorte que compõem antes de saberem o que de- 
vem dizer e como o devem dizer. . . Geralmente entendem que o 
compor bem consiste em dizer bera subtilezas, e inventar cousas 
que a ninguém occorressem ; e com esta ideia produzem partos 
verdadeiramente monstruosos, e que elles mesmos, quando os exa- 
minam sem calor, desapprovam. Os mestres de Rhetorica, em cu- 
jas escholas se faz algum poema... envergonham-se de poetar em 
portuguez, e têm por peccado mortal ou cousa pouco decorosa fa- 
zel-o na dita lingua. » (i, 177.) Caracterisando o falso engenho, 
Verney determina quaes foram as formas poéticas mais predile- 
ctas da primeira metade do século xviii : « o falso engenho con- 
siste na semelhança de algumas letras, como os Anagrammas, 
Chronogrammas, etc, ás vezes na semelhança de algumas sylla- 
bas, como os Eccos, e alguns consoantes insulsos ; outras vezes na 
semelhança de algumas palavras, como os Equívocos ; finalmente 
consiste também em composições inteiras, que apparecem com dif- 
ferentes figuras ou pintura. . . » (p. 179.) E diz da persistencig, 
d'estas formas : « aquellas ridículas composições- que tanto reina- 
ram. . . no fim do século xvi e metade do século xvii, e dester- 
radas dos paizes cultos, ainda hoje se conservam em Portugal .. . » 
Attribue Verney a introducção dos poemas pintados ao P.° BIu- 
teau, quando já os achamos usados por D. Francisco Manoel no 
louvor da academia dos Generosos; falia da estultícia dos poemas 
lipogrammaticoSf nos quaes não se empregava uma dada letra do 
alphabeto. No seu bom senso critico Verney exclama : « Mas não 
se pôde soffrer que homens modernos, e que mostraram doutrina 
em muitas cousas, caíssem n'esta rapaziada, condemnavel ainda 
em ura rapaz ; e que fizessem composições, expressamente para 
mostrar que sabiam fazer Ecco. Eu vi Eccos que respondiam em 
latira e outras linguas, e tive compaixão cora o poeta que se can- 



Século XVIII.) o MÂo GOSTO 341 

síira cora aquillo . . . Quando eu li algumas das Jornadas de Je- 
ronymo Bahia, tive compaixão do dito religioso (escreve em Equí- 
vocos) e assentei que a jornada que devia fazer era da sua casa 
para o hospital. Esta sorte de poetas são doidos, ainda que não 
furiosos, ... eu ainda conheço quem o pratica, e quando se lhe 
offerece occasião de dizer um Equivocosinho, . . . estes chamados 
doutos, frades, seculares, sacerdotes e estudantes... etc. » (p. 
182.) «Acham-se além d'isso mestres, que fomentam isto, dando 
prémios aos rapazes, que nas escholas ouvindo alguma palavra, 
descobrem n'ella um anagramma puro. Seria isto nada, se se con- 
tivesse dentro das escholas ; mas o máo é que sáe para fora e se 
introduz nos discursos graves ...» Vae enumerando outras formas 
insensatas : « Os Acrósticos, são primos coirmãos dos Anagram- 
mas;... Acham-se engenhos tão mariolas, tão infatigáveis, que 
no mesmo Soneto põem três vezes o mesmo nome, duas nas extre- 
midades e uma no meio ...» « Mas vulgar é em Portugal outra 
sorte de engenho falso, a que chamara Consoantes for(^ados. 
Quando querera experimentar ura homem se tem engenho, dam- 
Ihe consoantes estrambóticos para que complete os versos, e como 
isto seja o mesmo que obrigar ura horaem a que diga despropósi- 
tos, já se sabe que saem composições dignas de se verem. » (p. 
185.) « Também os Laberynthos de Letras são mui mimosos em 
Portugal... Outros tem por cousa grande fazer Laberijntos de 
quartetos, dispostos em certa figura, de sorte que se lêem por to- 
das as partes, e sempre conservam a mesma consonância. Outros 
fazem versos que se lêem para diante e para traz ; de uma parte 
fazem um sentido, de outra, outro contrario ; empregara n'isto 
tempo considerável, nãd só em fazel-o, mas em decifral-o ; e cha- 
mam a isto emprego do sublime engenho.» (p. 186.) « Egual- 
mente ó estimada n'este paiz uma espécie de Sonetos, em que se 
repete a mesma palavra em todos os versos . . . Podia citar mil 
exemplos, mas nenhum melhor que o Soneto qu» se attribue ao 
Chagas, e começa : O tempo já de si me pede conta, etc. » (p. 187.) 
Muitas d'estas formas eram restos da poética provençal, outras da 
italiana, mas a falta de comprehensão do elemento tradicional 
levava os poetas para o esmero exclusivo da forma forçando-os 
a absurdos que hoje vêraos repetidos nos modernos parnasianos. 



4 



342 o ABBADK COSTA (Epoca 5/ 

Era contra este atrazado culteranismo que se erigia a Arcádia 
Ulyssiponense, desvairada pelo seu lado com o pseudo-classicismo 
francez. 

c) As Cartas do Cavalheiro de Oliveira, e do Abbade Costa. 
— Dois espíritos superiores se acham n'e3ta epoca homisiados de 
Portugal : Francisco Xavier de Oliveira, refugia-se na Hollanda, 
que era então o asylo de todos os livres-pensadores da Europa, e 
d'onde veiu o impulso de emancipação mental da geração que for- 
mou a Encyclopedia ; António da Costa, depois de ter chegado a 
Roma através de mil trabalhos, e de seguir os cursos musicaes de 
Veneza, fixa a sua residência em Vienna de Áustria, onde é ad- 
mirado pelo seu pasmoso talento artistico. As Cartas do Cava- 
lheiro de Oliveira exprimem a sua situação desolada, e foram des- 
de muito cedo admiradas como modelos de familiaridade. O Ab- 
bade António da Costa, que Burney comparava a Rousseau, es- 
creveu algumas Cartas a amigos que deixara em Portugal, e era 
tal a graça, vivacidade e colorido das suas descripçòes, que o eru- 
dito António Ribeiro dos Santos tratou de coUigil-as, obtendo 
ainda umas treze, que se acham actualmente impressas. Nada ha 
na lingua portugueza mais bem escripto ; nunca a prosa dos nos- 
sos homens de lettras conseguiu essa naturalidade graciosa, esse 
vigor de impressões, essas pinturas dos caracteres, das emoções e 
do aspecto das cousas. O pouco que se sabe da biographia de An- 
tónio da Costa acha-se implicito n'essas Cartas, modelos inexcedi- 
veis para quem pretenda escrever portuguez. ^ 



§. n 

As reformas pombalinas sob o influxo dos Economistas francezes 

Com a morte de Dom João v, em 1750, o partido clerical 
que dominava tentou exercer a sua acção directa no novo reina- 

1 Nas Questões de Litteratura e Arte poiiugueza, p. 293 a 321, vem 
um estudo sobre As Cartes do Abbade Costa. 



Século XVIII.) o MARQUEZ DE POMBAL 343 

do de Dom José ; a entrada de Sebastião José de Carvallio para 
o ministério por favor da rainha viuva, significava o primeiro 
triumpho contra o elemento jesuítico. A catastrophe imprevista do 
terremoto de 1755, que subverteu Lisboa, dando largas ao minis- 
tro para pôr em pratica a sua capacidade reformadora, coadju- 
vou-o no plano de 'òc tornar o Mazarin d'este joven Luiz xiv. 
Sebastião José de Carvalho tinha vivido em Vienna de Áustria e 
Inglaterra, conhecia as formas do Cesarismo, que se convertia era 
despotismo legal, e as novas formas de administração que se sys- 
tematisavam em doutrinas económicas. Na situação em que se 
achava, já não podia ser um Mazarin, mas imitou á risca o seu 
digcipulo Colbert ; como elle, era também brutal e impassivel, co- 
mo elle procurava casar os filhos nas familias mais opulentas do 
reino, como elle regulamentava tudo, instituía companhias de 
commercio e industria, decretava monopólios, contractava operá- 
rios estrangeiros para o aperfeiçoamento das artes, e o plano da 
ruína de Fouquet tem analogias com a perseguição canibal contra 
a poderosa Casa de Aveiro. O golpe vibrado contra os Jesuítas 
em 1757, obrigou o activo ministro a acudir ao vácuo deixado na 
instrucção publica, decretando a reforma dos estudos menores até 
á hierarchia superior do ensino na Universidade de Coimbra. Na 
longa série das leis, decretos, cartas regias, avisos e regulamentos 
que mandou redigir, apparece sempre a França como um modelo 
do seu ideal politico e económico ; na creação da Intendência ge- 
ral da Policia em 25 de junho do 1760, elle confunde a organi- 
sação militar ^om o poder judicial como no systeraa de Luiz xiv, 
assim como nos alvarás sobre os interesses e acç(5es das Compa- 
nhias, e sobre os juros do dinheiro, põe em jogo o credito trazi- 
do por Law em 1720 ao conflicto económico da intervenção do 
estado ; o séu decreto contra os monopólios de trigo e milho, lem- 
bra o effeito reflexo da obra do abbade Galliani, Diálogos sobre 
o commercio dos Trigos, na lucta doutrinaria das duas escolas ex- 
clusivistas, de Quesnay ou do Sistema agricola, e de Gournay ou 
do Systema mercantil. Voltaire, falia com a sua philosophica iro- 
nia do prurido d'estas que3t<5es económicas em França : « Pelo 
anno de 1750, a nação farta de versos, de tragedias, de comedias, 
de operas, de romances, de historias romanescas, de reflexões mo- 



344 os ECONOMISTAS FRANCEZES (EpOCU 5."^ 

raes mais que romanescas ainda, e disputas theologicas sobre u 
graça e sobre as convuIsSes, pôz-se por fim a arrasoar sobre os 
trigos. Puzeram-se de parte as vinhas para não fallar senão de 
pao e centeio. » ^ As diíiiculdades financeiras a que o regimen 
perdulário do Cesarismo arrastara os estados, obrigavam á consi- 
deração da matéria coUectavel, e ao modo da percepção dos im- 
postos ; d'aqui nasceu a sciencia da Economia, chamada jjolitica 
pelos physiocratas, pela sua confusão com a acção governativa. 
A reacção contra os monopólios, barreiras, e alcavalas do fisco na 
troca dos productos do trabalho, synthetisada na formula Laissez 
faire, laisaez passer, levou os novos Economistas a discutirem a 
origem, formas e condições de existência do Estado, á proclama- 
ção dos direitos individuaes, estabelecendo-se assim uma transição 
lógica e evolutiva para a critica revolucionaria dos Encyclopedis- 
tas. Convém conhecer estas correntes geraes da Civilisação da 
Europa, sem o que é impossível comprehender qualquer manifes- 
tação artística, scientitíca ou philosophica em um povo occidental. 
O ministro de Dom José não comprehendeu esta nova phase das 
doutrinas económicas, e mandando destruir vinhas para que se 
semeasse trigo, prohibiu o commcrcio individual para monopoli- 
sal-o em Companhias piúvilegiadas. Ao exercer a sua forte inicia- 
tiva na reforma da instrucçao publica, os litteratos esperaram re- 
ceber do impetuoso ministro a protecção oficial para a Litteratu- 
ra, como se viu nas homenagens servis que lhe dirigiu a Arcádia 
de Lisboa. O Ministro desprezou-os, servindo-se dos eruditos que 
podiam defendel-o nos libellos contra os Jesuítas, na^ questões do 
regalismo contra Roma, como na Tentativa theologica do P.° An- 
tónio Pereira, ou no Camjjendio histórico e Deducção chronologi- 
ca. Ainda sob este aspecto, transparece o caracter do litterato no 
século XVIII, que, como o jurisconsulto da Edade media, comba- 
te pela liberdade politica e pela autonomia individual. O Mar- 
quez de Pombal não permittia esta liberdade mental da critica ; 
prendia os poetas como Garção, e prohibia a entrada das obras 



Dict. philos., vb.o BLt:. 



Século XYIII.) INAUGURAÇÃO E RESTAURAÇÃO DA ARCÁDIA 345 

dos Encyclopedistas pclo8 Editaes da Meza Censória. ^ Emquan- 
to se fez temer, todos os poetas o bajularam em Odes emphaticas ; 
e esses mesmos, no momento da sua queda do poder, a viradeira, 
como lhe chamava Tolentino, insultaram-no em satyras que che- 
garam até á obscenidade. O que foi a Litteratura n'este periodo 
de prepotência, de 1750 a 1777, resume-se em raras manifesta- 
ções de talento, em que a falta de liberdade ou se manifestava 
pela indignidade pessoal em Nicoláo Tolentino, ou pela imitação 
do pseudo- classicismo francez em GarçSo, Diniz e Quita. 



1." A Arcádia Ulyssiponense : Sua orgaaisação e catalogo -J- 
dos seus sócios. — A Sociedade dos Occultos, que existira des- 
de 1748 até 17Õ5, dispersou-se por causa da terrível catastro- 
phe de Lisboa; quando o activo ministro Sebastião José de Car- 
valho procurava reconstruir material e moralmente Lisboa, al- 
guns homens de lettras trataram de secundal-o na sua iniciativa, 
fazendo succeder áquella corporação uma nova academia intitula- 
da Arcádia Ulyssiponense, tardia imitação da Arcádia de Roma. 
Tinham em vista obstar á depravação geral do gosto, restabelecer 
a pureza da lingua e dos bons modelos da poesia. A Arcádia fui 
inaugurada em 11 de março de 1756 entre Theotonio Gomes de 
Carvalho, António Diniz da Cruz e Silva, e Manoel Nicoláo Es- 
teves Negrão, altos funccionarios públicos, para quem a poesia não 
passava de um nobre ócio. Lê-se uma Oração recitada na Arcádia 
por Garção em 1758 : «Em tempo de calamidades e afflicçSes, 
quando parecia que os portuguezes só tratavam de reedificar Lis- 
boa, e de restabelecer os seus particulares interesses — quando se- 
ria desculpável que as Musas fugissem do nosso continente, quan- 
do se julgaria que as artes jazessem sepultadas nas ruinas da ci- 
dade, — n'uma palavra, quando era impossível tratar da restau- 
ração das sciencias, então fundamos esta sociedade, jurando pa- 



^ O edital de 5 de dezembro de 1775 prohibe Le irai sens du Système 
de la JSature, por Helvetius. 



346 ESTATUTOS DA ARCÁDIA (EpOCa 5.» 

droeira d'ella a Immaculada rainha dos Céog e da terra, debaixo 
do inefFavel titulo de sua puríssima Conceição. » Pela sua relaçSo 
com a Sociedade dos Occultos, a Arcádia nasceu viciada com o 
espirito do máo gosto, e para expungir do seu seio o seiscentismo 
teve de pôr em risco a própria existência. Venceu o partido do pu- 
rismo clássico, vindo a reconstituir-se a Arcádia em 19 de junho 
de 1757, facto celebrado por Manoel de Figueiredo em uma Ode 
á união dos Árcades, e por Garção na sua Ode xiii A restaura- 
ção da Arcádia, cheio de enthusiasmo e esperança nos destinos da 
nova empreza. Estas duas datas só assim se conciliam. 

O elemento seiscentista estivera representado na Arcádia pelo 
auctor da celebre Satyra anonyma El Duende de Madrid, D. 
Joaquim Bernardes, cónego regrante de Santo Agostinho, cujos 
versos além de um culteranismo audacioso resumbravam uma 
sensualidade molinosista. Um outro despeitado contra a Arcádia, 
era esse poeta erudito, Francisco de Pina e Mello, auctor do poe- 
ma Triumpho da Religião, exacerbado pela alcunha de Corvo do 
Mondego, que lhe davam os outros litteratos. Pelos Estatutos da 
Arcádia a admissão de qualquer sócio era por escrutinio secreto 
e unanimidade (art. 6.**) ; isto bastava para crear despeitos. As 
sessões eram uma particular em cada raez, e duas publicas an- 
nuaes ; o local onde se celebravam as Conferencias, secretamente, 
tinha o titulo de Monte Menalo, sendo obrigados os sócios a 
apresentarem uma peça em prosa ou verso, escripta em latim, 
francez, hespanhol ou italiano, sendo reputada de mais primor a 
que fosse escripta em portuguez. As sessões publicas ft^ziam-se no 
Mosteiro dos Padres das Necessidades, instrumento da reforma 
pedagógica de Pombal, ou na Sala da Junta do Commercio. O 
ministro de Dom José assistiu pelo menos a duas d*estas sessões, 
uma das quaes celebrava a graça que recebera do titulo de Con- 
de de Oeiras; e Garção recitou uma Ode emphatica, que esteve 
longo tempo inédita. O ministro dava então á Arcádia apoio of- 
ficial, e o titulo de árcade era ambicionado como uma das maio- 
res honras, como o confessa Garção em um Discurso ; outras Ar- 
cádias surgiram em diversos pontos do paiz, como a Arcádia por- 
tuense, e a Arcádia ultramarina. O ]\Ii-nistro ou enojado da va- 
cuidade rhetorica da Arcádia, ou não tendo occasião de aprovei- 



Século XVIII.) os SÓCIOS da arcádia 347 

tar-se d'ella, deixou-a vegetar esterilmente, acabando por 1774 
estiolada sem o calor official. ^ 

Pelo art, 19." dos Estatutos da Arcádia, eram os seus sócios 
obrigados a adoptarem um nome e sobrenome de um dos muitos 
pastores celebrados pelas musas gregas e romanas. Assim, Theo- 
tonio Gomes de Carvalho tinha o nome arcádico de Tii-se Min. 
teu ; António Diniz da Cruz e Silva, Eljpino Nonacriense ; Ma- 
noel Nicoláo Esteves Negrão, Almeno ; Pedro António Corrêa 
Garção, Corydon Erymantheo ; Manoel de Figueiredo, Lycidas 
Cyntliio; Domingos dos Reis Quita, Alcino Micenio; Frei José do 
Coração de Jesus, Almeno Sincero; Francisco José Freire, Cân- 
dido Luzitano; P.^ José Dias Pereira, Silvano Ericinio ; Manoel 
Pereira de Faria, Silvio Aquacelano ; José Gonsalves Moraes, 
Fido Leucacio; Silvestre Gonsalves da Silva Moraes, Siveno Ca- 
rio ; José Xavier de Valladares e Sousa, Sincero Jerabricense ; 
José Caetano de Mesquita, Metalezio Klasmenio ; Luiz Corrêa do 
Amaral França, Melyzeu Cylenio; Francisco de Salles, Titiro 
Partiniense ; Marianno Berganzoni Martelli, Mirtilo Felsineo ; 
Nicoláo de Sousa, Myrthilo ; Damião José Saraiva, Dameta ; 
José Rodrigues de Andrade, Montano; Pedro Caetano, Melibeu ; 
^.^ Manoel^e Macedo, Lemano; Manoel José Pereira, Albano; 
Frei Alexandre da Silva, Silvio ; Dr. Ignacio Tamagnini, Alces- 
te; Feliciano Alves da Costa, Palemo, e Nemoroso Cyllenio; José 
António de Brito, Olino ; D. Vicente de Sousa, Mirtilo ; Miguel 
Tibério Piedegache Brandão Ivo, e os seguintes Ismeno CisalpinOf 
Silvandro, Albano Melino e Amintas, cujos nomes se ignora. 

D 'entre esta lista dos sócios da Arcádia poucos são dignos de 
memoria histórica ; cabe o primeiro logar a Garção pelo seu ta- 
lento correcto, a António Diniz da Cruz e Silva pela creação do 
género heroi-comico verberando os ridículos clericaes, a Ma- 
noel de Figueiredo pelos extraordinários esforços que empre- 
gou para a restauração do theatro nacional, a Domingos dos Reis 
Quita pelo sentimento dos seus Idyllios e do drama pastoral Lyco- 
ris. Os Árcades em vez de se inspirarem nas fontes tradicionaes 

.1 Os Estatutos da Arcádia acham-se textualmente reproduzidos no 
Jornal de Coimbra, de 1820, P. u, n.° lxxxviii, art. 14. 



348 GARÇÃO (Época 5." 

da naçSo imitavam a antiguidade greco-romana através dos mo- 
delos francezes, e tomavam para thema das suas conferencias pu- 
blicas 08 regosijos officiaes pelos anniversarios e restabelecimento 
da saúde de Dora José, ou das graças concedidas ao seu ministro 
valido. As academias litterarias sjío absolutamente estéreis, por- 
que as creações estheticas derivara do modo de sentir individual 
incompatível com a regularidade das reuniões, e com as normas 
de um bom gosto auctorisado pela collectividade. 

a) Garção, Diniz, Quita e Manoel de Figueiredo. — O ho- 
mem de mais tino artístico e auctoridade na Arcádia foi GarçSo, 
nascido em Lisboa, a 29 de abril de 1724; estudou humanida- 
des nas e3C()las dos Jesuitas e cursou a Universidade de Coimbra,- 
tendo por occasião do terremoto de 1755, em que perdeu seu pai 
Filippe Corrêa da Silva, de abandonar a carreira da. magistratu- 
ra para que se dirigia, e acceitar o logar de Escrivão da Receita 
da Mesa do Consulado geral da saída. O Marquez de Pombal, sa- 
bendo do seu talento e conhecimentos das linguas franceza e in- 
gleza, teve em vista empregal-o na secretaria do seu ministério. 
Porventura as suas sympathias pela Companhia levaram-no a re- 
jeitar o intuito do ministro, que d*aí em diante conservou contra 
Garção ura ódio secreto. Segundo uma nota de Frei Vicente Sal- 
gado, Garção « era o que fez as ultimas Gazetas portuguezas an- 
tes da guerra de 1762 com Castella, em que se mandaram sus- 
pender. » ^ Em 9 de abril de 1771, mandou o Ministro encarce- 
rar no segredo do Limoeiro o poeta, por motivo desconhecido. Cor- 
reu a lenda, que fora a causa do desastre de Garção ter escripto 
uma Falia em nome do Duque do Coimbra em que este heroe re- 
cusava a Estatua que o povo de Lisboa lhe queria levantar, fe- 
rindo assim indirectamente a vaidade do Marquez por ter manda- 
do collocar o seu medalhão no pedestal da Estatua equestre ; esta 
epistola fora escripta para uma sessão da Sociedade dos Occultos 
pouco depois de 1748, e portanto está fora do litigio. Outra len- 
da, funda a prisão arbitraria era uma carta redigida por Garção 
em inglez para a filha do Coronel Mac-Bean, incitando-a á fuga 
por causa de seu estado de gravidez. Garção conservava relações 

1 Ms. n.o 33, da Bibl. da Academia (G. 5. Est. 8.) 



Século XVIII.) A CANTATA DE DIDO 349 

com o Conde de S. Lourenço, e com a família do Marquez de 
Alorna, perseguidos por Pombal; e bastavam as suas sympathias 
jesuíticas, ou qualquer dito vago contra a prepotência do minis- 
tro para ser sepultado em uma enxovia. O estado de miséria em 
que ficaram sua mulher e filhos afíligiu por tal forma Garção sem 
esperança, que morreu na manha do dia 10 de novembro de 
1772; o Marquez sabendo n'e3se dia da morte do poeta, mandou 
lavrar de prompto por José de Seabra da Silva o alvará de sol- 
tura, apresentado no Limoeiro quando o poeta ia ser sepultado na 
egreja de Sam Martinho, para assim encobrir o assassinato. Estas 
particularidades tornam sympathico o typo de Garção, em cujos 
versos se reflecte a singeleza da sua vida, conformada em grande 
parte com o ideal horaciano. São bellos os Sonetos, como expres- 
são de uma intima familiaridade. As Odes e Epistolas tem um 
tom sentencioso mas affectivo, que encobre o artificio da imitação. 
As suas duas Comedias em endecasyllabos, Theatro Novo, e As- 
sembUa ou Partida, são satyras excellentes sobre os costumes de 
Lisboa, onde a monomania das representações particulares, e das 
reuniSes em familia, eram a simulação de uma fictícia sociabili- 
dade que não estava nos hcibitos portuguezes e se implantava 
como uma moda condemnada pelos caturras com o nome de mo- 
dernismo e jperaltice. A Cantata de Dido, é o trecho lyrico mais 
bello d'esta época arcádica; a correcção da forma, a realidade do 
quadro é excedida pela comprehensão do espirito da arte grega, 
em que o sentimento da paixão se confunde com o terror religio- 
so. Este género da Cantata, seguido também pelos outros árcades, 
é uma imitação da forma adoptada por João Baptista Rousseau, 
que o descreve: «Os italianos chamam-lhe Cantatas, porque de- 
pendem particularmente de canto ; têm por costume dívidil-o em 
três Recitativos cortados por Árias de movimento, o que obriga 
a diversificar a métrica das estrophes, das quaes os versos são ora 
longos, ora curtos, como nos coros das antigas tragedias e na 
maior parte das Odes de Pindaro. Eu ouvi algumas d'estas Can- 
tatas, e isto me deu desejo de ensaiar se poderia á imitação dos 
gregos reconciliar a ode com o canto. . .» O discípulo de Boílcau 
límítou-se « a dar uma forma a estes pequenos poemas, encerran- 
do-os em uma allegoria exacta, cujos recitativos constituíssem o 



350 DINIZ li o inssoi'!': (Época íi." 

corpo, e as Árias a alma ou applicação. » * As prosas de Garção 
constam de Orações académicas, apenas aproveitáveis para a his- 
toria da Arcádia. 

António Diniz da Cruz e Silva, é depois de Garção aquelle 
em quem é mais evidente a influencia do pseudo-classicismo frun- 
cez. As suas Odes pindaricas, divididas em strophes, antistro- 
phes e epodos, sobre assumptos da historia portugueza, não pas- 
sam de uma reproducção morta de um género, mesmo na Grécia 
mal comprehendido, por causa das tradições dóricas vivificadas 
por Pindaro. O mesmo se pode dizer dos seus Dythiramhos. A in- 
fluencia franceza é em Diniz bem manifesta na imitação do Lu- 
trin de Boileau, em que por vezes o excede no poema heroi-comi- 
co do Hyssope. O assumpto do poema é a historia anecdotica do 
conflicto de precedências entre o Bispo de Elvas e o Deão da Sé, 
sobre se competia áquelle a honra de lhe ser entregue á porta da 
cathedral o Hyssoj^e, e ao Deão o dever de vir entregal-o á fren- 
te do cabido. Diniz exercia um cargo judicial, e estava na occa- 
sião do conflicto em Elvas, doente dos olhos, e forçado á escuri- 
dade e repouso em casa do seu amigo Falcato ; foi como desenfa- 
do e sob a impressão dos episódios grotescos que se contavam, 
que o Hyssope foi pouco a pouco ditado por Diniz. O poema cor- 
reu em copias numerosas, com variantes de occasião, tendo pri- 
meiramente sete cantos ; Diniz remodelou-o accrescentando-lhe 
mais parte do quarto è todo o quinto canto, glorificando as gran- 
des reformas do Marquez de Pombal. Segundo a tradição o mi- 
nistro leu uma das copias do poema, e promoveu o adiantamento 
do poeta na magistratura. Só depois da morte de Diniz é que se 
imprimiu o Hysso])e, não existindo nenhum exemplar de letra sua. * 
Quando occupava um elevado legar na magistratura, Diniz, alcu- 
nhado o neto da 7nedideira, envergonhava-se dos seus versos, e 
teve a fatalidade de condemnar como juiz os Poetas mineiros, 
Thomaz António Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, e Ignacio 
Joaó de Alvarenga Peixoto, envolvidos na Conspiração de Minas. 

Domingos dos Reis Quita, não foi mais feliz do que Garção. 

1 (Euvres de J. B. Rousseau, t. i, p. xxiii. — » A edição Castro Ir- 
mão, dirigida pelo snr. Ramos Coelho é a que mais satisfaz a critica. 



Século XYIII.) THE ATRO DE FIGUEIREDO 331 

Nasceu em 1725, e fallindo seu pai em 1735, pelo que se ausen- 
tou de Portugal, Quita viu-se aos treze annos de edade forçado n 
trabalhar para sustentar sua mãe com seis irmãos mais novosT 
Aprendeu o officio de cabelleireiro, verdadeira profissão artística 
n'essa época de penteados phantasticos da Regência. A manife^ 
tacão do talento de Quita n'estas condições desesperadas é real- 
mente um assombro, e mais ainda o admittirem em uma acade- 
mia de clássicos e fidalgos aqueile pobre poeta conhecido pela al- 
cunha de Cabelleireiro da Travessa do Pasteleiro. A sua nature- 
za submissa levou-o para as composições ténues, como os Idyllios ; 
não podendo lêr os ly ricos francezes nem os latinos, teve o bom 
senso de se entregar ao estudo reflectido das bellas Éclogas de 
Francisco Rodrigues Lobo, como noi-o revela o seu biographo 
Piedegache. Esta posição não deixou que os seus talentos o ele- 
vassem ; o trabalho manual era então degradante entre nós. De- 
balde tentou ser criado grave dos Meninos de Palhavã, os bas- 
tardos de Dom João v, e sempre debalde appellou para a muni- 
ficência do Marquez de Pombal. Segundo a tradição, a Tircta dos 
seus Idyllios era uma senhora Dona Thereza Theodora de Aloira. 
A sua tragedia Segunda Castro, tão apreciável, é somente conhe- 
cida no plagiato que fez d'ella João Baptista Gomes na Nova 
Castro. Depois de uma longa lucta com a miséria, morreu em 26 
de agosto de 1770, 

Manoel de Figueiredo é a individualidade accentuadamente he- 
róica da Arcádia. Apesar de conhecer a mediocridade do seu ta- 
lento, á força de meditação e de estudo procurou abrir o verda- 
deiro caminho da Litteratura dramática, viciada pelas Ojperas de 
António José, e pelas Comedias de Nicoláo Luiz. Nasceu Manoel 
Figueiredo em Lisboa em 1725 ; vendo em 1735 representar a 
celebre Companhia de António Rodrigues, nasceu-lhe a paixão 
pelo Theatro, longo tempo combatida pelos seus protectores. Em 
consequência de um despacho esteve sete annos em Madrid, onde 
adquiriu uma mais elevada comprehensão da scena. A sua activi- 
dade litteraria começou tarde, e já sem a flexibilidade para dar 
forma aos seus bellos pensamentos dramáticos ; comtudo Garrett 
considerava as suas obras a mina tão rica e fértil para qualquer 
mediano talento dramático. Algumas d'essas peças com bem pou- 



.-J- 



352 o GRUPO DA RIBEIRA DAS NÃOS (EpOCa 5.* 

CO trabalho, com um dialogo mais vivo, um eatylo mais animado, 
faziam cxcellentes comedias. » A 8ua tragedia Ignez de Castro é 
a única que apresenta uma intriga fundada em paixões naturaes, 
como a de Dom AíFonso iv receiar que os filhos da amante do 
principe venham a privar do throno seu neto Fernando. Contra a 
comedia seiscentista de Vellez de Guevara, sobre Ignez de Cas- 
tro, traduzida por Nicoláo Luiz, a Arcádia oppôz a tragedia 
clássica de Lamotte Houdart, que tantas polemicas suscitara em 
França, remodelada por Quita e Manoel de Figueiredo. As obras 
de Figueiredo só receberam a luz pelo extraordinário aífecto de 
seu irmão, Francisco Coelho, que falleceu depois de terminar com 
sacrificios a empreza da sua vida. Os esforços da Arcádia para a 
restauração do theatro limitavam-se á traducção das tragedias de 
Racine, como a Athalia vertida por Cândido Luzitano. O capi- 
tão Manoel de Sousa traduziu em linguagem purista o Telemaco 
dQ Fenelon e algumas comedias de Molière. A morte de Quita 
em 1770, a de Garção em 1772 ; a saída de Diniz de Lisboa, 
antes de 1774, decompuzeram a Arcádia, cuja ultima sessão de 
que ha noticia foi em 20 de janeiro de 1774, extinguindo-se na 
impotência e sem ruido. 

b) Os Dissidentes da Arcádia : A Guerra dos Poetas. — 
Varias poesias dos Árcades alludem frequentes vezes aos assaltos 
de maledicência que recebia esta instituição ; nota-se que no pe- 
riodo da actividade da Arcádia, florescem poetas distinctos não fi- 
liados n'aquelle grémio, e que sendo especialmente satyricos não 
deixaram de desaggravar a sua vaidade. Em 1770 deu-se o fci- 
cto conhecido na historia li iteraria com o titulo de Guerra dos 
Poetas, em que se extremaram os campos. A celebre cantora 
Zamperini fora exultada em verso pelo poeta arcadico P.** Manoel 
de Macedo, como se acha pittorescamente descripto em uma Nota 
do Hi/ssope. Romperam logo numerosas satyras contra Macedo, di- 
rigidas pelo Gnij}o da Ribeira das Nãos, espécie de Academia que 
se reunia em casa do P." Francisco Manoel do Nascimento, que 
adoptara o nome pastoral de Niceno, e mais tarde de Filinto Elí- 
sio. Por essas satyras se vê a animadversão contra a Arcádia, e 
por um Soneto do P." Manoel de Macedo se conhecem os nomes dos 
poetas capitaneados por Filinto ; eram elles Luiz Pinto de Sousa 



Século XVIII.) RIMAS DE MATTOS 353 

Coutinho, Domingos Pires Monteiro Bandeira, o capitão Manoel 
de Sousa, o Dr. Jeronymo Estoquete, o Desembargador Sebastião 
José Ferreira Barroco, Frei Plácido de Andrade Barroco, Ana- 
cleto da Silva Moraes, José Caetano de Figueiredo, P." ApoUi- 
nario da Silva, Nicoláo Tolentino, Timotheo Lecussan Verdier, 
Matlievon de Cornew, José Beling e Domingos Maximiano Tor- 
res, Alfê.no Cynthio. ^ Sob a degradação moral do despotismo 
pombalino a poesia torna-se obscena, distinguindo-se no género 
António Lobo de Carvalho, (1730-1787) e do grupo da Ribeira 
das Náos o P.*' Francisco Manoel do Nascimento, Domingos Mon- 
teiro de Albuquerque e José Caetano de Figueiredo. Os dissiden- 
tes da Arcádia floresceram sob o regimen do Rigorismo de Dona 
Maria i. 

c) Associações litterarias. — Estendeu-se até á colónia do 
Brazil o prurido das Academias litterarias ; em 1736, o medico 
Saraiva funda no Rio de Janeiro a Academia dos Felizes, cujas 
conferencias versavam sobre botânica, comprehendendo o verda- 
deiro espirito scientifico das Academias do século xvii. Em 1752 
creou-se outra com o titulo de Academia dos Selectos, tendo por 
fim glorificar em versos o general Freire de Andrade. A Socie- 
dade litteraria e os Académicos renascidos são ainda um produ- 
cto da raonomania humanística; o sentimento nacional brazileiro 
appareceu com o espirito da independência politica na chamada 
Arcádia ultramarina, já sob o governo de D. Maria l. 

Falla-se também em uma Arcádia portuense, como se vê pelo 
titulo das Rimas de João Xavier de Mattos, que por essa filiação 
usa o nome de Albano Erythreo. Este poeta, que logrou vêr popu- 
larísada a aua Écloga de Albano e Damiana, que os cegos reci- 
tavam como o descrevem Filinto ^ e Francisco Coelho, ^ viveu a 
vida vagabunda de um Bocage, entregue ao parasitismo bohemio 
de um Tolentino. Nos seus versos imitava habilmente o estylo das 
lyricas de Camões, e isto o destaca superiormente entre os poetas 
académicos, que não explicavam a sympathia com que eram re- 



1 O Ramalhete, vol. iv, p. 100.—» Obras, t. iii, pag. 13).- 
Theatro de Manoel de Figueiredo, t. xiv, p. 463; e na Comodia de cor- 
Os curiosos punidos. 

23 



i 



354 o RIGORISMO (Época 5."- 

cebidr.s as suas composiçSes. Obedeceu á corrente franceza tradu- 
zindo a tragedia Penélope de Genest, e escreveu uma tragedia 
clássica Viriacia. Morreu em Villa de Frades, cm 3 de novon- 
bro de 1789. Lobo de Carvalho mordeu-o por vezes nas suas sa- 
tyras, e Bocage achou n'elle um modelo que o levou para a com- 
prehensão de CamSes. 

2.° O intolerantismo sob D. Maria I. — Com a morte de 
Dom José, o seu ministro Marquez de Pombal perdeu a força 
que lhe vinha do favoritismo; em 4 de março de 1778, oito dias 
depois de estar investida da soberania, D. Maria i demittiu o 
Marquez de Pombal, e para comprazer com os despeitados da 
aristocracia e do clericalisrao, mandou-o metter em processo. A 
rainha era bondosa e pusillanime ; todas as influencias malignas 
a assaltaram, para a restauração dos Jesuitas, para a rehabilita- 
çâo dos Tavoras, para a execução do Marquez de Pombal, mas a 
sua própria fraqueza serviu-lhe de apoio contra tão desencontra- 
das correntes, a que Tolentino chamou a viradeira. Incerta no 
meio de tantas complicações que o génio hesitante de seu marido 
augraentava, a rainha voltou-se para as praticas religiosas ; o seu ; 
governo foi n'este tempo a,, execução da vontade do Arcebispo 
Confessor, Frei Ignacio de Sam Caetano. Acabaram as persegui- 
çSes politicas, mas começaram as perseguições religiosas contra 
aquelles que liam as obras dos Encyclopedistas. Nas folhas volan- 
tes e na linguagem usual do tempo chamava-se a esta crise o Ri- 
gorismo. Não bastava a Inquisição religiosa para perseguir ho- 
mens como José Anastácio da Cunha, apparecia também a inqui- 
sição de estado, representada no terrível Diogo Ignacio de Pina 
Manique, nomeado Intendente geral da Policia em 18 de janeiro 
de 1780, com poderes secretos superiores ao dos próprios minis- 
tros. As intelligencias superiores homisiavam-se de Portugal, 
como José Corrêa da Serra, Félix de Avellar Brotero, Filinto 
Elisio ; as obras de Voltaire, Rousseau, Helvetius, Raynal eram 
apprehendidas na alfandega e queimadas pela mão do carrasco. 
O espirito philosophico saía da abstracção racional para o cam- 
po pratico sob a forma de philantropia ; Turgot e Malesherbes, 
discípulos da Encyclopedia, eram ministros, e o imperador José ii 



Século XVIII.) A CORRENTE ENCYCLOPEDISTA 3o*> 

fazia reformas politicas segundo a critica dos philosophos. Apesar 
de todos os rigores inquisitoriaes e policiaes, a corrente do ne- 
gativismo encyclopedista entrou em Portugal ; o príncipe herdei- 
ro D. José correspondia-se com José ii, o Duque de Lafões orga- 
nisava a Academia das Sciencias, Paschoal José de Mello não 
acceitava no direito publico a soberania como illimitada, e os 
poetas como José Anastácio da Cunha, e Francisco de Mello 
Franco combatiam nos seus versos pela emancipação da consciên- 
cia. A morte mysteriosa do principe D. José em 1788, a direc- 
ção espiritual do novo confessor da rainha, o Bispo do Algarve 
D. José Maria de Mello, e os successos de 5 e 6 de outubro em 
que irrompe a Revolução franceza, fizeram com que Dona Maria i 
caísse na loucura, manifestada em 1792 ao sahir do Theutro de 
Salvaterra. Esta época de governo inconsciente acha-se admira- 
velmente tratada nas Cartas de Lord Beckford, onde retrata uma 
corte não menos louca do que a sua rainha. 

a) Tolentino e Filinto Elisio. — Nicoláo Tolentino de Al- 
meida é a negação do homem de lettras no século xviii que se 
caracterisa pela independência de opinião actuando sobre a vida 
publica; como poeta elle não fez mais do que bajular os prínci- 
pes e 08 fidalgos, para lhe trocarem a profissão de mestre de 
rhetorica por um emprego nas secretarias de estado. Cada verso 
é um peditório importuno de esmola, e como os mendigos que 
fazem esgares grutescos, Tolentino aíFectava graça para conse- 
guir ser lido por aquelles que muito bem sabiam o que pretendia. 
Nasceu Nicoláo Tolentino em Lisboa em 1741 ; residiu em Coim- 
bra durante sete annos, sem auxilio da casa paterna, vivendo do 
parasitismo académico, adquirindo alli as valiosas relações que o 
protegeram em Lisboa, e essa livre critica e graça com que des- 
creveu admiravelmente os costumes da sociedade portugueza no 
século XVIII. Tolentino viveu algum tempo na intimidade de ou- 
tro poeta Domingos Pires Monteiro Bandeira, até que á força de 
rogos conseguiu ser empregado em uma secretaria por alvará de 
'^l de junho de 1781, pendurando afinal a palmatória de profes- 
r de rhetorica. Os seus versos são extremamente correctos e 
pittorescos, destacando-se especialmente pela belleza as quinti- 
lhas. Tolentino revela a causa d'esta superioridade ; o conde de 



336 FiLiNTO ELÍSIO (Epora .';.» 

Villa Verde, D. Diogo de Noronha era uma doença, fez-lhe lêr 
as Cartas de Sá de Miranda e as redondilhas de Bernardim Ri- 
beiro. Tolentino aproveitou-se logo d'e3tes modelos para os me- 
moriaes mendicantes: «As proveitosas liçSes dos nossos dois por- 
tuguezes Bernardim Ribeiro e Francisco de Sá de Miranda, com 
que s. exc* fazia úteis ao seu espirito aquellas Vioras que a natu- 
reza e muito mais a moléstia lhe tinham destinado ao descanso 
do corpo, crearam insensivelmente no meu coração amor a esta es- 
pécie de poesia. . . V. exc* me fazia a honra de mandar que lhe 
lesse este dois preciosos livros ; e a musa que preside ás minhas 
trovas, afeita áquella lição rimou quintilhas, e carregou de mo- 
ralidades, talvez intempestivas, o memorial que ponho nas màos 
de V, Exc* com muito respeito e com muitas esperanças.» A 
vontade de lisongear o aulico, aproximou-o da fonte tradicional 
quinhentista, e foi justamente nas quintilhas que se tornou admi- 
rável. Nas suas extensas relações com os fidalgos a cujas mesas 
comia, e em cujas seges andava, privado de dignidade e de ideal, 
Tolentino desceu também a cultivar a poesia obscena. Morreu 
em 1811, tendo assistido impassivel aos grandes acontecimentos 
do século, que não comprehendeu. •»- 

Francisco Manoel do Nascimento, é um dos dissidentes da 
Arcádia, caracterisado pela sua adhesão ás doutrinas dos Ency- 
clopedistas. Nasceu em Lisboa em 21 de dezembro de 1734, e 
ordenou-se de presbytero em 1754. Foi seu professor de latinida- 
de o poeta António Félix Mendes, que a 3 de julho de 1778 o 
accusou ao Santo Officio, e também aos seus companheiros Jero- 
nymo Estoquete e Manoel Coelho de Lima, de « que todos estes 
trez sujeitos estavam exercitados e instruidos na lição de Livros 
prohibidos . . . digo de Livros de Philosophias modernas, que... 
affectam seguir a rasão natural. » N'este depoimento do velho 
mestre de latinidade, que então contava setenta annos, descobre- 
se que em volta do Padre Francisco Manoel, que era muito esti- 
mado pelo Bispo Cenáculo, se reunia uma pequena Academia 
poética : « é geralmente reputado por homem douto, e que por 
esta rasão é muito procurado por varias pessoas para conferirem 
com elle algumas obras que compõem principalmente em verso . . . 
e entre outras pessoas é frequentemente visitado por alguns reli- 



Século XVUI.) LEITURA DOS ENCYCLOPEDISTAS 357 

giosos do Convento de Jesus, maiormente por um religioso por 
sobrenome Barroco. » ^ 

A 22 de Junho de 1778 começara a accusação secreta contra 
Francisco Manoel, e já a 13 de julho emigrava para fora de 
Portugal, conseguindo evadir-se aos familiares do Santo Oíficio 
no momento da prisão pelo seu admirável sangue frio. Chegou a 
Paris a 15 de agosto, e alli viveu na mais profunda miséria, fa- 
zendo traducções e ensinando portuguez ; em 1792 o Conde da 
Barca nosso embaixador na Hollanda chamou -o para seu secreta- 
rio particular, regressando em 1797 a Paris, quando este em- 
baixador foi negociar a paz com a França. Viveu em França até 
ao fim da sua vida, se"m nunca obter a restituição dos bens que 
lhe foram confiscados pela Inquisição. Uma exclusiva imitação de 
Horácio transpira em todas as suas poesias, escriptas cora natu- 
ralidade e correcção, mas sem enthusiasmo, e com abstenção in- 
tencional da rima. Os puristas da lingua admiraram-no, e imita- 
ram-no como filintistas. Morreu em 25 de fevereiro de 1819 
com oitenta e cinco annos de edade ; traduziu já n'este século as 
obras da eschola romântica, os Martyres de Chateaubriand, e o 
Oheron de Wieland, mas sem consciência do novo espirito littera- 
rio. Os versos de Filinto não são bellos, mas é indispensável o 
seu estudo para quem quizer metrificar bem na lingua portugue- 
za ; Garrett, que tanto condemnava o elmanismo ou imitação de 
Bocage, deveu a pureza e vigor dos seus versos soltos ao estudo 
de Filinto. 

José Anastácio da Cunha, era também por 1778 perseguido 
pelas suas reuniões com João Paula Bezerra, Dr. José Francisco 
Leal, lente de medicina, os filhos do Morgado de Matheus, 
D. Luiz de Sousa, e Padre José Appollinario, José Vieira da 
Silva, o Dr. Luiz Cechi, lente de anatomia, por a praticarem 
publicamente sobre poesia, eloquência e bellas lettras^ » e por que 
tinha o Cândido, o Diccionario philosophico, de Voltaire, as 
obras d^ Hobbes e Helvetius, o Bon Sens do Cura Meslier attri- 
buido a dTIolbach. No processo do Santo Officio contra este il- 
lustre mathematico, sob n."* 8087 na Torre do Tombo, vem o ca- 

1 Processos do Santo Officio, n.o 14048, na Torre do Tombo. 



Ii"i9 JOSÉ BASÍLIO DA GAMA (EpOCa 'K^ 

talogo da sua livraria, por onde se recompõe o estado mental doa 
nossos homens mais eminentes n'este periodo. N'e3te processo nSo 
se falia na Voz da Rasão, só muito tarde attribuida a José Anas- 
tácio da Cunha. Só no nosso século foram publicados os seus 
versos, onde se destaca a Oração universal, bello trecho lyri- 
00 imitado de Pope, e harmonisado com esse vago deismo de 
Rousseau. No processo allude-se aos celebres Mottes que então 
glosavam os poetas livres -pensadores : 

Os peitos da minha amada Por que rasão não fizeste. 

Eu os beijei, eu os vi, .Justos céos, por que rasão 

Eram de leite coalhado, Ou mais suave a virtude, 

Não sei como os não bebi. Ou mais forte o coração ? 

b) A Arcádia ultramarina, — O espirito revolucionário do 
fim do século xviii apparece também no Brazil. Manoel Ignacio 
da Silva Alvarenga e José Basilio da Gama, fundam pouco mais 
ou menos por 1779 esta Academia poética pi*otegida pelo illus- 
tradissimo vice- rei Dom Luiz de Vasconcellos e Sousa. Os sócios 
mais conhecidos da Arcádia ultramarina, foram além dos dois 
fundadores já citados, Bartholomeu António Cordovil, Domingos 
Vidal Barbosa, João Pereira da Silva, Balthazar da Silva Lis- 
boa, Ignacio de Andrade Souto Mayor, Rendon, Manoel da Ar- 
ruda Camera, José Ferreira Cardoso, José Marianno da Concei- 
ção Velloso, e Domingos Caldeira Barbosa. ^ O único talento 
d'esta academia, é José Basilio da Gama, revelado na compre- 
hensão da epopêa, no seu Uruguay, em que conta a lucta dos 
portuguezes contra os índios do Paraguay revoltados pelos jesuí- 
tas em 17Õ6 ; os costumes selvagens absorveram a attenção do 
poeta, que chega a inspirar sympathia pelos revoltosos ; na forma 
rompe com a velha machina mythologica e com a prolixidade 
ínsulsa dos seus contemporâneos. Protegido de Pombal, foi o único 
que o não apedrejou. 

Os poetas da Província de Minas, que se inspiravam das 
ideias encyclopedistas foram os propugnadores da autonomia da 

^ Pereira da Silva, Varões illustres, t. i, p. 335 e 338. 



SrCUlO XVIII.) os POETAS MINEIUOS 359 

nova nacionalidade brazileira. Era a mesma corrente de liberda- 
de que em 1787 creára os Estados-Unidos, e em 1789 tomara 
corpo na Revolução franceza. O movimento iniciado em Minas 
foi abafado com sangue, sendo victimas os poetas Cláudio Ma- 
noel da Costa, Glauceste Saturnio, Ignacio José d' Alvarenga 
Peixoto, e Tiiomaz António Gronzaga, que na Marília de Dir- 
•ceu descreve a pungente realidade do seu amor e da sua des- 
graça. As Lyras de Gonzaga renovara as velhas formas das 
Serranilhas, que persistiam entre o vulgo cora o titulo de Mo- 
dinhas, das quaes falia Tolentino : 

Já d'entre as verdes murteiras 
Em suavíssimos accentos. 
Com segundas e primeiras, 
Sobem nas azas dos ventos 
As Modinhas brazileiras. 

No século XVIII alguns dos poetas do Brazil visitaram a me- 
trópole ou aqui fixaram a sua residência, e as Modinhas acorda- 
ram a sympatliia tradicional; muitas das árias de António José, 
tem essa origem e alto merecimento ; as Lyras de Gonzaga sup- 
plantaram a insipidez das composições arcádicas, e a Viola de 
Lereno, de Caldas Barbosa, que tanto irritava Bocage e Filinto, 
chegou a vulgarisar-se entre o povo. Assim como os Poetas mi- 
neiros acharam o veio tradicional para a renovação do lyrismo, 
a renovação das formas da epopêa recebeu entre elles um singu- 
lar impulso. Não menos sympathico e generoso que José Bazilio 
da Gama, é Frei José de Santa Rita Durão, que revelou a mes- 
ma justa comprehensão da epopêa no Caramuru, que elle compoz 
sobre a antiga tradição brazileira do naufrago Diogo Alvares, 
xjue tendo escapado á anthropophagia dos Tupinambas, na costa 
do Bahia em lõlO, viveu n'es3a tribu onde dominou pelo persti- 
gio, e depois evadindo-se com Peraguassá, filha de um chefe in- 
dígena, chegou a França, aonde a desposou com o nome de Ca- 
therina. Como todas as organisações brazileiras, Durão metrificava 
com facilidade; e se tivesse repellido a subservieacia da oitava 
rima, os seus quadros e situações episódicas teriam um maior re- 
levo de verdade e simplicidade. Quando o século se apresenta 



3C0 o PHILOSOPHISMO E AS IDÉAS FRANCEZAS (EpOCa 5." 

exhausto de vigor moral e de talento, é da colonin que se agita 
na aspiração da sua independência, que lhe vem a seiva daa na- 
turezas creadoras. 

c) As Cartas de Beckford. — O poema Reino da Estupidez, 
— A nossa sociedade culta no ultimo quartel do século xviii 
acha-se finamente retratada nas Cartas de Lord Beckford, que 
viveu na intimidade da corte de D. Maria i, N'ellas descreve a 
rainha louca, gritando dia e noite nos paços de Queluz, e dizendo 
que via a estatua de seu pae em braza no inferno; pinta ao vivo 
o typo boçal do Bispo Confessor, e as figuras phantasmagoricas 
do Conde de Sam Lourenço, e de um talento nascente, que elle 
adivinhou, o joven Bocage, que então considerava como seu ri- 
val Monteiro (Domingos Monteiro de Albuquerque e Amaral.) 
Estas Cartas são um indispensável coinmentario para a historia 
politica e litteraria d'este periodo do rigorismo. 

Na lucta da auctoridade reagindo contra o espirito novo, que 
os padres denominavam 'pkilosopJdsmo, e os politicos ideias fran- 
cezas, appareceu um poema heroi-comico, intitulado O reino da 
Estupidez, em que se ridicularisava a Universidade de Coimbra 
por se fechar no pedantismo medieval contra as ideias modernas. 
Foram perseguidos alguns homens cultos por causa do audacioso 
poema, imputado a António Ribeiro dos Santos, e hoje restituída 
ao seu verdadeiro auctor, o notável hygienista Francisco de 
Mello Franco, (1757-1823) um dos primeiros associados da Aca- 
demia real das Sciencias. Collaborou com elle José Bonifácio de 
Andrade e Silva. 



§. ni 

o negativismo encyclopcdisla em Portuflal 

A falta de comprehensão da continuidade histórica fez com 
que a Edade media renegasse as relações com o passado greco- 
romano ; esse mesmo vicio do critério que levou a Renascença a 
negar por seu turno a Edade media como barbara, apparcce en- 



Século XVIIl.) o DUQUE DE LAFÕES 301 

tre os philosophos do século xvm, que negando conjunctamente 
a dependência da civilisação moderna da greco-romana e medie- 
val, procuram reorganisar tudo remontando á simplicidade da na- 
tureza. Rousseau, que no seu Emílio funda um systema de edu- 
cação natural, esboça o caracter negativista do século : « A litte- 
ratura e o saber do nosso século, tendem muito mais para des- 
truir do que para edificar. » Os problemas mais importantes 
das sciencias sociaes são observados sob esse aspecto da na- 
tureza, nova entidade metaphysica, que transparece na Reli- 
gião natural^ no Direito natural^ na Lógica ou Rasão natural^ 
e até as sciencias cosmologicas e biológicas conservam ainda hoje 
a sua antiga designação de Sciencias nafuraes ou Philosophia na- 
tural. N'este fervor da contemplação do mundo objectivo, a Litte- 
ratura encontra novos theraas para descripções pt^eticas, como se 
vê no poema didáctico o Jardim Botaíiico de Erasmo Darwin, 
traduzido para portuguez por Vicente Pedro Nolasco da Cunha. 
O negativismo encyclopedico, divide-se em duas correntes, bem 
definidas em Portugal, a scientifica, protegida pelo sempre illus- 
tre Duque de Lafões, e a litteraria essencialmente didáctica, que 
inspira as traducções de Bocage e os poemas de José Agostinho 
de Macedo. 

a) Fundação da Academia das Sciencias. — O Intendente 
Manique era infatigável em obstar á entrada dos livros francezes 
em Portugal, chegando a sua audácia a accusar o Duque de La- 
fões nas Contas para as Secretarias, de receber do estrangeiro li- 
vros de philosophia. O Duque de LafSes tinha vivido nas princi- 
paes cortes da Europa, era admirado pelos grandes artistas como 
Gluck, e por eruditos como Burney; ao regressar a Portugal de- 
pois da ruina do Marquez de Pombal, gosava na corte de uma 
preponderância legitima, devendo-se a elle, no intolerantismo que 
atrazava Portugal, a protecção a alguns homens de sciencia. E 
assim que se podem explicar a promoção das explorações scienti- 
ficas no Brazil por Alexandre Rodrigues Ferreira, em Moçambi- 
que por Manoel Galvão da Silva, em Argel pelo arabista Frei 
João de Souza, nos archivos de Madrid por Ferreira Gordo, e em 
varias capitães da Europa por José Bonifácio de Andrade. 

Pela iniciativa directa do Duque de Lafões foi fundada a Aca- 



''>i'r2 ' CALDAS BARBOSA (EpOca o." 

deinia real das Sciencias de Lisboa, e confirmada por Aviso ré- 
gio de 24 de dezembro de 1779; a sua primeira sessão foi cele- 
brada era 16 de janeiro de 1780. A Academia teve logo era mi- 
ra a formação de um Diccionario da lingua portugueza, sendo em 
sessão de 28 de junho de 1780 encarregada d'esse trabalho uma 
commissão presidida por Pedro José da Fonseca (n. 1734, segun- 
do F. C. Figueiredo) que esboçou o plano, redigiu as excelleacias 
da lingua e o exame critico dos auctores ; veiu a morrer exhaus- 
to de trabalho e era extrema miséria era 7 ou 8 de julho de 
1816; os membros da commissão, Agostinho José da Costa Ma- 
cedo, e Bartholomeu Ignacio Jorge deram prompto antes de qua- 
tro annos o priraeiro volurae que coraprehende a lettra A, ficando 
impossibilitados de proseguir por terem cegado. 

As Memorias da Academia correspondera a uma época de fer- 
vor scientifico, que por algum tempo prevaleceu sobre o caracter 
official da instituição, sendo por ellas ainda hoje conhecida na Eu- 
ropa. José Corrêa da Serra, que era o braço direito do Duque de 
Lafões, dirigiu as bellas edições dos antigos Chronistas portugue- 
zes, tendo por fim de horaisiar-se de Portugal, como Brotero e 
outros sábios. 

b) A Nova Arcádia. — Bocage e José Agostinho. — Com o 
titulo de Academia de Bellas Lettras celebravara-se ás quar- 
tas-feiras sessões poéticas no palácio do Conda de Pombeiro, 
mais tarde nomeado Marquez de Bellas; tinha este ajuntamen- 
to por protectora Nossa Senhora da Conceição, e usavam nomes 
pastoris alheios aos grandes successos que agitavam a Europa so- 
lidariamente com a Revolução franceza. Estes poetas reunidos pe- 
la iniciativa do Padre Domingos Caldas Barbosa, protegido pela 
Marquez, foram levados á illusao de constituirem uma Nova Ar- 
cádia. Eis pouco mais ou menos a lista dos seus sócios : 

Domingos Caldas Barbosa, Lereno Selinuntino ; José Thomaz 
Quintanilha, Earindo Nonacriense ; João Baptista Lara, Albino 
Ulyssipo)iense; Belchior Manoel Curvo Semedo, Belmiro Transia- 
gano ; Francisco Joaquim Bingre, Francelio Vouguense ; Joaquim 
Franco de Araújo Freire Barbosa, Corydon Neptunino ; Joaquim 
Martins da Costa, Cassidro Ulyssiponense ; Luiz Corrêa do Ama- 
ral França, resto sobrevivente da antiga Arcádia; Ignacio José 



J)L'CUlO XVIII.) BOCAGE E O AGULHEIRO DOS SÁBIOS 363 

Alvarenga Peixoto, AIcÍ7ido P ai mire no ; Thomaz António dos 
Santos vSilva, Tkomino. Pertenceram também os seguintes, cujos 
nomes poéticos se ignora : João Vicente Pimentel Maldonado, An- 
tónio Bersane Leite, Vicente Pedro Nolasco da Cunha, Joaquim 
Severino Ferraz de Campos ; de outros só se conhecem os nomes 
arcadicos, Marisheu Ultramarino, Cassidro Tagino, Menalio JJlys- 
siponense, Alcino e Jonio Scalahitano. Era serena a existência da 
Nova Arcádia, quando de repente dois novos sócios, Manoel Ma- 
ria Barbosa du Bocage, Elmano Sadino, e Padre José Agostinho 
de Macedo, Elmiro Tagideu, pelo seu humor turbulento aguaram 
as doces quartas-feiras do padre Caldas. Choveram satyras, e crea- 
ram-se ódios para cuja vingança foi explorada a tendência despó- 
tica do Intendente Manique. 

Manoel Maria Barbosa du Bocage, é depois de Camões o 
único poeta de quem o povo se lembra, dando-lhe vida em si- 
tuações lendárias como parasita vagabundo, repentista gracioso, 
e em volta da sua personalidade agrupou todas as velhas anec- 
dotas picarescas da socielade do século xviii, bera caracte- 
rísticas do antigo regimen. Bocage nasceu em Setúbal, em 15 
de setembro de 1765, e segundo a educação contemporânea, 
foi submettido á férula do mestre D. João Medina, d'onde saiu 
um bom latinista. Cursou as aulas militares, e como guarda ma- 
rinha partiu pax*a a índia, fazendo se notar em Goa pela viru- 
lência dos seus versos; n'elles descreve como esteve para ser vi- 
ctima da celebre Sublevação dos Pintos, hoje historiada pelo eru- 
dito Rivara. Destacado para Damão fugiu para a China, d'onde 
veiu ao fim de muitos trabalhos para Macáo, regressando a Por- 
tugal em 1790 com vinte e quatro annos dissipados, que nunca 
mais lhe deixaram tomar a serio a vida. As luctas da Nova Ar- 
cádia, pela exclusão que lhe infligiram, puzeram em relevo o gé- 
nio de Bocage; morava então cora o açoriano André da Ponte do 
Quental, e junto com outros poetas imitadores de Parny e Desau- 
gier, frequentavam o -Botequim do Nicola em um retiro especial 
conhecido pelo nome de Agulheiro dos Sábios. O Intendente Ma- 
nique farejava por toda a parte as ideias francezas, e sendo-lhe ac- 
cusado Bocage, foi o poeta preso a 10 de agosto de 1797 por 
auctor de papeis ímpios e sediciosos, conseguindo ser entregue á 



304 A voz DA RASÃO (EpOCU 'i. ' 

Inquisição em 7 de novembro para escapar ao arbitrio policial, 
que era medonho. Entre esses papeis críticos achados na habit.v- 
çíto de Bocage, os principaes eram as Verdades singelas, mais co- 
nhecidas pelo titulo de Voz da Rasão, e as Verdades duras, mais 
conhecidas pelo nome vulgar de Pavorosa tomado do primeiro 
verso com que começam. A Voz da Rasão^ infundadamente attri- 
buida a José Anastácio da Cunha, allude ao nome arcadico de 
Lidio, que nos revela o nome de Bocage, que até 1790 se assi- 
gnava VHedois, do seu bisavô António VHedois. Quanto se vul- 
garisou de livre exame, de criticismo, de jacobinismo politico na 
classe burgueza proveiu da leitura furtiva das mil copias d'estas 
Epistolas de Bocage; e tanto que as reflexões do liberalismo de 
alguns livres-pensadores, depois do cerco do Porto, denomina- 
vam-se Verdades velhas. No meio de uma sociedade escravisada, 
Bocage entregou-se á crápula, e explorava o dom natural da im- 
provisação, por onde era admirado. Bocage chegou a exercer 
uma grande influencia na metrificação portugueza, tornando o 
verso mais harmónico, a rima mais fácil, porém prejudicado por 
um parallelismo pomposo com que encobre a falta de ideias. Em 
1802 ainda foi accusado á Inquisição como pedreiro livre, che- 
gando-se a instaurar-lhe o processo secreto. Acabou a vida tra- 
duzindo poemas didácticos francezes, como os Jardins do Ab- 
bade Delille, As Plantas de Castel, a Agricultura de Rosset, e 
o Consorcio das Flores de Lacroix, verdadeiros documentos da 
decadência do sentimento poético, análoga á decadência alexan- 
drina. Mori*eu em 21 de dezembro de 1805. 

José Agostinho de Macedo, caracterisa-se como Bocage pelo 
temperamento irascivel, exacerbado pela inveja do seu glorioso 
rival. Possuía uma leitura encyclopedica, sem plano, impondo 
por uma vã erudição a sua vaidade pessoal ; falto de senso mo- 
ral, na sua obra litteraria lisongeou todas as paixões da época, a 
rasão e a intolerância religiosa, o liberalismo e o absolutismo 
restaurado. Era popular sob o nome de Padre Lagosta, pelas fa- 
ces plethoricas. José Agostinho nasceu em Beja a 11 do setem- 
bro de 1761 ; professou no mosteiro da Graça em 1778, sendo ao 
fim de doze annos de revolta contra a disciplina monástica, ex- 
pulso da ordem em presença da communidade em 18 de feverei- 



Século XVIII.) JOSÉ AGOSTINHO DE MACEDO 365 

ro de 1792. Passou então a presbjtero secular, fazendo da pre- 
dica o seu ganha-pào, vindo a ser nomeado pregador régio em 
1802. Acompanhou a revolução de 1820, tendo sido eleito depu- 
tado ás cortes constituintes, pondo-se desde 1823 até á sua mor- 
te ao serviço da reacção absolutista. A sua vida litteraria foi 
uma constante e virulenta polemica pessoal, dando largas aos 
sentimentos mais deshumanos e á linguagem a mais abjecta. O 
seu orgulho pessoal levou-o a pretender acabar com a gloria de 
Camões, elaborando em 1811 o poema O Gama, para supplantar 
os Lusíadas; trez annos depois refundiu este acervo de oitavas 
rhetoricas accrescentando aos dez mais dois cantos, cora o titulo 
mais sonoro O Oriente. O padre era um longo prologo fez-se o 
ecco da critica de Voltaire no Ensaio sohre a Poesia épica. 

As falsas ideias sobre poesia levaramno para imitar esse en- 
fcidonho naturalismo didáctico- clássico dos sempre deslavados 
Delille, ChenedoUé, Esmenard, Lebrun, Luce de Lancival, Cara- 
penon, que eram lidos e apregoados pelos que cultivavam as 
Sciencias naturaes. José Agostinho seguiu esta corrente, no seu 
poema didatico Newton, e na Viagem extactica ao Temido da Sa- 
bedoria. Em 1812 as paixões politicas fizeram-lhe escrever um 
poema heroi-comico Os Barros, emendado e adaptado ás novas 
crises politicas do constitucionalismo. Dom Miguel nomeou o Chro- 
nista-mór do reino, era 1830, exerceu a Censura litteraria offi- 
cial, e morreu quando triumphou no cerco do Porto o regimen 
representativo. 

c) A crise revolucionaria em Portugal. — Transição para a X 
época do Romantismo. — A decomposição do regimen catholico- 
feudal, que dirigiu a transição aíFectiva da Edade média, chegou 
ao seu período violento na Revolução franceza ; a manifestação era 
local, mas pela generalidade do phenomeno a todo o Occidente, 
é que os reis, como José ii, e os grandes ministros, como Pom- 
bal, Aranrla e Choiseul, cooperaram pondo era acção as ideias ; 
pelas mesmas causas a crise revolucionaria encontrou ecco em 
todas as nacionalidades da Europa. Em Portugal o Intendente 
Manique obstava por todas as violências para se não espalharem 
as notícias da Revolução franceza, e nas Contas para as Secreta- 
rias accusa o Duque de Lafões de dar abrigo na Academia das 



30G AS TRAGEDIAS PiiiLosopnicAs (Epoca 5.* 

Sciencías ao convencional Brussonet, e delata cora espanto o 
crime de se cantarem cantigas francezas nos botequins, chegando 
a audácia ao ponto de entoarem o Ça ira debaixo das janellas 
do palácio real. Espalhavam-se por todas as mãos exemplares da 
Constituição, e Manique espiava com furor a propaganda dos li- 
vreiros francezes estabelecidos em Lisboa. Todos os homens cul- 
tos adheriam ás novas ideias philosophicas, que se vulgarisavam 
pelas representações em theatros particulares ; as peças preferidas 
eram as trngedias de Voltaire, que apparecera traduzidas com- 
pletamente em folhetos avulsos. De facto n'essas tragedias deba- 
tiam se novos problemas, que lisongeavam a aspiração de inde- 
pendência moral, na decahida sociedade portugueza; Alzira é o 
protesto a favor da liberdade de consciência e a condemnação da 
intolerância religiosa ; Zaira é o combate entre o amor e a reli- 
gião, Merope é a apologia do suicídio, Semiramis apresenta o 
parricidio em nome da divindade, e Mahomet a hypocrisia cynica 
impondo-se triumphante pelo perstigio de uma entidade mono- 
theista. A tragedia philosophica prestava-se também á propagan- 
da politica; era Coimbra, onde a sciencia doutoral mantinha o res- 
peito pelo antigo regimen, formigaram os theatros particulares, 
onde os estudantes davam largas ao seu jacobinismo. O reitor 
D. Francisco de Lemos mandou fechar todos esses theatros par- 
ticulares, e foi mais tarde n'esta corrente das tragedias philoso- 
phicas que se formou o talento de Garrett, servindo com a sua 
tragedia Catão o movimento revolucionário de 1820. O século 
findou com os grandes desastres da orgia militar napoleonica, 
que pesaram duramente em Portugal, sendo aqui o ponto de 
apoio da resistência que destruiu essa monstruosa anomalia guer- 
reira. Sem o conhecimento d'estes factos não se comprehendem, 
nem as novas instituições parla uien tares implantadas no século xix 
em Portugal, e muito menos a acção politica exercida pelos litte- 
ratos portuguezes sob o regimen liberal, simultâneo com a trans- 
formação do Romantismo. 



SEXTA EPOGA 



(SÉCULO XIX) 

O R0MANTIS310 



§. I — Renovação das Litteraturas modernas da EJuropa : 

1.0 As corseqnencias históricas da Revolução fi'anceza: 

a) A influencia polilica. 

li) A influencia pedagógica. 

c) A caracteristica da Littcratura moderna. 
2.° Os epigones do Romantismo em Portugal : 

a) Phase liberal do [Romantismo— Gairett. 

b) Phase religiosa ou emanuelica — Herculano. 

c) Reacfâo do espirito clássico — Castilho. 
3." O Ultra-romantismo : 

a) Lyi'ismo melancholico : Soares de Passos. 

b) Romances históricos : Rebello da Silva, e outros. 

c) Di'amas de sangue. 

§. II — Disciplina scientifica na dissoinção do TSomantismo : 

a) Eschola de Coimbra, e sua falta de bases doutrinarias. 

b) Origens tradicionaes da Litteratura : Romanceiros, e Novellistica po- 

pular, 
e) Novos estudos philologicos : desenvolvimento da Historia litteraria ãv 
Portugal. 



Renovação das Litteraturas modernas da Europa 

Na transição do século xvi para o xvii, operou-se uma reac- 
ção espontânea em todas as litteraturas europêas contra o exces- 
so da imitação clássica sustentada na grande época da Renascen- 
ça pela Itália; chamou-se á nova doutrina litteraria Cidteranis- 
7no, e como não provinha de uma transformação geral da socie- 
dade, mas de modos de vêr individuaes ou académicos, degenerou 
em um lamentável abuso de rhetorica, em agudezas de engenho, 
conceitos frivolos e em manifesta decadência. Foi esta a causa 
principal da prolongãção da influencia greco-romana sob o nome 
de classicismo francez durante todo o século xviii, em todos os 
paizes da Europa. Por seu turno, succedeu também uma reacção 
natural contra a exagerada imitação da litteratura franceza da 
época de Luiz xiv, que partiu das litteraturas do norte e se pro- 



'i08 ORIGKM FRANCEZA DO ROMANTISMO (EpOCa C* 

pagou ás litteraturas meridionaes com o nome de RomanUsmo. 
Este ^henoraeno ó determinado por causas accidentaes, como a 
Guerra dos sete annos, que aproxima os escri|)tores alleniàes d 
conhecimento da poesia ingleza, e a corte de Weimar, denomina 
da a Athenas de Thuringe, sob a regência pacifica de Anna 
Amélia de Brunswick, onde se reúnem Goethe, Schiller, Wielmd, 
Herder, Schiegel; porém na essência, a transformação littcraria 
do Romantismo acompanhava o movimento social da Revolução 
fi-anceza, desde o negativismo critico dos Encjclopedistas alé fl 
transacção provisória do regimen das Cartas constitucionaes. O 
Romantismo foi sempre solidário com a agitação politica, e só 
p(')de ser comprehendido nos seus diversos aspectos, conforme as 
phases differentes que apresenta a grande crise Occidental loca- 
lisada em França. Na Allemanha, onde se reagia contra a imi- 
tação da Litteratura da época de Luiz xiv sustentada por Got- 
tsched, 6 combatida por Haller, Wieland, Klopstock, Lessing e 
Schiegel, o impulso de renovação littcraria chamada o Romantis- 
mo, era uma continuação d'e3se sentimento do natural e indivi- 
dualismo anarchico dos esciúptores francezes que prepararam a 
Revolução. Lessing imita Diderot no theatro ; Goethe admira o 
creador do Neveu de Rameau, Wieland elabora as gestas france- 
zas, abreviadas polo conde de Tressan ; Schiller continua a trage- 
dia philosophica e é proclamado cidadão francez pela Convenção ; 
Kant apropriou-se das doutrinas de Rousseau dando-lhe deducção, 
e Fichte define o caracter histórico da Revolução franceza. É por 
isso que Gervinus denomina com imparcialidade este período da 
Litteratura franceza com o nome de Proto-Romantismo, compre- 
hendendo-se assim a sua intima connexão com a grande crise Occi- 
dental. As longívs perturbações da Revolução franceza, pela insta- 
bililade social, e pelo regimen de devastação militar iniciado por 
Napoleão I, não deixaram proseguir a Litteratura franceza n'esta 
evolução natural, vindo á Allemanha a competir essa missão de 
crear as formas litterarias em relação cora o espirito moderno e 
com os organismos nacionaes. O Romantismo apresentou nas 
Litteraturas allemã e ingleza os dois aspectos sentimentalista e 
tradicional, como nos Lakistas e em Novalis, ou em Burger, 
Walter Scott, e Thomas Mo ore. 



Século XIX.) CAUSAS DO ULTRA-ROMANTISMO 369 

As litterataras meridfonaes apresentam a nova forma do Ro- 
mantismo liberal, quando os estados do Occidente, que abraçavam 
os princípios da Revolução, foram illudidos pela transacção do 
absolutismo sob o regimen das Cartas outorgadas. Em França, 
Itália, Hespanha e Portugal, os principaes escriptores que propa- 
gam as formas do Romantismo são também os primeiros caudi- 
lhos do regimen do liberalismo monarchico-parlamentar, como ve- 
mos em Garrett e Herculano. Nas reacções absolutistas, os parti- 
dários das doutrinas clássicas serviam-se do antagonismo politico 
para vencerem os românticos, como na Itália. Quando a transição 
politica entre a Revolução e o Absolutismo, tentou em todos os 
paizes tornar-se uma solução definitiva pela simulação e falsifica- 
ção das garantias liberaes, a que Stuart Mill chamou a Pedanto- 
cracia, a falta de sentimentos verdadeiros cobriu-se com a empha- 
se do estylo, apparecendo nas litteraturas meridionaes esse aspe- 
cto deplorável a que se deu o nome irrisório de Ultra- Romantis- 
7no. Contra esta irracionalidade litteraria reagiram alguns espiri- 
tes sem disciplina voltando ao naturalismo / mas ficaram na im- 
potência, porque desconheceram sempre o sentido moral do Ro- 
mantismo, que^sem renegar a Antiguidade clássica, nem idealisar 
de um modo exclusivo a Edade media, approxiraa-se do conheci- 
mento da natureza pelo conhecimento da continuidade histórica, 
sobre que se fundam a sciencia e a philosophia moderna. 

1.° As consequências históricas da Revolução franceza. — 
Em todas as manifestações do espirito e da actividade moderna é 
indispensável a orientação d'este ponto de partida, a Revolução 
franceza, porque essa crise violenta ^ não foi senão o momento 
em que impulsos accumulados de ideias e sentimentos do passado 
determinaram o movimento social a procurar um novo equilíbrio. 
Esses impulsos definem-se na sua generalidade pelos factos em 
que se accentua a longa decomposição do regimen catholico -feu- 
dal, que começou pelas heresias religiosas e acabou pelas revolu- 
ções politicas. Desde a Paz de Westphalia, que na politica euro- 

^ Denominíição lueída, pela primeira vez empregada pelo mathematico 
Lacroix, no seu livro Ensaios sobre o Ensino em geral. 

24 



370 UKOHGANISAÇÃO DO IMiIil.l! I I.MI'()!lAI. V. I',:<l'lltn lAI. l!|in(M ('>/' 

pêa prevaleceu o espirito secular; as Egrejas nacionaes foram au 
borciinaclas ao poder dos reis, e com a queda dos Jesuitas o regi 
men catholico soffreu a sua plena dissolução como auctoridadt 
destinada a dirigir a sociedade humana. O regimen feudal, repre 
sentado em parte nos privilégios e distincooes da nobreza, estava 
condensado em todas as suas manifestações nas Monarchias abso- 
lutas. A queda dos Jesuitas, significando a separação final dos 
dois poderes, o espiritual e o temporal, porque foram reis catho- 
licos que decretaram a sua expulsão, veiu deixar a realeza em 
uma situação isolada, e sem a subordinação mantida nos costumes 
que a sua feição medieval exigia. A soberania absoluta foi discu- 
tida, compararam-se as instituições politicas de diíFerentes povos, 
e o vasto cosmopolitismo provocado pela circulação dos productos 
do trabalho livre, fez reconhecer a necessidade de uma reorgatii- 
ção social sobre outras bases que não as velhas hostilidades mili- 
tares. Assim, annos antes a Revolução franceza foi presagiadn 
como inevitável. A realeza feudal foi executada na pessoa de 
Luiz XVI pela fatalidade dos acontecimentos, e os privilégios das 
classes aristocráticas, representantes das bandas guerreiras das in- 
vasões germânicas, derrogados pelo principio da egualdade peran- 
te a lei, e da lei egual para todos. As longas perturbações da 
época revolucionaria provieram dos esforços para substituir os 
Poderes decahidos ; o poder espiritual foi genialmente esboçado 
nas reformas pedagógicas da Convenção, mas deturpado pelo ba- 
nal deismo robespierrista ; o poder temporal, provisoriamente sub- 
stituido pela Republica-democratica, foi afastado da sua forma de- 
finitiva pelo terror, que provocou a Restauração monarchica, pelo 
Consulado e Império, que explorou uma desgraçada retrogradação 
militar, e por ultimo pelo sophisma das Cartas outorgadas, patro- 
cinado pela Inglaterra. 

a) Injiiiencia politica. — A marcha da Revolução fanceza foi 
sustada nas suas manifestações exteriores pela retrogradação im- 
posta a todos os estados pela colligação monarchica denominada 
A Santa Allian^a; mas a impossibilidade de reconstituir de pé 
ura passado morto, fez com que entre a Revolução e o Absolu- 
tismo se estabelecesse essa transição provisória das Cartas consti- 
tucionaes. Portugal soíFreu a invasão militar napoleonica, e Dora 



Século XIX.) AS REVOLUÇÕES DE 1820 E 1836. 371 

Joào VI acceitou a auctoridade da Santa AlHança mantendo o seu 
absolutismo até ao momento em que a nossa revolução de 1820 
sacudiu o protectorado inglez e formulou a Constituição politica 
jurada pelo rei em 1822. A revolução de 1820 foi o ecco tardio 
mas inevitável da grande crise franceza ; pela primeira vez a re- 
presentação parlamentar deu logar a manifestações da Eloquên- 
cia, exprimindo os elevados sentimentos e as aspiraçoss humanitá- 
rias de oradores extraordinários, como Manoel Fernandes Tho- 
maz, Borges Carneiro, coronel Sepúlveda, Simões Margiochi. A 
emancipação do Brazil em uma nova nacionalidade, deu logar ao 
desenvolvimento de uma outra Litteratura, e á prolongação da 
raça, tradição, língua e actividade portugueza em um mais vasto 
continente e com o maior futuro. Os retrocessos casuaes das ephe- 
meras restaurações do absolutismo, provocaram emigrações, como 
em 1823, 1829, 1831, por meio das quaes os renovadores da lit- 
teratura portugueza tomaram conhecimento em França e Ingla- 
terra das maravilhas do Romantismo. Garrett, que era 1820, de- 
pois de escripta a sua tragedia Catão, confessava as suas opiniões 
democráticas, abandona o credo da Revolução pelo constituciona- 
lismo ; e Herculano, que primeiro abraçara a causa do Absolutis- 
mo, vem encontrar-se no mesmo campo de transição politica, com- 
batendo pela Carta. As emigrações forçadas, acordaram o senti- 
mento de pátria, e pela primeira vez os escriptores procuram in- 
spirar-se das tradições nacionaes, fortificando com essas emoções 
a reorganisação da sociedade portugueza. 

b) Influencia pedagógica. — A revolução de 1836, na transi- 
ção do constitucionalismo era Portugal, realisou a nossa adhesão 
ao novo regimen pedagógico iniciado pela Convenção. Em todas 
as grandes crises sociaes, ha sempre uma intiraa solidariedade en- 
tre as instituições politicas e as disciplinas pedagógicas ; no século 
XIII com o advento do proletariado á participação civil, coincide 
a creação de uma rnstrucção publica secular no estabelecimento 
das Universidades ; no século xvi, a direcção experimental das 
sciencias correspondendo á liberdade de consciência na Reforma, 
não prepondera no ensino publico porque os Jesuítas se apodera- 
ram das Universidades, mantendo-as estéreis pelo seu extemporâ- 
neo humanismo. A profunda elaboração scientifica do século 



372 AS POLYTECHNICAS EM PORTUGAL (EpOCa C* 

XVII, que pelos estudos mathematicos determinou novos processos 
de methodologia, veiu a entrar na corrente do ensino publico no 
anno iii da Republica franceza, quando em 1794 a Convenção 
decretou a reforma da InstruC(jíão publica. Da Eschola central de 
trabalhos públicos, organisada por Monge, Bertholet, Fourcroy, 
Guiton e Prieur, nasceu a Eschola 2>olytechnica, esse novo typo 
pedagógico adinittido actualmente em todas as nações da Europa. 
Foi Passos Manoel, que por decreto de 11 de janeiro de 1837 
fundou em Lisboa a Eschola ])olytechnica, no edifício do Collegio 
dos Nobres, comprehendendo dez cadeiras para cinco cursos de 
quatro annos ; no Porto, a antiga Academia real de Marinha foi 
também em 1837 transformada em uma Acade7nia ijohjtechnica. 
O espirito da especialidade é que prevaleceu na reorganisação 
pedagógica da Convenção; seguimos também essa corrente, fun- 
dando em 1837 a Eschola do Exercito, Eschola Medico- cirúrgi- 
ca. Academias de Bellas-Artes em Lisboa e Porto, o Conservató- 
rio da Arte dramática e Eschola de Declarnação, reformou-se a 
Universidade extinguindo a faculdade de Cânones, e introduzindo 
as duas fíiculdades de Philosophia e Mathematica na sua forma 
polytechnica. Da instrucção especial superior veiu a compreben- 
são da necessidade de crear o ensino médio ou elementar, repre- 
sentado nos atrazados Collegios appensos ás Universidades. La- 
grange, Laplace e Garat substituíram aos antigos Collegios as 
Escholas centraes, o typo do nosso ensino secundário dos Lyceus 
nacionaes, em que o ensino das Lettras pela primeira vez se al- 
liou com o das Sciencias. Por decreto de 5 de Dezembro o Colle- 
gio das Artes de Coimbra foi convertido em Lyceu nacional, e 
por decreto de 17 de Novembro foram creados outros Lyceus nos 
principaes centros do paiz, ou capitães dos districtos administrati- 
vos. Segundo a forma do Instituto nacional de França, a Acade- 
mia real das Sciencias de Lisboa, também se dividiu em três clas- 
ses, segundo o espirito da Convenção, embora inconscientemente, 
de Sciencias physicas e mathematicas, Moraes e Politicas, e Lit- 
feratura e Bellas Lettras. Na Litteratura portugueza existe im- 
pressa de um modo evidente a influencia da Revolução de 
ptembro de 1836 ; Garrett adheriu aos seus principios, e achou-se 
cooperando com Passos Manoel, que o incumbiu por portaria de 



im- 1 

Se-Í 



.•:>e( uIO XIX.) LUCTA DOS CLÁSSICOS E ROMÂNTICOS 373 

28 de Septembro de 1836 de apresentar ura plano de fundação 
do Theatro nacional, e em 2 de Novembro o nomeou Inspector ge- 
ral dos- Theatros. Herculano insurgiu-se contra o triumpho da Re- 
volução de Septembro, escrevendo no estylo bíblico das Palavras 
de um Crente de Lamennais o seu libello poético A Voz do Pro- 
pheta. Todo o desenvolvimento material e moral apresentado por 
Portugal n'este3 cincoenta annos decorridos, foram realisados pe- 
las geraçSes educadas nas Escholas especiaes fundadas pelo movi- 
mento septembrista. A Litteratura acompanhou esta transformação 
social ; tudo o que se escreveu até 1836 desde o começo do sécu- 
lo não passa de uma reproducção automática das formas arcádi- 
cas, já sob a maneira filintista, já sob o estylo elmanista. O pró- 
prio Garrett antes da emigração era denominado arcadicamente 
Jonio Duriense, e Castilho era árcade romano com o titulo de 
Mémnide Eginense, e ambos representaram até certo tempo as 
duas influencias de Filinto e Bocage. 

c) A característica da Litteratura moderna. — Em todos os 
paizes onde se propagou a nova idealisação litteraria do Roman- 
tismo, houve uma encarniçada lucta de principies ; no século XVI 
reagia-se contra a imitação dos clássicos greco-romanos, envolven- 
do 03 humanistas nos conflictos religiosos do protestantismo, e no 
primeiro quartel do século xix os sectários da auctoridade clássi- 
ca accusavam os escriptores românticos como propagadores do ra- 
dicalismo politico. Estes factos eram a consequência da falta do 
conhecimento da solidariedade da Civilisação occidental ; a Egre- 
ja, na sua direcção espiritual, renegara as obras primas da Anti- 
guidade, durante o longo periodo da Edade media ; a Renascença 
negara por seu turno a importância das creaçSes medievaes, co- 
piando servilmente as instituições e os productos da edade poly- 
theica ; por fim, levantada a denominada Querella dos antigos e 
modernos, veiu o século xviii no seu negativismo critico a despre- 
zar todas as relações com as duas antiguidades, clássica e medie- 
val, retemperando-se na fonte viva da natureza. Esta falta de 
comprehensão da continuidade histórica viciava todas as conce- 
pções, desviando-as da realidade para o dominio da utopia, e ag- 
gravando a agitação anarchica da grande crise occidental. A su- 
perioridade da época moderna começou pelo conhecimento pro- 



.'{71 REIIABILITAÇÃO SENTIMENTAL DA EDADE MEDIA (EpOCa G.* 

gressivo da intima conuexão histórica entre o mundo greco-roma- 
no*e a éra feudal; começou-se por comprehender a historia no seu 
conjuncto, como o fizeram Condorcet e Kant, Herder e Augusto 
Comte, e os investigadores especiaes occuparam-se com sympathia 
tanto da erudição clássica, renovada por Otfried Miiller, como dos 
monumentos medievaes, estudados por Grimm. A Edade media foi 
rehabilitada primeiramente de um modo sentimental, emquanto os 
historiadores continuavam a obedecer ao espirito negativista do 
século XVIII, declamando com as costumadas phrases de estéril 
barbárie e trevas sem nome. Os poetas e romancistas tomaram a 
Edade media, nos seus costumes, crenças e tradições, como o the- 
ma dilecto das creações estheticas. O Romantismo era a idea- 
lisação da Edade media, sendo esta designação derivada da noção 
de unidade de civilisação das nacionalidades modernas creadas so- 
bre a dissolução do Império. A designação de Romantismo tinha 
um sentido verdadeiro, e por isso obteve curso unanime. A falta 
de uma comprehensão scientifica da Edade media, fez com que os 
escriptores idealisassem essa edade sob diversos aspectos ; uns pre- 
feriam o periodo de dissidência das invasões barbaras, cantavam 
o instincto da revolta e um individualismo anarchico, e eram de- 
mocratas como Schiller, liberaes como Goethe, ou insubmissos {sa- 
tânicos) como Bjron. Outros escriptores consideravam a Edade 
media no seu periodo de concorrência, quando uma auctoridade 
doutrinaria estabelecia a subordinação dos espirites pela Egreja, 
e a coordenação das vontades pela dependência hierarchica do 
Feudalismo ; assim nos apparecem os poetas emmanuelicos, a co- 
meçar em Klopstock, impondo-se no lyrismo religioso de Chateau- 
briand e no sentimentalismo christão de Lamartine, e idealisando 
a vida senhorial dos castellos, principialmente no romance histó- 
rico Walter Scott, e Victor Hugo no drama. Pouquíssimos escri- 
ptores comprehenderam a Edade media no seu periodo de conver- 
gência ; foram principalmente os philosophos que elucidaram os his- 
toriadores, havendo comtudo poetas que se elevaram á idealisação 
da Humanidade, por uma intuição genial, como André Chénier, 
Schelley, Goethe, Lenau, Prati e Victor Hugo. 

Após a rehabilitação sentimental da Edade media, seguiu-se o 
trabalho de erudição, que a investigou e esclareceu em todas as 



calo XIX.) ESPIRITO DA LITTER ATURA MODERNA 375 

suas creaçoes ; estudou-ge o grande problema da3 origens do pro- 
letariado, das classes servas, operarias e agricolas, conheceu se a 
organisação do trabalho livre nas Jurandas, e investigaram-se as 
Catacumbas de Roma, e as lendas populares, que tão claramente 
explicam a propagação do Christiauisrao no Occidente ; o direito 
territorial das Couimunas foi explicado pelos documentos e pela 
aproximação das formas municipaes; publicaram-se as Cançdes de 
Gesta, e as composições lyricas dos Trovadores provençaes ; a Ar- 
chitectura gothica, longo tempo despresada, foi reconhecida como 
uma das creaçoes mais belias de uma civilisação, como um typo 
comparável ao das ordens gregas ; as línguas românicas foram 
também analjsadas no seu conjuncto, e quando todos estes ele- 
mentos precisavam entrar em uma construcção synthetica, o estu- 
do do samskrito, coadjuvado pelo critério comparativo e de filiação 
histórica, veiu tornar evidente a unidade do systema linguistico 
da Europa e a unidade ethnologica dos povos indo-europeus. Os 
monumentos litterarios dos períodos védico, brahmanico e budhico 
revelando-nos a continuidade das formas litterarias universaes, 
coadjuvou uma melhor explicação do polytheismo helleno-italico, e 
simultaneamente com as Gestas carlingianas se penetrou no pro- 
blema da formação das epopèas homéricas. Com estes poderosos 
subsidies operou-se uma renovação da Historia, tornou-se possível 
a constituição de uma Sciencia social, exercendo-se a critica no 
desenvolvimento da Philosophia da Arte e na Historia das Litte- 
raturas. Do Romantismo sentimental transitou-se evolutivamente 
para a sciencia, e em vez de continuar-se a idealisar de um modo 
exclusivo a Edade media, reconheceu-se que uma característica 
evidente separava a Arte moderna da Arte antiga ; consiste, co- 
mo observou o génio luminoso de Comte — na idealisação da vida 
domestica. De facto a litteratura moderna é anterior ao Roman- 
tismo, ou melhor, pertencem á litteratura romântica obras como 
a Celestina de Rojas, o Lazarillo de D. Diego de Mendoza, o 
Gil Blas de Lesage, a Marianna de Marivaux, Jacques o Fata- 
lista e a Religiosa de Diderot, o Tom Jones de Fielding, a Cla- 
risse de Richardson, o Tartufo de Molière, a Manou Lescaut de 
Prevost, Paulo e Virginia de Bernardin de Saint-Pierre, o Adol- 
2>ho de Benjamin Constant, a Frinceza d» Cleves de Mad. La 



376 ACÇÃO DO PARLAMENTARISMO (EpOCa 0.* 

fayette. A transformação da Litteratura consiste em harraonisar 
os costumes com os sentimentos, e os sentimentos com as opiniões ; 
o sentimento da familia tem sido admiravelmente idealisado nos 
romances por Balzac, Dickens e Tackerey ; o sentimento de Pá- 
tria, inspira os grandes lyricos, como Beranger, Petoefi, Kerner, 
Manzoni, Krasinski ; o sentimento da solidariedade humana é <> 
thema supremo a que tende a Arte moderna na sua alliança íinal 
com a Philosophia. No momento presente a Litteratura moderna, 
servida por uma simples preoccupaçao da forma plástica, rara- 
mente se eleva ao seu destino social, esgotando-se em uma ideali- 
sação do individualismo anarchico, concomitante com as ambições 
pessoaes favorecidas pelo parlamentarismo, que explora essas apti- 
dões litterarias na intervenção do jornalismo. 

2." Os Epigones do Romantismo em Portugal. — No uso cor- 
rente 03 nomes de Garrett, Herculano e Castilho ligaram-se intui- 
tivamente, como exprimindo o movimento litterario moderno em 
Portugal ; Garrett iniciou o estudo da tradição nacional, creou o 
theatro portuguez, e dirigido pela melancolia dos Lakistas ele- 
vou-se ás mais bellas formas do lyrismo pessoal ; Herculano reno- 
vou os estudos da Historia portugueza e transplantou para a nos- 
sa lingua o typo do romance creado por Walter Scott, distinguin- 
do-se depois do conhecimento de Klopstock pelo seu lyrismo reli- 
gioso ; Castilho continuou as velhas formas arcádicas, reagiu por 
longo tempo contra a introducção do Romantismo, vindo por fim 
a cooperar na idealisação da Edade media, e a traduzir as obras 
que mais caracterisavam a inspiração moderna. Herculano sentia- 
se solidário com os esforços artísticos de Garrett, considerando-se 
junto d'elle e pela preferencia pelos trabalhos históricos o que era 
junto de Goethe Herder, e Thierry junto de Victor Hugo. 

a) Phase liberal do Romantismo: Garrett. — Os principies 
fundamentaes da reorganisação social proclamados pela Revolução 
franceza foram criminosamente deturpados pela retrogradação mi- 
litar, á custa da qual Napoleão, invadindo os estados da Europa, 
tentou unificar as naçSes sob o seu dominio pessoal. O colosso 
caíra pela irracionalidade da empreza e pela colligação dos esta- 
dos europeus ; porém d'este successo, que determinou o estabele- 



Século XIX.) ROMANTISMO LIBERAL 377 

cimento da Santa Allianqa dos Reis contra os Povos, resultaram 
phenomenos contradictorios, que prolongaram a agitação do seca- 
lo XIX. A confusão dos principios doutrinários da Revolução com 
as monstruosidades da orgia militar napoleonica, fez com que a 
Santa Alliança tentasse restaurar o velho regimen catholico feu- 
dal, levando os governos a uma deplorável acção repressiva de 
conservantismo ; por outro lado as resistências nacionaes contra 
as invasões do aventureiro corso, acordaram os sentimentos e 
as tradições, que inspiraram as novas manifestações litterarias. 
Na Allemanha, as sociedades secretas do Tugendbund e Bur- 
chenschaff tinham no seu seio philosophos como Fichte, poetas e 
homens de sciencia, que levantaram o espirito nacional pela re- 
vivescência das tradições germânicas. Com o desenvolvimento 
d'esta revelação do génio dos povos, que tornou a Allemanha a 
iniciadora do Romantismo, coincidiu a acção diplomática da San- 
ta Alliança, que pretendendo restaurar um passado morto, viu 
nas novas manifestações litterarias um symptoma revolucioná- 
rio. 

Remusat, caracterisa o esforço retrogrado da Restauração : 
« ella constantemente desconhecia e punha todo o seu orgulho em 
desconhecer a realidade e a profundidade da Revolução nas 
ideias. Queria attribuir tudo ás paixões individuaes, ás illusões 
de ura momento, e representar como um mal passageiro uma re- 
novação social. » As doutrinas irrompiam apezar de todas as re- 
pressões materiaes, e manifestavam-se em órgãos litterarios que 
serviam de convergência á mocidade talentosa; de 1824 a 1830, 
publica-se em França o Globo, onde sob o impulso de Dubois, 
apparecem os poderosos escriptores JouíFroy, Damiron, Trognon, 
Patin, Agostinho Thierry, Lerminier, Charles Remusat, Sainte 
Beuve, Vitet, Mérimée, J. J. Ampere, Thiers, Pierre Leroux e 
Armand Carrel, auxiliados pelas communicações de Guizot, Ville- 
main e Cousin. No Globo conciliava-se a liberdade da imprensa 
ingleza com o espirito scientifico allemão, proclamava-se a supe- 
rioridade da França moderna sobre a do antigo regimen, e ini- 
ciava-se a critica litteraria com os estudos archeologicos da Eda- 
de media. Foi então que se operou a distincção entre Clássicos e 
Rov\anticos, aquelles sustentando a auctoridade do passado, estes 



'MS GARUETT (Época 6.* 

aflSrmando a moderna emancipação artística e social. O clássico 
Baur-Lormiant chega a pedir o desterro para todos os românticos 
como medida de segurança publica. Na Itália, os escriptores que 
aspiram á queda do despotismo austríaco, escrevem no Concilia- 
tore, a accusado, como diz Salfi, de excitar os seus leitores á in- 
dependência politica por meio da independência litteraria. » Em 
Hespanha, a Academia dei Mirto converte-se na sociedade secre- 
ta dos Numantinos, e entre os presos pela causa da independên- 
cia politica figuram o grande lyrico Espronceda e o poeta Escos- 
sum. Rhigas, na Grécia moderna, Petoefi na Hungria, Puchkine 
na Rússia, Mickievicz e Zaleski na Polmia, são as manisfesta- 
ções de revivescências nacionaes, cujo espirito ae universalisava 
pela litteratura. Por isso Herculano referindo-se ao Romantismo, 
diz que esta revolução litteraria a vem com as revoluções sociaes, 
e explica-se pelo mesmo pensamento d'estas. » 

Sem estes preliminares históricos fora impossível comprehen- 
der a acção de Garrett na transformação da litteratura portugue- 
za. Portugal também soífreu como os outros estados a invasão mi- 
litar napoleonica, sendo aqui o ponto de apoio da resistência eu- 
ropêa contra essa retrogradação; Portugal também affirmou o 
seu vigor nacional na revolução de 1820, sofifrendo o attentado 
da Santa Alliança em 1823 com a restauração do Absolutismo. 
Foi em consequência d'e3te9 retrocessos, que se deram as emi- 
grações dos indivíduos mais compromettidos pela causa demo- 
crática ou pelo liberalismo constitucional ; a esta círcumstancia 
deveu Garrett o conhecimento da nova corrente litteraria do Ro- 
mantismo, procurando a principio separar a expressão artística 
do pensamento politico. Na obra d'este iniciador é impossível 
comprehender a concepção ideal separada de qualquer relação 
social; a sua vida achou-se sempre intimamente ligada a todos 
os movimentos políticos para o estabelecimento em Portugal do 
regímen parlamentar. 

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no 
Porto, em 4 de fevereiro de 1799; a família de seu pae, Antó- 
nio Bernardo da Silva de Almeida Garrett, era oriunda dos 
Açores (ilha do Fayal), e a esta circumstancia deveu o poeta o 
ter passado os primeiros annos nos Açores junto de seus tios, o 



9 

Século XIX.) A TRAGEDIA CATÃO 379 

bispo D. Frei Alexandre da Sagrada Família, e os arcediago e 
cónego Manoel Ignacio e Ignacio da Silva, da sé de Angra. 
Comprehende-se a direcção exclusivamente latinista da primeira 
educação de Garrett, a sua veneração pelos poetas da velha Ar- 
cádia Uljssiponense, e as suas primeiras tentativas litterarias pe- 
los modelos consagrados do pseudo classicismo francez. D'esta 
phase precursora do seu talento, restam o poema didáctico O ^e- 
traio de Vénus, em que elle ainda usava o nome arcádico de Jo- 
nio Duriense, e imitava Delille; a tragedia em verso endecasyl- 
labo Mérope, em que imitava os intuitos philosophicos de Voltai- 
re, o Lyceu das Damas, em que imita as Cartas de Demoustier 
sobre a mythologia, e algumas odes philintistas e traducções poé- 
ticas do grego e do latim da Lyrica de João Mitiimo o das Flo- 
res sem fructo. De toda esta actividade lucrou Garrett apenas 
um perfeito conhecimento do verso endecasyllabo, deduzido do es- 
tudo das obras de Filinto Elisio. 

Pela vinda de Garrett para a Universidade de Coimbra, 
(1814-1821) entrou o seu espirito n'essa corrente do jacobinismo 
tradicional da época de 93, que preponderava na classe acadé- 
mica em conflicto com o conservantismo doutoral. Comprehendeu 
a degradação da nacionalidade portugueza sob o protectorado 
inglez de Beresford, e diante do nefando attentado da morte le- 
gal de Gomes Freire, e dos sete patriotas enforcados no Campo 
de Santa Anna em 1817, Garrett escreveu o eloquente soneto, 
em que exclama : « geme sem protector a humanidade. » 

A repressão canibal de Beresford levantou o espirito nacional 
portuguez, que na Revolução de 24 de setembro de í 820, reivin- 
dicou a própria soberania, repellindo o jugo estrangeiro. Garrett 
adheriu a este glorioso movimento, e inspirou-se n'elle para escre- 
ver a sua importante tragedia Catão, tantas vezes representada 
por occasião de manifestações politicas e como distracção entre os 
emigrados portuguezes. A violação da Hespanha pela Santa Al- 
liança, em 1823, determinou Dom João vi a rasgar a Constitui- 
ção de 1822, que jurara, e a proclamar-se absoluto. Entre os 
perseguidos pelo seu liberalismo figura Garrett, tendo em julho 
de 1823 de emigrar para França, outo mezes depois do seu ca- 
samento. Em um oflBcio da Intendência da Policia, de 1826, em 



380 AS EMIGRAÇÕES POLITICAS (EpOCa 6.* 

que se permitte o regresso de Garrett, diz-se que « arrebatado 
pelas ideias do tempo, pela verdura dos annos e pelos excessos 
de uma imaginação ardente, foi como outros muitos hoje resti- 
tuidos aos pátrios lares, um sectário fogoso dos principies de- 
mocráticos, que vogaram durante o fatal periodo da Revolução, 
e que infelizmente hallucinaram as cabeças dos incautos e inex- 
perientes, etc. » Foi n'este periodo da primeira emigração de 
1823 a 1826, que se operou no espirito de Garrett a crise defini- 
tiva do génio artístico. Para « occupar e distrahir o attribulado 
espirito em tanto desterro e solidão » compoz em Paris, o seu 
poema elegiaco Camões; e escreve em 1826 o novo poema tradi- 
cional, no estylo digressivo, a D. Branca. O conhecimento da 
actividade romântica era 1824, fal-o comprehender a necessidade 
de colligir os romances, xácaras, soláos e outros vestígios da anti- 
ga poesia nacional ; achara a base orgânica para a transformação 
da litteratura portugueza. Depois do regresso a Portugal, Garrett 
soíFreu alguns mezes de cárcere em 1827, por exercício de liber- 
dade de imprensa ; e desencadeando-se as fúrias absolutistas com 
o regresso de D. Miguel, de Vienna de Áustria em 26 de feve- 
reiro de 1828, Garrett viu-se forçado a expatriar-se pela segunda 
vez n'e33e mesmo anno. Em Inglaterra occupou-se o poeta em 
1828 em colligir os seus primeiros versos na Li/rica de João Mi- 
nimo, e em 1829 representavam os emigrados liberaes em Ply- 
mouth a sua tragedia Catão, assistindo entre outros Alexandre 
Herculano, José Estevão e os dois Passos. Pela emigração na In- 
glaterra, Garrett achou-se em relação directa com o movimento 
littcrario do Romantismo, e ao mesmo tempo indissoluvelmente 
ligado á lucta politica para a implantação em Portugal das insti- 
tuições liberaes. Em 1832 partiu de Bellisle com a expedição 
portugueza para a ilha Terceira, e d'alli para o cerco do Porto, 
como soldado do batalhão académico, distinguíndo-se nos trabalhos 
de reorganisação comraercial, administrativa, penal e de instruc- 
ção publica. Nas terríveis luctas do cerco do Porto em 1832, es- 
boçou Garrett esse bello romance histórico, segundo o typo crea- 
do por Walter Scott, O Arco de /Saní' Anna, onde o antigo bur- 
go independente lucta pela reivindicação das suas garantias. De- 
pois do triumpho dos liberaes em 1834, dá-se a scisão entre os 



Século XIX.) RESTAURAÇÃO DO TIIKATRO PORTITGUEZ 381 

<]ue consideraram a lucta como simplesmente limitada á restaura- 
ção da Carta outorgada de 1826, e entre os que reclamavam 
depois do cerco do Porto uma Constituição ; foi em 1836 que se 
definiram os campos, com a Revolução de Setembro. Triumphou 
o principio da soberania nacional sustentado pelos Setembristas 
contra os Cartistas. Garrett seguiu a causa dos setembristas, e 
coadjuvando as reformas realisadas por Passos Manoel, empre- 
hendeu então a creação do Theatro nacional. E este o seu gran- 
de titulo de gloria. Não bastou somente crear o drama moderno, 
senão ter de interessar pelo seu pensamento os novos governos e 
a própria sociedade que acabava de sair das longas batalhas feri- 
das contra o absolutismo. 

Para crear o drama moderno, teve Garrett de desprender-se 
da antiga influencia dos trágicos francezes e italianos, por cuja 
pauta escreveu o Catão, a Merope e outras peças que inutilisou, 
como um Édipo em Colona, e de inspirar-se das tradições nacio- 
naes, sobre as quaes desenvolveu as suas novas concepções. O 
governo revolucionário de 1836, em portaria de 28 de setembro, 
couvidou-o a apresentar um plano para a fundação e organisação 
do theatro portuguez ; nomeado em 2 de novembro d'esse mesmo 
anno Inspector geral dos theatros, não o embaraçaram os compli- 
cados trabalhos oflSciaes para crear os modernos typos da littera- 
tura dramática. Em 1838 escreveu Garrett Um Auto de Gil Vi- 
cente, com que iniciou a phase romântica do theatro ; elle conta 
como a tradição o inspirara : « O que eu tinha no coração e na 
cabeça — a restauração do nosso theatro, seu fundador Gil Vi- 
cente, seu primeiro protector el-rei Dom Manoel, aquella grande 
epocha, aquella grande gloria, de tudo isto se fez o drama. » 
Apesar dos defeitos de estructura e da errada comprehensão his- 
tórica, o Auto de Gil Vicente produzia um enthusiasrao geral, e 
acordou o interesse do publico pela obra da restauração do thea- 
tro portuguez. Este drama ligava-se a um anterior phenomeno 
do renascimento nacional, a publicação das Obras de Gil Vicen- 
te, em 1834, copiadas por um seu companheiro de desterro, José 
Victorino Barreto Feio do raríssimo exemplar de 1562 conser- 
vado na Bibliotheca de Goettingue. Com um grande tino artísti- 
co, Garrett ligou ao seu drama essa outra tradição sentidíssima 



382 o DRAMA FREI LUIZ DE SOUSA (EpOCa 6.^ 

dos amores de Bernardim Ribeiro pela infanta Dona Beatriz. 
Tudo isto estabelecia relaç3es sympathicas entre o publico e a 
obra litteraria. 

Em 1840 escreveu Garrett o drama histórico Filippa de Vi- 
lhena, sobre uma bella tradição que reveste de poesia o movimen- 
to revolucionário de 1640, quando Portugal recuperou a sua na- 
cionalidade autonómica. O drama foi escripto para ser represen- 
tado pelos discipulos do Conservatório. O Pinto, de Nepomucene 
Lemercier, idealisa o heroe da revolução de 1040; Garrett evitou 
o escolho da imitação. Esse outro drama o Alfageme de Santarém, 
escripto em 1841, tem por acç?So a liberdade da pátria salva da 
invasão castelhana, em que é heroe o Santo Condestabre, das se- 
guidilhas do povo, o vulto cavalheiresco de D. Nuno Alvares 
Pereira ; Garrett aproveitou-se com arte d'essa lindíssima tradi- 
ção da espada invencível temperada pelo armeiro de Santarém, 
tal como a descobriu na Chronica do Condestavel nos capitules 
XVII, e Lii. Os Cartistas, em 1842, acharam-se senhores do po- 
der depois da insurreição do Porto promovida por Costa Cabral, 
e o Alfageme de Santarém foi prohibido por suspeitarem n'elle allu- 
sões politicas contra o ministério de resistência. Em 16 de junho 
de 1841, e em 7 de outubro de 1842, Costa Cabral demittiu Gar- 
rett de Inspector geral dos theatros e de Conservador das Escho- 
las de Declamação no Conservatório. Em 1844 começaram os 
primeiros symptomas de resistência nacional contra a retrograda- 
ção cartista, e é n'esge anno que escreve Garrett a obra pri- 
ma do theatro moderno da Europa, o Frei Luiz de Sousa. Deu-se 
n'esta obra a circumstancia que inspira todas as obras geniaes : 
assim como Goethe recebeu a primeira ideia do Fausto no theatro 
dos puppenspiel, (bonifrates) Garrett também sentiu o valor dra- 
mático da tradição de Frei Luiz de Sousa em um theatro ambu- 
lante, em 1818, na Povoa de Varzim. Este primeiro gérmen ela- 
borou-se no seu espirito, e foi ampliado pelo estudo na Memoria 
histórica de D. Francisco Alexandre Lobo e nas narrativas de 
Frei António da Encarnação. A tradição que se applica a Frei 
Luiz de Sousa, é frequente na Edade média com os cavalleiros 
que voltavam da terra santa ; o incêndio que Manoel de Sousa 
Coutinho ateia no seu palácio de Almada, quando sabe que os 



Século XIX.) o ESTYLO DE GAUHETT 383 

Governadores do reino tentam refugiar-se alli por causa da peste 
de Lisboa, acha-se também na tradiçSo hespanhola do Conde de 
Benavente, que incendiou o seu palácio quando Carlos v o man- 
dou sair d'elle para ser entregue ao duque de Bourbon, tradição 
tratada também no romance Um Castellano leal de um dos che- 
fes do romantismo em Hespanha, o Duque de Rivas. No Coronel 
Chabert, de Balzac, ha esta tradição localisada em um militar que 
chega muito tarde a Paris das campanhas da Rússia. No drama 
Frei Luiz de Sousa, em que Garrett introduziu menos elemen- 
tos da sua imaginação é onde elle attinge a sublimidade shake- 
spereana na expressão das paixSes, a nitidez lógica dos caracteres, 
a naturalidade na sua máxima verdade. 

A lucta politica rompeu em 1846 com a Maria ,da Fonte, de- 
signação mythica do caracter popular da revolução; em 1847 le- 
vantou-se no Porto a prolongação d'esse movimento sob o nome 
de Patuléa, que synthetisava a classe industrial. Garrett esteve 
sempre do lado da nação contra a resistência do paço, que ven- 
ceu por meio de uma intervenção armada estrangeira ; são admi- 
ráveis de justa e clara doutrina os Discursos parlamentares de 
Garrett, em lucta com os principaes oradores cartistas. Por fim 
deu-se ura movimento de conciliação entre os dois campos sob o 
nome de Regeneração em 1851 ; em 25 de junho d'esse anno 
Garrett foi nomeado Visconde, em 13 de janeiro de 1852 nomea- 
do par do reino, e n'esse mesmo anno entrou no ministério com 
a pasta dos estrangeiros. Estava terminada a sua vida de lu- 
cta ; gasto por essa vida admiravelmente descripta nas odes ini- 
mitáveis e únicas das Folhas cahidas, expirou em Lisboa em 9 
de dezembro de 1854. Ninguém como elle soube dar á prosa por- 
tugueza uma forma espontânea, incidentada, cheia de locuçSes 
populares, de movimento subjectivo e de effeitos pittorescos, e 
animada de um desdém soberano, como Garrett, sobretudo nas 
Viagens na minha terra. O lyrismo das Folhas cahidas, inspirado 
por uma paixão tardia e occulta, ó um documento psychologico 
de primeira ordem, o ultimo lampejo da sua poderosa organisação 
affectiva. Garrett tomou parte em todas as luctas que precederam 
o estabelecimento do regimen parlamentar em Portugal, teve o 
poder e a influencia, mas acima de tudo prezou sempre a sua 



384 ROMANTISMO RELIGIOSO (EpOCa G." 

missão de escriptor, que lhe serviu de apoio moral nas ruinas e 
vacillaçôes de uma época. 

b) Phase religiosa ou emanuelica do Eomantismo: Hercula- 
no. — A idealisação da Edade media levou alguns poetas a 
reagirem contra as instituições liberaes, emergentes da Revolução, 
inspii'ando-se exclusivamente do sentimento religioso do Christia- 
nisino, como vemos primeiramente em Klopstock com a Messiada, 
e depois com intuito politico em Chateaubriand com os Martyres 
6 Atola, em Soumet com a Divina Epopêa, e principalmente em 
Lamartine com o Jocelin e com as Harmonias e Meditações. Era 
ao que Gervinus chamou a eschola emanuelica ; acha-se represen- 
tada em Portugal por Alexandre Herculano, cujos primeiros es- 
tudos foram frequentados no Collegio do Espirito Santo, dos Pa- 
dres Congregados de S. Philippe Nery, e cujas predilecções litle- 
rarias se revelaram por tentativas de uma traducção da Messiada. 

Antes da emigração, já Herculano revelava um certo gosto 
litterario, e occupava-se no estudo da lingua allema, procurando 
ler Klopstock e Schiller. Como achou o futuro iniciador do Roman- 
tismo em Portugal esta nova corrente litteraria? Dil-o elle, na 
biographia da Marqueza de Alorna : « Aquella mulher extraordi- 
nária . . . é que eu devi incitamentos e protecção litteraria, quan- 
do ainda no verdor dos annos dava os primeiros passos na estra- 
da das lettras. Apraz-me confeasal-o aqui, como outros muitos o 
fariam, se a occasião se lhes oíFerecesse ; . . . Como madame de 
Stael, ella fazia voltar a attenção da mocidade para a arte de 
Allemanha, a qual veiu dar nova seiva á arte meridional que ve- 
getava na imitação servil das chamadas lettras clássicas, e ainda 
estas estudadas no transumpto infiel da litteratura franceza da 
epocha de Luiz xiv. » ^ A emigração não fez senão esclarecer o 
espirito de Herculano na comprehensão das novas idealisações do 
Romantismo. 

Alexandre Herculano nasceu em Lisboa, em 28 de março de 
1810; foram seus pães Theodoro Cândido de Araújo, fiel da re- 
cebedoria da Junta de Juros, e Maria do Carmo Boaventura. Se- 
guia 08 estudos da Aula de Commercio, o frequentou a aula de 

^ Panorama, t. viu, p. 404. (1844;. 



Século XIX.) ALEXANDRE HEIICULANO 385 

Diplomática. (1830) A época estava terrivelmente perturbada pela 
lucta do absolutismo e do liberalismo ; Herculano seguiu a politi- 
ca do antigo regimen, mas surprehendido na rua na revolução do 
4 de infanteria em 21 de agosto de 1831, teve de refugiar-se era 
casa do capellão dos allemães, e d'alli foi para bordo da fragata 
Melponiene, seguindo depois em um paquete inglez para Falmouth e 
Pljmouth. Achou -se pela força dos acontecimentos na corrente da 
emigração dos liberaes ; foi juntar -se ao deposito que estava em 
Rennes, e em fevereiro de 1832 seguiu para Bellisle, d'onde em- 
barcou em 9 de março com a expedição para a Ilha Terceira. 
Depois da chegada áquelle único ponto de apoio dos liberaes, a 
19 de março, nove dias depois senta praça de voluntário da rai- 
nha, com o n.** 35 da terceira companhia, e foi um dos valentes 
que desembarcaram no Mindello, entrando em varias acções no 
apertado cerco do Porto. As emoções da vida de soldado, a 
comprehensão da grande lucta da liberdade contra o despotismo 
■e o fanatismo col ligados, a saudade da pátria e ao mesmo tempo 
vêl-a ensaguentada com o sangue de irmãos, tudo isto vibra nas 
composições lyricas da Harpa do Crente, em que predomina o sen- 
timento religioso, como nos poemetos a Semana santa, a Arrábi- 
da, a Cruz mutilada. As predilecções litterarias de Herculano fo- 
ram conhecidas, e em 22 de fevereiro de 1832 commissionado 
para coadjuvar a organisaçao da Livraria episcopal, da qual foi 
por decreto de 17 de julho de 1833 nomeado bibliothecario. Foi- 
Ihe dada a baixa de voluntário em 18 de agosto de 1834. Pouco 
tempo exerceu as funcções de bibliothecario no Porto ; não que- 
rendo prestar juramento ao novo governo da Revolução de Se- 
tembro, que restabelecia o principio da soberania nacional com a 
Constituição de 1822, Herculano demittiu-se em officio de 17 de 
setembro de 1836. Foi então que escreveu um libello poético in- 
titulado a Voz do Propheta, em estylo biblico no gosto das Pala-- 
vras de um Crente do abbade Lamennais. No seu regresso a Lis- 
boa, toma conta em 1837 da redacção da revista litteraria o Pa- 
norama, fundada pela Sociedade propagadora dos Conhecimentos 
úteis sob a protecção da rainha ; no Panorama compilou os factos 
mais importantes da historia de Portugal, biographias dos homens 
celebres, noticias archeologicas dos monumentos, excerptos dos 



386 o ROMANCE HISTÓRICO (Epoca ().* 

clássicos, reproducçSo de documentos inéditos, tudo quanto um 
povo precisa para ter conhecimento do seu passado. No Panora- 
ma, redigido por Herculano até 1842, em que se achou envolvido 
na reacção cartista, iniciou elle o romance histórico segundo os 
modelos de Walter Scott, que então estava sendo traduzido em 
portuguez por André Joaquim Ramalho e Sousa; alli publicou o 
Bobo, a Dama pé de Cabra, o Parocho da aldêa, parte do 3íon- 
ge de Cister, a Morte do Lidador e outras pequenas novellas sob 
o titulo de Lendas e Narrativas. Dom Fernando, que antipathisa- 
va com le roi Passos, patrocinou Herculano, nomeando-o em 1839 
seu bibliothecario; tendo no anno antecedente publicado o bello 
livro da Harpa do Crente, julgou-se a salvo das contingências da 
vida com o ordenado de 600;$000 reis, e buscou entregar-se 
completamente ao estudo. Datam de 1840 o Monge de Cister, e de 
1843 o Eurico o presbítero, romances históricos, era que se pro- 
cura reconstruir épocas e discutir theses philosophicas. Em 21 de 
fevereiro de 1844 é eleito sócio da Academia das Sciencias, ob- 
tendo assim as condiçSes para a realisação do seu plano de His- 
toria de Portugal, tendo ulteriormente percorrido os principaes 
cartórios das cathedraes e collegiadas do paiz. Era 1846Jpublica 
o primeiro volume da Historia de Portugal, que levantou uma 
grande celeuma, não pela severidade critica, mas por não ter o 
escriptor ligado importância ao milagre de Ourique; esta lucta, 
que deu logar aos opúsculos Eu e o Clero, Considerações pacifi- 
cas e Solemnia Verba, motivou esse trabalho capital que em 18õ2 
publicou com o titulo de Historia da origem da Inquisição em 
Portugal. Durante as luctas politicas de 1846 a 1851, trabalhou 
Herculano na Historia de Portugal, chegando ao quarto volume, 
ou até ao reinado de Dom AíFonso iii, em 1279. Uma grande de- 
cepção afastou Herculano da vida publica e da litteratura ; elle 
foi um dos que organisou essa conciliação entre o elemento setem- 
brista e o cartista com o titulo de Regeneração, mas Rodrigo da 
Fonseca não o achando bastante accommodaticio organisou um mi- 
nistério sem convidar Herculano. Em 1852 funda o jornal o Paiz, 
ainda com esperanças no novo partido politico, porém o seu des- 
alento tornava-se cada vez mais profundo, chegando em 1858 a de- 
clarar que já não sentia enthusiasmo pelas lettras, A sua antiga 



Século XIX.) CASTILHO 387 

paixão pela agricultura, á qual allude Castilho nas Excavaçdes 
poéticas, domÍDa-o pouco a pouco, e distrahindo-se primeiramente 
cora o grangeio da Quinta do Calhariz e depois com a horta da 
Calçada do Galvão, acabou por deixar o seu emprego na Biblio- 
theca da Ajuda e refugiar-se na quinta de Vai de Lobos, onde 
morreu em 13 de setembro de 1878, de uma pneumonia. Hercu- 
lano, pela austeridade do seu caracter e simplicidade de vida, al- 
cançou um grande poder moral sobre a sociedade portugueza, po- 
der de que se não serviu por causa do desalento em que se dei- 
xou cair. Deve-se-lhe a renovação dos estudos históricos, sendo 
verdadeiramente um continuador de João Pedro Ribeiro e de Frei 
Francisco de Sam Luiz. 

c) Reacção do espirito clássico : Castilho. — A influencia da 
Arcádia, e sobretudo do estylo elmanista mantiveram-se em Por- 
tugal pela actividade litteraria de António Feliciano de Castilho, 
que ainda em 1839 condemnava as manifestações do Romantismo. 
Nasceu Castilho em Lisboa, em 26 de janeiro de 1800; seu pae 
o dr. José Feliciano de Castilho era lente de medicina na Univer- 
sidade de Coimbra ; sua mãe, D. Domicilia Máxima, possuia o 
talento da improvisação poética, que se continuou em seu filho. 
Castilho cegou aos seis annos de edade, e apesar d'esta calamida- 
de cursou os estudos superiores, tendo como dedicado e constante 
companheiro seu irmão Augusto Frederico. Em 1819 publicou 
um poema laudatorio a Dom João vi, sendo por isso contempla- 
do com a tença de uma Escrivaninha ; segundo o gosto do pseu- 
do -clacissismo francez publicou em 1821, em verso bocagiano, as 
Cartas de Ecco e Narciso, e em 1822 os poemetos idyllicos Pri- 
mavera, e as quadras octosyllabicas do Amor e Melancholia, em 
1824. Estes versos determinaram as relações affectuosas e o seu 
primeiro casamento com D. Maria Isabel de Baena Portuga!, em 
1834. Tendo-se formado em cânones em 1826, n'essa agitada cri- 
se que succedeu após a morte de Dom João VI, acompanhou seu 
irmão para o priorado -de S. Mamede de Castanheira de Vouga, 
em cujo retiro viveu oito annos, entregue ao estudo das obras 
clássicas. AUi começou a traduzir as Metamorphoses de Ovidio, 
escreve a Noite do Castello e Ciúmes do Bardo, e colligiu as suas 
Excavaçdes poéticas, onde se destacam a satyra de Antão Veris- 



388 ULTRA-ROMÂNTICOS EM PORTUGAL (EpOCa 6.» 

simo e a mosca e a lenda de Nossa Senhora de Nazareth. Alli 
adquiriu um profundo conhecimepto das locuçSes populares, que 
tanto realce davam ao seu estylo. Depois do cerco do Porto, em 
1834 saiu do seu asylo, casou, viuvando ao fim de três annos. 
Em 1839 publicou os Quadros históricos, em que se revelou um 
primoroso estylista ; o exagerado purismo prejudicava-o na 
concepção histórica. D'este purismo falia seu irmão José Felicia- 
no : « Eu presenciei este facto, a paciência com que para o sim- 
ples limar de uma phrase, vencer uma difficuldade, dispendia 
gostoso dias inteiros. » Este empenho exclusivo da forma não lhe 
deixava tempo para elaborar ideias, tendo de exercer o seu talen- 
to em traducçoes mais ou menos parapbrasticas ; em 1847 traduz 
o drama Camões de Perrot et Dumesnil ; depois os Amores de 
Ovidio, em 1858, os Fastos de Ovidio, em 1862, a Larica do 
Anacreonte em 1866, as Georgicas de Virgilio em 1867, as co- 
medias de Molière Medico á força. Tartufo, Avarento, Sahicko- 
nas e Misanthropo (1869-1874) e traduz do francez o poema do 
Fausto de Goethe, em que acceita tardiamente a litteratura do 
romantismo. Falleceu em Lisboa em 17 de junho de 1875. Desde 
a morte de Garrett exerceu uma acção directa no espirito da mo- 
cidade que despontava na litteratura. 

3.° O Ultra-Romantismo. — Emilio Zola caracterisa este pe- 
ríodo litterario, que se apresenta sob o mesmo aspecto em todas 
as litteraturas : «Os românticos de 1830, para varrerem a antiga 
rhetorica, trouxeram uma outra, egualmente ridícula ; não fize- 
ram mais do que substituir a teimosa imitação da antiguidade 
por uma outra affeição excessiva pela Edade media, pelas velhas 
cathedraes, pelas armaduras, pelas ferragens o farrapos de sécu- 
los passados. Eram as mesmas mentiras em outras decorações. » 
Em Portugal, a falta de uma educação scientifica na mocidade 
que admirava os iniciadores do Romantismo, e ao mesmo tempo 
o conflicto das ambições politicas que desvairava os novos talen- 
tos para o jornalismo, levaram a litteratura para a degeneração 
ultra-romantica. O lyrismo tornou-se a expressão de um senti- 
mentalismo desolado, de uma melancolia fatídica ; o romance 
histórico apoderou-se do mundo medieval, cobrindo a falta de co- 



4 

Século XIX.) juízo de edgar quinet 380 

nhecimento da época com as descripções exteriores e com os ar- 
chaismos da linguagem ; o drama debateu-se em paixões fora da 
natureza, abusando dos punhaes, das vinganças e dos juramentos 
tenebrosos. Garrett percebeu esta errada direcção, chasqueando-a 
em umas phrases do seu romance Helena : « eu escrevo uma his- 
toria, não faço versos á lua, debruçado nos balcSes ideaes de uma 
creação caprichosa e imaginário estylo... devorado pelo verme 
roedor dos negros pensamentos que baloiçam tristemente ao ven- 
to da solidão no crepúsculo da noite. . . com três versos na mes- 
ma rima seguida, e um agudo depois era ão, coração, desespera- 
ção ou similhantes . . . e imbasbacado fica depois o Grémio litte- 
rario, o Centro coramercial, e não sei se a própria Academia de- 
pois de regenerada. » (p. 50.) Nas Viagens na minha terra é 
Garrett mais pungente, explicando « como nós hoje em dia faze- 
mos a nossa litteratura. — Trata-se de ura romance, de um dra- 
ma, cuidas que vamos estudar a historia, a natureza, os monu- 
mentos, as pinturas, os sepulchros, os edifícios, as memorias da 
época ? — Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza, 
coloril-os das cores verdadeiras da historia . . . isso é trabalho dif- 
ficil, longo, delicado, exige um estudo, um talento, e sobretudo 
um tacto ! . . . a coisa faz-se muito facilmente. Ora bem ; vae-se 
aos figurinos francezes de Dumas, de Eug. Sue, de Victor Hugo, 
e recorta a gente, de cada um d'elles, as figuras que precisa, gru- 
da-as sobre uma folha de papel de cor da moda, verde, pardo, 
azul — como fazem as raparigas inglezas aos seus álbuns e 
scrapbooks ; forma com ellas os grupos e situações que lhe pare- 
ce ; não importa sejam mais ou menos disparatadas. Depois vae- 
se ás chronicas, tiram-se uns poucos de nomes e palavrões velhos ; 
cora os nomes chrismam-se os^ figurões, com as palavras illumi- 
nam-se,.. (estylo de pintor pinta-monos). — E aqui está como 
nós fazemos a nossa litteratura original. » (l, 41.) Garrett esboça 
aqui todos os aspectos do Ultra-Roraantismo em Portugal ; não 
viu porém as causas -intimas que provocaram esta degeneração 
precoce. Edgar Quinet, maravilhado com as creações esplendidas 
dos iniciadores do Romantismo em Portugal, ao descrever no 
Portugal e a Santa Alliança as consequências da intervenção ar- 
mada em 1847, previu esta decadência irremediável dos talentos 



390 SOARES DE PASSOS (Epoca 6.» 

simultânea com o attentudo contra o espirito nacional que renas- 
cia. Em relaçSo á Europa, Comto viu na incoherencia politica do 
constitucionalismo as condiçSes « mais favoráveis ás mediocrida- 
des especiosas do que ás capacidades reaes » e pela ausência de 
uma doutrina universal e de uma direcção social, a preoccupaçâo 
exclusiva da forma servindo ambições pessoaes desvairadas. 

a) Lyrismo melancólico: Soares de Passos. — Os princi- 
paes documentos da poesia lyrica portugueza na phase ultra-ro- 
mantica, acham-se colligidos nos jornaes de versos publicados em 
Coimbra, O Trovador, de 1844, e o Novo Trovador, de 1851 ; 
predomina alli o espirito religioso e melancólico de Lamartine e 
Millevoye. Coimbra era então uma capital litteraria, exercendo 
uma influencia directa sobre todos os versejadores. Rimavam-se 
Soláos e Baladas, que por toda a parte eram cantadas ao piano. 
D'entre estas duas gerações académicas, destaca-se Soares de 
Passos, pelo sentimento elegíaco e pela perfeição dos seus versos. 
Nasceu António Augusto Soares de Passos no Porto, em 27 de no- 
vembro de 1826 ; por occasião das perseguições politicas contra 
03 liberaes, seu pae Custodio José de Passos esteve homisiado ; 
diante das janellas de sua casa se fizeram os enforcamentos da 
Praça Nova, era 7 de maio e 9 de outubro de 1829 ; a pobre 
criança assistiu ao terrível cerco do Porto, ficando-lhe d'essa epo- 
ca a Índole apathica e triste que se imprimiu sempre na sua 
idealisação poética. Educado no Collegio do Corpo da Guarda, e 
aos quatorze annos empregado na drogaria de seu pae, conseguiu 
continuar os estudos em 1845, indo matricular-se em 1849 na fa- 
culdade de direito na Universidade de Coimbra. A sua vida aca- 
démica foi de uma intima concentração de espirito, convivendo 
apenas com alguns poetas compatrícios. A bella ode elegíaca A 
partida, imitada pela maioria dos poetas portuguezes, foi escripta 
sob as impressões de uma doença grave soffrida em 1853. Depois 
da formatura era direito em 1854, fez uma excursão ao Bussaco 
e Batalha, fixando também as suas impressões em uma ode en- 
thusiastica O Bussaco. Durante a vida académica e pelas conver- 
sas com alumnos da faculdade de Philosophia, elaborou a sublime 
concepção lyrica O Firmamento, cuja paternidade lhe foi tardia- 
mente disputada. Fixando a residência no Porto, inscreveu-se 



Século XIX.) REBELLO DA SILVA 391 

como advogado na Relação, e concorreu ao logar de segundo bi- 
bliothecario da Livraria publica, era que não foi provido. Tudo 
isto conduzia-o a um invencivel desalento, aggravado em 1856 
pela doença de seu irmão Custodio Passos, a quem acompanhava ; 
as poesias Mendigo, Desalento, Consolação e a Vida, foram escri- 
ptas sob esta pressão moral, que o tornou cada vez mais concen- 
trado a ponto de viver quatro annos fechado no seu quarto, ad- 
iDÍttindo apenas a visita de alguns amigos. O apparecimento do 
Noivado do Sepulchro, o Bardo, e as traducçoes de alguns tre- 
chos de Ossian, indicam a corrente poética que a sua tristeza 
procurava. Em 1858 collige os seus versos, e para fugir ao des- 
alento em que se sentia cahir, projecta em 1859 uma digressão a 
Lisboa ; porém em 6 de janeiro de 1860 tem o primeiro ataque 
de hemoptysis, e em 8 de fevereiro expira. As suas poesias são 
constantemente imitadas, prolongando -se ainda essa falsa melan- 
colia ultra-romantica, que em Soares dos Passos é bella pela sua 
verdade. 

b) Romances históricos : Rebello da Silva. — Herculano dan- 
do-se como iniciador do romance histórico em Portugal, conside- 
rava as tentativas de imitação d'este género como esforços « para 
quebrar as tradições do Allivio de Tristes e do Feliz Tndspenden' 
te, tyrannos que reinaram sem émulos e sem conspirações na pro- 
víncia do romance portuguez. » Entre essas tentativas enumera Os 
Irmãos Carvajales, O 'que foram Portuguezes, de Mendes Leal, 
tfm anno na corte, de Corvo, o Ódio velho não canga, e Mocida- 
de de Dom João V, de Rebello da Silva, e o Conde soberano de 
Castella, de Oliveira Marreca. Garrett caracterisou lucidamente 
como foi comprehendido este género litterario, que se continuou 
teimosamente e sem progresso em Arnaldo Gama, e que é ainda 
uma preoccupação dos novéis escriptores. Na plêiada ultra-roman- 
tica destaca-se Luiz Augusto Rebello da Silva, nascido em Lisboa 
em 2 de abril de 1822 ; frequentou a Universidade em 1839, que 
teve de abandonar em 1841 em consequência de uma grave doen- 
ça. Aos dezoito annos collaborou no Cosmorama litterario com o 
romance histórico Tomada de Ceuta ; successivamente cultivou 
esta forma litteraria que o conduzia para os estudos definitivos 
da historia. Os romances Rausso por homisio, de 1842, Ódio ve- 



;j92 os DRAMALnõES (Kpoca 6." 

lho não cansa, de 1848 e Mocidade de 12. João V, de 1852, Ic- 
varam-no para a Historia de Portugal (1860-1871) que escreveu 
com subsidio e por comraissão do governo; mas as antigas predi- 
lecções levaram-no outra vez para o romance histórico, como as 
Lagrimas e tkesouros de 1863, e a Casa dos Phantasmas, de 
1865. Teve uma larga collaboração no Panorama, Época e Im- 
prensa, e envolvido na politica militante revelou-se como um vi- 
goroso orador parlamentar, dando largas á pompa e colorido que 
prejudicava o seu estylo rhetorico. Ministro da marinha de 1869 
a 1870, as luctas politicas e a effervescencia jornalistica minaram- 
Ihe a existência, retirando-se para a Quinta do Valle de Santa- 
rém em maio de 1871 ; d'alli regressa sem esperança em 3 de 
junho, morrendo de uma aneurisma da aorta em 19 de setembro 
d'esse mesmo anno. A sua mais bella pagina litteraria ó o conto 
da Ultima corrida de touros reaes em Salvaterra. (1848.) 

c) Dramas de sangue, — No theatro é que se aggravaram 
todos os exageros do ultra-romantismo, apesar da fundação do 
Conservatório. Garrett dizia com desvanecimento : « Começámos 
ha pouco mais de um anno, e vinte e tantos dramas originaes 
têm apparecido já n'esta lingua portugueza. . .» O impulso de 
Garrett não foi comprehendido ; os novos talentos imitaram os 
ãravialhdes do ultra-romantismo francez. Herculano, nas Censuras 
do Conservatório dramático, caracterisou bem a nova geração pe- 
lo seu estylo : « a maior parte das vezes falso ; comparações fre- 
quentes, que a situação moral dos personagens que as fazem não 
comporta; certa poesia na dicção imprópria do dialogo ; firtura 
d'essas exagerações com que embasbacara os parvos da platéa e 
que 08 homens de juizo não podem soíFrer. As mãos cheias estilo 
por ahi derramadas as maldições, os anjos de azas brancas, os 
rochedos em braza, os demónios, toda a mais ferramenta dramá- 
tica usada hoje no theatro, e que não sabemos d'onde veiu, por- 
que sendo evidente que os nossos escriptores principiantes buscam 
imitar os grandes dramaturgos francezes, é certo que raramente 
acharão lá essa linguagem oca e falsa, que só pôde servir para 
disfarçar a falta de aflfectos e pensamentos ; Victor Hugo e Du- 
mas não precisam nem usam de taes meios, e para citarmos de 
casa, já que temos cá exemplo, que esses novéis vejam se nos 



Século XIX.) COMPREHENSÃO SCIENTIFICA DA EDADE MEDIA 393 

dramas do nosso primeiro escriptor dramático, se no Auto de Gil 
Vicente, ou no Alfageme, ha essa linguagem de cortiça e ouropel, 
ha essas expressões túrgidas e descommunaes que fazem arripiar 
^ o senso comraum, e que oífendem a verdade e a natureza. » 
{Mem. do Cans., 144.) 



§. II 

Disciplina scienliíica na dissolução do Romantismo 



Em todas as litteraturas o Romantismo chegou ao esgotamen- 
to das formas estheticas, encobrindo a falta de sentimentos natu- 
raes e de concepções syntheticas pelos exageros da linguagem em- 
phatica e de um esmero exclusivo do estjlo. A Edade media que 
já mais nada inspirava para a Arte, appareceu com um novo e 
profundo interesse como campo de exploração scientifica ; estuda- 
ram-se as suas verdadeiras manifestações poéticas, no lyrismo dos 
trovadores pelos philologos Raynouard e Diez, nas epopêas das 
Gestas por Paulin Paris e Becker, no theatro popular pelo Biblio- 
philo Jacob e Monmerqué, nos ftxbliaux e novellas por Legrand 
d'Aussy, Barbazan, Méon e Jubinal ; emquanto á arte gothica 
por Viollet le Duc, Didron, e emquanto ás instituições sociaes por 
Thierry, Guizot, Beugnot, e emquanto ás doutrinas especulativas 
por Victor Leclerc. Inicia-se o estudo dos cantos populares e na- 
cionaes, a critica subordina-se a principies philosophicos, e a in- 
spiração artística retempéra-se nas impressões directas da realida- 
de. Em 1876 escrevia o critico Alexandre da Conceição : « Em 
Portugal — digamol-o sem devaneios de patriotismo obscuro, mas 
também sem pessimismo rabujento — esta immensa transformação 
nas ideias e no ponto de vista critico acha-se já brilhantemente 
affirmada nos estudos históricos e litterarios e nas concepções poé- 
ticas e artisticas ; . . . Ha dez annos que se manifestaram os pri- 
meiros symptomas d'esta formosa evolução litteraria, e já hoje a 



394 FIM DO ULTRA-ROMAMTISMO (EpOCa 6.* 

nova Eschola conquistou os direitos do cidade, postoque seja 
ainda olhada como suspeita pelos espirito» timidos e educados no 
velho regimen auctoritario. > O Dr. Corrêa Barata, também es- 
crevia em 1879 : « Em que peze a muitos, ó forçoso reconhecer 
esta grande metamorphose. — Então degladiavam-se escholas e 
andava em voga a philosophia dos Kant, dos Hegel e dos Fi- 
chte. » Fernandes de los Rios, na Mi Mission en Portugal, falia 
d'esta « regiineracion litteraria nacida en Coimbra, en un estrecho 
circulo de jóvenes, estendida á Oporto, do alli á todo Portugal, y 
que algun dia llevará á Espafia la tendência nueva de Francia y 
principalmente de Alemania, á abandonar las queridas pêro ya 
secas fuentes de una inspiracion gastada, para descobrir en los 
princípios que agitan á la edad contemporânea la base de un sen- 
tiraiento, que en vez alimentar-se de suefíos é instituciones cadu- 
cas, busca en los hechos luminosos de la razon la inspiracion so- 
cial y naturalista. . . » (p. 654.) Esta corrente nova foi conhecida 
pelo titulo um pouco sarcástico de Eschola de Coimbra, cuja op- 
portunidade representa o fim natural do Ultra- romantismo, da 
rhetorica do estylo, e o estabelecimento de bases criticas na litte- 
ratura. 

a) A Eschola de Coimbra. — As luctas que precederam na 
AUemanha e França a implantação do Romantismo, reproduzi- 
ram-se em Portugal na crise da sua dissolução. Era era Coimbra 
que se davam as condições para uma maior actividade especula- 
tiva, e para os enthusiasraos pelas doutrinas theoricas. A leitura 
das poesias de Victor Hugo e de Alfred de Musset, dos romances 
de Balzac e de Gustavo Flaubert, das obras históricas de Miche- 
let, das polemicas politicas de Proudhon, das criticas das gran- 
des obras de Arte por Quinet e Taine, dos systemas philosophi- 
cas de Hegel e de Comte, tudo isto lido sem plano produzia um 
estado insurreccional do espirito, um prurido de innovação, e 
uma audácia mental, que levava a affrontar o constituído, as 
admirações banaes e a auctoridade académica. Não havia plano, 
nem disciplina de espirito; nem tampouco novas creaçSes littera- 
rias para contrapor aos antigos productos do romantismo. Era 
apenas uma dissidência, cuja opportunidade teve a importância 
de provocar uma renhida polemica litteraria, hoje conhecida pelo 



Século XIX.) A ESCHOLA DE COIMBRA 395 

titulo de Questão coimbrã, e com variadissimas espécies biblio- 
graphicas. D'essa polemica apura-se á evidencia a inanidade 
mental dos que debatiam pelo extemporâneo ultra-romantismo. A 
Eschola de Coimbra perdeu o caracter local, definindo-se com o 
tempo as suas tendências poéticas, scientiíicas e philosophicas, á 
medida que as concepções metaphysicas da época universitária 
foram substituidas pela disciplina das doutrinas positivas. 

b) Origens populares da Litteratura : Romanceiros e Novel- 
listica popular. — A primeira disciplina critica para a transfor- 
mação da litteratura portugueza devia começar pela exploração 
das suas fontes tradicionaes. Garrett teve a intuição genial d'es' 
ta necessidade, despertado pelo que durante a emigração em In- 
glaterra observara, e pela reminiscência das suas emoções infan- 
tis: «Antes que excitado pelo que via e lia em Inglaterra e Al- 
lemanha, eu começasse a emprehender n'este sentido a rehabi- 
litação do romance nacional, já Grimm, Rodd, Depping, Múller 
e outros vários tinham publicado importantes trabalhos sobre as 
preciosas quam mal estimadas collecções castelhanas.» [Rom., i, 
p. XIII.) Quando Garrett voltou a Portugal em 1826, tentou in- 
vestigiar a tradição popular, lembrando-se ainda de ter sido em- 
balado na meninice com as trovas do Conde Alarcos : « estimula- 
va-me a leitura doa muitos ensaios estrangeiros que n'este género 
iam apparecendo todos os dias em Inglaterra e França, mas 
principalmente na Allemanha. Uma estimável e joven senhora... 
foi quem se incumbiu de procurar em Portugal algumas copias 
de xácaras e lendas populares. — Consegui umas quinze rhapso- 
dias, ou mais propriamente fragmentos de romances e xácaras, 
que em geral são visivelmente do mesmo estylo...» (Ib., 15 a 
17.) A collecção de Garrett, pela contribuição de outros collecto- 
res, chegou a trinta e dois romances tradicionaes; prejudicou po- 
rém a tradição retocando-a artisticamente, recompondo situações 
com fragmentos de variantes. Depois de Garrett até 1867 nunca 
mais ninguém tratou de investigar as nossas origens tradicionaes ; 
depois das luctas da Eschola de Coimbra, foram estes os traba- 
lhos preliminares para a fundação da Historia litteraria de Por- 
tugal. Acharam-se novos typos novellescos ; e nos romances popu- 
lares se observaram referencias frequentes aos symbolos jurídicos 



30G INVESTIGAÇÕES DO ELEMENTO TRADICIONAL (EpOCa 6.* 

que outr'ora eram vigentes nas Cartas de Foral dos Concelhos 
da livre população mosarabo. Isto levou á conclusão que a mes- 
ma classe que formulou essas garantias jurídicas deixou impres- 
sos nos seus cantos os costumes da sua sociedade. A exploraçíío 
estendcuse da Beira Baixa ao Archipelago açoriano; novos col- 
lectores consultaram a tradiçSo oral do Algarve, do Archipelago 
da Madeira, successivamente do Alemtejo, de Traz os Montes e 
Minho, e ultimamente do Brazil; as riquezas ethnologicas e his- 
tóricas accumuladas são incalculáveis e excedem já a parte ver- 
dadeiramente anonyma do grande Romancero general de Duran. 
Investigações simultâneas na Galliza e nas Astúrias, vieram fa- 
cilitar a recomposição de uma primitiva unidade ethnica do no- 
roeste da península hispânica, como o conhecimento dos cantos 
populares da Andalusia leva pelas comparações e similaridades 
á determinação de outra primordial unidade ethnica betico-ex- 
tremenha ao sudoeste. Os novos investigadores portuguezes am- 
pliaram a área tradicional comprehendendo sob o nome de Folie- 
Lore os contos, as adivinhas, os jogos infantis, as crenças e su- 
perstições, e os costumes locaes. Ainda com este novo desenvol- 
vimento nos apparece o influxo de Garrett, a quem Castilho es- 
crevia a propósito do seu artigo descriptivo do Folar, pedindo- 
Ihe outras descripções das festas do anno: «peço-a para os Reis; 
peço-a para o Carnaval, peço-a para a Paschoa; peço-a para a 
entrada da Primavera, para a do Estio, para a do Outono, para 
a do Inverno ; peço-a para o Sam João, peço-a para o Santo An- 
tónio, peço-a para os Finados ; peço-a em summa para cada unia 
das cousas em que possam caber poesias. » {Mem. Garr., iii, 114.) 
A investigação dos Contos de fadas levou a achar os themas 
mythicos mais universaes nas litteraturas, e até que ponto os es- 
cripfores portuguezes conheceram esse elemento tradicional ; pelo 
estudo simultâneo da litteratura com a tradição popular se co- 
nheceu a forma primitiva da Serranilha galleziana, (a actual 
Muirieira) persistente desde os typos conservados no grande Can- 
cioneiro portuguez da Vaticana do xiv até ás formas que ainda 
se repetem em Rebordainhos. No grande movimento dos estudos 
folk-loricos, Portugal é um dos paizes mais bem representados na 
Europa. O lyrismo, que se dissolvia em um subjectivismo pessoal, 



Século XIX, ) CREAÇÃO DA HISTORIA LITTERARIA 397 

retemperou-se com um sentido universal e humano diante de uma 
melhor comprehensão da poesia tradicional popular, como aconte- 
cera com Garrett, que apparece genialmente transfigurado nas 
Folhas cahidas depois do seu estudo do Romanceiro. 

c) Novos estudos philologicos : Desenvolvimento da Historia 
litteraria de Portugal. — Como uma consequência da revelação 
do génio germânico na época do Romantismo, Eichorn fundou 
em 1796 a empreza para a publicação de uma Historia comi^leta 
das ScienciaSf das Artes e das Lettras, desde o seu renascimento 
na Europa moderna; coube a Bouterwek n'esta obra gigantesca 
aparte relativa ás Litteraturas modernas, publicando em 1804 no 
terceiro tomo d'este vasto quadro a Historia da Litteratura por- 
tugueza. Bouterwek confessa que foi auxiliado n'cste trabalho por 
um sábio portuguez. E um livro ainda hoje excellente nas apre- 
ciações geraes, na determinação das épocas históricas e nas com- 
parações cora as correntes estrangeiras, que sS um talento supe- 
rior poderia realisar, quando mesmo em Portugal se desconhe- 
ciam os documentos do nosso passado litterario. Sob um ponto 
de vista menos especial, Sismondi em 1819 tratou da Litteratura 
portugueza no quadro histórico das Litteraturas 'do Meio Dia 
da Europa; e em 1825, Ferdinand Denis publicou o Resume de 
VHistoire littéraire du Portugal, cora aquella lucidez vulgarisa- 
dora do espirito francez. Cora o conhecimento d'estes anteriores 
trabalhos traçou Garrett em 1827 esse pequeno mas nitido qua- 
dro do Bosquejo da Historia da Poesia e Língua portugueza; 
faltava- lhe porém o conhecimento das leis de formação das lin- 
guas românicas, já determinadas por Diez, dos primeiros docu- 
mentos da nossa litteratura provençal, e das relações cora as ou- 
tras litteraturas occidentaes. 

Na transforraação litteraria do Romantismo, Herculano com- 
prehendeu logo, que era necessário uma disciplina critica, que só 
poderia ser deduzida do conhecimento da Historia da Litteratura 
portugueza; em ura artigo do Repositório litterario de 1834, es- 
boça esse plano, que ninguém então procurou realisar: Começar- 
se-hia pelo « exame das diíferentes theorias sobre o bello e subli- 
me, e as consequências, objecto immediato a que nos conduzi- 
riam » e successivamente a Indagando a historia da Poesia nos di- 



398 NOVA DISCIPLINA PHiLOSOPiiiCA (Epoca 6." 

versos tempos e naçSes... depois da queda da bclla Litteratura 
grecolatina » estabelecia-se a « Originalidade nascente da Litte- 
ratura da Meia-Edade destruida quasi no renascimento das Let- 
tras, e substituida por theorias antigas. . . encontrariamos finíil- 
mente o espirito de liberdade e nacionalidade da actual Littera- 
tura. . . D (Reposit., p. 5.) Depois das luctas da Eschola de Coim- 
bra, e como base critica doutrinaria era indispensável uma His 
toria da Litteratura portugueza; os novos trabalhos de investi- 
gação philologica coadjuvaram a realisação d'esse pensamento. A 
publicação do Cancioneiro da Vaticana e descoberta do Cancio- 
neiro de Colocci, a publicação do Cancioneiro geral de Garcia de 
Resende, e das Obras de Gil Vicente, novas edições criticas de 
Camões, de Christovam Falcão, de Sá de Miranda, de António 
Prestes, do Hysso-pe, de Diniz, e de Bocage, facilitavam o prose- 
guimento d'esta erapreza, vivificada pelo estudo das nossas ori- 
gens tradicionaes, e destinada ao estabelecimento de noções cri- 
ticas fundamentaes. Appareceram novas manifestações estlieticas, 
como se verifica pela poesia objectiva e pelo romance realista ; 
seguiram-se trabalhos scientijicos, até então não iniciados em 
Portugal, como a Paleontologia, a Ethnographia, a Glottologia e 
a Philologia oriental e românica, a Pedagogia, a Historia da 
Arte nacional, e Politica. Toda esta activa elaboração resultava 
de ura ponto de vista philosophicoj que se acha definido pelo 
Dr. Corrêa Barata : « Dos brilhantes espíritos que saíram então 
da Universidade, alguns aí estão bem conhecidos, os quaes, se 
me não engano, já soffreram esta transformação que os aproxima 
do positivismo das concepções hodiernas. » Effectivamente, no en- 
sino superior da Mathematica appareceu esse espirito positivo por 
influencia da Mechanica de Freycinet e da Geometria analytica 
de Comte; no ensino da Medicina, pela influencia de Blainville e 
de Robin, de Fleury e Lacassange, a synthese positivista encon- 
tra poderosas adhesões, que se propagam no campo das Sciencias 
sociaes pela influencia de Stuart Mill, Littré, Spencer e Carey. 
A ideia de De Maistre, proclamada no principio d'este século, 
— que tudo indica que caminhamos para uma grande synthese, 
ainda que reconhecida como verdadeira não foi realisada, mas a 
sociedade moderna agita-se sob essa aspiração immensa. 



Século XIX.) SYNTHESE DAS LITTERATURAS 399 

Pelo estudo da historia da Litteratura chega-se á descoberta 
de uma ii^ima solidariedade affectiva entre todos os povos da Eu- 
ropa, revelada pelas creações artísticas cora que mutuamente se 
influem ; por estas relações de épocas e de escolas, de correntes 
de gosto e de renovações criticas, vê-se que a continuidade da 
Civilisação Occidental, interrompida pelo conflicto de crenças e 
de interesses políticos, actuou sempre como estimulo de coorde- 
nação social nas manifestações desinteressadas e livres do espiri- 
to. Tal é a liçSo implícita na historia litteraria de qualquer dos 
elementos do grupo românico, que nos revela a primeira base da 
grande synthese sociocratica para onde se caminha. 



FIM 



índice dos esgriptores portuguezes 



1. Século XII a XIV 

AíTonso Eanes de Cotom, 73. 
AíTonso Gomes, jogral, 75. 
Affonso Geraldes, 94, 95, 96, 175. 
D. AíTonso Lopes Baiam, 58, 72, 

87, 89, 141. 
D. AíTonso iv, 92, 93. 
AíTonso Sanches, 85, 86. 
Anonymo, 72. 

Ayres Nunes, 58, 82, 87, 90, 141. 
Conde D. Pedro, 73, 85, 86, 88, 

93 102 11^) 
Dom' Diniz, 35, 41, 58, 75, 76, 77, 

78, 79, 84, 87, 88, 93, 99, 101, 

103, 105, 117, 120. 
Diogo Pezelho, 75. 
Estevam Annes de Valladares, 74. 
Estevam Froyam, 87. 
Estevam da Guarda, 102. 
Estevam Raymundo, 74. 
Fernão Rodrigues Piedondo, 75. 
Fernão Garcia Esgaravunha, 74, 

87. 
Fernão Gonsalves de Seavra, 87. 
Fernam Padrom, 87. 
Fernão Velho, 87. 
Frei Francisco de Melgaço, 114. 
Gonçalo Eannes do Vinhal, 75, 

101. 
Fr. Hermenegildo de Payopélle, 

115. 
Fr. Hilário de Lourinhã, 115. 
D. João de Aboim, 72, 74, 76, 87. 
João Coelho, 87. 
João Garcia, 74. 
João de Gaia, 74. 
João Garcia Esgaravunha, 74. 
João de Guilhade, 87. 
João, jogral, 93. 
João Lobeira, 105. 
João Lopas Ulhôa, 87. 



João Martins, 74. 

João Soares Coelho, 68, 69, 74. 

João Soares Fomesso, 87. 

João Soares de Paiva, 74. 

João Velho, 75. 

João Vasques, 75. 

Julião, jogral, 75. 

Martim Peres de Alvim, 74, 75. 

Martim Soares, 75, 84, 87. 

Mem Rodrigues Tenoyro, 87. 

Nuno Fernandes Torneol, 87. 

Payo Gomes Charrinho, 75, 87. 

Pêro Garcia Burgalez, 87. 

Pêro Gomes Barroso, 75, 87. 

Pêro da Ponte, 87, 100. 

Pêro Solaz, 87. 

Pedro Hispano, 119. 

Picandom, jogral, 75. 

Ruy Fernandes, 87. 

Ruy Paes de Ribela, 87. 

Ruy Queimado, 87. 

Soeyro Eanes, 75, 100. 

Vasco Fernandes de Praga, 74. 

Vasco Gil, 87. 

Vasco Praga de Sendim, 87. 

Vasco de Lobeira, 106. 

Vasco Rodrigo de Galvelo, 87. 

II. Século XV 

AíTonso Lopes, 144. 

Álvaro Barreto, 137, 146. 

Álvaro de Brito, 127, 178. 

Álvaro da Motta, 160. 

Ayres Telles de Menezes, 134, 183. 

Condestavel de Portugal, 76, 130, 

131, 134, 136. 
Conde de Vimioso, 144. 
Diogo de Mello, 143. 
D. Duarte, 42, 59, 86, 87, 114 ; 130, 

138, 150, 152, 153, 161, 165, 166, 

167, 168, 175. 

26 



402 



INDICK DOS ESCRIPTOUES PORTUGUEZES 



Duarfe de Brito, 137. 
Duarte Galvão, 253. 
Duarte de Resende, 178. 
Egas Moniz Coelho, 139 ; 142. 
Fernão Brandão, 137, 241. 
Fernão Lopes, 39, 59, 157, 158, 

159, 161, 163. 
Francisco da Silveira, 175. 
Francisco de Sousa, 137. 
Garcia de Resende, 58, 134, 135, 

137, 165, 188, 196, 222. 
Gomes Eanes de Azurara, 59, 90, 

106, 158, 160, 162, 163, 171. 
Fr. João Alves, 151. 
João AÍTonso de Aveiro, 136. 
Fr. Jo5o Claro, 134. 
D. João de Menezes, 127, 137, 248. 
Jorge de Vasconcellos, 135, 279. 
Luiz de Azevedo, 133. 
Lopo de Almeida, 170. 
Nuno Pereira, 175. 
D. Pedro, duque de Coimbra, 130, 

132, 133, 135, 147, 148, 152, 168, 

260. 
Pedro Homem, 175. 
Pêro de Sousa Ribeiro, 136. 
Ruy de Pina, 39, 59, 156, 162, 164, 

165. 
Vasco Pires de Gamões, 129. 

111. Século XVI 

AÍTonso Alvares, 224. 

Fr. Agostinho da Cruz, 228, 236. 

Amador Arraes, 285. 

André Falcão de Resende, 59, 214, 
228, 238, 286. 

André de Gouvôa, 192, 195, 248. 

André de Resende, 182, 194, 238. 

António de Abreu, 27i. 
L Dr. António Ferreira, 42, 43, 59, 
' 92, 105, 107; 194, 213, 217, 228, 
234, 236, 239, 240, 241, 276. 

António Galvão, 251, 253. 

António Gouvêa, 261, 262. 

Fr. António de Lisboa, 227. 

Fr. António de Portalegre, 201. 

António Prestes, 198, 202, 216, 
225. 

António Ribeiro Chiado, 213, 224. 

António Tenreiro, 260. 

Ayres Barbosa, 238. 

Ayres Victoria, 241. 

Balthazar Dias, 217, 226. 

Balthazar Estaco, 275. 



Balthazar Telles, 202. 
Bernardim Ribeiro, 206, 207, 208, 

214, 243, 244, 265, 292. 
Fr. Bernardo de Brito, 90, 139, 

141, 275, 282, 286. 
Bernardo Rodrigues, 273. 
Braz de Albuquerque, 257. 
Christovam Falcão, 41, 206, 210, 

211, 212, 265, 292. 
Damião de Góes, 39, 60, 156, 104, 

214, 251, 255, 256. 
Diogo Bernardes, 59, 235, 236, 241, 

280, 286. 
Diogo de Couto, 39, 60, 255, 268. 
Dr. Diogo de Gouvêa, 192, 195, 

248. 
Diogo de Paiva de Andrade, 285, 

286. 
Diogo de Teive, 194, 249. 
Duarte Nunes de Leão, 33, 153, 

254, 286, 313. 
Estevam Rodrigues de Castro, 273, 
Fernão Alvares d'Oriente, 272, 286, 

287. 
Fernão Lopes de Castanheda, 39, 

42, 60, 251, 252. 
Fernão Mendes Pinto, 251, 259. 
Fernão de Oliveira, 37, 59, 153 

182, 183 a 189; 191. 
Fernão Rodrigues Lobo Soropita 

274. 
P.e Francisco Alvares, 260. 
Francisco de Andrade, 278, 279. 
Francisco Galvão, 272, 273. 
D. Francisco de Mello, 258, 259. 
Francisco de Moraes, 225, 242. 
Francisco de Sá de Miranda, 59 

80, 116, 129, 137, 192, 206 a 208 

214, 222 , 228 a 234, 248, 286, 295 
Francisco Sanches, 261, 262, 263 
Garcia d'Orta, 258. 
. Fr. Gaspar da Cruz, 283. 
Gaspar Fructuoso, 283. 
Gil Vicente, 18, 19, 22, 39, 41, 45 

59, 80, 84, 136, 137, 144, 176 

191, 195, 196, 202, 214, 215, 219 

225, 239, 267, 281. 
D. Gonçalo Coutinho, 228, 243 

245, 272. 
Gonçalo Fernandes Trancoso, 245 

240. 
Heitor Pinto, 285. 
Heitor da Silveira, 238, 268, 271 
Jeronynio Corte-Real, 218, 207 

278. 



ÍNDICE DOS ESCRIPTORES PORTUGUEZES 



403 



Jeronymo Ribeiro, 216. 
I D. Joanna da Gama, 285. 
João de Barros, 37, 39, 42, 60, 
138; 188, 189 a 191, 213, 218, 
I 242, 254, 283, 284. 
' Dr. João de Barros, 107, 284. 
João Lopes Leitão, 268, 271. 
P.e João de Lucena, 260. 
Fr. João dos Santos, 283. 
Jorge Fernandes (Fr. Paulo da 

Cruz), 273. 
Jorge Ferreira de Vasconcellos, 

192, 202, 213, 215, 240, 243. 
"Jorge de Monte-Mór, 42, 55, 209, 
r 210, 228, 233, 244, 245, 276. 
Jorge Pinto, 216. 
Luiz Anriques, 218. 
Luiz Brochado, 214. 
; Luiz de Gamões, 39, 41, 42, 59, 
■ 127; 225, 264 a 269; 274, 277, 
> 286, 295. 
Luiz Franco, 268, 271. 
P.e Luiz da Cruz, 282. 
Luiz Pereira Brandão, 278, 280. 
. D. Manoel de Portugal, 228, 233, 
r 237. 

- Manoel da Veiga Tagarro, 272, 287. 
Fr. Marcos de Lisboa, 283. 
Miguel Leitão de Andrada, 141, 
:- 142, 175, 236, 275. 
^ Fr. Pantaleão de Aveiro, 260. 
Pêro de Andrade Gaminha, 59, 
129, 217, 283, 233, 235, 267, 286. 
Pedro Moniz, 193. 
Pedro da Gosta Perestrello, 42, 

218, 272, 276. 
Pedro Nunes, 257. 
Simão Garcia, 227. 
Fr. Thomé de Jesus, 285. 
Vasco Mousinho de Quevedo, 274, 
278, 280, 286. 

IV. Século XVII 

P.e Alexandre de Gusmão, 310. 
Álvaro Ferreira de Vera, 312, 314. 
Amaro de Ileboredo, 311. 
André Rodrigues de Mattos, 303. 
André da Silva Mascarenhas, 302. 
Fi\ António das Ghagas, 295, 296, 
308, 316, 341. 
♦ António Lopes da Vega, 292. 
P.e António de|[Sousa, 310. 
António de Sousa Macedo, 315, 
324. 



'P.e António Vieira, 315 a 318. 
Balthazar Gonsalves Lobato, 310. 
P.e Bento Pereira, 313. 
D. Bernarda Ferreira de Lacerda, 

297, 301. 

Braz Garcia de Mascarenhas, 301, 
307. 

Diogo Ferreira Figueirôa, 309. 

Eloy ye Sá Souto Mayor, 309. 

Félix Gastanheira Turacem, 310. 

D. Francisco Ghild Rolim de Mou- 
ra, 297. 

Francisco Lopes, 298. 
■ D. Francisco Manoel de Mello, 41, 
59, 60, 148, 220, 292, 295, 305, 
306, 322, 323. 

D. Francisco de Portugal, 296. 

Francisco Rodrigues Lobo, 291, 

298, 303, 309, 314. 
Francisco de Sá de Menezes, 301. 
P.e Gabriel de Magalhães, 322. 
Gabriel Pereira de Gastro, 299. 
P.e Gaspar Pires Rebello, 310. 
Gerardo de Escobar, 309. 

- Jacintho Freire de Andrade, 322. 

Jacintho Cordeiro, 304. 

João Franco Barreto, 303. 

João de Mattos Fragoso, 304. 

P.C João Ferreira de Almeida, 116. 

Leonel da Gosta, 303. 
-Fr. Luiz de Sousa, 316 a 322. 

Manoel de Pearia e Sousa, 291, 

299, 306. 

Manoel de Galhegos, 299, 300. 
P.e Manoel Bernardes, 316. 
Manoel Severim de Faria, 189, 

284, 314. 
Manoel Thomaz, 298, 301, 304. 
Marianna Alcoforado, 324. 
P.e Matheus Ribeiro, 309. 
Matheus da Silva Gabral, 310. 
Nuno Barreto Fuzeiro, 297. 
Nuno Marques Pereina, 310. 
Pedro Salgado, 304. 
Simão Machado, 304. 
Thomé Pinheiro da Veiga, 299. 
Vicente Nogueira, 315. 
Violante do Géo, 297. 

V. Século xvin 

Alexandre António de Lima, 336. 
Dr. Alexandre Ferreira, 332. 
D. António Caetano de Sousa, 332. 
António da Gosta, 342. 



404 



índice dos ESCRIPTORES PORTUGUEZES 



António Diniz da Cruz e Silva, 

a45, 350. 
• António José da Silva, 35, 3351. 
António Lobo de Carvalho, 353. 
António de Mello da Fonseca, 330. 
António Pereira de Figueiredo, 

416, 339, 344. 
António Ribeiro dos Santos, 342, 

360. 
Conde da Ericeira, 327, 329, 331, 

333, 334. 
Diogo Barbosa Machado, 332. 
Domingos Caldas Barbosa, 359, 

362. 
Domingos dos Reis Quita, 60, 350, 

352. 
^Filinto Elisio, 352, 356. 
Francisco de Mello Franco, 360. 
Francisco Xavier de Oliveira, 342. 
Jacob de Castro Sarmento, 328, 

337. 
João Baptista Gomes, 351. 
João Xavier de Mattos, 353. 
José Agostinho de Macedo, 361, 

364, 365. 
José Anastácio da Cunha, 354, 357, 

364. 
José Basilio da Gama, 358. 
José Corrêa da Serra, 328, 354, 362. 
P.e José de Santa Rita Durão, 359. 
José Soares da Silva, 142, 332. 



Luiz António Verney, 338. 

Manoel de Figueiredo, 346, 351. 

P.o Manoel de Macedo, 352. 

Manoel Ignacio da Silva Alvaren- 
ga, 358. 

Manoel Maria Barbosa du Bocage, 
360, 361, 363. 

Nicoláo Luiz, 336, 351. 
• Nicoláo Tolentino de Almeida, 59, 

353, 355. 
^ Pedro António Corrêa Garção, 00, 
334, 345, 346, 348, 349. 

Pedro José da Fonseca, 362. 

D. Raphacl Bluteau, 330. 

Thomaz António Gonzaga, 84, 359. 

VI. Seoulo XIX 

Alexandre Herculano, 369, 371, 

376, 380, 384 a 387, 392, 397. 
Almeida Garrett, 40, 42, 369, 371, 

373, 378 a 383, 389, 392, 395. 
António Feliciano de Castilho, 373, 

376, 387, 388, 396. 
Barreto Feio, 381. 
D. Francisco Alexandre Lobo, 320. 
João Pedro Ribeiro, 35, 118, 142, 

147, 159. 
Marqueza de Alorna, 384. 
Rebello da Silva, 391. 
Soares de Passos, 390. 



índice 



Curso de Historia da Litteratura Poptiigueza 



Pag. 
Advertência 5 



PROLEGOMENOS 
BASES DA CRITICA LITTERARIA 

(Pag. 7 a 61) 

g. I — demoutos statico» da, Ijittex*atiix*a : 

1.0 A Raça 10 

2,0 A Tradição 15 

3.° ALingua 22 

A) Lei de formaç5o das Línguas românicas 24 

B) Filiação e Épocas históricas da Lingua portugueza 31 

a) Formas gallezianas no portuguez 32 

b) Modificações por via do Francez 34 

c) O portuguez começa a ser escripto 35 

—Divergência dialectal 36 

4.0 A Nacionalidade 37 

g. n. — o elemento dyuainioo na IL<ittei*atui*a : 

1.0 As grandes individualidades 40 

2.0 Do regimen da Edade media dimana o espirito das Litte- 

raturas românicas 43 

3.0 Successão das Litteraturas românicas e filiação da Litte- 
ratura portugueza 50 

a) A França 51 

b) A Itália : 53 

c) A Hespanha e Portugal 54 

d) A Inglaterra e AUemanha 55 

4.0 Épocas históricas da Litteratura portugueza 57 



40t) ÍNDICE DAS EFOCAS LITTEHARIAS 

PRIMEIRA ÉPOCA 

(Seeiílo XII a XIV) 

TROVADORES GALLECIO-PORTUGUEZES 

(Pag. 63 a 125) 

Pag. 

g. I — Influoncia, <io sul da Fi-ança, ou g^allo- 

jromana 03 

1.0 Origem e diíTusão da Litteratura provençalesca e sua com- 

municação a Portugal 64 

a) Gommunicação pelos Trovadores das Cruzadas 67 

b) Gommunicação italo-provengal : Sordello e Bonifácio 

Calvo 68 

c) Gommunicação pelo norte da França : Jograes de Segrel. 71 
2.0 O Gyclo Dionysio 75 

a) A Eschola limosina e a Poética provençal portugueza ... 76 

b) Elementos tradicionaes gallezianos : Serranilhas e Can- 

tos de iedino 80 

c) O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. Elenco dos 

Cancioneiros provençaes portuguezes 85 

§. II — Influencia <lo norte da França, ou g-al- 

lo-fjranlia 88 

a) As Canções de Gesta e allusões ao Gyclo carlingio 89 : 

b) As tradições épicas no Romanceiro peninsular 90 

c) O Poema da Batalha do Salado 92 

§. III — Influencia armoricana, ou gallo-ln-eta. 99 

a) O elemento lyrico dos Lays 100 

b) O elemento novellesco : Lendas do Rei Lear, de Arthur, 

Merlim, Tristão 101 

c) Formação do Amadiz de Gaula 10: ! 

§. IV — Influencia latino- ecelesiaistica e hu- 
manista 107 

l." O cyclo dos Poemas greco-romanos 109 

2.0 As traducções latinas. — Livraria de Alcobaça 112 

a) Visão de Tundal 114 

b) Barlaam e Josaphat 115 

c) Orto do Sposo 115 

d) Traducções do Velho Testamento 115 

3.0 O Poder real protege o humanismo 116 

a) Fundação da Universidade 417 

Ú Nobiliários 120 

(c)j Organisação das Ghronicas em prosa i'21 



índice das épocas LITTEKARIAS 407 

SEGUNDA ÉPOCA 

(Século XV) 

OS POETAS PALACIANOS 

(Pag. 126 a 178) 

Pag. 

§. I — Elal>oraçã,o do Lyrisino px'Oveiiçal pe- 
lo génio italiano 126 

1 .0 Tentativa de renascença da Poesia gallega 428 

2.0 Influencia aragoneza.— O Condestavel de Portugal.— Cos- 
tumes palacianos e últimos vestígios da tradição pro- 
vençal 129 

3.0 Imitação directa da Poesia castelhana : O Infante D. Pedro 

em relação com João de Mena 132 

a) As Obras do Arcipreste de Hita. — Traducção de Hernan 

Perez de Gusman. — O Marquez de Santillana. — Poetas 
portuguezes em Castella 134 

b) Formação do Cancioneiro geral, de Garcia de Resende. 143 

c) Descripção dos Cancioneiros portuguezes do século xv. 137 
§. II — A.S IVovellas da Tavola Redonda em 

Poi^tng-al 144 

a) Referencias nos costumes aristocráticos 144 

b) Demanda do Santo Greal. — Tristão. — Galaaz. — Baladro 

de Merlim. — Joseph ab Arimathia. — Historia de Ves- 

pasiano 145 

c) Tradição das Ilhas encantadas : Viagem de Rozmital 147 

§. III — A. erndição latinista 149 

1.0 Estado da Lingua portugueza: Formas populares e erudi- 
tas. Traducções do latim 149 

2.0 As Bibliothecas do rei D. Duarte, do Infante Santo e do 
Condestavel de Portugal. Duplo elemento latinista e 
medieval 153 

3.0 Desenvolvimento da forma histórica 156 

a) O Archivo nacional, e a Conversão das Estorias em Caro- ^^^ 

nicas y\^ 

b) Os grandes Chronistas do século xv. — Ideia de traduzir 

em latim as Chronicas (1617 

c) Os Humanistas : Philosophos e Moralistas. A Universida- ' — 

de de Lisboa — Jurisprudência — Estudantes portugue- 
zes na Itália — A Imprensa portugueza e os seus mo- 
numentos 165 

§. IV — Existência de nm elemento popular.. 170 

a) Cantigas ao Condestavel Nun'alv'res e a Aljubarrota 171 



408 índice das épocas litterarias 

Pa», 

b) Referencias a Romances tradicionae? 174 

Formação dos Romanceiros 174 

o) Autos, Momos e Entremezes 17(; 



TERCEIRA ÉPOCA 

(8eculo XTI) 

OS QUINHENTISTAS 

(Pag. 179 a. 287) 

§. I — A. Ii;eiiasceii<;;a. <Ja cultura greco-ro- 

muna, como iiog-ação da Hldade meclia 179 

A) Período philologico e artístico 182 

1.0 As Grammaticas de Fernão de Oliveira (1536) e de João de 

Barros (1539) 182 

a) As alterações phoneticas 186 

b) As alterações morphologicas 187 

c) As alterações syntaxicas 188 

d) Influencia de Gil Vicente 191 

2.° As três reformas da Universidade 192 

3.0 Gil Vicente, Ourives, e os Artistas nacionaes 195 

§. II — Oonflicto ontre a tractipâo medieval o 

a eirucliçtão clasí^ica, ou influencia italiana. 200 

1.0 o Lyrismo popular e os Poetas da medida velha 201 

a) Bernardim Ribeiro 207 

b) Christovam Falcão 210 

c) Poetas da medida velha 213 

2.0 Os Romanceiros como rudimento da Epopêa medieval 214 

3.0 Fundação do theatro nacional por Gil Vicente 218 

a) Condições em que se introduz o theatro em Portugal 220 

b) Reacção dos eruditos contra o theatro medieval 222 

c) Eschola de Gil Vicente 223 

§. III — Sâi de M!iranda e a imitação clássica 

isol> a influencia da Itália 227 

1.0 Lucta da introducção da Eschola italiana 228 

a) Lyrismo : Sá de Miranda e sua Eschola : Ferreira, Ber- 

nardes, Caminha, D. Manoel de Portugal, Falcão de 
Resende 228 

b) Theatro : A Comedia e a Tragedia clássicas 239 

c) Novellas e Contos: Persistência do elemento medieval 

no Imperador Clarimundo, Palmeirim de Inglaterra, e 



índice das épocas litterarias 409 

Pag. 
Memorial dos Cavalleiros da Segunda Tavola Redonda 
— O espirito das Pastoraes italianas : Menina e Moça 
e Diana. Os Contos de Proveito e Exemplo, de Tran- 
coso ; 241 

B) Periodo theologico e critico 246 

a) Influencia da Inquisição em Portugal 247 

b) Os Jesuítas apoderam-se do Ensino publico 248 

c) Damião de Góes e a situação dos historiadores portu- 

guezes 254 

G) Periodo scientifico e philoaopliico 257 

a) Garcia d'Orta— D. Francisco de Mello e Pedro Nunes. 258 

b) A synthese negativista de Francisco Sanches 261 

2.° Gamões concilia os dois espíritos, clássico e medieval 264 

a) Vida de Camões 265 

b) Os Lyricos camonianos 269 

c) Os Lusíadas e as Epopôas históricas do século xvi 275 

. IV — Pi-evaleeixii.eu.to da autlioi'i<3a.<ie clás- 
sica 281 

a) Os Jesuítas combatem o Theatro : As Tragi-comedias la- 

tinas 281 

b) Chronistas monachaes e a decadência da Historia 282 

c) Moralistas catholicos : Dr. João de Barros ; Amador Ar- 

raes, Heitor Pinto, Fr. Thomé de Jesus e Paiva de An- 

drada ; D. Joanna da Gama 283 

d) Fim da Nacionalidade portugueza. — Revivescência das 

obras dos Quinhentistas 285 



QUARTA ÉPOCA 

(Sccnlo XVIU) 

OS CULTERANISTÀS 

(Pag. 288 a 325) 

. I — Sincretismo <la influencia italiana e 

l&ospanliola em I*ortug-al 288 

1.0 Reacção contra a Eschola italiana 290 

a) As Lyricas de Francisco Rodrigues Lobo e D. Francisco 

Manoel de Mello. — A Poesia mystico-amorosa 291 

b) As Epopôas históricas : Tassistas e Camoistas 298 

c) Pateos das Comedias. Comedias de Capa y Espada 303 

2.0 As Tertúlias e Academias litterarias 304 

87 



410 ÍNDICE DAS ÉPOCAS LITTER ÁRIAS 

l'.\c;. 

a) As Academias dos Generosos e Singulares. Os Poetas da 

Phenix renascida 305 

b) Pastoraes e Novellas allegoricas 309 

c) As Tragicomedias dos Jesuítas. — Oratórias o Ballcts 310 

§. II — Tentativa do rofoi*ma tiotsí ot^tudos plii- 

lologricos 310 

a) A eloquência sacra: Vieira e Fr. António das Chagas. .. . 315 

b) Chronistas e Historiadores. — Os primeiros Jornaes por- 

tuguezes 319 

c) Os Moralistas. — Cartas da Religiosa Portugueza. Primei- 

ra influencia da França 324 



QUINTA ÉPOCA 

(Século XTUI) 

OS ÁRCADES 

(Pag. 326 a 366) 

§. I — O psoudo^classicismo fvancGx 326 

1.0 A protecção official da Litteratura 328 

a) A reforma da Lingua portugueza. O Vocabulário de Blu- 

teau 330 

b) Fundação da Academia de Historia 331 

c) Os Ericeiras. — A Academia dos Occultos e as origens da 

Arcádia Ulyssiponense. — A Opera e o Cesarismo 333 

2.® Reacção contra o humanismo jesuítico 337 

a) Verney e o Verdadeiro methodo de estudar 3;38 

b) Estado da Poesia portugueza antes da Arcádia 340 

c) As Cartas do Cavalheiro de Oliveira e do Abbade Costa.. 342 
§. II — As reformas poml>alinas sol> o influxo 

dos Economistas francezes 342 

1.0 A Arcádia í/Zj/ssíponense; sua organisação e Catalogo dos 

Sócios 345 

a) Garção, Diniz, Quita e Manoel de Figueiredo. — ImitaçSo 

do Lutrin de Boileau 348 

b) Dissidentes da Arcádia : A Guerra dos Poetas 352 

o) Associações litterarias. — JoSo Xavier de Mattos 353 

2.0 O intolerantismo sob D. Maria i 354 

a) Tolentíno e Filinto — José Anastácio da Cunha 355 

b) A Arcádia ultramarina — Poetas mineiros 358 

c) As Cartas de Beckford. — O poema Reino da Estupidez. Íi60 
§. III — O ncg-ativismo encyclopedista em Por- 
tugal 360 



índice das épocas litterarias 4H 

Pab. 

a) Fundação da Academia real das Sciencias : O Duque de 

Lafões ; Corrêa da Serra 361 

b) Nova Arcádia : Bocage e José Agostinho 36'2 

c) Crise revolucionaria em Portugal : As Tragedias philoso- 

phicas de Voltaire e os Theatros particulares. — Tran- 
sição para o Romantismo 365 



SEXTA ÉPOCA 

(Seeulo XIX) 

O ROMANTISMO 

(Pag. 367 a 399) 

§. 1 — Itenovação c1a.s Litteraturas moder- 
nas da Europa 367 

1 .0 As consequências históricas da Revolução franceza 369 

a) Influencia politica 370 

b) Influencia pedagógica 371 

c) A característica da Litteratura moderna. 373 

2.0 Os epigones do Romantismo em Portugal 376 

a) Phase liberal do Romantismo — Garrett 376 

b) Phase religiosa ou emanuelica — Herculano 384 

c) Reacção do espirito clássico — Castilho 387 

3.0 O Ultra-romantismo 388 

a) Lyrismo melancólico : Soares de Passos 390 

b) Romances históricos : Rebello da Silva 391 

c) Dramas de sangue 392 

g. II — Disciplina scientiíiea na dissolução do 

Tloman-tismo 393 

a) A Eschola de Coimbra ' 394 

b) Origens populares da Litteratura : Romanceiros, e Novel- 

listica popular 395 

c) Novos estudos philologicos : Desenvolvimento da Histo- 

ria litteraria de Portugal , 397 



/< 



DimuiriiG ^li JT, OCT 1 5 1969 



PQ Braga, Theophilo 

9011 Curso de historia da 

B65 litteratura portugueza 



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